segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Pra não dizer que eu te abandonei, Liga.

Não tenho escrito aqui. Mais uma vez, o tanto monstro de vida que já aconteceu. Desde "A grosseria", onde pus pra fora aquelas metáforas bem verdadeiras, tenho escrito muito mas, como disse, não aqui. O caso é que arrumei um emprego. Muito mais corrido do que jamais imaginei. Se antes eu tinha tempo e não tinha dinheiro pra nada, agora não tenho tempo e nem dinheiro. Ainda não recebi o primeiro salário e meus amigos já me fizeram prometer metade dele em cervejas pra comemorar o trabalho novo.
Depois de tanto tempo e com uma cobrança muito forte (externa e interna), verguei. A ansiedade quase me abateu. Lembrei daqueles dias, naquele jornal, onde acumulava funções acadêmicas e no estágio e ainda era bem menos resistente do que sou hoje. Com pouquíssimo tempo, desisti. Tadinha de mim, mas eu realmente não podia naquela época lidar com aquilo tudo. Hoje eu posso. Hoje eu consegui. Já estou de volta à normalidade, que eu sabia que voltaria.
Nesse meio-tempo, milhares de pensamentos à noite. Zilhares de tuítes, de escritos internos, de pensamentos de chamar. Mas o que mandou em mim foram as saudades. Ahhh, as saudades.
Acabo de chorar, na verdade. Hoje são três meses que o meu amor inventou de ir-se de mim. Três meses de choros convulsivos, que ainda hoje (como acabei de provar), ainda me tomam, mesmo que o mais frequente sejam só pequenas lágrimas ou o marejar dos olhos. Às vezes eu me esqueço que ela se foi. Em ocasiões como essa, onde eu arrumei um emprego e fiquei super feliz e depois fiquei super mal por causa da ansiedade, eu sabia que deveria ligar e contar a novidade pra ela. Aí me lembrava. Aí, óbvio, doía de novo. Ferida aberta, ainda. Só coberta com um pano. Se mexer, claro que vai doer.
Outras saudades também me invadem. Apesar de os anos longe de casa terem endurecido o meu coração, estive várias vezes à beira de ligar pra minha mãe e pedir socorro. Aquela parada de querer o colo mesmo. De lembrar do tempo em que meu coração pesava (meu coração sempre pesou, mesmo criança. Incrível.) e eu sabia que a única solução viável era contar pros meus pais. Eles iriam tomar conta de tudo. Puta que pariu. Como será que é ter essa responsabilidade na vida de alguém, hein? Não. Não liguei pra nenhum dos dois. Não pedi ajuda, nem socorro. Aguentei. Segurei minha onda. Chamei os amigos, escrevi no twitter, pedi abraços e os recebi. Faz alguns dias, senti a normalidade voltar à minha pele. Espero manter-me assim. Ir, mas ter a certeza de voltar: é o único jeito que eu posso.
Também tenho mais saudades que essas descritas. E, nessa parte, também não tenho o que fazer. Andei sonhando umas coisas que me machucariam, se fossem verdade. Vai ver até são, né? Não sei. Não sei de mais nada. Mas sonhar e ter a consciência de que me machucariam, mesmo eu achando que não, me preocupou bastante. Ontem, conversando com amigos a respeito desses sonhos despropositais, me falaram aquilo que eu sei ser verdade: a gente não esquece alguém assim, por querer ou vontade, com o simples uso da razão, com a mera decisão dos pensamentos. E acaba que o que me resta é saber o que sei, o mantra final que me ajuda a continuar na vida, mesmo sabendo que ela pode ser (e na maioria das vezes é mesmo) muito escrota: isso também vai passar. Em alguma hora, vai passar. As coisas vão mudar sorrateiramente de status e, quando eu parar de pensar nisso, vou atinar que o mundo terá mudado. Mais uma vez. Vai ocupar outro espaço no coração. E estaremos todos bem assim.
22:57 e eu já deveria estar dormindo há uma hora. Parece que o jogo virou, não é mesmo, insônia?
A boa noite aos que carregam bons corações.

domingo, 2 de agosto de 2015

A grosseria

Deixei teu nome na cabeceira, antes de dormir
Coloquei-o embaixo da pia, ao lavar a louça
Fechei a porta do banheiro pra ele, quando entrei
Escondi-o dentro da última gaveta do guarda-roupa
Abandonei entre uns papéis velhos do armário

Deixei na lavanderia de molho durante dias
Varri, passei o rodo nele, pano de chão com desinfetante
Joguei pela janela do apartamento
Ficou na gaveta vazia de legumes da geladeira
Não paguei a passagem pro teu nome no ônibus
Botei a vassoura detrás da porta

Teu nome ficou lá
Triste, jogado pras cobras, abandonado
Me olhando com cara de cachorro molhado.

E depois de tantos maus-tratos
Creio, teu nome uma hora sairá pela porta
Mas apesar de todos os esforços
De toda a má-educação
Toda a grosseria e impolidez
Ainda não quero que vá.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Antes de Morfeu chegar, o que chega

"Minha querida, acorde que meu braço não tem mais uma gota de sangue!"

Mais uma vez, dormi muito mal. Não que isso seja uma novidade. Já há muito tempo que eu não sei mais do que se trata esse fenômeno que acontece geralmente à noite com as pessoas, chamado pelos cientistas de "dormir". Ou demoro um tempo ridículo ou durmo e vou acordando sucessivas vezes durante a noite. Geralmente, quando a primeira coisa acontece, aí é tentar ficar de boa, já que já já que aparece uma lapada de pensamentos e eu faço a coisa que eu fui feita pra fazer: pensar até rachar meu cérebro. Eu dava certinho sendo aqueles gregos que não faziam porra nenhuma da vida, não davam um prego numa barra de sabão pra passar o dia todinho pensando nas grandes questões filosóficas. Porra, Platão, apaga esse sol que eu quero continuar dormindo na caverna, caralho!

