segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O carma devido

Hoje, numa conversa com amigos muito queridos, acabei me lembrando da história dos meus pais.

Eles eram daqueles apaixonados inveterados. Era só olhar pra eles e ver o quanto que a paixão que sentiam era furiosa. Esta é a impressão que eu tenho, pelo menos, quando o passado resolve abrir suas portas nas histórias contadas por quem testemunhou a vida. Papai era aquele homem que ficava doente quando uma peleja se metia no meio da sua relação com a amada. Não tenho muitas informações de como mamãe era quando eles namoravam, mas eu sei que ela era uma mulher bem mais leve do que por um tempo foi. E que bom que ela recupera essa leveza progressivamente.

Mas o amor não foi o suficiente pras intempéries da vida. Logo, ficou claro que aqueles gênios fortes não sabiam conviver. Os rumos que as coisas foram tomando e a maneira como eles lidaram com elas foi moldando essa união gradativamente. E é com tristeza que eu rememoro de que em nenhum dos meus 27 anos de vida, eu vi meus pais felizes enquanto casal. Os momentos de troca de carinhos eram tão raros e o espanto que eles nos causavam era tão grande, que se cristalizaram na memória como a curva de uma estrada há muito retilínea. Ter visto tanto tempo o casamento de meus pais me ensinou algo: fosse como fosse, eu jamais me permitiria repetir algo assim.

***

Hoje, nesta cama em que escrevo, meu amor me beijou como meu corpo gosta de ser beijado. Como ele sabia, desde o começo, e como as descobertas novas, a cada encontro, a cada acerto, a cada gemido, ensinaram, nas inumeráveis e sucessivas vezes que fizemos amor. Só podia ser já o amor que fazíamos desde aqueles primeiros tempos, em que fingíamos que o que a vida nos mostrava não era nada demais. Medo de novas feridas próprias, medo de ser o motivo da ferida. Mas, muito mais do que um encontro perfeito de corpos, a minha alma foi quem achou um lugar de sossego. Um peito pra se acolher. Um oásis no meio de todas as confusões. Eu só posso pensar, cética que sou, que ele era o carma que ainda me era devido. Que eu caminhei pra encontrá-lo, mesmo sem saber, e que só o pude ver quando nós estávamos prontos.

Mais uma vez ele volta pra tão longe, deixando uma saudade tão bruta, tão apertada, tão dolorida, que eu só posso chorar mais uma vez a dor pra fora e lembrar que sairemos mais fortes disso tudo.

***

Meus pais, eu já sei, me fizeram herdar muito de si, muito mais do que eu imagino. Como eles, eu sei que eu não vim ao mundo pra sentir de pouco. Só serve se for de muito, derramando dos depósitos, inundando uma casa, fazendo chover chuva substancial, brotar nascentes e nascer árvores. Forte, intermitente e infindável. Meu amor faz nascer até um oceano, evoluindo a vida pra fora d'água. É enorme, e só pode ser enorme o que a gente ousa chamar de amor.

Que a vida, com todo o seu maravilhoso senso  de oportunidade, continue nos dando passagem. Essa é a minha oração.

sábado, 29 de julho de 2017

As saudades

Ontem eu acordei tarde, como acontece nos dias em que eu estou em Bacabal, e peguei o celular pra dar uma conferida nas redes sociais. O susto: uma amiga havia sofrido um acidente automobilístico junto com o marido, a filha pequena, mais duas amiguinhas da filha e a mãe destas meninas. Por um momento, pensei que tudo havia terminado bem, já que todos estavam vivos até o momento da publicação. Com o coração na mão, fomos todos acompanhando as notícias do estado de saúde do marido, que veio a falecer antes mesmo de chegar a Teresina. Eu tive o prazer de o conhecer, mesmo que superficialmente. Mas, de qualquer forma, foi alguém que percebi que tinha uma índole boa e que sempre cumprimentava cordialmente quando nos víamos em qualquer lugar.

Sequer pensar na dor da minha amiga ao perder o companheiro desta forma tão brutal, me fez consternar de tristeza. Ninguém deveria, a troco de nada, passar por algo assim. E eu só posso desejar, de todo o meu coração, que ela tenha todo o amparo emocional que necessita, que consiga ter forças pra reconstruir a vida depois dessa tragédia, forças pra criar a filhinha pequena que os dois tiveram. Que a lembrança do seu amor se transforme num conforto, quando isso for possível. O que eu desejo é que ela e a família consigam atravessar esse extenso lago que se chama dor.

É claro, isto me revolveu os sentimentos de uma maneira particular também. As lágrimas derramadas também eram da urgência e da impossibilidade de abraçar o meu próprio amor, que tá tão tão longe. Há pouco mais de um mês, estamos acalmando as saudades nas suas vindas-relâmpago, nos tantos carinhos trocados, no amor que fazemos com a alma e com o corpo. E quase me desespero na ideia de que o acaso pudesse fazer qualquer coisa pra atrapalhar essa felicidade de sentimento que simplesmente desconhece limites. Foi preciso bastante concentração pra desanuviar a mente de pensamentos inoportunos que sempre teimavam em voltar, como costumam fazer bastante comigo. Foi preciso conversar objetivamente comigo, lembrando que, apesar de toda a tristeza que eu estava sentindo, não era comigo que aquilo estava acontecendo. Parece meio insensível, mas eu poderia entrar numa espiral de pensamentos muito ruins que me levariam a uma crise ou a uma angústia difícil de reverter, uma vez começada. Eu me conheço. Eu sei como eu funciono.

***
Hoje foi um dia bom, no final das contas. As saudades me fazem sonhar mais frequente do que nunca com meu amor. Quando, nestes sonhos, não estamos dando fim às urgências, estamos abraçados, conversando, trocando carinhos... Coisas que fazemos aqui fora do mundo onírico. O da madrugada foi do segundo tipo. Eu ficava morta de alegre por poder abraçá-lo novamente. Apertou no peito o fato de que não nos veríamos hoje, ao final do dia, como ocorreu nos dois últimos finais de semana. Uma coisa que eu aprendi é que quando o coração está cheio de sentimentos pesados ou ruins, ele precisa de descanso. Fui me aninhar no sorriso dos meus primos pequenos, nos seus abracinhos. Rir das gracinhas que eles me fazem e me cansar correndo atrás deles, mesmo sem fôlego algum. Fui conversar com minhas amigas mais antigas, que me conhecem desde que eu tinha oito anos, e relembrar que a vida mudou pra nós, mas ainda continuamos nos amando indistintamente. Não tinha internet onde eu ia, o sinal da 3g não pegou... E as saudades só corroendo...

Quando finalmente conseguimos nos falar, meu bem me diz que está quase desesperado do lado de lá. Só, sem conhecer muita gente, em lugar estranho. Caiu internet, sinal de celular, Wi-fi. Ficou incomunicável, o coitado. E eu, que ando num mar de sensibilidade, me pego escondendo das crianças a lágrima caindo quando ele me fala que a saudade também tinha o tinha pegado com força total hoje. 

Mesmo com o meu ceticismo exagerado, entendo que eu e ele não nos encontramos por acaso. Não sei se o carma, mas algo ainda nos devia este amor na vida, pra que a gente pudesse entender que ainda havia esperança depois de tanto coração torcido, depois de tantos quases, depois de tanto tempo. Às vezes eu realmente acho que foi um acerto bem elaborado de nossas avós, que se encontraram no céu das avós, trocaram figurinhas, e não quiseram nos deixar sós nesse mundo sem aquela coisa pura que elas nos ofereciam. De graça. Só porque era bom. Só porque sentíamos que era assim que deveria ser. A sensação que eu tenho é que eu passei a vida inteira procurando por ele e o meu coração só pôde descansar de verdade quando eu o encontrei.

A gente não sabe o que o futuro nos reserva. A gente só deseja que o futuro nos reserve mais abraços, mais beijos, ainda mais amor. Que todas as tempestades sejam contornáveis e que todo este afeto só se multiplique. Que o acaso continue nos protegendo, como me protegeu há mais de um ano, quando um carro, literalmente, atravessou o meu caminho. E que, por fim, este amor continue nos surpreendendo pelo tanto absurdo que ele é.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A extraordinariedade

Não sei por quais razões, eu sempre achei que a minha vida não seria ordinária. Por um tempo, essa impressão se concretizou na crença de que eu faria alguma coisa muito grande na minha vida e que as pessoas me conheceriam por isso. Eu já pensei em ser missionária, cantora, missionária-cantora, escritora, pilota da esquadrilha da fumaça (juro!), atriz e uma série de outras coisas megalomaníacas que o bom senso me diz pra não relatar publicamente. Vai ver é aquele lance da geração Y que foi criada pra se achar mais especial que os outros. Vai saber...

Acabou que eu tô aqui jornalista, desempregada, faturando com uns frilas. Nada de tão grandioso assim que merecesse uma citação como o meu "legado". No entanto, não é pela falta de grandes feitos públicos que eu considero que falhou a falta de ordinariedade na minha vida. Ela toda é uma série de eventos extraordinários. Ruins, bons, péssimos, maravilhosos. Como alguém, estou sujeita à tudo, mas me parece que os eventos simplesmente não conseguem me dar um pouco de paz.

