quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Cólera
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
"Caindo a noite, me lanço no mundo..."
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
O tal do diálogo
Update: A ironia deste texto é que, no último, mandei até o povo tomar no cu. hahaha Mas tô chamando pro diálogo, não pra ser o Dalai Lama.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Os meninos sujos
Eu ainda me lembro da primeira vez que me dei conta da pobreza. A escola que eu estudava mudou todos os livros didáticos e tivemos um livro de História mais atual. Eu devia estar na 4ª ou 5ª série do Ensino Fundamental, quando abrimos bem na página que tinha uma figura onde dois meninos negros estavam sentados no chão, sujos, com instrumentos nas mãos. Qual não foi a surpresa quando vi a seguinte legenda na foto: "Meninos quebram coco-babaçu em Bacabal, no Maranhão". Foi chocante. A pobreza sempre esteve ali, perto de mim, mas nunca ela tinha sido apontada dessa forma. Sempre caíamos nos clichês de achar que a miséria só existia na África. Um continente inteiro convertido em uma massa amorfa de gente que só tinha direito ao destino de passar fome e morrer de Aids. O malfadada única história. A versão de fora. Os missionários vinham dos países da África subsaariana pra minha igreja e atiçavam a minha imaginação de como era viver com o nada. O terrível era lá, só lá.
Desde então, a pobreza me doeu. Por que eu entendi que era pura e simplesmente uma questão de sorte, como disse antes. Que eu poderia estar facilmente no lugar daquela menina desgrenhada que, como fazem em Bacabal, saía da periferia caminhando pelos bairros da cidade, com um saco plástico, pra quem pudesse, colocasse um pouquinho de arroz ou qualquer outro mantimento não perecível. Foi nessa época que uma menina apareceu lá em casa e sem ninguém perceber, peguei um vestido meu e dei pra menina. Ela ficou sem acreditar. Peguei uma surra por causa disso.
E eu fico pensando o quanto nós, seres superiores da classe média pra frente, achamos que os nossos problemas são maiores dos que os dos quem vivem com menos que a gente. Só nós temos problemas existenciais. Só nós procuramos o sentido da vida. Só nós sabemos o que é certo. Só nós entendemos o significado das palavras rebuscadas. Nós não somos simples. Os nossos problemas não são simples. Os deles são. Eles são simples. Eles não têm aquela complexidade humana marota e ishperta que nós temos.
Antes de ontem conversei com uma senhora, em um interior do Piauí. Uma lavradora. Se tem uma coisa que ainda me anima nesse Jornalismo, é essa ponta da cadeia. Ela me contando que acorda cedo, de madrugada ainda, pra regar as plantas da horta pequena que tem. Que quando sai de lá, tá com o juízo o tempo todo "na minha hortinha". O sustento. Vieram todos esses pensamentos comparatórios. Não tive pena daquela mulher. Apesar da rotina dura, não sugeriu em nenhum momento que passava necessidade. Claro que ela estava maltratada pelo sol, claro que a rotina era dura. Mas, por acaso, a minha rotina também não é automatizada? Não estou o tempo todo preocupada com meu trabalho, mesmo que não queira? Não estou também eu com as mãos calejadas? Ela me disse que era feliz e eu acredito. Ninguém melhor pra dizer o que é do que a própria pessoa.
Não, não estou cometendo o crime de comparar diretamente a minha atividade com a dela. A minha situação é, obviamente, bem mais privilegiada, mas por uma série de outros motivos que vão muito além do meu esforço pessoal. Conversar com ela me lembrou que esse lance de simplicidade que o pessoal insiste em associar à pobreza é uma bobajada sem fim. Absolutamente NADA do que nós conversamos me deu qualquer indício pra intuir se aquela mulher vive uma vida simples ou não. Por mais que nós tenhamos conversado amigavelmente por um tempo e ela tenha me contado parte da sua rotina, eu tenho a total consciência de que não a conheço.
Se a pobreza não é boa nem simples, o estigma também não. O ceromano não vive sem rotular, identificar, eu sei. Superar as identidades... Sei lá. Seria uma superação de algo que eu nem posso definir. Porra, mas ficar nessa de pobre burro-bonzinho-vida-simples-e-boa-que-ah-se-eu-tivesse???? Vai tomar no olho do cu.