A parte boa, talvez, é que sai muito texto. Crônicas, contos, uma poesia aqui e ali e vá lá, até canções. E desobedecendo todos os meus elétrons, nêutrons e prótons que gritam pra que eu levante e vá anotar tudo o que o overthinking traz, tento me concentrar no sono, até que os textos param de se completar sozinhos, até que eu não consiga mais distinguir ideias, até que eu mergulhe sorrateiramente no mundo de Morfeu.

A sorte, então, é quando no outro dia, ainda consigo me lembrar de parte daquele mundo que eu pensei. O tema dessa noite girou em torno da minha felicidade e de como as pessoas ao meu redor me percebem e se apercebem dela. Começou isso com uma lembrança: o dia em que o pastor da minha ex-igreja foi falar um assunto com minha mãe, na minha casa, e a sua esposa foi junto. Eu já tinha saído da religião já fazia tempo e como um pacto não falado, no meio daquele turbilhão de culpa e pressão externa, não saia de jeito nenhum pra festas ou qualquer outro evento social. Por isso mesmo, muita gente nem imaginava que eu tivesse deixado de ser evangélica. Bom, os pastores sabiam. E nesse dia, a pastora falou algo que ficou bem marcado pra mim. Eis o diálogo mais ou menos fidedigno:

" - Irmã, tudo bem contigo? (Ela sabia do monte de merda que eu tinha passado um tempinho antes).
- Tá sim e com a senhora?
- Ótima. Você tá feliz, irmã?
- Estou sim, graças a Deus!
- Não, irmã. Não está! Só é feliz quem tem Jesus e a irmã não tem mais."

Obviamente que aquela conversa me constrangeu, bem ali, no raro sossego do meu lar, com alguém que estava fora dele. Não teria atrevimento o suficiente pra responder à pastora como eu deveria e escapei da situação com sorrisos amarelos, mesmo vendo o sorriso verdadeiro dela. Não era um disparate o que me dizia, na sua percepção. Não interessava que eu tivesse respondido com toda a sinceridade da minha alma que estava feliz. As coisas tinham começado a se estabilizar, eu tinha voltado a fazer planos a médio e longo prazo e apesar de muitas questões, sentia que melhorava a cada dia e que rumava firme à vida que eu queria e estava pronta pra viver, como de fato foi. Mas não, eu não sabia de nada. Jovem e tola. "Como alguém pode ser feliz se não for desse jeito?"

Hoje, no entanto, sei que felicidade é algo que incomoda ou que, no mínimo, traz alguns questionamentos. Não foi pouco que eu ouvi perguntas sinceras, de pessoas que não estavam com inveja, mas realmente curiosas do porquê de eu ser feliz. "Menina, porque tu é assim, hein?". Não me incomodam, a não ser que eu sinta inveja, recalque, qualquer coisa do tipo no questionamento. Mas eu sempre fico pensativa depois de uma questão dessa. Sempre há um tom de que aquela felicidade, alegria ou seja lá o que se chame, é uma coisa inerente. Eu sou assim, talvez tenha nascido com isso e depois de alguns percalços no caminho, desfruto. Olha, não é bem assim.

Pra eu dizer hoje que sou feliz, sem aquela dúvida pairando no ar, sem questionar pra mim mesma a legitimidade disso, demorou, amizade. Forcei a barra pra caramba e doeu muito, muito mesmo. Foi uma coisa conquistada, uma decisão diária. Lembro bem das vezes que eu tive que dizer pra mim mesma: "Você vai fazer isso nem que tenham que te apagar com sossega-leão depois". E, olha só, apagaram mesmo. Lembro das noites que chorei até dormir (sdds dormir), sentindo algo estarrecedor e lancinante, sofrendo calada, sem chamar ninguém. Era uma das técnicas pra não piorar, pois eu sabia que se chamasse por socorro, era caixão e vela preta, morreu Maria-preá sem choro, era tchau e bença. Chamar por alguém era sinônimo de parar de lutar, era deixar aquilo tomar conta e aí sim era a merda muita, por que eu saía da realidade e parava, mesmo que momentaneamente, de ter o controle sobre minhas ações, pensamentos e percepção do mundo. Era por isso que eu tinha que resistir.

Não sei, quando você passa por um tipo de sofrimento tão intenso quanto esse, as mínimas coisas são comemoradas. Imagina aí como eu fiquei no dia que eu consegui contornar pela primeira vez uma crise? Ou o dia que eu fui pra escola depois de 3 meses sem pisar lá? A normalidade se tornou um prêmio pra mim. Enquanto todo mundo voltava pra casa fatigado, resmungando, eu olhava pras pessoas e ria comigo mesma, satisfeita por não estar sentindo nada.

É, realmente, tudo se perspectivou. Tudo o que me desse o mínimo de prazer era supervalorizado. Isso foi até um problema durante um período, por que eu já não via sentido em "perder meu tempo" em coisas como estudar, por exemplo. Quase reprovo no último ano do ensino médio, por que chutei mesmo o pau da barraca. O que era ficar horas estudando naquele ritmo frenético quando eu podia me ocupar com atividades mais agradáveis? Eu lembro de sempre cabular na cara-dura os horários antes e depois do intervalo, com a complacência de professores e do diretor, que até vinha bater um papo às vezes. Todos se interessavam pelo que eu tinha dizer e eu, compreensivelmente, me sentia como uma heroína que tinha derrotado o chefão da última fase.

