segunda-feira, 27 de junho de 2016

Salve!

Dia difícil.

Há alguns dias, assim, como quem não quer nada, a vida me atropela. Um carro enorme que bateu na lateral do meu corpo, enquanto eu caminhava pra encontrar um amigo. Tínhamos feito um teatro doido pra que fôssemos comprar presentes pra quem a gente gosta. Era perto de uma data especial. O carro não pegou em cheio, não estava rápido demais. Eu lembro de, no caminho pra colisão, eu ter parado pra qualquer trivialidade, como guardar o óculos escuro na mochila ou arrancar algum chiclete que grudou na sola do sapato. Não foi tempo suficiente pra me livrar da batida, mas foi o tempo o suficiente pra eu não estar tão à frente do carro. Tive azar e tive sorte. Mãos queridas vieram em meu socorro. Lembro da hora da colisão. Do susto de perceber um carro enorme, já em cima de mim. Da queda. De estar no chão depois do baque e o primeiro pensamento ser: "Será que deu merda?" Não deu. Livrei-me por mais um dia.

Há muito tempo, depois que a fé se converteu em pragmatismo, tenho desenvolvido a tal da estranha consciência. É tempo de saber que tudo é plausível. Nada, absolutamente nada - nem o que há de ruim, nem o que há de bom - está fora do universo das coisas que te podem acontecer. Claro, nossas vida nos levam a caminhos diferentes. Estamos mais ou menos suscetíveis às coisas, que vão além do simples acaso. Mas o caso é que, enquanto seres humanos, estamos sujeitos ao mundo de coisas que, a um ser humano, é passível de acontecer. Esquecemos disso tantas vezes. Não sei nem o quanto é saudável lembrar.

Ontem, 15 dias depois que eu passei por esse susto, dois amigos meus se envolvem num acidente grave. Um pária bebeu, foi dirigir e bateu em cheio no carro em que eles estavam, ao ultrapassar o sinal vermelho no cruzamento de uma avenida movimentada. O irmão de um deles, um rapaz que eu lembro de servir drinks no Salve Rainha, morreu imediatamente. Dois sobreviveram, mas estão em estado grave na UTI. Há e não há muito o que se dizer. É óbvio que não foi uma simples fatalidade, um ato falho, um erro de cálculo. Foi fruto da irresponsabilidade total de alguém que não dá a mínima pro bem-estar de quem quer que seja, e nem pro seu próprio, já que também se pôs em risco. Foi fruto também de sucessivas falhas de um sistema que não nos comporta. Alguém que já deu perda total em três carros, não poderia estar habilitado pra estar nas ruas.

Ao mesmo em que a hipocrisia, inclusive a própria, segue estampada. Quem bebe, se droga. Isso é um fato, independente de qual seja o nosso posicionamento em relação a elas. Mesmo que seja pouco, altera a sua percepção e diminui o tempo de resposta pra qualquer imprevisto. Isso quer dizer que, mesmo que você vá mais devagar pra que não haja nenhuma complicação, se um pedestre (como eu sou), atravessar a rua, talvez você não tenha o reflexo de frear o carro quando vê-lo, como fez a motorista que me atropelou. Mas falar isso é papo furado. Você e eu sabemos disso. Você sabe disso até mais do que eu. Eu nem motorista sou.

Falando mais, há a cultura do super consumo do álcool, atravessada de machismo, principalmente. Há uma necessidade tão grande de provar-se, principalmente entre os mais jovens, que beber até cair é coisa bonita. De novo, sem hipocrisia: eu também já bebi pra ficar louca e, desconfio, se não fosse a certeza de uma ressaca homérica no outro dia, talvez isso tivesse se tornado algo frequente na minha vida. A diferença é que agora, caso eu tome a decisão de beber pra pirar de verdade, eu vou esquematizar tudo pra que a minha integridade física esteja à salvo. E, mesmo assim, ainda não será garantia de que nada irá acontecer.

A tudo isso, junta-se a extrema arrogância de quem se considera acima da Lei. Duvido que houve qualquer mínimo de escrúpulos desse canalha ao considerar que poderia se meter em alguma confusão. Pra esse rapaz, que tinha o carro do ano, importado e com airbag, uma colisão frontal nem foi muita coisa. Saiu sem um arranhão. Uma prisão também não. Fiança é apenas um prejuízo passageiro e a dor de cabeça de uma ressaca é, por sua vez, só um costume.

A questão também é: não dá pra fingir que não fazemos parte disso. Mesmo eu, que não dirijo, me coloco em risco quando entro no carro de alguém que eu sei que bebeu. A situação exige? Eu não tenho como sair de casa? Pegar táxi sozinha dá medo? E agora? Que fazer?

Em meu caso específico, é aprender a dirigir o mais rápido o possível, pra poder substituir quando o motorista do carro beber. Abster-me de álcool, quando necessário. Buscar alternativas pra locomoção, também quando necessário. Não me furtar mais. Não eu, que já perdi uma prima. Que já vi um amigo ter a vida completamente virada de cabeça pra baixo, depois de um acidente de trânsito. Não nós, que estamos aflitos, vendo os amigos queridos tentando segurar o fio da vida por entre os dedos.

De toda a forma, segue a torcida para o melhor. Se já me falta a fé, sobra a esperança. Sobra o amor, que é a força mais que perfeita em tempos tão violentos. Sobra a certeza de que a vida sempre poderá mais. E que a morte nunca será páreo pra grandeza dela, presente nos grandes corações que habitam a Terra.

Salve!

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