Com areia.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
O ano dos abraços
terça-feira, 24 de novembro de 2015
O amor descansado
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
"Eu sei, eu sei, eu sei..."
Chama. Meu pensamento chama. Em um minuto, trago a história de novo pra dentro de mim e a faço renascer, como se nunca tivesse ido. Eu olho pra ti, Lulu. Sou perfeitamente capaz de escutar tua voz, é só lembrar. Eu consigo te captar no olhar. Sinto o teu tato. Sinto o carinho que tu fazia nos meus cabelos. A voz brigando, brincando, amando. Eu te sei.
Por ti, há uma paz. Não sei explicar. Se tudo estiver bagunçado, volto ao refúgio do teu colo e lá me embalo. As músicas de amor que falam de saudades da paixão, já não me tocam por ela, que resiste. Tocam-me por ti, que existe. "Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você". Ainda que o mundo se acabe. Ainda que se apaguem os teus registros. Ainda que a tatuagem com a tua letra se desmanche. Eu sempre vou lembrar de você, Lulu. E sempre vou sentir a falta mais terrível do teu amor, mas serei eternamente grata por ter podido desfrutar dele.
Caminha em lembrança comigo, Lulu. Tá muito difícil. O mundo é mau e eu me sinto só. Às vezes eu tenho medo que uma chama, que não é a tua, se apague. Que eu me deixe envolver pelas agruras da vida e pare de olhar pra frente.
Improvável que isso aconteça, eu sei. Eu só escrevo isso porque eu me sinto cansada e o caso é que eu me sinto cada vez mais. O soldado cansado também há de lutar. Ele não é fraco, ele está apenas cansado. Lutar cansa.
Já que lembro, volto. E como entendo, sigo. E já que sigo, vou. E dou-me o descanso das risadas, dos amigos, da alegria no peito, das caminhadas, das canções e dos abraços.
Enquanto isso, o coração parece que vergou de novo, coitado. Mas, também... Pudera. Tantas batidas, tanta inclemência, tanta responsabilidade em bater tanto, de maneira tão forte, em cima do pobre...
As coisas são impermanentes. Eu, como meu coração e tu, pelo teu coração. Mas se somos impermanentes, não somos inconstantes.
Como alguém pode estar tão triste e, ao mesmo tempo, em paz? Eu não sei. Mas é essa a mistura que eu consigo explicar. Sempre haverá o amor. Lembrar disso, afaga.
Segura na minha mão e vamos.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Dias e dias depois
terça-feira, 6 de outubro de 2015
"...Mas eu sei que alguma coisa aconteceu"
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Os velhos da vida
E foi tranquilo e terrível por isso. Depois foi tranquilo de novo. Como sempre é.
sábado, 12 de setembro de 2015
Sobre o "vai passar"
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Os meninos
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Pra não dizer que eu te abandonei, Liga.
domingo, 2 de agosto de 2015
A grosseria
Deixei teu nome na cabeceira, antes de dormir
Coloquei-o embaixo da pia, ao lavar a louça
Fechei a porta do banheiro pra ele, quando entrei
Escondi-o dentro da última gaveta do guarda-roupa
Abandonei entre uns papéis velhos do armário
Deixei na lavanderia de molho durante dias
Varri, passei o rodo nele, pano de chão com desinfetante
Joguei pela janela do apartamento
Ficou na gaveta vazia de legumes da geladeira
Não paguei a passagem pro teu nome no ônibus
Botei a vassoura detrás da porta
Teu nome ficou lá
Triste, jogado pras cobras, abandonado
Me olhando com cara de cachorro molhado.
E depois de tantos maus-tratos
Creio, teu nome uma hora sairá pela porta
Mas apesar de todos os esforços
De toda a má-educação
Toda a grosseria e impolidez
Ainda não quero que vá.