Mas, para o bem da verdade, tudo mudou mesmo quando eu internalizei de que eu era a responsável por mim. Exorcizar meus demônios, ficar em paz com meu passado, olhar pro futuro e seguir adiante, não importasse o que viesse. Não é fácil e continua não sendo. Ser feliz, pra mim, não veio de graça. Deu trabalho, mas o esforço agora é no automático e a lida compensa bastante. Hoje estou mais calma, mais resiliente aos percalços (sempre muitos!) mas tem horas que eu me sinto absolutamente cansada. É a hora de lembrar: vale à pena me cansar de lutar por mim, já que eu sou a única pessoa que pode fazer isso. Não canso, porém, de repetir: minha felicidade é racional! Não me desumaniza, não me torna melhor que ninguém, não me idiotiza nem robotiza. Não sou a Mary Poppins nem a Pollyanna. E é por isso mesmo que essa decisão precisa ser lembrada constantemente. Keep swimming. :)

PS: Senti incômodos depois que publiquei esse texto. Principalmente por ter rasgado no Facebook, coisa que não costumo fazer. Quem é leitor do blog (!) ou me conhece um pouco mais que superficialmente, pode entender melhor o que eu queria falar. A questão toda do texto era que, pelo menos na minha experiência, a felicidade é algo a ser trabalhado diariamente de maneira racional. Não é você simplesmente pesar os fatos que acontecem na vida e decidir que, por eles, você pode ser feliz. Se for por aí - se eu fosse por aí - teria muito mais motivos pra estar triste do que alegre, pra falar a verdade. Talvez seja preciso que você tenha que se enganar, rasgar a razão do desespero e ressignificar as coisas pra poder ter um pouco de paz.

Também me incomodei por não ter citado em momento algum que essa conquista de hoje não foi um esforço puramente pessoal. Depois que fui acometida pela síndrome do pânico, o processo de cura foi longo, custoso e principalmente doloroso. Mas eu não estava sozinha. Felizmente, a minha família, amigos e dois profissionais excelentes vieram em meu socorro. Aos trancos e barrancos, investimos dinheiro, tempo e paciência e pudemos ver os frutos da minha melhora. Obviamente que nem o melhor psiquiatra ou psicólogo do mundo poderia fazer um bom trabalho se, em primeiro lugar, eu não estivesse mais do que disposta a levar um tratamento à sério. Estava. E essa foi a minha parte da decisão de parar de sofrer daquela forma. Sei que falar disso é um assunto complicado. Tenho absoluta empatia por quem sofre de qualquer sofrimento psíquico e sei que a minha experiência não é universal. Muita gente sofre de mais de um transtorno e as dificuldades são enormes de acesso a um tratamento adequado. Dinheiro, apoio emocional, distâncias geográficas (eu, que morava no interior, tinha que me deslocar toda semana pra capital, longe, pra fazer as sessões) e profissionais verdadeiramente competentes (me meti em umas duas enrascadas antes de achar). Isso fora todo o estigma posto em cima de quem sofre, mesmo que esses tipos de doenças sejam cada vez mais comuns em pessoas cada vez mais jovens, como no meu caso. Aparecem pessoas muito bem intencionadas, mas elas estão submersas no senso comum. De repente, a tua doença é culpa tua. "Tenha força de vontade!", "Se você tivesse um pouco mais de fé...", dentre outras bobagens que nos dizem. Pra mim, a religião em que eu estava passou a me fazer mal. Meu transtorno foi atribuído a alguma espécie de possessão e eu fui submetida a coisas que é melhor pra minha sanidade nem lembrar, por pessoas - friso! - muito bem intencionadas (ou não, né? Quero crer que sim.)

Agora com algumas questões pontuadas, volto a repetir: minha felicidade foi conquista. Sentir-me bem com a minha existência hoje e já há algum tempo deu trabalho, mas valeu à pena. Não serei leviana com a minha história de não me sentir orgulhosa disso. Se pra outras pessoas, essa satisfação sempre foi uma coisa que rolou, ótimo. Ótimo mesmo. Tenho arrepios em pensar numa sociedade onde todos fôssemos doentes e incapazes de experienciar isso desde cedo.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A procura


Teu nome é do tamanho de um suspiro. Tão delicado quanto uma flor. Teu nome é a luz que me clareia. Teus olhos, tão lindos, estão nos meus, me chamando de meu bem. Teus olhos chamam. Entro no teu coração, o culpado, pra ficar lá, quieta, esperando tu chegar. Os pensamentos de chamar te chamam, te gritam. Quantos pensamentos de chamar já não te lancei? Não há como escapar do teu encanto. E eu jamais quis fugir dele, meu amor.

Tu é a fogueira. Tu é o fogo. Tu é um estado. Tu é a tua mão. Uma grande metonímia humana. O todo pela parte, a parte pelo todo: tu era teu coração e teu coração era tu. Não se cala. Teimosa, não se cala. Nunca o fez. Jorrou em mim sua vida como quem esquece dos seus efeitos. Feiticeira nata, das que jogam feitiços sem saber. Meu nariz deteriora sem cheirar teu cheiro, por que foi feitiço forte, conjurado desde a pedra fundamental da Terra, de que teu olor me faria voltar pra ti, mesmo que eu andasse e percorresse todos os confins desse planeta. E eu feneço a cada dia que sei que tu, ingrata, foi embora de mim.

Há algo no firmamento estranho hoje. O céu esteve mais azul do que antes e ventou como não costuma. Sentindo tu, mulher, em meus sentidos, respirei daquele ar, te absorvendo, enchendo meus pulmões de ti, procurando desesperadamente o teu cheiro. Só enquanto eu respirar, vou procurar por ti. Eu sempre vou procurar por ti. E mesmo achando teu cheiro só nos ventos que não costumam, resisto ao teu conjuro e torno a viver.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Pensamentos de fim