Um dia após meu aniversário deste ano, eu me "casei". Vai com aspas porque ninguém assinou nada. Foi quando a gente finalizou a minha mudança pra casa nova e dormimos pela primeira vez na nossa cama, dentro do nosso quarto, debaixo de um teto compartilhado. Pra mim, foi um processo difícil, ainda que bastante desejado. Eu já estava há quatro anos vivendo absolutamente só. E mesmo com a chegada do meu amor na minha vida, havia o senso de que o antigo local era apenas meu, que eu era responsável por absolutamente tudo dentro dele. Também de repente, foi preciso lidar com coisas das quais eu nunca na vida precisei nessa área, como atender às expectativas de quem o ama demais faz.

Nessas primeiras semanas, eu senti o peso de ser a esposa. A que precisa "dar conta" dos afazeres domésticos, da preocupação com o almoço, da arrumação da casa. Eu e meu companheiro dividimos tudo isso - não em horário comercial, já que ele não está em casa -, já que temos a consciência de que não existe responsável único por nada. Mas não é assim que o mundo pensa. E acaba que, quer queira quer não, é de mim que se cobra que tudo esteja nos conformes. O mundo não é justo com quem cometeu o pecado de nascer mulher. E conversando com amigas que estão na mesma faixa etária que eu e também já estão num relacionamento assim, é comum e assustador o quanto as histórias se repetem. O quanto ainda é preciso de muita conversa interna, muita conversa a dois, muito diálogo com o resto do mundo, pra que se entenda que nós não somos responsáveis por nada sozinhas. Que escolhemos fazer parte de uma relação consensual, onde as regras, quem define são as pessoas que estão nelas. Precisamos avançar muito ainda pra que tenhamos relações verdadeiramente horizontais. Isso perpassa por todas as discussões de gênero - e seus papéis - que estamos cansadas de debater. Isso precisa virar prática.

Mas vamos voltar ao tema principal:

Ainda não fez um mês que eu e meu amor estamos juntos nesta nova vida. Apesar de ter sido difícil pra gente, também vivemos momentos que só a intimidade e o amor são capazes de performar. Nesse tempo em que namoramos, observei cada coisinha que ele foi pra mim. E, se concordei que o melhor pra nós dois seria a vida em comum que até já tínhamos em certo grau, foi porque vi nele um coração enorme, um caráter firme e alguém em quem eu poderia confiar meus sentimentos, que são as coisas que eu tenho de mais precioso a confiar a alguém. E não me arrependi, mesmo com todas as intempéries, um segundo de ter tomado essa decisão, no banco do carona do carro batido, há uns dois meses.

A vida mudou. O lance é que ela ainda vai mudar bem mais.

E é agora que entra a história da Máquina dos Acontecimentos Espetaculares™ que gira a todo vapor na minha vida. Com apenas três semanas de vida nova, o moço recebe uma ligação que mudou todo o panorama das coisas. Foi chamado pra um concurso que fez em 2014, no meio do sertão cearense. E as coincidências que a vida traz é a de que ele começa nesse novo emprego no dia exato que fazemos um mês de casados. Tá. A gente já sabia que mudanças rápidas poderiam acontecer. Ninguém fez foi imaginar que seria essa mudança. E não é nem preciso imaginar o impacto que isso trouxe pra nós, pra família dele, pra minha.

Ele vai. Eu vou ficar. Por enquanto. Vamos ver como vai ser. Não sei.

Nunca passamos tanto tempo afastados desde que nos encontramos na vida. Desde que nos demos as mãos. Vai ser difícil pra ele, pra mim, até pro cachorrinho que a gente chama de filho, mas a gente sabe e sente que é necessário. Ele vai viver uma experiência profissional nova, com um desafio bastante maior dos que já tinha sido submetido. Claro, o lado financeiro pesa bastante. Poderemos estruturar mais a nossa vida e o que ainda vem por aí. Eu ainda tenho meus desafios pra concluir em Teresina e receio que outra mudança, muito mais radical e em tão pouco tempo, poderia afetar muito minha saúde mental. Ainda preciso finalizar uns trabalhos, utilizar meu tempo com o que ainda está de pendente a aprender... E aferrar-me à tarefa de reaprender a viver só, após o exato mês, só que com a saudade entranhando tudo.

Que a gente possa sempre contar com a tremenda sorte que nos deixou cegos um pro outro durante tanto tempo e nos fez abrir os olhos pra que pudéssemos dar as mãos no momento certo. Que a gente possa descarregar todo esse amor que a gente se sente nos momentos que tivermos, do jeito que for possível, com todo aparato que houver. Que a gente consiga suportar a saudade que vai doer nas noites solitárias e transbordar ainda mais de amor, se é que isso é possível.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

A felicidade não se comporta

Um amigo me pediu algo que foi, por alguns minutos, impossível: queria que eu descrevesse o mundo de coisas que eu vi e vivi em um mês numa viagem de loucos, em uma frase. Depois de muito labutar internamente, escrevi pra ele a que mais me pareceu óbvia: "Tudo é dramático".

Depois das discussões pra saber se o que se tinha vivido era mesmo drama ou se era humor, segundo os padrões hollywoodianos, ficou decidido que era uma espécie de novela das 7. Aquelas que sempre têm um título engraçadinho e os problemas são totalmente resolvíveis. Foi assim mesmo. Mas talvez, o que eu quis dizer quando disse o que disse, foi que todo esse mundo foi uma miríade emocional pra mim. Um drama, não tanto por qualquer classificação de gênero, mas pelas respostas que o coração dava a quaisquer das situações vividas.
Numa viagem à Barrinha Encantada, ainda no ano passado, eu e o meu bem resolvemos que as nossas primeiras férias juntos seriam com uma viagem e seria para a Colômbia. Ele ainda não a conhecia e já era tempo do meu retorno. Afinal, a vida pra lá não parou depois que eu voltei. Eu tinha um sobrinho pra conhecer, lugares novos pra ir e memórias a relembrar. A saudade já apertava meu coração há muito tempo. Era um regresso necessário, antes de qualquer coisa. Era um mundo meu que eu precisava abraçar novamente.
O que mais eu pensei durante essa viagem foi sobre memórias. A criação delas. Qual seria o critério que meu cérebro escolheria pra definir o que seria ou não considerado relevante naquele mar de coisas incríveis? Quais seriam os momentos em que eu faria questão de registrar por palavras? O que seria o mais incrível de todas as coisas boas que eu teria por viver?
- Essa viagem já nasceu velha. A gente vai lembrar dessa viagem pra sempre! - sentenciei pra ele, enquanto coletávamos mais um inacreditável pôr do sol no mais afastado Caribe colombiano, na ilha de San Andrés.
- Mas, amor, mas a gente ainda vai viajar muito. - Ele me respondeu.
- Mas nenhuma vai ser a primeira. 

As memórias vêm e vão a todo momento. Não dá pra esquecer do dia em que nadamos nus numa praia deserta do Alagoas, logo depois do amor. Não dá pra esquecer a felicidade com que fui recebida pela minha família colombiana. Não dá pra esquecer as risadas que demos, as pessoas que conhecemos, os amigos instantâneos, a hospitalidade, o assalto, o celular esquecido, a gaveta desparafusada, as longas caminhadas, a falta de ar na altitude, o frio, as moedas contadas, os abraços, as conversas. Não dá pra esquecer daquele tanto de amor transbordante, mais que os arroios que se formam na época das chuvas nas ruas de Barranquilla. Não dá pra esquecer a sensação de que, apesar de tudo, não era como se fosse uma viagem, apesar dos oito voos que nos tornaram peritos em arrumação de bagagens. Eu estava apenas voltando pra casa, pra lugares que eram meus. E os são, de verdade. Eu os tomei pra mim.

Há mais, é claro que há ainda muito mais. Lembranças e pensamentos que nem cabem aqui. Milhares de textos escritos apenas no meu pensamento e que nunca conhecerão a luz do dia. A felicidade não se comporta, afinal de contas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Para a Jamila que já quase não escreve

Jamila que já quase não escreve, você precisa se atualizar de algumas coisinhas que se passaram na sua vida. Segue abaixo:

Foi muito o que de vida que te passou nesses últimos tempos.

Entre polêmicas, choros, melhoras, confusões e iras, também o acúmulo das doses de saudades diárias se manifestou. O amor, como sempre, claro, esteve rente. O amor sempre esteve em socorro. E já não falo tão somente do teu amor-pessoa. Falo dos amores-amigos, dos amores-família, do amor-próprio.

Você chorou novamente e de maneira volumosa a morte da sua avó. Era aniversário de 86 anos dela e, de fato, mal dá pra acreditar que se fizeram dois anos depois daquela festa em que você pegou o último ônibus pra Bacabal, com a última grana que tinha, e correu às dez e meia da noite pra festa com a roupa do corpo (regata, calça jeans e havaianas) pra fazer a velha dar um grito de alegria ao te ver, antes do abraço apertado e cheiroso que ela tinha.

Você foi na Barrinha com o seu amor (aí agora já é a pessoa), com a sua amiga-irmã, com o amor que ela também tem, com os amigos que você fez recentemente. Sua amiga lhe disse que você ainda acredita em algo, mesmo que não acredite que acredite. Quando tu falou das primeiras vezes que foi lá e sentiu o vento te abraçando com a Lulu, a amiga disse que foi mesmo. Ela, de fato, acredita nessas coisas. Você já não sabe. Outro amigo disse que você era cigana ou cabocla, já não lembro o nome. Outro, disse que é filha de santo, mas que não saberia dizer de qual. Todos parecem ver uma espiritualidade em você. Talvez isto ainda não tenha morrido de todo, como você apregoa.