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Antes de Morfeu chegar, o que chega
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| "Minha querida, acorde que meu braço não tem mais uma gota de sangue!" |
Mais uma vez, dormi muito mal. Não que isso seja uma novidade. Já há muito tempo que eu não sei mais do que se trata esse fenômeno que acontece geralmente à noite com as pessoas, chamado pelos cientistas de "dormir". Ou demoro um tempo ridículo ou durmo e vou acordando sucessivas vezes durante a noite. Geralmente, quando a primeira coisa acontece, aí é tentar ficar de boa, já que já já que aparece uma lapada de pensamentos e eu faço a coisa que eu fui feita pra fazer: pensar até rachar meu cérebro. Eu dava certinho sendo aqueles gregos que não faziam porra nenhuma da vida, não davam um prego numa barra de sabão pra passar o dia todinho pensando nas grandes questões filosóficas. Porra, Platão, apaga esse sol que eu quero continuar dormindo na caverna, caralho!
PS: Senti incômodos depois que publiquei esse texto. Principalmente por ter rasgado no Facebook, coisa que não costumo fazer. Quem é leitor do blog (!) ou me conhece um pouco mais que superficialmente, pode entender melhor o que eu queria falar. A questão toda do texto era que, pelo menos na minha experiência, a felicidade é algo a ser trabalhado diariamente de maneira racional. Não é você simplesmente pesar os fatos que acontecem na vida e decidir que, por eles, você pode ser feliz. Se for por aí - se eu fosse por aí - teria muito mais motivos pra estar triste do que alegre, pra falar a verdade. Talvez seja preciso que você tenha que se enganar, rasgar a razão do desespero e ressignificar as coisas pra poder ter um pouco de paz.
Também me incomodei por não ter citado em momento algum que essa conquista de hoje não foi um esforço puramente pessoal. Depois que fui acometida pela síndrome do pânico, o processo de cura foi longo, custoso e principalmente doloroso. Mas eu não estava sozinha. Felizmente, a minha família, amigos e dois profissionais excelentes vieram em meu socorro. Aos trancos e barrancos, investimos dinheiro, tempo e paciência e pudemos ver os frutos da minha melhora. Obviamente que nem o melhor psiquiatra ou psicólogo do mundo poderia fazer um bom trabalho se, em primeiro lugar, eu não estivesse mais do que disposta a levar um tratamento à sério. Estava. E essa foi a minha parte da decisão de parar de sofrer daquela forma. Sei que falar disso é um assunto complicado. Tenho absoluta empatia por quem sofre de qualquer sofrimento psíquico e sei que a minha experiência não é universal. Muita gente sofre de mais de um transtorno e as dificuldades são enormes de acesso a um tratamento adequado. Dinheiro, apoio emocional, distâncias geográficas (eu, que morava no interior, tinha que me deslocar toda semana pra capital, longe, pra fazer as sessões) e profissionais verdadeiramente competentes (me meti em umas duas enrascadas antes de achar). Isso fora todo o estigma posto em cima de quem sofre, mesmo que esses tipos de doenças sejam cada vez mais comuns em pessoas cada vez mais jovens, como no meu caso. Aparecem pessoas muito bem intencionadas, mas elas estão submersas no senso comum. De repente, a tua doença é culpa tua. "Tenha força de vontade!", "Se você tivesse um pouco mais de fé...", dentre outras bobagens que nos dizem. Pra mim, a religião em que eu estava passou a me fazer mal. Meu transtorno foi atribuído a alguma espécie de possessão e eu fui submetida a coisas que é melhor pra minha sanidade nem lembrar, por pessoas - friso! - muito bem intencionadas (ou não, né? Quero crer que sim.)
Agora com algumas questões pontuadas, volto a repetir: minha felicidade foi conquista. Sentir-me bem com a minha existência hoje e já há algum tempo deu trabalho, mas valeu à pena. Não serei leviana com a minha história de não me sentir orgulhosa disso. Se pra outras pessoas, essa satisfação sempre foi uma coisa que rolou, ótimo. Ótimo mesmo. Tenho arrepios em pensar numa sociedade onde todos fôssemos doentes e incapazes de experienciar isso desde cedo.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
A procura
Teu nome é do tamanho de um suspiro. Tão delicado quanto uma flor. Teu nome é a luz que me clareia. Teus olhos, tão lindos, estão nos meus, me chamando de meu bem. Teus olhos chamam. Entro no teu coração, o culpado, pra ficar lá, quieta, esperando tu chegar. Os pensamentos de chamar te chamam, te gritam. Quantos pensamentos de chamar já não te lancei? Não há como escapar do teu encanto. E eu jamais quis fugir dele, meu amor.