Esse 2015 não tá de brincadeira comigo. Falei com uma amiga que ele estava sendo, talvez, o oposto exato do que me aconteceu em 2014. Aquele ano das realizações, do imprevisível, da cura, dos sonhos concretizados. Esse ano, mesmo que ele tivesse sido maravilhoso em todas as áreas da minha vida, fez a terrível falta de levar a pessoa que eu mais tinha conexão no mundo. Aí não precisa falar mais nada, basta ver meus dois últimos textos nesse blog pra saber o quanto foi algo devastador. E ao leitor assíduo, que creio não possuir (não por falsa modéstia), é só lembrar das várias menções que fiz à minha avó nesse tempo todo em que me derramei, nesse blog.
Nesse dia mau, na madrugada, tremia da cabeça aos pés, com celular na mão, tentando escrever alguma coisa, me informar melhor sobre o que tinha acontecido. Felizmente uma outra amiga dormia comigo e dizia aos amigos mais próximos sobre o ocorrido. Minha mãe tinha pedido a ela que perguntasse qual deles poderia me levar à minha cidade de carro. Já previa o quão doloroso seria a viagem, aquelas cinco horas inesquecíveis, dentro de um ônibus cheio de gente, aparentemente indiferentes aos meus choros abafados, aos gritos calados que eu dava, àquela dor lancinante que ia comigo. Quis me poupar, mais uma vez. Eu te entendo, mãe. Obrigada.
A minha amiga mais chegada, uma das irmãs que eu fiz aqui, me disse algo que eu vou demorar a esquecer, ainda durante a madrugada: "Escreve." Vaza a tua dor, menina. Enquanto eu ainda tremia, tentava comunicar aos meus amigos o que se passava. Inútil. Quando abri umas três conversas pra comunicar e gritar por socorro, nem a coordenação motora, nem as lágrimas me deixaram escrever algo que tivesse nexo. Sem conseguir dormir até a hora de viajar pra cidade e bem mais calma, mandei uma mensagem pra alguém que me importo muito. Foi só aí que eu consegui fazer o que minha amiga, que me conhece muito, me aconselhou. E nos dois dias que se passaram lá, vivendo um de meus piores pesadelos, quase sem forças físicas, era só pra essa pessoa que eu conseguia colocar pra fora. Obrigada. Serei grata pra sempre, tenha certeza.

A gente parece que tenta se enganar. A gente se repete umas coisas que tão se vendo que são mentiras, a gente só não quer admitir. "Nem sei porque tô te mandando isso". Mentira, clara mentira. Sabe sim, sempre sabe. Era pra pedir o socorro e ter o alento. Era pra dizer que algo muito mais importante tinha acontecido. Era pra deixar claro que, mais do que nunca, eu precisava do meu lado. E as pessoas que eu lembrei, foram as que eu queria ter ao meu lado. Que segurassem minha mão. Pelo horário do acontecido e pela distância e outras impossibilidades, os abraços dos queridos ficaram retidos por alguns dias.

Outra mentira que eu sustentava pra mim era a de que eu estava bem. Não estava. Passei um mês entre uma sensação de normalidade que me era (e ainda me é) estranha e a tristeza profunda, acompanhada de sonhos tristes em que acordava chorando. As coisas não se escondem. Se está em nós e nós calamos, vão sempre pra onde podem falar. E esse mês, falei, claro, mas muito pouco do que eu tenho a dizer. E me afundava em silêncios de dias inteiros, onde não abria a boca, mas o coração sangrava palavras e mais palavras que não se atreviam a ganhar forma. O meu novo estado veio à tona: a não-convicção do que está além desse plano me fazia olhar aquela situação de um modo incômodo. Incomodei-me com a violência simbólica que tinha perdido a sutilidade, justo naquela hora em que estava emocionalmente devastada. Tive que segurar a minha raiva pra não dizer grosserias a quem também estava sofrendo. Mas até que ponto era justo pra mim, ainda ter que passar por mais isso? Essa raiva ainda me persegue. Em sonhos, nas lembranças, nas menções. Sou pessoa difícil de deixar pra lá. Cheguei a sentir inveja da fé das pessoas. Quis, como quis, acreditar que ainda teria oportunidade de vê-la em mais outro lugar, assim como todas aquelas pessoas. Depois, mais calma, deixei de invejar aquela fé. Soube, do fundo do meu coração, que também teria consolo. A nossa história de vida regada de amor me curaria e que a existência dela tinha sido o mais importante, mais até do que seu fim, mais até do que qualquer expectativa sobre o futuro.

Ao chegar nessa cidade, um grande amigo me resgatou de casa e fomos passear, pra conversar. Ainda tinha que falar tanta coisa pra ele. Tinha acontecido tanto e a gente ainda não tinha tido tempo pra conversar direito sobre as coisas. E uma das conclusões da conversa, era a de que a fé era algo que ajuda muito as pessoas, mas, em compensação, seria um desserviço, caso outra morte ou algo trágico em outra ocasião acontecesse. A minha morte, por exemplo. Depois que a vida jogou todo o peso do mundo em minhas costas, ainda bem cedo, eu compreendi que eu estava sujeita a tudo. E não é mais impensável pra mim que a qualquer momento, por uma coisinha de nada, a minha vida se acabe. Infelizmente, eu tenho a sensação de que muitos dos que me amam, por causa da fé, cometeriam a injustiça de desconsiderar toda a minha vida, história e felicidade, apenas por que eu não me encaixo mais nas coisas que eles acreditam. Será se meu pai e minha mãe acreditam que eu iria diretamente pro inferno? Sim, muito provavelmente. Queria dizer a eles que não. Não pretendo morrer tão cedo, mas se acontecer, não, meus pais. Não, família. Eu vou apenas parar de existir e a minha existência foi boa, eu fui feliz. Alegrem-se por isso. Mas será um assunto que ainda manterei calado por um tempo. Coisa sensível demais pra pai e mãe.