***

Muito mais aconteceu e você pode lembrar. O emprego mudou, algumas relações profissionais, não. Isso te gerou uma angústia sem fim e um processo de adoecimento enorme. O novo te assusta, é claro. E isso te faz se perguntar até onde está disposta a ir. Lembre-se: as decisões continuam sendo suas e de sua inteira responsabilidade. Não deixe que ninguém mais as tome por você.

***

Você emagreceu 4 kg. Isso não é considerado bom pra você. Quando alguém comentou que queria essa "doença" pra emagrecer também, você quis dar um soco na pessoa. Você quis dar um soco em muita gente.

Por falar nisso, a ira te consumiu muitas vezes. Você nunca mais tinha chorado de ódio, como ontem, por exemplo, quando o escroto do vizinho da rua de trás deixou o alarme da cerca ligado das 15h até um horário indefinido, que você não soube, porque foi fazer yoga, depois de já ter chorado de ódio e inclusive ligado pra Delegacia do Silêncio.

Tente, Jamila. Tente não deixar a ira te sucumbir. Tente não dar vez ao orgulho. Tente se acalmar quando as coisas não saírem como planejado, quando alguém te decepcionar ou irritar, quando o mal acontecer, quando alguma frustração quiser se alastrar na sua alma. Não deixe. O mundo já é cruel demais pra que você deixe o ódio tomar o seu corpo, como já tomou, e te fazer ter sonhos difíceis. Aceite a humanidade que não está latente. Ela está presente em todo o seu ser, mas não ache as coisas ruins que estão presentes em você, naturais demais. Não se ache com tanto direito assim. Diminua esse ego. Preste mais atenção pra não ultrapassar fronteiras que não poderão ser costuradas nunca mais, como você já fez.

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Tente ferir menos seus dedos. Leia e escreva mais. Abrace aquele homem e continue dando a ele todo esse amor que você sente, com todos os beijos que você pode e quer. Dessa vez, você pode e quer.













sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O sol

Nos tempos da meninice, onde as meninas podiam andar de calcinha na rua e os meninos curavam suas feridas da bola jogando terra em cima das unhas esfoladas, alguém me perguntou algo que me ficou: se eu já tinha visto o nascer do sol. Eu tinha uns 8 anos e não, não me lembrava de, em qualquer tempo da minha vida, ter visto o nascer do sol. Como sempre vivi admirada pelo espetáculo que era o se-pôr dele, imaginei que o movimento contrário merecia a homenagem.

Nós morávamos numa casa de uma avenida movimentada em Bacabal. À noite, o ir e vir dos carros e motos nos deixavam entristecidos, já que não poderíamos brincar do que a gente queria na rua, que era o nosso lugar. Era pé-na-linha-guerriô, baleada, tacobol, esconde-esconde, pega-pega e mais outras brincadeiras que sequer existiam fora do nosso círculo de amizade. A gente conseguia brincar na larga calçada da dona Jandira, que tinha ódio daqueles gritos na porta de sua casa, mas dona Jandira era boazinha, até o dia que alguém jogou uma pedra sem querer que amassou o portão de alumínio recém adquirido. Havia outra velha que tinha olho de vidro e cara de má. Ela furava as nossas bolas quando íamos, naquela ruma de meninos brincar no enorme quintal da casa alugada que eu vivia. A gente colocou nela o carinhoso apelido de "mocoronga". E a gente era assim: depois que pegava no dente com uma coisa, era pra sempre. A maior confusão da rua, com direito a costas esquentadas por cipós, foi o dia que a gente respingou lama no olho de véia. Pobrezinha da bichinha. Pobrezinha nada!

Não me lembro como, nem quando, nem onde. Mas alguém chegou pra mim com essa conversa do nascer do sol. Eu era criança, mas sempre curti um papo com uma galera mais velha. Deve ter sido um deles que veio bagunçar minha cabecinha com aquela piração. Eu descobri que o sol nascia lá pras cinco e meia da manhã. Não tinha esse negócio de celular e o nosso despertador pra ir pra escola sempre foi nossa mãe. Então, não tinha jeito! Eu teria que fazer serão a noite toda pra poder ver o nascer do sol. Fiquei tão ansiosa que não conseguia nem cochilar. E se as pálpebras me traíam, acordava num espasmo, como quem cai em sonho.

Quatro e pouco da manhã, eu vi no relógio. Minha casa, como nas muitas seguintes que morei, era como são as casas no interior. A porta que se abre pra rua, já dá na sala. Sem área, sem garagem, sem portão com controle. Todo mundo sentava nas suas portas à noite pra ver a vida passar e as ruas eram lugares seguros pra nós, que éramos jovens. Com toda a inocência que só uma criança de 8 anos pode ter, abri a porta com a chave que estava naturalmente pendurada na fechadura, e fiquei sentada no batente. Era madrugada e fazia um pouco de frio, mas ok. Várias gentes passaram. Passou um bêbado do outro lado da rua e gritou alguma coisa pra mim. Eu não gritei de volta, já que minha operação era clandestina. Passaram muitas pessoas de carro, outras de moto, outras de bicicleta. Alguns buzinavam, espantados com a minha presença ali. Passou outro homem. Esse parou e ficou conversando comigo. Devia estar bêbado, mas não tanto. Falou: "Menina, o quê que tu tá fazendo aí sozinha uma hora dessa?". Eu respondi: "Eu tô esperando o sol". Ele disse que era perigoso pra mim, eu disse que não tava com medo. Eu não tava com um pingo de medo. Nunca que passou pela minha cabeça que eu poderia esperar o sol do mesmo jeito no quintal.

O mundo começou a clarear, por fim. E cada vez mais a luz se punha intensa, a ponto de me incomodar. Eu olhava pro céu e nada. Nada de sol. Nada de espetáculo. Já iam acordar, já iam me flagrar. Era quase hora de ir pra escola e a luz já era intensa, mas nada do raio que o parta desse sol. Não sabia de um pequeno detalhe: 

O sol só nascia do lado de lá da minha casa.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Hoje

Escuto uma playlist de músicas cubanas na casa do namorado. Estou vestindo uma camisa colorida que comprei de amigos, só de calcinha, só eu estou na casa. Todos os outros viajaram. Ele foi ao trabalho, que já está pra terminar. Vai voltar, vai me ver aqui nessa situação, vai me dar um cheiro no pescoço e vai falar alguma gracinha dessas nossas, eu sei. É bonita e boa esta paz que agora sinto.

Acordei hoje às 4 da manhã como nos sonhos intranquilos de Kafka. Mas não estava transformando em nenhum bicho. Novamente, sensações ruins se agarraram em mim e já não queriam desagarrar. A respiração se ofegava. O rapaz me abraçou, apertou e beijou, quando percebeu o meu desassossego. Eu me concentrei, mas o aperto no peito teimava em ir embora. Resolvi fazer como das primeiras vezes: desistir de dormir e ocupar minha cabeça com algo produtivo, pra que não se perdesse nas ondas ruins de seu próprio mar.

Levantei. Vesti esta mesma blusa colorida, que não quero mais sair de dentro, vesti a calcinha, e sentei no sofá da sala. Já estava amanhecendo. Peguei o celular, tuitei alguma coisa, li alguns textos, mas o que eu queria mesmo era escrever. Ainda tentei achar algum papel, alguma caneta, alguma coisa. Era de papel que eu precisava. Era rasgar meus pulsos que eu necessitava. Não achei, afinal. O meu bem sentiu minha falta e levantou pra saber o que estava acontecendo. Viu a mim deitada no sofá e foi lá me dar um abraço. Depois me deu a sugestão bem humorada: "Amor, aguar as plantinhas é bem terapêutico". Eu fui lá. Acho que molhei mais a mim mesma do que as plantas, coitadas.

Li um livrinho didático de espanhol da prateleira antiga e aprendi mais uns verbos irregulares. Voltei pra sala, deitei. Aí, meu coração já não pesava mais. Já consegui dormir o melhor sono do dia que amanhece. A empregada da casa chega e me vê nessa situação: dormindo de calcinha e blusa no sofá, junto com a cachorra que dormia no outro sofá, roncando que era uma beleza.

Voltei pra onde meu amor. Abracei, beijei e apertei. Aí, demos fim às urgências surgidas destes acarinhamentos. Ele saiu pra trabalhar e daqui a pouco volta com o meu cheiro do pescoço encomendado. Hoje eu escapei, no final das contas. Hoje deu certo. Hoje já é bom novamente. Hoje eu vou continuar em paz, pode ter certeza.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A fé


"Meu Deus,

(...) Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector, in 'Um sopro de Vida: Pulsações'.

Um dia, já há muito tempo, eu ainda era a outra Jamila. Naquela época, eu ainda passava por batalhas mais difíceis do que quaisquer que eu posso imaginar de passar por agora ou adiante, mesmo sabendo que o mundo não é fácil e que absolutamente tudo está no campo do realizável, mesmo o que não me pareça plausível.

Nesse dia, eu lembro bem de estar me sentindo melhor e já por um tempo. Eu já havia até dado testemunhos públicos da minha "cura", do meu bem-estar. Eu era uma bomba de esperança e de fé. Sentia-me eufórica. Afinal, havia passado, ao meu ver, pelos momentos mais terríveis da minha vida.

Foi quando tudo veio de novo, como viria de novo por muitas vezes mais, de uma vez, me deixando sem defesa.

