quarta-feira, 7 de junho de 2017

A extraordinariedade

Não sei por quais razões, eu sempre achei que a minha vida não seria ordinária. Por um tempo, essa impressão se concretizou na crença de que eu faria alguma coisa muito grande na minha vida e que as pessoas me conheceriam por isso. Eu já pensei em ser missionária, cantora, missionária-cantora, escritora, pilota da esquadrilha da fumaça (juro!), atriz e uma série de outras coisas megalomaníacas que o bom senso me diz pra não relatar publicamente. Vai ver é aquele lance da geração Y que foi criada pra se achar mais especial que os outros. Vai saber...

Acabou que eu tô aqui jornalista, desempregada, faturando com uns frilas. Nada de tão grandioso assim que merecesse uma citação como o meu "legado". No entanto, não é pela falta de grandes feitos públicos que eu considero que falhou a falta de ordinariedade na minha vida. Ela toda é uma série de eventos extraordinários. Ruins, bons, péssimos, maravilhosos. Como alguém, estou sujeita à tudo, mas me parece que os eventos simplesmente não conseguem me dar um pouco de paz.

Um dia após meu aniversário deste ano, eu me "casei". Vai com aspas porque ninguém assinou nada. Foi quando a gente finalizou a minha mudança pra casa nova e dormimos pela primeira vez na nossa cama, dentro do nosso quarto, debaixo de um teto compartilhado. Pra mim, foi um processo difícil, ainda que bastante desejado. Eu já estava há quatro anos vivendo absolutamente só. E mesmo com a chegada do meu amor na minha vida, havia o senso de que o antigo local era apenas meu, que eu era responsável por absolutamente tudo dentro dele. Também de repente, foi preciso lidar com coisas das quais eu nunca na vida precisei nessa área, como atender às expectativas de quem o ama demais faz.

Nessas primeiras semanas, eu senti o peso de ser a esposa. A que precisa "dar conta" dos afazeres domésticos, da preocupação com o almoço, da arrumação da casa. Eu e meu companheiro dividimos tudo isso - não em horário comercial, já que ele não está em casa -, já que temos a consciência de que não existe responsável único por nada. Mas não é assim que o mundo pensa. E acaba que, quer queira quer não, é de mim que se cobra que tudo esteja nos conformes. O mundo não é justo com quem cometeu o pecado de nascer mulher. E conversando com amigas que estão na mesma faixa etária que eu e também já estão num relacionamento assim, é comum e assustador o quanto as histórias se repetem. O quanto ainda é preciso de muita conversa interna, muita conversa a dois, muito diálogo com o resto do mundo, pra que se entenda que nós não somos responsáveis por nada sozinhas. Que escolhemos fazer parte de uma relação consensual, onde as regras, quem define são as pessoas que estão nelas. Precisamos avançar muito ainda pra que tenhamos relações verdadeiramente horizontais. Isso perpassa por todas as discussões de gênero - e seus papéis - que estamos cansadas de debater. Isso precisa virar prática.

Mas vamos voltar ao tema principal:

Ainda não fez um mês que eu e meu amor estamos juntos nesta nova vida. Apesar de ter sido difícil pra gente, também vivemos momentos que só a intimidade e o amor são capazes de performar. Nesse tempo em que namoramos, observei cada coisinha que ele foi pra mim. E, se concordei que o melhor pra nós dois seria a vida em comum que até já tínhamos em certo grau, foi porque vi nele um coração enorme, um caráter firme e alguém em quem eu poderia confiar meus sentimentos, que são as coisas que eu tenho de mais precioso a confiar a alguém. E não me arrependi, mesmo com todas as intempéries, um segundo de ter tomado essa decisão, no banco do carona do carro batido, há uns dois meses.

A vida mudou. O lance é que ela ainda vai mudar bem mais.

