Ao me suprimir de sua vida, ela se privou de provar da minha ilusão de amor maior, deixando em branco os papéis onde eu escreveria cartas confessionais a ela. Dessa forma vil ela agiu, olhou nos meus olhos sem demorar o olhar, e com total falta de misericórdia, executando um tiro certeiro, proclamou o lúgubre decreto, esvaindo meu peito de amor em estado bruto. Ela abaixou suas órbitas de íris negras e pupilas dilatadas, ensaiou um falso choro, e por pouco não derramou algo que se assemelhava a uma lágrima. Girou em torno de seu próprio eixo, me presenteando com a visão de seus cabelos, suas costas, e daquele corpo que eu conhecia tanto. Sem hesitar ela deu dois passos firmes para fora da minha vida, batendo a porta com uma força que eu desconhecia. O estampido ecoou retumbante em minha caixa craniana, estourando meus sentidos, oferecendo a certeza de que, naquele momento, eu morria cravejada por suas palavras condolentes, que dilaceravam meus ouvidos.
Antes de me resignar ao meu fado, pensei na renúncia daquela mulher a um futuro feliz, cheio de sorrisos, poesia, prazer, sexo, sons, um futuro que transbordava de cores e amores, optando por me deixar em companhia das dores. Assim ela extirpou do meu corpo toda esperança de felicidade que passeava liqüefeita dentro de mim. Arrancou com a brutalidade de um bárbaro a quimera de amor pra toda a vida que eu guardava em meus desejos.Agora eu era só, sem ela pra eu me admirar. Foi dessa maneira que eu descobri só ser alguém quando ao lado dela. E desta forma ela me deixou só, sem mim. E sendo assim, neste estado de privação da própria identidade, e na maior das solidões - aquela onde sentimos a ausência de nós mesmos, descobri que eu ainda morreria de amor e renasceria por ele inúmeras vezes.
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Este conto serviu de argumento para o roteiro do curta-metragem "A Ruptura", parte da trilogia "Tempos de Amor". Em breve nas telas grandes, médias e pequenas.