Eu estava só em casa. Dada a minha melhora, meus pais e meu irmão já podiam me deixar só em casa mais tranquilamente. Eu estava só, assistindo televisão na sala, bem, muito bem. Quando veio de novo. Nesta época, ninguém tinha celular, sequer havia telefone fixo na minha casa. Perplexa e já em completo desespero, recorri à única coisa que eu poderia recorrer: a Deus, com o D ainda maiúsculo.

Praticamente me arrastando, fui ao quarto dos meus pais e me ajoelhei na beira da cama deles. Chorando como eu nunca me lembro de ter chorado na minha vida, eu pedi a Deus, com todas as minhas forças, com toda a minha fé, com todo o meu espírito, pra que aquela sensação ruim se demovesse, que eu nunca mais sentisse ela, que eu me curasse, porque, por tudo o que há no mundo, aquilo era demais pra eu carregar. Eu era só uma criança. Eu era só uma menina. Chorei minha alma pra fora naquele dia. Pedi, implorei, despedaçada, ferida, desesperada, pra que Deus me curasse. Crendo como nunca mais cri, lembrei que na Bíblia havia escrito que: "Tudo o que pedires em oração, crendo, recebereis". Eu cri. Como eu cri.

Chorei tanto e tão alto que a vizinha acudiu à porta. Perguntou se estava tudo bem, lá da janela. Eu gritei respondendo que sim. Aquele era o momento-chave. Era o meu momento com o Sagrado. Eu não poderia cortar aquela catarse, aquela expiação.

Após aquele tempo que durou um infinito, eu fiquei cansada. Botei tanta coisa pra fora, que realmente me senti mais calma. Não tinha sequer forças pra continuar a ter uma crise. Dormi por mais ou menos duas horas. Eram umas dez da noite e minha família já estava toda em casa. Ainda dormindo, senti os primeiros sintomas: o coração bateu novamente mais forte, os pensamentos desalinharam, a respiração era rápida e dura. Com um grito, meus pais correram em minha direção e o tormento durou novamente a noite inteira, enveredando pelo dia, transformando o meu sentir numa experiência excruciante de dores lancinantes na minha alma, que não me deixavam mais em paz.

A única coisa que eu escutei após esta oração foi o silêncio. E, então, algo se quebrou dentro de mim. Este algo foi a fé que eu nutri - ou melhor, fui levada a nutrir -, durante toda a minha vida, desde a minha mais tenra infância, até àquele momento. Foi neste dia que eu entendi que estava só. Que só havia eu pra sentir o que eu havia de sentir. Só eu poderia levar minha alma ferida no meu corpo fraco. Que ninguém mais, por mais que quisesse, poderia carregar meu fardo por mim.

Ciente de minha nova posição no mundo, comecei a trabalhar pra ter o controle dessa situação. E foi aí que a melhora veio e a vida foi se estabelecendo e voltando aos trilhos. Meus caminhos foram abertos, mas vi, dia após dia, minha fé se deteriorando. Eu, mesmo me sentindo culpada, vi que não havia nada que eu podia fazer. Deus só começou com maiúsculo nesta frase pra não contrariar a Língua Portuguesa, pois já não conseguia, como até hoje não consigo, ver mais sentido em sua existência, como também não na de qualquer outra força metafísica ou cosmológica.

Lutei contra isso. Afinal, o que está arraigado demora a se soltar, mas acho que soltou totalmente, de uns anos pra cá. Passei a enxergar a vida de outra maneira e já não me culpo mais por isso. Lembro de ter dito isto pela primeira vez, com o coração batendo loucamente, a um professor amigo dos tempos da Pedagogia, ainda lá na terrinha. Abri meu coração a ele, que demonstrou ser uma pessoa tolerante, que não iria me julgar, como eu sei que seria pelos outros, por mais meus amigos que fossem. Ele foi gentil e me escutou, mas também gentilmente me interpelou a voltar a ser quem eu era antes. Infelizmente, eu estava em um ponto sem retorno. Impossível ser quem eu era antes depois do que vivi.

Desde então, inúmeras interpelações, de inúmeras formas, me surgem, de tempos em tempos. Depois de uma fase onde eu era extrema crítica e intolerante, passei a respeitar as pessoas, as suas visões. Não importa muito no que eu acredito ou deixo de acreditar. Se alguém me diz que sente, vê, ouve, fala com coisas das quais eu não enxergo, eu não vou pô-la em dúvida. Pra mim, no entanto, nada acontece mais.

Chega a ser engraçado quando escuto de pessoas que, apesar de me conhecerem e saberem de todo o meu histórico, dizem: "Quando o bicho pegar pra ti, tu volta". Será se elas não sabem que o bicho já pegou? De qualquer forma, chega a ser violento o modo como alguns não me aceitam, apesar de eu oferecer nada mais do que meu apoio a quaisquer tipos de pensamentos ou condutas, desde que respeitem princípios éticos dos quais não posso transigir.

Mais uma vez, vivo estes momentos. Pessoas que eu sei que querem verdadeiramente o meu bem, chegam a mim com caminhos que eu, de todo coração, respeito e considero bons, mas que não são os meus. Talvez um dia sejam, quem há de saber? Apesar desta consciência, sei que a Vida é um moinho que roda em diferentes direções. Instável e complexa como a corrente de um rio, segue o seu curso, e eu, água que sou, flutuo por entre as pedras e por baixo das pontes, vou ao mar, viro chuva e volto a cair. Seguro, como sei que posso, nas coisas boas que o tempo me presenteia e significo minha existência de forma racional, mas válida, boa e significativa. Agarro nas mãos do tempo e rezo, pecando contra os novos princípios estabelecidos, para todas as forças presentes, mas bem visíveis. Dentre elas, a maior é o amor.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desejo e medo

"E quantos segredos traz o coração de uma mulher?"

Minha alma é um rebuliço de sonhos e medos. E existem situações em que estes sonhos e e esses medos se tornam mais presentes no coração: quando eu começo a sonhar demais com eles. E quando um desejo é, ao mesmo tempo, um medo? Como é que faz? Quando nada na sua vida está arrumado o suficiente pra realização do sonho? Quando o tempo ainda não disse sim, apesar de sua alma estar pedindo por isso?

Ainda resta esperar, afinal. Ao mesmo tempo, me assusta e me faz vibrar. Mas dessa vez é um desejo diferente: não depende apenas de mim, e nem seria algo que ficaria por pouco tempo. Se for, quando for, não será de qualquer jeito, nem de surpresa, nem será pesado. Eu preciso que tudo seja leve. Eu preciso estar preparada pro futuro.

Que os sonhos me dêem trégua, pelo amor! Já não posso sair por aí carregando esse tanto de alma. Transborda. Nem pode ser revelado o desejo, já que é matéria complicada pra tratar 'publicamente' agora, mas está no espectro das coisas que acontecem na vida de alguém. Calma, que não é nada fora do comum.

Vamos vivendo. O Tempo sempre arruma suas respostas.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Medo também tem medo

Ontem foi mais um daqueles dias. Dia difícil, ruim, mau. Vim caminhando do trabalho pra casa com o coração muito, muito pesado.

Quando eu comecei meus diários, nos idos tempos de 2008, eu usava demais essa expressão. "Levo um coração pesado". O uso era frequente, já que o sentimento também. Eram tempos em que o sossego era só uma lembrança e qualquer manifestação do peso não era nenhum pouco "leve". Rs Contraditório, eu sei. Mas num dia de 2009, quando eu ainda mantinha os meus escritos religiosamente e a expressão continuava frequente, minha mãe me aparece com uma sacola onde eu via um pequeno tijolo. Quando eu vejo, é o livro da trilogia do Senhor dos Anéis em volume único. Com toda a disposição, li até que rapidamente. A saga do Frodo rumo à Mordor pra destruir algo que carregava consigo e que não poderia se livrar facilmente, era de identificação instantânea pra mim. Tolkien frequentemente dizia isso dos personagens: que estavam com o coração pesado.

Lembrei dessa identificação ao caminhar pra casa, coisa que sempre me traz paz. Ao mesmo tempo em que crescia uma frustração por não ter conseguido segurar antes que isto ganhasse força em mim, eu sentia raiva por ter me deixado abalar por motivos torpes. Coisas que não são problemas, muito menos meus, muito menos importantes. Mas veio. Talvez o que eu peguei foi uma carga de negatividade muito forte. Cora Ronai escreveu uma vez que Millôr, na época do Pasquim, recebia montes e montes de cartas, todas elas vivas, alegres, de agradecimento, de louvor. E as lia e agradecia, mesmo que internamente. Um dia, recebeu uma raivosa, com um ódio que não soube de onde vinha. Aquilo o abateu. E mesmo com as argumentações de que todo o resto das manifestações eram boas, Millôr não pôde evitar um dia de cabeça baixa, digerindo aquela carta. Procuro o texto original, que não acho. Mas, se não me falha a memória, disse que o ser humano é assim mesmo. Não é assim que a gente funciona.

É. O impacto negativo das coisas é maior que o positivo mesmo, infelizmente.