Esse texto está triste demais, eu sei. É mais um daqueles escritos longos, de desabafo. Um dos motivos de eu não divulgar mais fortemente esse blog, já que quero mantê-lo como refúgio. Mas "a boca fala do que o coração está cheio". Ainda não consigo pôr só o que é e tem de bom pra fora. Ando muito triste com o rumo das coisas, em âmbitos muito maiores do que essa vidinha que eu levo que, colocando tudo na balança, é bem boa e confortável. O que me salva, talvez, é que eu sou uma criatura muito cheia de esperança. Enquanto eu tiver isso, vou conseguir olhar pra frente sem medo.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

15 dias de palavras acumuladas

Pensei. Pensei não, tive a certeza. Iria me afogar num mar de palavras não jorradas. Eu nem sei direito desde quando estou com elas represadas, mas já aconteceu de TANTA coisa, que fica difícil até colocar pra fora e tentar organizá-las na ordem em que elas devem vir.
A mulher minha tão amada, o meu coração em outro corpo. Ela caiu, sangrou no banheiro da capital. Eu fiquei no escuro por dois dias, até que minha mãe chega com a notícia que me gela toda a espinha dorsal, sem clemência. Vou atrás de saber o que houve, sem muito sucesso. Fico com as parcas coisas que minha mãe também sabia. Escorregou não se sabe como, caiu no chão do banheiro frio, bateu com a testa em algo que eu não sei o que é, abriu o buraco na cabeça dela. 84 anos. Osteoporose. Era capaz de ter quebrado um osso importante, ou desimportante que fosse... Ia ser mais difícil. Disseram que teve momentos de confusão, que não reconheceu as pessoas por alguns momentos. Depois voltava à rotineira lucidez. O meu coração sentiu uma dor tardia e bem familiar, sentida alguns dias antes, quando ela estava doente nas minhas mãos. Dessa vez, o conforto da presença era impossível. O amor, no entanto, estava lá com ela e continua, enquanto se recupera firmemente, muito mais resistente do que todos nós imaginamos. Vai sair dessa, ela.

(Era uma quinta, ao meio dia, que ela me disse dela.)

***

Um dia depois, foi um dia ocupado. Mesmo com os pensamentos direcionados a ela, o coração estava ansioso pelo que eu estava esperando desde novembro do ano passado, quando, em um dos meus famosos rompantes, comprei as passagens na promoção. Só era pra março do ano seguinte, mas eu estava disposta a esperar. Não deu pra março, por que a vida não deixou. Seria pra maio, show do Buena Vista Social Club e meu aniversário no fim, antes da partida. Mas nem nas mais loucas das minhas alucinações, eu poderia prever o que estava prestes a acontecer. Por um descuido terrível, quem iria me abrigar nessa cidade fria, longe de casa e totalmente desconhecida pra mim, se esqueceu que iria fazê-lo. E o pior: viajou pra outra cidade no mesmo dia da minha chegada e sequer me deu opções, ou me ajudou a procurar um plano B. Eu acho que eu nunca escrevi um "Tá bom" tão cheio de decepção na minha vida. Apenas por um desencargo de consciência, poucas horas da viagem, eu pensei, no shopping: "Droga! Não passei pra ele o itinerário... Como é que ele vai me buscar sem saber que horas eu chego?". Pra, já na sala de embarque, depois de não ter mais volta, eu ver a mensagem de que nem sequer estaria aqui.
Felizmente, eles ainda não pesam as pessoas antes de embarcá-las. Eu não pagaria excesso de peso, por que eles nem deixariam eu entrar. Como o avião subiria ao ar, se só o meu coração pesava mais que ele próprio? Era um contrassenso físico, a minha presença ali. Com uma resiliência que eu jamais achei que fosse ter numa situação dessas, embarquei, sem ter a certeza se o plano b que eu procurara rapidamente, antes da confirmação de que não me receberia, realmente se concretizaria.
Se tem algo que é constante na minha vida, é que eu sou muito friorenta. Mas sempre aparece, do nada, um cobertor pras friagens. Numa coincidência incrível, uma conhecida embarcou também e pedimos pra sentar juntas. Aquela moça não sabe o bem que me fez, ao estar lá conversando comigo e não me deixando sozinha com meus próprios pensamentos, que eram difíceis demais na hora. Ao mesmo tempo em que também deitei ela no meu peito, acalmando, porque o seu medo das decolagens e aterrissagens eram de cortar o coração. Nos ajudamos e nos fizemos companhia. Conversamos muito e o tempo pôde passar mais rápido e, por alguns instantes, aquela lembrança de que algo estava errado, parava de me incomodar um pouco.
Felizmente, a mão amiga veio em socorro a tempo. Claro, não dormiria na rua, mesmo que não houvesse essa mão, mas iria ser mais complicado me manter durante 10 dias aqui, sem ter feito uma programação financeira que incluísse também a hospedagem. Ligações precisariam ser feitas e, claro, eu ia escutar muita, mas muita coisa nelas.
Durante muitas ocasiões na minha vida, eu deixei que coisas passassem batidas. E eu aprendi que uma porrada de revide tem o seu prazo de validade. Depois da oportunidade perdida, você pode até ainda querer dar, mas ela nunca terá o mesmo efeito. Parecia que não tava acontecendo, apenas. Que era algo inventado pela minha imaginação novelesca. Eu lia as mensagens que me mandava e quando falou que iríamos nos ver durante a semana, pensei em dizer "Não precisa... Deixa pra lá. Não vale mais à pena". E meus dedos ainda escreveram, pra depois apagarem, arrependidos. Não é assim. Não sou assim. Vim de tão longe pra vê-lo e eu sabia que merecia uma explicação pessoal. Que, se quisesse, se tivesse coragem de me enfrentar, eu estaria disposta a deixá-lo se explicar e, talvez, até perdoar.
Mas a grande verdade é que eu queria perdoar. Eu não entendi porque tinha agido tão displicentemente comigo. Parecia que tinha apenas aberto uma janelinha no seu cérebro e me jogado pra fora dele. Parecia que tinha pensado: "Não vou lidar com isso agora. Foda-se". Quando me pediu desculpas por mensagens, depois de uma pequena alfinetada minha, entendi que as barreiras linguísticas estavam presentes: aprendi na terrinha que não se pede desculpas pra coisas grandes. Desculpas são pras coisas pequenas. Pras coisas grandes, o que se pede é perdão. rs Também entendi que aquilo não condizia com o seu próprio caráter, que algo muito maior deveria estar acontecendo pra ter agido daquela forma. E, por mais que eu pensasse que é pelo muito afeto que nutro, que iria querer perdoar de qualquer forma, sabia que não estava enganada.
Desci as escadas do prédio do meu novo abrigo, com um coração que novamente não cabia em mim. Lá estava ele. O mesmo casaco vermelho que usava nas fotos de perfis. Não havia o que tirar nem pôr do que se mostrava. Nos sorrimos e nos abraçamos. E, já no abraço, eu senti aquele peso saindo todo das costas. Já no abraço, eu entendi que aquilo seria resolvido, de alguma forma, já que teve coragem de vir até mim, coisa que eu temi que talvez não tivesse. Coisa que eu, no passado, já não tive.
Caminhamos e eu fui escutando muitos pedidos de desculpas. Mas ainda precisava falar algumas coisas que ainda tinha. Do fundo do coração, o objetivo não era castigá-lo mais, - por que era visível o quanto estava derrotado pela culpa - mas deixá-lo ciente de possibilidades que eu acho que não lhe passaram. Antes de tudo, eu queria entender, pra perdoar direito, de coração, de todo.
Eu tremia de frio. Ele falava de coisas que eu não sabia e eu imediatamente reconheci naquela história, uma outra, bem longa e antiga, que já tinha sido minha há anos atrás e que ainda não tinha deixado totalmente de ser. Não foi preciso mais nada. Estava perdoado. Não tinha como compreender mais o que estava acontecendo. E se havia algum resquício de mágoa, também se foi. Voltou aquela vontade esmagadora de enchê-lo de beijos, de dizer que tava tudo bem, de abraçar, de cometer um atentado ao pudor naquela lanchonete. hahaha
Uma hora, depois de eu ter falado como se eu soubesse que perderia a voz no outro dia, ele me fez um elogio e eu parei o movimento pra colocar o casaco na cadeira bem no meio. Fui, com velocidade, dar o beijo que guardava na vontade há um tempo irracional. Segurava a mão dele, tentava me aquecer. Era o nervosismo, sei lá. Como era bom o beijo dele... E eu temia tanto de não dar certo, sabe? De não bater os santos beijoqueiros... Mas não. Se eu pudesse, passaria esses dez dias beijando e muitos outros mais.