Tu é a fogueira. Tu é o fogo. Tu é um estado. Tu é a tua mão. Uma grande metonímia humana. O todo pela parte, a parte pelo todo: tu era teu coração e teu coração era tu. Não se cala. Teimosa, não se cala. Nunca o fez. Jorrou em mim sua vida como quem esquece dos seus efeitos. Feiticeira nata, das que jogam feitiços sem saber. Meu nariz deteriora sem cheirar teu cheiro, por que foi feitiço forte, conjurado desde a pedra fundamental da Terra, de que teu olor me faria voltar pra ti, mesmo que eu andasse e percorresse todos os confins desse planeta. E eu feneço a cada dia que sei que tu, ingrata, foi embora de mim.
Há algo no firmamento estranho hoje. O céu esteve mais azul do que antes e ventou como não costuma. Sentindo tu, mulher, em meus sentidos, respirei daquele ar, te absorvendo, enchendo meus pulmões de ti, procurando desesperadamente o teu cheiro. Só enquanto eu respirar, vou procurar por ti. Eu sempre vou procurar por ti. E mesmo achando teu cheiro só nos ventos que não costumam, resisto ao teu conjuro e torno a viver.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Pensamentos de fim
sexta-feira, 26 de junho de 2015
15 dias de palavras acumuladas
(Era uma quinta, ao meio dia, que ela me disse dela.)
Puta que pariu. Era show do Buena Vista Social Club. O único e o último que eu teria oportunidade de ver na vida, já que era a Adiós Tour, passando por algumas capitais brasileiras. Lembro de ter visto no feed de notícias, o moço confirmando a presença no evento e de ter planejado a viagem justamente pra coincidir com a data. Sem grana, deixei pra lá a oportunidade de comprar o ingresso pela internet e, quando eu fui atrás no sério, já tinham esgotado todos. Fiquei triste. Mas, por uma sorte sem fim, consegui comprar um dos últimos ingressos. Chorei, dancei, gritei, me acabei. Enchem os olhos só de lembrar. Tinha hora que eu ficava só lá, parada, embasbacada, contemplando. Absolutamente sem acreditar. Que noite linda. Que noite linda.
(Era uma quarta à noite.)
***
Carinhos, mãos, línguas e dedos. A própria pele. Mamilos, cabelos, saliva e até suor, mesmo no frio. Fluídos. Era inacreditável. Eu disse. Era nervosismo, ansiedade, era o novo, tão esperado. Foi descanso, foi carinho, foi orelha que não se aguentava, foi abraço, foi conversa. Foi tudo. Foi um. Foi pouco.
Foi muito.
(Era quinta, numa manhã de manifestos.)
***
Danei a falar. Mas é que passava tanto tempo calada ou conversando só comigo mesma, nas andanças intermináveis ao centro, que parecia que nunca mais eu iria ter esse poder de novo e tinha que aproveitar os últimos momentos. A estrada era tão linda. Vieram histórias, avós (a minha e a alheia, que eu aproveitei por uns dias), avôs e outras amenidades. Veio tanta coisa a ser lembrada. Não sei. Era como se não fosse dar tempo pra contar tudo o que eu tenho pra contar. É, eu estava certa. Não deu. Mas eu sei que nem se fosse um mês de contatos ininterruptos, também não daria. Devo ter enchido o saco de tanto falar, mas não conseguia me segurar. Talvez fosse de novo o nervosismo ou talvez me achasse muito à vontade ao seu lado. Uma mistura dos dois.
Pegamos a estrada pra uma viagem curta, bonita. No começo dela, as urgências, as provocações. Também não deu pra segurar. Não con-se-gui. Não estava em nenhuma prova de resistência... rs
Não fazia tanto frio como eu imaginei. Nenhum dos dois casacos pros diferentes frios foi necessário. Ficamos vendo as cidades que dava pra ver da Serra, depois de um almoço faraônico, onde eu pouco comi, com esse meu estômago de passarinho. O moço sentia dores físicas. Eu pouco podia ajudar.