E é agora que entra a história da Máquina dos Acontecimentos Espetaculares™ que gira a todo vapor na minha vida. Com apenas três semanas de vida nova, o moço recebe uma ligação que mudou todo o panorama das coisas. Foi chamado pra um concurso que fez em 2014, no meio do sertão cearense. E as coincidências que a vida traz é a de que ele começa nesse novo emprego no dia exato que fazemos um mês de casados. Tá. A gente já sabia que mudanças rápidas poderiam acontecer. Ninguém fez foi imaginar que seria essa mudança. E não é nem preciso imaginar o impacto que isso trouxe pra nós, pra família dele, pra minha.

Ele vai. Eu vou ficar. Por enquanto. Vamos ver como vai ser. Não sei.

Nunca passamos tanto tempo afastados desde que nos encontramos na vida. Desde que nos demos as mãos. Vai ser difícil pra ele, pra mim, até pro cachorrinho que a gente chama de filho, mas a gente sabe e sente que é necessário. Ele vai viver uma experiência profissional nova, com um desafio bastante maior dos que já tinha sido submetido. Claro, o lado financeiro pesa bastante. Poderemos estruturar mais a nossa vida e o que ainda vem por aí. Eu ainda tenho meus desafios pra concluir em Teresina e receio que outra mudança, muito mais radical e em tão pouco tempo, poderia afetar muito minha saúde mental. Ainda preciso finalizar uns trabalhos, utilizar meu tempo com o que ainda está de pendente a aprender... E aferrar-me à tarefa de reaprender a viver só, após o exato mês, só que com a saudade entranhando tudo.

Que a gente possa sempre contar com a tremenda sorte que nos deixou cegos um pro outro durante tanto tempo e nos fez abrir os olhos pra que pudéssemos dar as mãos no momento certo. Que a gente possa descarregar todo esse amor que a gente se sente nos momentos que tivermos, do jeito que for possível, com todo aparato que houver. Que a gente consiga suportar a saudade que vai doer nas noites solitárias e transbordar ainda mais de amor, se é que isso é possível.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

A felicidade não se comporta

Um amigo me pediu algo que foi, por alguns minutos, impossível: queria que eu descrevesse o mundo de coisas que eu vi e vivi em um mês numa viagem de loucos, em uma frase. Depois de muito labutar internamente, escrevi pra ele a que mais me pareceu óbvia: "Tudo é dramático".

Depois das discussões pra saber se o que se tinha vivido era mesmo drama ou se era humor, segundo os padrões hollywoodianos, ficou decidido que era uma espécie de novela das 7. Aquelas que sempre têm um título engraçadinho e os problemas são totalmente resolvíveis. Foi assim mesmo. Mas talvez, o que eu quis dizer quando disse o que disse, foi que todo esse mundo foi uma miríade emocional pra mim. Um drama, não tanto por qualquer classificação de gênero, mas pelas respostas que o coração dava a quaisquer das situações vividas.
Numa viagem à Barrinha Encantada, ainda no ano passado, eu e o meu bem resolvemos que as nossas primeiras férias juntos seriam com uma viagem e seria para a Colômbia. Ele ainda não a conhecia e já era tempo do meu retorno. Afinal, a vida pra lá não parou depois que eu voltei. Eu tinha um sobrinho pra conhecer, lugares novos pra ir e memórias a relembrar. A saudade já apertava meu coração há muito tempo. Era um regresso necessário, antes de qualquer coisa. Era um mundo meu que eu precisava abraçar novamente.
O que mais eu pensei durante essa viagem foi sobre memórias. A criação delas. Qual seria o critério que meu cérebro escolheria pra definir o que seria ou não considerado relevante naquele mar de coisas incríveis? Quais seriam os momentos em que eu faria questão de registrar por palavras? O que seria o mais incrível de todas as coisas boas que eu teria por viver?
- Essa viagem já nasceu velha. A gente vai lembrar dessa viagem pra sempre! - sentenciei pra ele, enquanto coletávamos mais um inacreditável pôr do sol no mais afastado Caribe colombiano, na ilha de San Andrés.
- Mas, amor, mas a gente ainda vai viajar muito. - Ele me respondeu.
- Mas nenhuma vai ser a primeira. 