O 'estrago', que nunca foi culpa de alguém, ou que já não pertencia a um motivo específico, quase foi grande. Em épocas de suscetibilidades, o mal só quer uma desculpa. Convoco todas as minhas defesas, meus santos, meus patuás, meus budas, meus deuses e meus anjos da guarda pra estas horas, mesmo que não acredite em nenhum. Convoco até mesmo o deus que há em mim, num namastê individual, se é que isso é possível. O amor, claro, mais real do que nunca, vem em socorro, trazendo leveza e abrindo os meus caminhos para a paz. Momentos aliviados de respiros, conversas agradáveis de outros corações bons, os abraços, os risos e os beijos compartilhados e apaixonados. Tudo isso me trouxe 'de volta'. Se o impacto do que é negativo é grande, ele tampouco pode suportar a uma overdose de amor.

Lembrei da criança que disse que o Medo tem medo das coisas que você gosta. E com a lembrança, lembrei de novo do filme em que as crianças pequenas é que sabem os segredos do Universo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A mão do Tempo

A vida é mesmo uma coisa estupenda. Nestes dias difíceis, de tanto trabalho, tanta pressão, tanta coisa por fazer, o amor significa não só a paixão que arde nos peitos. Significa o bálsamo pra dissipar e proteger a alma das coisas ruins que querem derrubar. Vem o amor, aquele amor bonito, leve, limpo, sendo só porque já era hora de ser. As mãos se seguram nos êxtases, naturalmente, mas a alma acalma só em saber que elas também estão ali para as horas das angústias.

As expectativas sobre os próximos dias me deixam sem saber que caminho trilhar. A vida têm sido difícil. São amigos que sucumbem ao que a gente acha que agora é normal. São pessoas próximas que não tiveram condições de continuarem esta caminhada inglória, que não paga ao espírito ou ao bolso, e que trazem louros que nem serão nossos, no final das contas.

Mas a vida é mesmo uma coisa estupenda, supracito.

Depois de uma noite sorrida, contemplada por bons ventos, com pessoas recém-conhecidas que te sorriem e se abrem, a notícia de que meu sobrinho colombiano nasceu me faz os olhos encherem d'água. Logo eu, que digo aos quatro cantos que sou pessoa dura de chorar, me vejo derramando lágrimas em pleno escritório gelado, entre os trabalhos que já têm a urgência de serem feitos.

A conexão com esta família sempre foi algo maravilhoso. Há um pouco mais de dois anos, chegava na Colômbia, depois de um frio intenso em Bogotá, na casa da família Rivaldo. Foi a Carmen que me recebeu. Uma moça negra, um pouco mais baixa que eu, e um pouco mais nova. Falamos em espanhol e eu ainda estava deslumbrada por conseguir me comunicar da maneira que eu queria, já que o meu nível nunca havia sido testado pra valer. Logo na primeira noite, saímos pra jantar um cachorro quente delicioso pertinho da casa. A cidade era bonita e eu pensei: "esse lugar é o Nordeste daqui. Tô em casa". Realmente estava.

A partir daí, a amizade só aumentou. Yesenia, a filha mais velha, era a que ia comigo pras festas dos intercambistas, quando dançávamos até o fechamento da casa. Rubys, uma mãe amorosa e calorosa. Mulher brava, que ainda chorava a morte do amado marido. Luis Manoel, o irmão mais velho que sabia que ser o homem da casa havia lhe trazido responsabilidades das quais não podia escapar, mas as desempenhava com amor. Manoel Rivaldo, o pai que já havia ido, mas que estava presente. Eu sentia, naquela casa, que a memória daquele homem era viva o tempo inteiro. Nas citações, nas canções, nos muitos retratos espalhados, no amor que não morreu com seu corpo. Saí de lá com a sensação de que eu havia sim conhecido o meu pai colombiano.

Yese me liga, há alguns meses, por um aplicativo do celular, pra me dizer que estava grávida. O namorado que havia conhecido justamente quando eu estava chegando lá, era o pai do bebê. A notícia não veio como um baque, como um peso ou qualquer outra coisa do tipo. Yesenia estava feliz por ser mãe. Todos estavam felizes pelo sobrinho que ia nascer. Eu estava exultante aqui no Brasil, sem acreditar que ia ser tia de um bebê, que se saísse à mãe, ia ser a coisa mais linda do mundo.

Ontem, a expectativa que eu nem falei pra ninguém. Há alguns dias, Yese me manda uma mensagem dizendo que Manoel Julian já estava pra vir ao mundo, em terceira pessoa, como se ele mesmo estivesse escrevendo. Ela, que não mostrava barriga até os três meses, ostentava um barrigão enorme, desses bem feitinhos, com toda a beleza e iluminação que aquela grávida poderia mostrar. Estava linda, minha irmã.

Hoje, recebo a foto do pequenino. É lindo, como eu já sabia que seria, apesar de ainda ser um bebêzinho recém-saído do quentinho que estava o ventre de sua mãe. E aí, não pude evitar as tais das lágrimas difíceis, nem o quente em meu próprio coração. Por fim, não pude evitar que uma vibração atingisse meu corpo, numa onda de arrepios, me fazendo perceber que aquilo era, nada mais, nada menos, que uma overdose de amor.

Que seja muito, muito, muito feliz, Manoel, que também carrega o nome dos meus dois avôs. Que traga ainda mais felicidade àquela família que se fez minha e que ainda hoje me trata com um dos seus, mesmo com o passado do tempo. Que o amor sempre venha em doses cavalares pra todos nós, pra que nos lembremos que a vida é, como não canso de dizer, mesmo algo estupendo.

Que a mão do Tempo nos abençoe.


terça-feira, 19 de julho de 2016

A dança da solidão

Esse negócio de amar e ser amada... Senhor! Que coisa!

Um belo dia, um grande amigo sentenciou: - Jamila, tu tem espírito de solteira! - Aí, claro, me encabulei. Como assim eu tenho um espírito de solteira? Nem cabe mais alma aqui, ora. Num já tem demais não? Será que ele achou esse absurdo porque eu estava absolutamente habituada a morar só, mesmo que a alimentação fosse frugal? Ou será se era por não esperar que meus amigos dissessem sim pro convite ao cinema? Ou será se era porque eu poderia muito bem ir a um bar e beber sozinha, sem me sentir desconfortável? Aliás, o desconforto era mais por não poder ficar sem ser incomodada por algum otário que achava que eu jamais poderia estar ali pra curtir minha própria companhia.

Pensando bem... É, de fato, eu tenho o espírito de solteira mesmo. E agora que estou numa relação, me pergunto se eu sei estar numa relação. Eu quero dar as mãos, mas caminho à frente do cidadão, com passo apressado. Eu me esqueço de convidar pra coisas. Tem horas que é como se eu ainda estivesse 'sozinha'. Um sozinha que, na verdade, nunca fui. A família que fiz aqui é grande, e tem muitos braços de amor. Mas é diferente... Por uma só ocasião tive alguém inserido na minha rotina e o hiato foi de longos quatro anos, que eu esqueci como era ter aquilo, mesmo que aquilo nunca tenha sido mesmo. Quando o moço chegou, eu apenas me deixei levar por uma onda boa, leve, bonita, como são as coisas naturais. Era e é incrível. Eu estava bem relaxada em relação à Vida. Não queria me meter em "confusões". Não achei que o coração estivesse pronto pra qualquer envolvimento. Fechei por um momento os olhos pra flutuar, estava na beira da praia. Poderia ficar de pé e voltar à superfície a qualquer momento. Relaxei e descuidei um pouquinho... Quando abri os olhos e dei por mim, já estava em alto mar, de mão dada com o moço que também se descuidou logo no mar.

Sempre soube dizer não graciosamente. Eu sou tão profissional em dizer não, que eu dava uma negativa e o sujeito me agradecia pela honestidade, por não ficar enrolando, por saber o que eu quero. De fato, eu sei o que eu quero e o que eu não quero. Até mais do que não quero do que quero. Quando o rapaz apareceu, eu só embarquei porque era bom, e a verdade era que não era nada mais que isso. Meus instintos protetivos ficaram em riste, buscando evitar algo que, a bem da verdade, estava se vendo que era inevitável. Os santos bateram, como diz o cabôco. Aí não se teve muito o que fazer, a não ser aceitar a sorte - depois de tantos azares - que a vida deu.

Eu fiquei muito tempo só. Eu me acostumei a isso. E é verdade: minha felicidade já era completa naquela solidão. E eu agradeço à solidão, à habilidade primeira de estar só e de me amar, pelo que está acontecendo agora. Por saber que me basto. Então só fica se soma, nunca se diminui. Eu sei dizer não. Se eu digo sim, é porque pode, é porque eu quero, é porque eu amo.

Vou aprendendo como é, vivendo. A dormir de conchinha, quando só dormia de bruços. A ter um cheiro impregnado no nariz o tempo todo e a não resistir em ficar cheirando o seu rosto quando, na verdade, eu já teria que ter me levantado pra me arrumar pro trabalho. Como é demorar uns cinco segundos pra cair a ficha que é a mim a quem está se referindo quando fala da namorada, um nome que eu nunca fui. Como é poder contar com alguém, dizer das feridas, dizer dos sonhos e medos, antes ou depois do amor. Vou sabendo o que é uma relação bonita, intensa mas leve, como eu sempre soube que seria, ao amor que tivesse coragem de me abraçar, mesmo com o enorme peso da alma que carrego, inclusive do tal 'espírito de solteira', que já se prova em cheque.

Bom mesmo é ser liberdade acompanhada.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O amor, a vida e a morte

A morte.

A única certeza da humanidade. A pedra no meio de todos os caminhos. O que põe fim ao tempo. A hora da certeza mais que certa. "O único mal irremediável".

A vida.