Voltamos. Passamos pela cidade onde morou maior parte da vida. Pegamos a estrada de volta e só o que eu sabia era falar. Meu deus... Que perversidade. Que bom que, pelo menos, o moço disfarçou a encheção de saco que aquela falação toda se tornou. :D
Chegamos. Estava mal. Conversamos. Ia ficar tudo bem. Não precisa nem pedir pra compreender. Já estava compreendido há muito tempo, desde que eu soube.
(Sábado à noite. Fazia frio, mas o coração batia quente.)
***
Meu aniversário. Saí de casa com uma coisa tão boa nos sentidos. A cidade foi tão boa comigo esse dia, que eu mal acreditava na impossibilidade de estar ali, justo nessa data que eu gosto tanto. Fui, mais uma vez, direto ao centro. Mesmo num curto período de tempo, já sabia onde eram meus refúgios: o Mercado Público, a Casa de Cultura, o banco da praça e o próprio caminhar. Depois de umas confusões, peguei um barco pra cidadezinha do lado. Coisa mais fofa, aquela orla. O vento era frio, mas fazia sol e eu tinha a agradável sensação de estar sendo presenteada pelo tempo. Não foram poucos os pensamentos olhando praquele rio, nem poucos os sorrisos que meus amigos e familiares próximos, mesmo de longe, me provocaram. Estava tão sozinha, mas ao mesmo tempo, tão completa... Naquele momento, eu me bastei. Sentei num dos bancos de uma estrutura que havia e passei um tempo imprudente com aquela sensação, entregue a mim mesma, me sentindo feliz. Esqueci de tudo por não só um instante. Fechei os olhos e senti a leveza de estar, ser e continuar sozinha o resto da minha vida, no sentido mais primeiro da solidão, mas ser o suficiente.
Havia um restaurante pequeno, mas muito acolhedor na orla do rio. Entrei, me sentindo confiante. Era relativamente chique pros meus padrões, que não costumo frequentar esses lugares assim, pela simples ordem da vontade. Era meu dia, eu podia tudo! Alguém que parecia ser o dono ou o gerente do lugar me atendeu e anotou meu pedido. Eu expliquei como queria o ponto da carne e acho que devo ter falado demais, já que ele falou, já meio irritado: "Entendi, entendi!"
Logo após, um garçom muito amável me atendeu. Ria pra mim com um sorriso bonito, sincero. Fez-me sentir como alguém que era querida ali. E não, ele não estava dando em cima de mim. Estava tão somente me tratando bem, com amabilidade. Deve ser um bom anfitrião, esse senhor.
Voltei à cidade, no mesmo barquinho. Olhando para o rio (era rio mesmo?) e percebendo que eu tinha uma sorte danada de estar ali, onde eu queria estar, fazendo o que eu queria fazer.
Mas ainda não era o suficiente. Eu ainda o queria. Três encontros esparsos, poucos, que não me mataram uma vontade desgraçada que eu carregava pra onde eu ia. Tinha se tornado inerente, a vontade. Esperei, esperei, esperei... Nada. Queria o abraço esmagador que tinha me prometido, mas não só ele. Quis muito, acabei ficando sem nada. E o mais louco é que eu fui explorar a cidade à noite, mesmo com o meu medo provinciano. Vesti um vestido lindo, me pintei, botei o salto e saí no meio do mundo, atrás de alguma diversão no trecho boêmio da capital. Olhei praquele lugar, a única parte que me pareceu agradável foi uma livraria, onde me comprei um livro do Galeano. A atendente me indicou um barzinho legal, mas tava fechado... Acabei entrando num que, aparentemente, estava vazio. Não estava. Assim que sentei, o garçom veio me dizer que, nos fundos, estava tendo um grupo de samba sem couvert (sei lá como se escreve). Mais gente, mais animado. Já que tá no inferno, dá logo um abraço no capeta. Fui lá. Chamei a atenção. Talvez muito mais por ser uma mulher sozinha do que por quaisquer de meus atributos. Claro, tinha o fato de eu ser diferente de todas as mulheres que estavam por lá. Todas as poucas seguiam o padrão da mulher branca, loira e de olhos claros. À parte do resto, havia um grupo de umas dez pessoas que comemorava o aniversário de um deles, também. Inclusive, cantaram parabéns pra ele e eu lá, fazendo de conta que era pra mim, também. Sambava lá, só. Não me lembro de já ter feito isso. Estava estranhamente feliz. Era como se eu tivesse um segredo muito legal. Não estava bêbada, tampouco estava sóbria. Alguns chopps e eu, sabendo da minha pouca resistência, resolvi parar. Afinal, ainda era cidade desconhecida, eu ainda estava sozinha, ainda teria que voltar pra casa em um estado apresentável.