As memórias vêm e vão a todo momento. Não dá pra esquecer do dia em que nadamos nus numa praia deserta do Alagoas, logo depois do amor. Não dá pra esquecer a felicidade com que fui recebida pela minha família colombiana. Não dá pra esquecer as risadas que demos, as pessoas que conhecemos, os amigos instantâneos, a hospitalidade, o assalto, o celular esquecido, a gaveta desparafusada, as longas caminhadas, a falta de ar na altitude, o frio, as moedas contadas, os abraços, as conversas. Não dá pra esquecer daquele tanto de amor transbordante, mais que os arroios que se formam na época das chuvas nas ruas de Barranquilla. Não dá pra esquecer a sensação de que, apesar de tudo, não era como se fosse uma viagem, apesar dos oito voos que nos tornaram peritos em arrumação de bagagens. Eu estava apenas voltando pra casa, pra lugares que eram meus. E os são, de verdade. Eu os tomei pra mim.

Há mais, é claro que há ainda muito mais. Lembranças e pensamentos que nem cabem aqui. Milhares de textos escritos apenas no meu pensamento e que nunca conhecerão a luz do dia. A felicidade não se comporta, afinal de contas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Para a Jamila que já quase não escreve

Jamila que já quase não escreve, você precisa se atualizar de algumas coisinhas que se passaram na sua vida. Segue abaixo:

Foi muito o que de vida que te passou nesses últimos tempos.

Entre polêmicas, choros, melhoras, confusões e iras, também o acúmulo das doses de saudades diárias se manifestou. O amor, como sempre, claro, esteve rente. O amor sempre esteve em socorro. E já não falo tão somente do teu amor-pessoa. Falo dos amores-amigos, dos amores-família, do amor-próprio.

Você chorou novamente e de maneira volumosa a morte da sua avó. Era aniversário de 86 anos dela e, de fato, mal dá pra acreditar que se fizeram dois anos depois daquela festa em que você pegou o último ônibus pra Bacabal, com a última grana que tinha, e correu às dez e meia da noite pra festa com a roupa do corpo (regata, calça jeans e havaianas) pra fazer a velha dar um grito de alegria ao te ver, antes do abraço apertado e cheiroso que ela tinha.

Você foi na Barrinha com o seu amor (aí agora já é a pessoa), com a sua amiga-irmã, com o amor que ela também tem, com os amigos que você fez recentemente. Sua amiga lhe disse que você ainda acredita em algo, mesmo que não acredite que acredite. Quando tu falou das primeiras vezes que foi lá e sentiu o vento te abraçando com a Lulu, a amiga disse que foi mesmo. Ela, de fato, acredita nessas coisas. Você já não sabe. Outro amigo disse que você era cigana ou cabocla, já não lembro o nome. Outro, disse que é filha de santo, mas que não saberia dizer de qual. Todos parecem ver uma espiritualidade em você. Talvez isto ainda não tenha morrido de todo, como você apregoa.

***

Muito mais aconteceu e você pode lembrar. O emprego mudou, algumas relações profissionais, não. Isso te gerou uma angústia sem fim e um processo de adoecimento enorme. O novo te assusta, é claro. E isso te faz se perguntar até onde está disposta a ir. Lembre-se: as decisões continuam sendo suas e de sua inteira responsabilidade. Não deixe que ninguém mais as tome por você.

***

Você emagreceu 4 kg. Isso não é considerado bom pra você. Quando alguém comentou que queria essa "doença" pra emagrecer também, você quis dar um soco na pessoa. Você quis dar um soco em muita gente.

Por falar nisso, a ira te consumiu muitas vezes. Você nunca mais tinha chorado de ódio, como ontem, por exemplo, quando o escroto do vizinho da rua de trás deixou o alarme da cerca ligado das 15h até um horário indefinido, que você não soube, porque foi fazer yoga, depois de já ter chorado de ódio e inclusive ligado pra Delegacia do Silêncio.