Voltamos os dois, nervosos, de braços dados, no frio (pra mim). Nos abordou um cara pedindo moedas pra completar a passagem e eu não senti um pingo de medo. Chegando no meu prédio, não resisti: agarrei, puxei pra parede e ficamos lá, como dois adolescentes, dando amassos no muro do prédio perto de onde a moça estava.

(Era segunda à noite. 14º e eu usava luvas.)

***

Puta que pariu. Era show do Buena Vista Social Club. O único e o último que eu teria oportunidade de ver na vida, já que era a Adiós Tour, passando por algumas capitais brasileiras. Lembro de ter visto no feed de notícias, o moço confirmando a presença no evento e de ter planejado a viagem justamente pra coincidir com a data. Sem grana, deixei pra lá a oportunidade de comprar o ingresso pela internet e, quando eu fui atrás no sério, já tinham esgotado todos. Fiquei triste. Mas, por uma sorte sem fim, consegui comprar um dos últimos ingressos. Chorei, dancei, gritei, me acabei. Enchem os olhos só de lembrar. Tinha hora que eu ficava só lá, parada, embasbacada, contemplando. Absolutamente sem acreditar. Que noite linda. Que noite linda.

(Era uma quarta à noite.)

***

Carinhos, mãos, línguas e dedos. A própria pele. Mamilos, cabelos, saliva e até suor, mesmo no frio. Fluídos. Era inacreditável. Eu disse. Era nervosismo, ansiedade, era o novo, tão esperado. Foi descanso, foi carinho, foi orelha que não se aguentava, foi abraço, foi conversa. Foi tudo. Foi um. Foi pouco.

Foi muito.

(Era quinta, numa manhã de manifestos.)

***

Danei a falar. Mas é que passava tanto tempo calada ou conversando só comigo mesma, nas andanças intermináveis ao centro, que parecia que nunca mais eu iria ter esse poder de novo e tinha que aproveitar os últimos momentos. A estrada era tão linda. Vieram histórias, avós (a minha e a alheia, que eu aproveitei por uns dias), avôs e outras amenidades. Veio tanta coisa a ser lembrada. Não sei. Era como se não fosse dar tempo pra contar tudo o que eu tenho pra contar. É, eu estava certa. Não deu. Mas eu sei que nem se fosse um mês de contatos ininterruptos, também não daria. Devo ter enchido o saco de tanto falar, mas não conseguia me segurar. Talvez fosse de novo o nervosismo ou talvez me achasse muito à vontade ao seu lado. Uma mistura dos dois.
Pegamos a estrada pra uma viagem curta, bonita. No começo dela, as urgências, as provocações. Também não deu pra segurar. Não con-se-gui. Não estava em nenhuma prova de resistência... rs
Não fazia tanto frio como eu imaginei. Nenhum dos dois casacos pros diferentes frios foi necessário. Ficamos vendo as cidades que dava pra ver da Serra, depois de um almoço faraônico, onde eu pouco comi, com esse meu estômago de passarinho. O moço sentia dores físicas. Eu pouco podia ajudar.
Voltamos. Passamos pela cidade onde morou maior parte da vida. Pegamos a estrada de volta e só o que eu sabia era falar. Meu deus... Que perversidade. Que bom que, pelo menos, o moço disfarçou a encheção de saco que aquela falação toda se tornou. :D

Chegamos. Estava mal. Conversamos. Ia ficar tudo bem. Não precisa nem pedir pra compreender. Já estava compreendido há muito tempo, desde que eu soube.

(Sábado à noite. Fazia frio, mas o coração batia quente.)