O choro descrente de quem sentiu o ar pela primeira vez, incomodado pelo frio que faz aqui fora. O intervalo, ora doloroso, ora triunfante. A sede. A fome. O sono. As necessidades. Os sentidos. A razão.

O amor.

A pura e simples grandeza, que não se acaba com a morte e dá sentido à Vida.


Em tempos de morte, a vida persevera e o amor sobressai. Em todas santa vez que alguém se vai, me lembro de "La despedida", da Shakira. A dor do luto, seja lá de que ele for, é tamanha, que não deixou que nada restasse. Pede, com uma réstia de esperança, que quem partiu leve quem ficou até onde esteja, pois precisa do alento da presença. E diz bem alto que "quando alguém se vai, aquele que fica sofre mais". Verdade inconteste. Axioma dos aflitos.

Quando o moço dos turbantes se foi, vários derramamentos jorraram nas vestes do tempo e do espaço. De lágrimas, de tristeza, mas o mais abundante foi o de amor. Tão grande, tão intenso, tão bonito, tão sobressalente, que inundou uma cidade inteira. Balões azuis foram ao seu encontro, aos céus, repetindo o pedido da canção, mesmo que sem pedir. Nos levamos a quem se foi, agarrados pelas mãos do vento.

Ao contrário de todas as vezes, não lembrei da despedida dolorosa. Lembrei de "La vida", de Calle 13. Uma canção forte, que vai narrando do nascer ao morrer. Mesmo por certeza de que o único destino certo é a morte, a vida vibra e continua vibrando, a cada passo que damos e a cada suspiro forte.

A partida do moço também me fez tomar algumas decisões na minha vida. Em todo o tempo, nunca disse cara a cara pra alguém, que o amava. E não foi por falta de amar. Resolvi dizer a quem tem alegrado a minha vida e estado perto de mim, trazendo mais paz pra minha própria paz, que já o era antes dele. Resolvi que isso de segurar os nomes dos sentimentos, pode converter-se numa bolha monumental, onde o silêncio fala alto demais. Os pactos iniciais subentendidos, como cunhou Milan Kundera, estão sendo feitos a cada momento. E é preciso, por amor a mim mesma, que o amor seja mesmo transparente. Que nossos silêncios sejam respeitados, mas não mais amargarei a dor de calar os que não têm razão de ficarem silentes. A decisão não foi por dizer. A decisão foi por sentir.

Vivo, até que a morte colha o meu caminho. E tenho certeza, não terá sido pouco amor a alcançar-me o caminho.

Que haja mais amor. Em toda a sua extensão. Em toda a sua glória. Em todo o seu calor, para que a morte não finde a vida, que se perpetua na grandiosidade da existência.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Salve!

Dia difícil.

Há alguns dias, assim, como quem não quer nada, a vida me atropela. Um carro enorme que bateu na lateral do meu corpo, enquanto eu caminhava pra encontrar um amigo. Tínhamos feito um teatro doido pra que fôssemos comprar presentes pra quem a gente gosta. Era perto de uma data especial. O carro não pegou em cheio, não estava rápido demais. Eu lembro de, no caminho pra colisão, eu ter parado pra qualquer trivialidade, como guardar o óculos escuro na mochila ou arrancar algum chiclete que grudou na sola do sapato. Não foi tempo suficiente pra me livrar da batida, mas foi o tempo o suficiente pra eu não estar tão à frente do carro. Tive azar e tive sorte. Mãos queridas vieram em meu socorro. Lembro da hora da colisão. Do susto de perceber um carro enorme, já em cima de mim. Da queda. De estar no chão depois do baque e o primeiro pensamento ser: "Será que deu merda?" Não deu. Livrei-me por mais um dia.

Há muito tempo, depois que a fé se converteu em pragmatismo, tenho desenvolvido a tal da estranha consciência. É tempo de saber que tudo é plausível. Nada, absolutamente nada - nem o que há de ruim, nem o que há de bom - está fora do universo das coisas que te podem acontecer. Claro, nossas vida nos levam a caminhos diferentes. Estamos mais ou menos suscetíveis às coisas, que vão além do simples acaso. Mas o caso é que, enquanto seres humanos, estamos sujeitos ao mundo de coisas que, a um ser humano, é passível de acontecer. Esquecemos disso tantas vezes. Não sei nem o quanto é saudável lembrar.

Ontem, 15 dias depois que eu passei por esse susto, dois amigos meus se envolvem num acidente grave. Um pária bebeu, foi dirigir e bateu em cheio no carro em que eles estavam, ao ultrapassar o sinal vermelho no cruzamento de uma avenida movimentada. O irmão de um deles, um rapaz que eu lembro de servir drinks no Salve Rainha, morreu imediatamente. Dois sobreviveram, mas estão em estado grave na UTI. Há e não há muito o que se dizer. É óbvio que não foi uma simples fatalidade, um ato falho, um erro de cálculo. Foi fruto da irresponsabilidade total de alguém que não dá a mínima pro bem-estar de quem quer que seja, e nem pro seu próprio, já que também se pôs em risco. Foi fruto também de sucessivas falhas de um sistema que não nos comporta. Alguém que já deu perda total em três carros, não poderia estar habilitado pra estar nas ruas.

Ao mesmo em que a hipocrisia, inclusive a própria, segue estampada. Quem bebe, se droga. Isso é um fato, independente de qual seja o nosso posicionamento em relação a elas. Mesmo que seja pouco, altera a sua percepção e diminui o tempo de resposta pra qualquer imprevisto. Isso quer dizer que, mesmo que você vá mais devagar pra que não haja nenhuma complicação, se um pedestre (como eu sou), atravessar a rua, talvez você não tenha o reflexo de frear o carro quando vê-lo, como fez a motorista que me atropelou. Mas falar isso é papo furado. Você e eu sabemos disso. Você sabe disso até mais do que eu. Eu nem motorista sou.

Falando mais, há a cultura do super consumo do álcool, atravessada de machismo, principalmente. Há uma necessidade tão grande de provar-se, principalmente entre os mais jovens, que beber até cair é coisa bonita. De novo, sem hipocrisia: eu também já bebi pra ficar louca e, desconfio, se não fosse a certeza de uma ressaca homérica no outro dia, talvez isso tivesse se tornado algo frequente na minha vida. A diferença é que agora, caso eu tome a decisão de beber pra pirar de verdade, eu vou esquematizar tudo pra que a minha integridade física esteja à salvo. E, mesmo assim, ainda não será garantia de que nada irá acontecer.

A tudo isso, junta-se a extrema arrogância de quem se considera acima da Lei. Duvido que houve qualquer mínimo de escrúpulos desse canalha ao considerar que poderia se meter em alguma confusão. Pra esse rapaz, que tinha o carro do ano, importado e com airbag, uma colisão frontal nem foi muita coisa. Saiu sem um arranhão. Uma prisão também não. Fiança é apenas um prejuízo passageiro e a dor de cabeça de uma ressaca é, por sua vez, só um costume.

A questão também é: não dá pra fingir que não fazemos parte disso. Mesmo eu, que não dirijo, me coloco em risco quando entro no carro de alguém que eu sei que bebeu. A situação exige? Eu não tenho como sair de casa? Pegar táxi sozinha dá medo? E agora? Que fazer?

Em meu caso específico, é aprender a dirigir o mais rápido o possível, pra poder substituir quando o motorista do carro beber. Abster-me de álcool, quando necessário. Buscar alternativas pra locomoção, também quando necessário. Não me furtar mais. Não eu, que já perdi uma prima. Que já vi um amigo ter a vida completamente virada de cabeça pra baixo, depois de um acidente de trânsito. Não nós, que estamos aflitos, vendo os amigos queridos tentando segurar o fio da vida por entre os dedos.

De toda a forma, segue a torcida para o melhor. Se já me falta a fé, sobra a esperança. Sobra o amor, que é a força mais que perfeita em tempos tão violentos. Sobra a certeza de que a vida sempre poderá mais. E que a morte nunca será páreo pra grandeza dela, presente nos grandes corações que habitam a Terra.

Salve!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O conselho torto

"Vai fundo."
"Pondera."
"Respira um pouquinho."
"É, até que tu tem razão."
"Não, mana, nadavê. Se joga."

A vida, naturalmente, é contada aos amigos. Aos que também me mostram a alma. Os conselhos mais lindos, também naturalmente seguidos, ainda conservo na mente. Isso pra qualquer coisa decisiva da vida. Uma vez, um querido me disse: "Vai, amiga. Todo mundo vai tá aqui pra segurar tua mão". Mas o que mais me espantou nos últimos dias foi de outro amigo que nem mora nessas paragens quentes do meu Nordeste. Ele me disse: "Conserve seu medo".

Logo pra mim. Logo pra mim, que escrevi no último texto que tinha a pretensa habilidade de dizer não a eles. Logo pra mim, que queria que me dissesse a mesma coisa linda que o outro amigo disse. Logo pra mim, que sei que ele está certo, mesmo que eu não queira.

Complementou, com toda a sua alma de velho: "Só não deixa ele te dominar". Um conselho torto tão certo como qualquer dos demais.

Conservarei, amigo. E não se preocupe. Você me conhece, você sabe que eu não deixarei.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

As pendências

Eu acho que já tentei parar e escrever sobre isso. Não lembro. Estou há um tempinho sem computador e os dias são tão lotados no trabalho, que é raro parar e fazer o que eu estou fazendo agora, escrevendo estas urgências que me sobem no peito de vez em quando.