Tente, Jamila. Tente não deixar a ira te sucumbir. Tente não dar vez ao orgulho. Tente se acalmar quando as coisas não saírem como planejado, quando alguém te decepcionar ou irritar, quando o mal acontecer, quando alguma frustração quiser se alastrar na sua alma. Não deixe. O mundo já é cruel demais pra que você deixe o ódio tomar o seu corpo, como já tomou, e te fazer ter sonhos difíceis. Aceite a humanidade que não está latente. Ela está presente em todo o seu ser, mas não ache as coisas ruins que estão presentes em você, naturais demais. Não se ache com tanto direito assim. Diminua esse ego. Preste mais atenção pra não ultrapassar fronteiras que não poderão ser costuradas nunca mais, como você já fez.

***

Tente ferir menos seus dedos. Leia e escreva mais. Abrace aquele homem e continue dando a ele todo esse amor que você sente, com todos os beijos que você pode e quer. Dessa vez, você pode e quer.













sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O sol

Nos tempos da meninice, onde as meninas podiam andar de calcinha na rua e os meninos curavam suas feridas da bola jogando terra em cima das unhas esfoladas, alguém me perguntou algo que me ficou: se eu já tinha visto o nascer do sol. Eu tinha uns 8 anos e não, não me lembrava de, em qualquer tempo da minha vida, ter visto o nascer do sol. Como sempre vivi admirada pelo espetáculo que era o se-pôr dele, imaginei que o movimento contrário merecia a homenagem.

Nós morávamos numa casa de uma avenida movimentada em Bacabal. À noite, o ir e vir dos carros e motos nos deixavam entristecidos, já que não poderíamos brincar do que a gente queria na rua, que era o nosso lugar. Era pé-na-linha-guerriô, baleada, tacobol, esconde-esconde, pega-pega e mais outras brincadeiras que sequer existiam fora do nosso círculo de amizade. A gente conseguia brincar na larga calçada da dona Jandira, que tinha ódio daqueles gritos na porta de sua casa, mas dona Jandira era boazinha, até o dia que alguém jogou uma pedra sem querer que amassou o portão de alumínio recém adquirido. Havia outra velha que tinha olho de vidro e cara de má. Ela furava as nossas bolas quando íamos, naquela ruma de meninos brincar no enorme quintal da casa alugada que eu vivia. A gente colocou nela o carinhoso apelido de "mocoronga". E a gente era assim: depois que pegava no dente com uma coisa, era pra sempre. A maior confusão da rua, com direito a costas esquentadas por cipós, foi o dia que a gente respingou lama no olho de véia. Pobrezinha da bichinha. Pobrezinha nada!

Não me lembro como, nem quando, nem onde. Mas alguém chegou pra mim com essa conversa do nascer do sol. Eu era criança, mas sempre curti um papo com uma galera mais velha. Deve ter sido um deles que veio bagunçar minha cabecinha com aquela piração. Eu descobri que o sol nascia lá pras cinco e meia da manhã. Não tinha esse negócio de celular e o nosso despertador pra ir pra escola sempre foi nossa mãe. Então, não tinha jeito! Eu teria que fazer serão a noite toda pra poder ver o nascer do sol. Fiquei tão ansiosa que não conseguia nem cochilar. E se as pálpebras me traíam, acordava num espasmo, como quem cai em sonho.