***

Meu aniversário. Saí de casa com uma coisa tão boa nos sentidos. A cidade foi tão boa comigo esse dia, que eu mal acreditava na impossibilidade de estar ali, justo nessa data que eu gosto tanto. Fui, mais uma vez, direto ao centro. Mesmo num curto período de tempo, já sabia onde eram meus refúgios: o Mercado Público, a Casa de Cultura, o banco da praça e o próprio caminhar. Depois de umas confusões, peguei um barco pra cidadezinha do lado. Coisa mais fofa, aquela orla. O vento era frio, mas fazia sol e eu tinha a agradável sensação de estar sendo presenteada pelo tempo. Não foram poucos os pensamentos olhando praquele rio, nem poucos os sorrisos que meus amigos e familiares próximos, mesmo de longe, me provocaram. Estava tão sozinha, mas ao mesmo tempo, tão completa... Naquele momento, eu me bastei. Sentei num dos bancos de uma estrutura que havia e passei um tempo imprudente com aquela sensação, entregue a mim mesma, me sentindo feliz. Esqueci de tudo por não só um instante. Fechei os olhos e senti a leveza de estar, ser e continuar sozinha o resto da minha vida, no sentido mais primeiro da solidão, mas ser o suficiente.
Havia um restaurante pequeno, mas muito acolhedor na orla do rio. Entrei, me sentindo confiante. Era relativamente chique pros meus padrões, que não costumo frequentar esses lugares assim, pela simples ordem da vontade. Era meu dia, eu podia tudo! Alguém que parecia ser o dono ou o gerente do lugar me atendeu e anotou meu pedido. Eu expliquei como queria o ponto da carne e acho que devo ter falado demais, já que ele falou, já meio irritado: "Entendi, entendi!"
Logo após, um garçom muito amável me atendeu. Ria pra mim com um sorriso bonito, sincero. Fez-me sentir como alguém que era querida ali. E não, ele não estava dando em cima de mim. Estava tão somente me tratando bem, com amabilidade. Deve ser um bom anfitrião, esse senhor.
Voltei à cidade, no mesmo barquinho. Olhando para o rio (era rio mesmo?) e percebendo que eu tinha uma sorte danada de estar ali, onde eu queria estar, fazendo o que eu queria fazer.

Mas ainda não era o suficiente. Eu ainda o queria. Três encontros esparsos, poucos, que não me mataram uma vontade desgraçada que eu carregava pra onde eu ia. Tinha se tornado inerente, a vontade. Esperei, esperei, esperei... Nada. Queria o abraço esmagador que tinha me prometido, mas não só ele. Quis muito, acabei ficando sem nada. E o mais louco é que eu fui explorar a cidade à noite, mesmo com o meu medo provinciano. Vesti um vestido lindo, me pintei, botei o salto e saí no meio do mundo, atrás de alguma diversão no trecho boêmio da capital. Olhei praquele lugar, a única parte que me pareceu agradável foi uma livraria, onde me comprei um livro do Galeano. A atendente me indicou um barzinho legal, mas tava fechado... Acabei entrando num que, aparentemente, estava vazio. Não estava. Assim que sentei, o garçom veio me dizer que, nos fundos, estava tendo um grupo de samba sem couvert (sei lá como se escreve). Mais gente, mais animado. Já que tá no inferno, dá logo um abraço no capeta. Fui lá. Chamei a atenção. Talvez muito mais por ser uma mulher sozinha do que por quaisquer de meus atributos. Claro, tinha o fato de eu ser diferente de todas as mulheres que estavam por lá. Todas as poucas seguiam o padrão da mulher branca, loira e de olhos claros. À parte do resto, havia um grupo de umas dez pessoas que comemorava o aniversário de um deles, também. Inclusive, cantaram parabéns pra ele e eu lá, fazendo de conta que era pra mim, também. Sambava lá, só. Não me lembro de já ter feito isso. Estava estranhamente feliz. Era como se eu tivesse um segredo muito legal. Não estava bêbada, tampouco estava sóbria. Alguns chopps e eu, sabendo da minha pouca resistência, resolvi parar. Afinal, ainda era cidade desconhecida, eu ainda estava sozinha, ainda teria que voltar pra casa em um estado apresentável.
Até que se manifestou e eu, depois da raiva inicial, entendi. Falei isso: entendia. Entendia. Puta que pariu, como que eu poderia não entender? Queria ter lhe dado um abraço naquela hora. Não o mesmo, das outras vontades.
Foi quando eu joguei logo a farofa no ventilador, disse que amava mesmo, tava nem aí. Mas que também sabia o que era aquilo. E eu tinha plena consciência, mesmo ébria, que tudo o que foi possível viver ali, teria sido impossível se dependesse de mim, se estivesse ainda acometida. Por isso sabia que ele era corajoso. Por isso disse que tudo estava bem, porque realmente estava. Por isso que sabia que precisava dar um freio à paixão, mas não ao amor.

Quem tem pressa é a paixão.

(Era segunda, foi dia e noite. Completava meu primeiro quarto de século.)

***

Pela manhã, depois da noite parcialmente dormida, decidi não sair de casa. Tinha a mala pra organizar e não lembrava de ter algo que eu realmente gostaria de fazer, que ainda não tinha feito, na cidade. Se sobrou, fica pra próxima. O voo seria à tardezinha, no crepúsculo. Lembrei que ele nem sabia e me despedi, sem pensar que ainda haveria qualquer possibilidade de encontro naquele dia. Saio hora tal, chego hora tal. Beijo. A gente ainda vai se ver... Etc. O susto quando disse que daria tempo. Eu não criaria expectativa, já que dependia de outros fatores, como o transporte intermunicipal. Se desse, seria ótimo. Se não desse, tudo bem.

Deu. Ainda bem que deu. Eu já tinha estourado o horário do embarque. Já tinha despachado mala, feito check-in, tudo no mundo. Mas aquela viagem ainda me devia um beijo de despedida. Meu coração batia descompassado. Ao mesmo tempo que queria demais vê-lo, se eu perdesse o voo, eu estaria só com as roupas do corpo numa cidade de frio insalubre pra mim. Chegou e eu tive que segurar minha onda. Beijei, mesmo com todo aquele papo de deixar paixão pra lá. Eu sou uma sem palavra mesmo! E não foi só um, foram vários! Hahahaha
Subi no avião da volta com uma sensação que poderia ser considerada oposta completa da da ida. Se o coração estava pesado, voltou leve. Voltou feliz. Voltou sabendo que fez o que tinha que fazer.