Dorme no meu peito, o moço. Sente meu coração bater acelerado. Eu digo que não o sinto rápido, e é verdade. Como alguém pode estar em paz e com o coração batendo freneticamente ao mesmo tempo? Aqueles dias sem o remédio devem ter mexido em alguma coisa.

Incrível que, por mais intenso que tudo tenha sido e esteja sendo, de todos os ~sustos iniciais~, eu não me senti aflita ou ansiosa. Por mais que as energias se atraíssem, ter entrado na frequência das vibrações foi uma decisão consciente. Talvez, por isso mesmo, eu sinta a tranquilidade que agora sinto. E digo: gostando demais assim. Sinto toda a embriaguez, o ardor, mas nada disso me é pesado. Óbvio, sopesam inseguranças de vez em quando. Ainda sou quem sou. Lembro das minhas histórias, do que se repetiu, dos meus medos. Lembro do que me disseram, do que ouvi falar, já que tenho também consciência de que o rapaz já era alguém bem antes de mim. Mas vivo. Uso aquela especialidade adquirida depois de tanta coisa: dizer não aos medos.

Ele me disse e é mesmo: parece que já nos conhecíamos há eras e estamos matando as saudades agora, depois de um longo tempo que não nos víamos. Um tempo que durou todo o nosso tempo aqui. Andávamos nos mesmos lugares, compartilhamos vários amigos queridos, temos ideias bem parecidas, circulávamos por aí, impunes. Mas nada... Era como se houvesse uma venda em nossos olhos. Foi deus ou foi o diabo que nos cegaram. Acho que foi deus mesmo. Achei até uma foto em que estávamos lado a lado, há uns quatro anos, olhando fixamente pra um amigo que participava de uma folia.

Éramos outros quando não nos sabíamos. Vivíamos outras histórias. Usando a mesma frase que disse a um amigo assim que cheguei em Teresina: "O meu coração é guardado". E ficou guardado durante intermitentes tempos. Pela sorte que eu teimo em ter, o moço apareceu, lá daquele nada onde moram as surpresas, quando meu coração se resolver se revelar ao sol novamente, depois de outro longo desses períodos em que se enclausurou sem lastro. Como eu disse ao moço, a Vida poderia ter nos deixado passar batido pra sempre.

"Onde se escondia?"

Vai passando o tempo. Vai ficando a vontade de dizer pra ficar mais um pouquinho. Vamos dando as mãos nas lágrimas recíprocas de dores que ainda doem, mesmo depois de tanto tempo. Vamos beijando nossas fogueiras mútuas. Vamos experimentando risadas abertas das besteiras que batem à porta. Vamos fazendo bonitas trocas disso que a gente sente e sabe, de vez em quando, o quanto é grande: de Vida.

"Vem." Ele veio.

Descontamos da conta do destino, os amanheceres que tínhamos pendentes. 


terça-feira, 24 de maio de 2016

A luz

"Tengo mucho que escribir, y poco papel
Mi honestidad es color transparente
Me puedes ver por dentro con solo mirarme de frente"

(Adentro. Calle 13)

Eu quis não me manifestar tanto sobre o dia. Eu quis deixar o meu coração guardado, mas não deu. Sem que ninguém pudesse ver, eu chorei na frente do computador desta redação, que não está vazia. Todos estão sempre tão concentrados, que nada notaram. Melhor assim. Hoje era um dia que eu disse pra mim mesma que iria convocar meu Buda e ficar bem. Buscar minha paz. Vestir a Vida e viver mais um dia, como se ele não fosse tão marcante quanto o é, de fato. Um ano, gente. Um ano. Uma volta inteira que o planeta deu ao redor do sol.

Eu não sei... É meio impossível não se deixar carregar por um sentimento não deliberável, que foi a tristeza que bateu. Sabe, eu estou bem. Acordei com "Por una cabeza" na cabeça (rs), sem qualquer explicação razoável. Nem lembro qual a última vez que eu escutei essa. Estava sendo mais um começo, de mais um dia. Aí, por um sussurro desses no ouvido da alma, lembrei. Não sou de chorar, mas chorei que me acabei antes de me arrumar.

Aí veio "Oração ao tempo", do Caetano. Veio o pensamento da inexorabilidade dele, que eu acabei compartilhando. Por mais que eu saiba que não será "possível reunirmo-nos num outro nível de vínculo", eu estou em paz. E não teria mesmo como evitar qualquer reavivamento de emoções adormecidas, se vivo num mundo hiperconectado. Como vou segurar choros e risos, se estão postando fotos dela desde o começo do dia?

E ela é linda... Meu Deus, como essa mulher era linda. Às vezes eu ficava muito besta de olhar pra Lulu e pensar: "Caralho, como assim? Essa gata é mesmo a gata mais gata circulando no mêi das gata das gata de Bacabal". E dizia isso pra velha, que se acabava de rir. Aliás, qual era a conversa nossa em que a gente NÃO se acabava de rir, né? Todos sabiam que era a prioridade absoluta pra mim, em Bacabal.

Lááá pra outra era de 2008, era uma época em que eu ainda não tinha ainda passado no vestibular. Estava melhorando de todo o turbilhão. Já mantendo-me estável por períodos longos. As crises tavam lá, mas eu já tinha internalizado o mantra do "vai passar". Eu já dormia com Lulu desde que uma de minhas primas se casou, desde os 14 anos, com poucos hiatos de intervalo. No supracitado 2008, eu lembro bem de ter começado meu diário e acordar todos os dias às 5 da manhã pra desligar o ar-condicionado no palitinho, com o olho fechado mesmo, e voltar a dormir até 11 horas. Tinha dia que aquela égua me acordava esfregando um PAU, isso mesmo: um P - A - U nas minhas ------> nádegas. Pra ver como o gene da fulerage é algo herdado mesmo. Era um pedaço de pau que ela usava pra segurar um pano que cobria a janela no lugar, naquela época.

A véia já tinha operado do coração. Tinha que fazer exercícios. Foi quando achamos que era melhor caminhar na Praça do Bom Pastor todas as manhãs. Juro, a mulher pendia tanto que parecia um pinguim ao caminhar. Nessa época, alguns bebês da família nasceram. Toda rolinha que ela via sentada na rua, dizia: "Ó o Tamuel! Ô neném bêta!". Aí ficavam as duas rindo dessas besteiras. Todo santo dia, era pra ela que eu contava os meus sonhos ainda fresquinhos. "Menina, tu ao meno ora antes de dormir? É por isso que tu fica sonhando besteira!". Nem lembro, Lulu... Eu acho que eu ainda tinha minhas conversinhas com deus. De todos os segredos, esse seria o mais bem guardado: eu não te contaria que não estamos mais, eu e ele. 

Um dia, um homem, o mais aleatório possível, passou pela gente na nossa caminhada. Ele virou pra mim e soltou: "Você vai viver muito por causa disso". Só falou isso e foi-se embora. Tomara, cara. Lulu passou o dia inteiro bestinha por causa disso. Ela sabia que era porque o cara tava me vendo ali, com ela, cuidando, sendo a bengala daquele pinguinzinho bonito.

A luz. 

Era um ser forrado de luz. Lucila. Do latim, podre de chique. Luminosa. Esse nome que tá aqui tatuado no pulso direito. A mais-que-perfeita escolha pra conjugar o verbo amar, substantivado num nome.

Muito bonito o meu amor. Muito linda. Muito perfeita. Muitas saudades. A tristeza é pela falta, mas meu coração está descansado. Eu sei que ela tinha mesmo que ir e que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Você foi, Lulu, mas você não vai nunca. Minha descendência saberá de ti. A descendência da minha descendência saberá de ti. Quem se aproximar de mim, saberá de ti.

"Saberás que não te amo e que te amo
Posto que de dois modos é a vida
A palavra é uma asa do silêncio
O fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te
Para recomeçar o infinito
E para não deixar de amar-te nunca:
Por isso não te amo, todavia.

Te amo e não te amo como se tivesse
Em minhas mãos, a chave da fortuna
E um incerto destino desditoso.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
E por isso te amo quando te amo"

(Neruda, Pablo. Poema XLIV. In: Cem Sonetos de Amor)

sábado, 23 de abril de 2016

Adventure Time

Se existe uma coisa da qual eu não posso reclamar, é de que a minha vida é sem aventuras.

Lógico, não chega a ser assim um ano de política brasileira, mas é um lance assustador a quantidade de aleatoriedades que me surgem, senão o tempo todo, mas de tempos em tempos.

Saca aquele filme que mostra o efeito borboleta? Parece que é isso que está acontecendo comigo. São várias coisas ao mesmo tempo, várias decisões que eu tenho que tomar, e que podem afetar fortemente como será a minha vida. E não falo de um futuro distante. Falo de um futuro muito próximo. É como se cada pequena decisão que eu tomasse agora, tivesse o poder de me catapultar pra destinos completamente diferentes. Isso já acontece com todo mundo, evidentemente. A diferença, desta vez, é que eu estou enxergando as possibilidades da minha tomada de decisões. Eu posso tanto estragar tudo, quanto posso ser presenteada pelo acaso. Eu posso tanto esperar pra ver no quê que dá, quanto perder oportunidades que, talvez, não apareçam mais, pra coisas que eu quero e espero há muito tempo, já.

Sei lá, cara. Cansei de esperar. Cansei de coisas irrealizáveis. Sabe aquela sensação que tem um mundo lá fora e você se enclausurou por conta das impossibilidades, que você já até sabia que eram impossíveis?