Quatro e pouco da manhã, eu vi no relógio. Minha casa, como nas muitas seguintes que morei, era como são as casas no interior. A porta que se abre pra rua, já dá na sala. Sem área, sem garagem, sem portão com controle. Todo mundo sentava nas suas portas à noite pra ver a vida passar e as ruas eram lugares seguros pra nós, que éramos jovens. Com toda a inocência que só uma criança de 8 anos pode ter, abri a porta com a chave que estava naturalmente pendurada na fechadura, e fiquei sentada no batente. Era madrugada e fazia um pouco de frio, mas ok. Várias gentes passaram. Passou um bêbado do outro lado da rua e gritou alguma coisa pra mim. Eu não gritei de volta, já que minha operação era clandestina. Passaram muitas pessoas de carro, outras de moto, outras de bicicleta. Alguns buzinavam, espantados com a minha presença ali. Passou outro homem. Esse parou e ficou conversando comigo. Devia estar bêbado, mas não tanto. Falou: "Menina, o quê que tu tá fazendo aí sozinha uma hora dessa?". Eu respondi: "Eu tô esperando o sol". Ele disse que era perigoso pra mim, eu disse que não tava com medo. Eu não tava com um pingo de medo. Nunca que passou pela minha cabeça que eu poderia esperar o sol do mesmo jeito no quintal.

O mundo começou a clarear, por fim. E cada vez mais a luz se punha intensa, a ponto de me incomodar. Eu olhava pro céu e nada. Nada de sol. Nada de espetáculo. Já iam acordar, já iam me flagrar. Era quase hora de ir pra escola e a luz já era intensa, mas nada do raio que o parta desse sol. Não sabia de um pequeno detalhe: 

O sol só nascia do lado de lá da minha casa.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Hoje

Escuto uma playlist de músicas cubanas na casa do namorado. Estou vestindo uma camisa colorida que comprei de amigos, só de calcinha, só eu estou na casa. Todos os outros viajaram. Ele foi ao trabalho, que já está pra terminar. Vai voltar, vai me ver aqui nessa situação, vai me dar um cheiro no pescoço e vai falar alguma gracinha dessas nossas, eu sei. É bonita e boa esta paz que agora sinto.

Acordei hoje às 4 da manhã como nos sonhos intranquilos de Kafka. Mas não estava transformando em nenhum bicho. Novamente, sensações ruins se agarraram em mim e já não queriam desagarrar. A respiração se ofegava. O rapaz me abraçou, apertou e beijou, quando percebeu o meu desassossego. Eu me concentrei, mas o aperto no peito teimava em ir embora. Resolvi fazer como das primeiras vezes: desistir de dormir e ocupar minha cabeça com algo produtivo, pra que não se perdesse nas ondas ruins de seu próprio mar.

Levantei. Vesti esta mesma blusa colorida, que não quero mais sair de dentro, vesti a calcinha, e sentei no sofá da sala. Já estava amanhecendo. Peguei o celular, tuitei alguma coisa, li alguns textos, mas o que eu queria mesmo era escrever. Ainda tentei achar algum papel, alguma caneta, alguma coisa. Era de papel que eu precisava. Era rasgar meus pulsos que eu necessitava. Não achei, afinal. O meu bem sentiu minha falta e levantou pra saber o que estava acontecendo. Viu a mim deitada no sofá e foi lá me dar um abraço. Depois me deu a sugestão bem humorada: "Amor, aguar as plantinhas é bem terapêutico". Eu fui lá. Acho que molhei mais a mim mesma do que as plantas, coitadas.

Li um livrinho didático de espanhol da prateleira antiga e aprendi mais uns verbos irregulares. Voltei pra sala, deitei. Aí, meu coração já não pesava mais. Já consegui dormir o melhor sono do dia que amanhece. A empregada da casa chega e me vê nessa situação: dormindo de calcinha e blusa no sofá, junto com a cachorra que dormia no outro sofá, roncando que era uma beleza.

Voltei pra onde meu amor. Abracei, beijei e apertei. Aí, demos fim às urgências surgidas destes acarinhamentos. Ele saiu pra trabalhar e daqui a pouco volta com o meu cheiro do pescoço encomendado. Hoje eu escapei, no final das contas. Hoje deu certo. Hoje já é bom novamente. Hoje eu vou continuar em paz, pode ter certeza.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A fé


"Meu Deus,

(...) Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector, in 'Um sopro de Vida: Pulsações'.