Até que se manifestou e eu, depois da raiva inicial, entendi. Falei isso: entendia. Entendia. Puta que pariu, como que eu poderia não entender? Queria ter lhe dado um abraço naquela hora. Não o mesmo, das outras vontades.
Foi quando eu joguei logo a farofa no ventilador, disse que amava mesmo, tava nem aí. Mas que também sabia o que era aquilo. E eu tinha plena consciência, mesmo ébria, que tudo o que foi possível viver ali, teria sido impossível se dependesse de mim, se estivesse ainda acometida. Por isso sabia que ele era corajoso. Por isso disse que tudo estava bem, porque realmente estava. Por isso que sabia que precisava dar um freio à paixão, mas não ao amor.
Quem tem pressa é a paixão.
(Era segunda, foi dia e noite. Completava meu primeiro quarto de século.)
***
Pela manhã, depois da noite parcialmente dormida, decidi não sair de casa. Tinha a mala pra organizar e não lembrava de ter algo que eu realmente gostaria de fazer, que ainda não tinha feito, na cidade. Se sobrou, fica pra próxima. O voo seria à tardezinha, no crepúsculo. Lembrei que ele nem sabia e me despedi, sem pensar que ainda haveria qualquer possibilidade de encontro naquele dia. Saio hora tal, chego hora tal. Beijo. A gente ainda vai se ver... Etc. O susto quando disse que daria tempo. Eu não criaria expectativa, já que dependia de outros fatores, como o transporte intermunicipal. Se desse, seria ótimo. Se não desse, tudo bem.
Deu. Ainda bem que deu. Eu já tinha estourado o horário do embarque. Já tinha despachado mala, feito check-in, tudo no mundo. Mas aquela viagem ainda me devia um beijo de despedida. Meu coração batia descompassado. Ao mesmo tempo que queria demais vê-lo, se eu perdesse o voo, eu estaria só com as roupas do corpo numa cidade de frio insalubre pra mim. Chegou e eu tive que segurar minha onda. Beijei, mesmo com todo aquele papo de deixar paixão pra lá. Eu sou uma sem palavra mesmo! E não foi só um, foram vários! Hahahaha
Subi no avião da volta com uma sensação que poderia ser considerada oposta completa da da ida. Se o coração estava pesado, voltou leve. Voltou feliz. Voltou sabendo que fez o que tinha que fazer.
(Terça, dia do pôr-do-sol mais lindo da vida.)
***
Esse escrito já é de muito tempo, dado a tudo o que já aconteceu depois. A mulher dos primeiros parágrafos, se foi. Esperou que eu chegasse, pra não atrapalhar essa viagem, eu acho. Olho todos os dias pra ela, em uma fotinha mental e me declaro como sempre, como sei. Quanto ao moço, sua mão estava longe quando tudo isso aconteceu, mas senti ela segurando a minha, como várias outras que seguraram também de longe.
Não tinha intenção de publicar esse escrito. Tem demais. Poderia deixá-lo guardado, pra mim, em algum lugar secreto. Mas esse lugar é um dos meus lugares-abrigos. Sempre me senti livre aqui, neste blog. Não queria fugir à regra logo agora, depois que coisas importantes me foram negadas, como a presença. rs Acabaram entrando muito mais do que 15 dias de palavras acumuladas, eu sei. Mas mantenho o título original, escrito ainda no frio, quando tentava colocar pra fora toda a minha perplexidade diante de tudo. E não é que tudo terminou bem?
Sou eu aqui, mas não definitiva. E que venha o melhor!
(Quinta. Sentindo o calor que eu não costumo sentir, na minha terra, no meu aconchego.)