Eu tô confusa. Eu queria ser mais desapegada com as coisas, com as pessoas, sei lá. Mas é foda.

Vai dar certo. Sempre dá.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O luto

Está chegando abril. Em maio, fará um ano sem meu amor.

Nesse ano vivido sem a pessoa que foi o meu maior refúgio no mundo, eu teimo em ser feliz, sabe? E olha que não foi pouca água derramada, nem foi pouca a tristeza das circunstâncias, da falta, da não-despedida. Eu senti muito um impacto de não estar lá. Isso doeu bastante, mas não mais que a própria perda, que seria inevitável mesmo se tudo tivesse acontecido como eu imaginei, como já vinha prevendo desde que passamos aquela noite de mãos dadas. Era notório que o crepúsculo se aproximava.

Talvez por já não ter a presença dela diariamente há muito tempo, eu me mergulhei por um tempo na boa e velha negação. Fiz o mesmo com outros lutos. Vestia a vida e ia, não como se não tivesse acontecido, mas como se não tivesse acontecido tanto. Encontrei a medida pra tentar continuar minha e vida e aguentar o peso de estar mais só, mas qual não foi essa solidão, hein?

Nos sonhos, ela sempre vinha. Ela ainda continua vindo, na verdade. O último que eu tive com ela, eu tinha a louquíssima missão de ajudar, nada mais, nada menos, um Faraó ressuscitado a encarar os dias de hoje. Aí, por ter ajudado o cabra, ele me "presenteou" com uns minutinhos com ela. Louco. Em uma das tantas casas alugadas que eu morei em Bacabal, traziam-na do corredor. Ela vinha caminhando, ladeada por duas pessoas que a seguravam até a cadeira que a esperava na pequena sala. O lugar se enchia de gente e eu arrastava uma cadeira e ficava sentada frente a frente com ela, que estava muito, muito velhinha como nem o era, com os cabelos todos branquinhos que só se vendo.

Ela olhava pra mim... Era bastante óbvio o quanto ela estava feliz por me ver. Era um sorriso tão bonito, tão faceiro, tão dela. Ela não dizia nada. Eu entendia que ela não podia. Mas eu podia.

Eu afastava meu corpo mais pra frente e dava aquele abraço profundo. Passava a mão nos cabelos dela e dizia: "Lulu, eu te amo muito. Muito!". E era só isso que eu conseguia dizer. E olhava pro rosto dela, afagava e só sabia repetir isso. Aquele abraço que ela me deu foi a única forma dela me dizer o mesmo. Que bom que os meus sonhos com ela são assim. Meu cérebro tem horas que me ajuda, compensando o que não pôde se resolver na realidade.

Quando eu paro pra pensar na Lulu, eu sinto tristeza, ainda. Eu não nego a vontade de chorar, nem as lágrimas que ainda descem. Mas eu muito mais rio do que choro. A tristeza vem mais quando eu lembro do que aconteceu, do baque, do susto, de pensar que tudo estava bem, mas na hora não estava, e que o que tinha acontecido, dessa vez, era incorrigível. Ai, um absurdo. Eu passei dias com um grito seco na garganta, que não saía de jeito nenhum. Uma pressão no peito que não achava jeito. Até que fui caminhar e numa área bastante deserta perto da minha casa e gritei. Gritei mesmo, pra caralho, deixei sair. Ajoelhei no chão e chorei até a última gota de lágrima que ainda tinha restado. Acho que o meu coração suspirou um pouco.

Nas caminhadas de hoje, de vez em quando eu lembro dela. Falo dela, como sempre falei, pros colegas de trabalho, nas redes sociais, nos escritos, e são sempre coisas boas que vêm à boca. E eu entendi que a memória dela é cada vez mais viva, mais buscada, mais feliz. Que, mesmo que ainda lacrimeje, eu sorrirei muito mais. Que o amor que a gente sentia, essa conexão inexplicável das nossas almas, não morreu. Tudinho tá bem dentro aqui. Meu amor, meu tanto amor, é minha raiz e eu vou carregar essa mulher, essa tão amada mulher, como um privilégio, até o dia da minha própria morte.

Tudo bem que você foi, sabe, Lulu? Você tinha que ir mesmo, eu sei. Eu tô aqui pra lembrar de você.

domingo, 27 de março de 2016

O tempo certo

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

(Carlos Drummond de Andrade. Trecho da poesia "Ao amor antigo")


Uma vez, uma prima minha me contou uma história, que eu já sabia, mas não sabia tanto. A adolescência dela foi pelos anos 90, enquanto eu ainda andava nos cueiros pra lá e pra cá, lá na terrinha. A época era toda diferente. A vida, na verdade, era bem diferente do que costuma ser hoje. Dos rapazes da rua, um era bastante interessado nela desde sempre, desde que todos nós podemos nos lembrar. Ela seguia numa resistência que só uma moça criada no interior sabe engendrar. O rapaz avançava, ela retrocedia, o rapaz dava em cima, ela cortava, o rapaz queria, acabou que no final, ela ficou querendo também. Eles deveriam ter, sei lá, uns 15 ou 16 anos na época. Começaram a namorar daqueles namoros bonitinhos de adolescentes. Nada do que não fosse solenemente permitido, é claro.

Numa viagem de moças da capital pra terrinha, eis que o rapaz cresceu o olho pra uma. Era bonita, charmosa, tinha aquele ar metropolitano, aquela coisa diferente. Ele não resistiu e, se o espírito não me engana, deram lá seus beijinhos. Minha prima soube. Com o orgulho próprio que corre o sangue de todos da minha família, soçobrou a fúria daquela paixão adolescente e disse adeus pra nunca mais ao rapaz genuinamente arrependido. Não houve protesto, panelaço, apitaço, greve de fome, cartazes levantados, não houve Deus e não houve diabo que a fizesse perdoar.

Os ânimos se acalmaram. Ainda eram vizinhos, afinal. Ainda tinham muitas coisas em comum. Ainda havia amor, no final das contas. Mas aquela chama, aquela coisinha que ela carregava, foi apagada com terra. Não era por falta de tentativa. Era por falta. E por mais que ela procurasse dentro de si, esquadrinhasse cada um dos muitos compartimentos do seu coração, ainda assim, não achava o que pudesse reacender o que quer que fosse. E assim tudo continuou, pro desespero do rapaz.

Anos e anos e mais anos depois, ela me conta a história. Entre risos, verdadeiramente sem rancores ou nostalgias. E me disse, quando eu ainda morava na terrinha, que mesmo com tantos anos e com tantas voltas do mundo, o rapaz ainda carregava uma esperança, mesmo que muda. E eu senti uma tristeza muito profunda por ele, porque vi que era além de orgulho o que havia ali. Era o tempo que tinha passado. Era ela que havia curado.

Desde então, eu estou convencida de que as coisas têm um tempo. Não falo de nada metafísico, cósmico, essas coisas. Não acredito que haja alguma interferência. Mas acredito piamente que coisas que deixam de acontecer no tempo que elas têm pra acontecerem, se perdem. Quando falo nisso, claro, não me baseio nessa única história. Eu me baseio em todas as minhas experiências. Vi fogueiras recíprocas serem apagadas gradualmente pelos impedimentos. Vi conexões que se perderam porque não houve coragem pra se enfrentar o medo. Vi que coisas muito lindas não aconteceram porque os indivíduos nela deixaram o tempo passar, para além da salvação.

Sou nova ainda. Apesar de já ter visto e vivido muitas coisas, tenho a plena consciência de que não vi tudo. Tenho raiva das histórias em que eu me meto, das semelhanças, das confusões. Desta vez, sinto que é pra mim que o tempo está prestes a passar. Posso visualizar, mesmo que ao horizonte e um pouco distante, isto passando. Indo embora. Saindo pela janela, como eu implorei para todos os deuses que eu conheço e nem acredito, para que assim o fizessem. Eu trabalhei pra isso. Eu sabia que era necessário, desde quando soube, desde quando as palavras foram registradas naquela telinha, comigo naquele bar, há quase um ano. Quantas vezes eu não peguei o celular pra as ler novamente? Pra me convencer, por a+b, que se pode fazer tudo o que há no mundo, menos deliberar sobre os sentimentos. Se nem os próprios, imagine os alheios.

E que estranho ver o tal do tempo passar. Que estranho saber que, daqui a pouco, a não ser que ocorra um cataclisma, eu também vou procurar aqui, esquadrinhar os meus quartos, e não vou achar. No momento, é uma mistura muito forte de melancolia e sensação de dever cumprido. Como se eu pudesse me orgulhar por ter feito o que eu pude, que eu trilhei o meu caminho, que eu sabia que seria possível me despedir sem rancores, nem mágoas, nem arrependimentos, de um sentimento meu que já não me servia mais. Que estranho saber que, mesmo assim, o amor permanecerá. Que tampouco ele será o mesmo. Não vai carregar mais aquele fado da urgência, não terá mais oportunidades de doer. E será tão, mas tão leve...

Tenho a certeza de que, em algum momento, algo vai acontecer, sabe? O inesperado é meu amigo e a minha vida é uma coletânea de eventos improváveis. E sei, do fundo do meu coração, que quem tiver a coragem de se deixar ser amado por mim.... Ah... Esse vai conhecer a felicidade.

Estou certa em minhas previsões?

Que o clichê dos clichês responda essa por mim: só o tempo, aquele tempo, dirá.