Um dia, já há muito tempo, eu ainda era a outra Jamila. Naquela época, eu ainda passava por batalhas mais difíceis do que quaisquer que eu posso imaginar de passar por agora ou adiante, mesmo sabendo que o mundo não é fácil e que absolutamente tudo está no campo do realizável, mesmo o que não me pareça plausível.

Nesse dia, eu lembro bem de estar me sentindo melhor e já por um tempo. Eu já havia até dado testemunhos públicos da minha "cura", do meu bem-estar. Eu era uma bomba de esperança e de fé. Sentia-me eufórica. Afinal, havia passado, ao meu ver, pelos momentos mais terríveis da minha vida.

Foi quando tudo veio de novo, como viria de novo por muitas vezes mais, de uma vez, me deixando sem defesa.

Eu estava só em casa. Dada a minha melhora, meus pais e meu irmão já podiam me deixar só em casa mais tranquilamente. Eu estava só, assistindo televisão na sala, bem, muito bem. Quando veio de novo. Nesta época, ninguém tinha celular, sequer havia telefone fixo na minha casa. Perplexa e já em completo desespero, recorri à única coisa que eu poderia recorrer: a Deus, com o D ainda maiúsculo.

Praticamente me arrastando, fui ao quarto dos meus pais e me ajoelhei na beira da cama deles. Chorando como eu nunca me lembro de ter chorado na minha vida, eu pedi a Deus, com todas as minhas forças, com toda a minha fé, com todo o meu espírito, pra que aquela sensação ruim se demovesse, que eu nunca mais sentisse ela, que eu me curasse, porque, por tudo o que há no mundo, aquilo era demais pra eu carregar. Eu era só uma criança. Eu era só uma menina. Chorei minha alma pra fora naquele dia. Pedi, implorei, despedaçada, ferida, desesperada, pra que Deus me curasse. Crendo como nunca mais cri, lembrei que na Bíblia havia escrito que: "Tudo o que pedires em oração, crendo, recebereis". Eu cri. Como eu cri.

Chorei tanto e tão alto que a vizinha acudiu à porta. Perguntou se estava tudo bem, lá da janela. Eu gritei respondendo que sim. Aquele era o momento-chave. Era o meu momento com o Sagrado. Eu não poderia cortar aquela catarse, aquela expiação.

Após aquele tempo que durou um infinito, eu fiquei cansada. Botei tanta coisa pra fora, que realmente me senti mais calma. Não tinha sequer forças pra continuar a ter uma crise. Dormi por mais ou menos duas horas. Eram umas dez da noite e minha família já estava toda em casa. Ainda dormindo, senti os primeiros sintomas: o coração bateu novamente mais forte, os pensamentos desalinharam, a respiração era rápida e dura. Com um grito, meus pais correram em minha direção e o tormento durou novamente a noite inteira, enveredando pelo dia, transformando o meu sentir numa experiência excruciante de dores lancinantes na minha alma, que não me deixavam mais em paz.

A única coisa que eu escutei após esta oração foi o silêncio. E, então, algo se quebrou dentro de mim. Este algo foi a fé que eu nutri - ou melhor, fui levada a nutrir -, durante toda a minha vida, desde a minha mais tenra infância, até àquele momento. Foi neste dia que eu entendi que estava só. Que só havia eu pra sentir o que eu havia de sentir. Só eu poderia levar minha alma ferida no meu corpo fraco. Que ninguém mais, por mais que quisesse, poderia carregar meu fardo por mim.

Ciente de minha nova posição no mundo, comecei a trabalhar pra ter o controle dessa situação. E foi aí que a melhora veio e a vida foi se estabelecendo e voltando aos trilhos. Meus caminhos foram abertos, mas vi, dia após dia, minha fé se deteriorando. Eu, mesmo me sentindo culpada, vi que não havia nada que eu podia fazer. Deus só começou com maiúsculo nesta frase pra não contrariar a Língua Portuguesa, pois já não conseguia, como até hoje não consigo, ver mais sentido em sua existência, como também não na de qualquer outra força metafísica ou cosmológica.

Lutei contra isso. Afinal, o que está arraigado demora a se soltar, mas acho que soltou totalmente, de uns anos pra cá. Passei a enxergar a vida de outra maneira e já não me culpo mais por isso. Lembro de ter dito isto pela primeira vez, com o coração batendo loucamente, a um professor amigo dos tempos da Pedagogia, ainda lá na terrinha. Abri meu coração a ele, que demonstrou ser uma pessoa tolerante, que não iria me julgar, como eu sei que seria pelos outros, por mais meus amigos que fossem. Ele foi gentil e me escutou, mas também gentilmente me interpelou a voltar a ser quem eu era antes. Infelizmente, eu estava em um ponto sem retorno. Impossível ser quem eu era antes depois do que vivi.

Desde então, inúmeras interpelações, de inúmeras formas, me surgem, de tempos em tempos. Depois de uma fase onde eu era extrema crítica e intolerante, passei a respeitar as pessoas, as suas visões. Não importa muito no que eu acredito ou deixo de acreditar. Se alguém me diz que sente, vê, ouve, fala com coisas das quais eu não enxergo, eu não vou pô-la em dúvida. Pra mim, no entanto, nada acontece mais.

Chega a ser engraçado quando escuto de pessoas que, apesar de me conhecerem e saberem de todo o meu histórico, dizem: "Quando o bicho pegar pra ti, tu volta". Será se elas não sabem que o bicho já pegou? De qualquer forma, chega a ser violento o modo como alguns não me aceitam, apesar de eu oferecer nada mais do que meu apoio a quaisquer tipos de pensamentos ou condutas, desde que respeitem princípios éticos dos quais não posso transigir.

Mais uma vez, vivo estes momentos. Pessoas que eu sei que querem verdadeiramente o meu bem, chegam a mim com caminhos que eu, de todo coração, respeito e considero bons, mas que não são os meus. Talvez um dia sejam, quem há de saber? Apesar desta consciência, sei que a Vida é um moinho que roda em diferentes direções. Instável e complexa como a corrente de um rio, segue o seu curso, e eu, água que sou, flutuo por entre as pedras e por baixo das pontes, vou ao mar, viro chuva e volto a cair. Seguro, como sei que posso, nas coisas boas que o tempo me presenteia e significo minha existência de forma racional, mas válida, boa e significativa. Agarro nas mãos do tempo e rezo, pecando contra os novos princípios estabelecidos, para todas as forças presentes, mas bem visíveis. Dentre elas, a maior é o amor.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desejo e medo

"E quantos segredos traz o coração de uma mulher?"

Minha alma é um rebuliço de sonhos e medos. E existem situações em que estes sonhos e e esses medos se tornam mais presentes no coração: quando eu começo a sonhar demais com eles. E quando um desejo é, ao mesmo tempo, um medo? Como é que faz? Quando nada na sua vida está arrumado o suficiente pra realização do sonho? Quando o tempo ainda não disse sim, apesar de sua alma estar pedindo por isso?

Ainda resta esperar, afinal. Ao mesmo tempo, me assusta e me faz vibrar. Mas dessa vez é um desejo diferente: não depende apenas de mim, e nem seria algo que ficaria por pouco tempo. Se for, quando for, não será de qualquer jeito, nem de surpresa, nem será pesado. Eu preciso que tudo seja leve. Eu preciso estar preparada pro futuro.

Que os sonhos me dêem trégua, pelo amor! Já não posso sair por aí carregando esse tanto de alma. Transborda. Nem pode ser revelado o desejo, já que é matéria complicada pra tratar 'publicamente' agora, mas está no espectro das coisas que acontecem na vida de alguém. Calma, que não é nada fora do comum.

Vamos vivendo. O Tempo sempre arruma suas respostas.