(Terça, dia do pôr-do-sol mais lindo da vida.)

***

Esse escrito já é de muito tempo, dado a tudo o que já aconteceu depois. A mulher dos primeiros parágrafos, se foi. Esperou que eu chegasse, pra não atrapalhar essa viagem, eu acho. Olho todos os dias pra ela, em uma fotinha mental e me declaro como sempre, como sei. Quanto ao moço, sua mão estava longe quando tudo isso aconteceu, mas senti ela segurando a minha, como várias outras que seguraram também de longe.

Não tinha intenção de publicar esse escrito. Tem demais. Poderia deixá-lo guardado, pra mim, em algum lugar secreto. Mas esse lugar é um dos meus lugares-abrigos. Sempre me senti livre aqui, neste blog. Não queria fugir à regra logo agora, depois que coisas importantes me foram negadas, como a presença. rs Acabaram entrando muito mais do que 15 dias de palavras acumuladas, eu sei. Mas mantenho o título original, escrito ainda no frio, quando tentava colocar pra fora toda a minha perplexidade diante de tudo. E não é que tudo terminou bem?

Sou eu aqui, mas não definitiva. E que venha o melhor!

(Quinta. Sentindo o calor que eu não costumo sentir, na minha terra, no meu aconchego.)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A repetição


Interessante. Eu estou pra morrer de palavras há mais de mês. Por um infortúnio dos diabos, acabei ficando sem um dos meus únicos derrames sérios: este blog, por conta de uma queda que eu dei no meu notebook, há um tempinho, já. Sem perceber, fui escrevendo muito na cabeça. Fazia, todas as noites, como que para copiar aquela época sabida, um ritual de sentar numa cadeira de plástico (que eu não tenho), em frente a uma penteadeira que servisse de escrivaninha (que também não possuo) e despejar letras e letras no caderno de número 6, que foi onde interrompeu-se a narrativa bruscamente.
Interessante porque me demorou a sair esse primeiro parágrafo. E não há texto meu que pode conter o tanto de vida que tenho vivido de maio pra cá. Infelizmente, não só o bom. Houve o choque, a incerteza, a angústia, a dor terrível, o mutismo, a preocupação. Mas também houve a sorte, o acolhimento, a felicidade, o êxtase, as saudades boas, amigos e muito amor. Não. Nenhum texto pode me contar. Nenhuma escrita, por mais fidedigna que seja, não me cabe. Os dias passam e parece que expando em três, mas nem essas duas moças extras dão conta da quantidade absurda de alma que está aqui.

Mas a necessidade obriga.

Ontem, uma conta ruim se fez: um mês sem ela. Estou aqui na minha cidade e fiz o que seria impossível se ela estivesse aqui. Já é o terceiro dia que eu estou e ainda não pisei na casa dela. Ainda não fui lá. Não sei direito. Dói, né, porra? Dói que avimaria. Desmantela mesmo. Como, por tudo quanto for sagrado, eu vou entrar naquela casa sem gritar uma esculhambação pra ela, que me receberia dando um pulo da cadeira, bem alto, dizendo: "Ah, vaca prenha..."?

Quando eu escrevo sobre ela, parece que eu estou me repetindo. Parece que eu estou gritando aos quatro cantos o quanto eu a amo, sendo que isso é sabido e notório até por quem me conhece superficialmente. E não só para quem porventura me lê. Por estar escrevendo na cabeça freneticamente, quase sem me dar descanso, tenho a impressão de estar me repetindo nas linhas, nas ideias, nas comparações. Parece que eu já sonhei chorando e, se eu chorar na realidade, não seria o choro original.

Além de tudo, estou temerosa pelos meus planos. Confusa, na verdade. E sei que já está mais do que na hora de trabalhar pra alcançá-los verdadeiramente e não ficar apenas na divagação que, segundo um amigo, é coisa que eu faço demais. Uma coisa inesperada nesse âmbito já me aconteceu que me fez acreditar um pouco mais. Apesar do meu temperamento, muito mais resiliente do que nunca antes, estou evitando algumas coisas. Pode ser que seja só o luto. Pode ser que eu tenha envelhecido um pouquinho mais, sem que tenha sido só pelo meu aniversário. Sofrimento verga a gente mesmo, né?

Dentro em pouco, talvez eu tenha que passar por mais uma coisa que eu juro: não queria. Ter conviver com alguém que eu amo demais, mas que é uma fonte de estresse e de descompasso pro equilíbrio que eu alcancei na minha vida fora de casa, em cidade estranha. É mexer numa logística já muito bem acertada e, pelas condições ainda adversas pra mim, me privar de algo que prezo como quase inegociável: minha liberdade.

Sei que ainda a tenho e que o meu poder de decisões ainda está aqui. Não foi e nunca será tirado de mim. Minha felicidade, certamente, não vai ser menor por isso, porque eu não vou deixar. Vamos atrás das respostas pras novas perguntas. Vamos sonhar mais e ir atrás. Vamos arrancar toda a medida que ainda me paira.

sábado, 30 de maio de 2015

O amor

Quando se pensa em amor, qual é a primeira ideia que vem à sua cabeça? Não, ideia é ideia... Divagação. A pergunta tem que ser mais direcionada: quando você pensa em amor, qual é a primeira pessoa que vem à sua cabeça?

A minha resposta se foi. Um tipo de amor que, talvez, a gente só experimente poucas vezes nessa vida, já não está mais aqui, nesse mundo. A Lulu, a mulher minha muito amada (roubando a frase de Neruda), o deixou na madrugada de um domingo que tinha começado pra mim, inocente e distante da situação, bem feliz. Deixou, por que o seu coração carregava 84 anos de vida. E já tinha sido tanta e tão alegre, que mesmo leve, pesou. Acho que distribuiu tanto amor e afeição, que os músculos que o sustentavam, meio que cansaram de bombear tanto, sabe?

E as lágrimas que quase não me deixam digitar esse texto, me dizem que essa é uma falta que ainda vai se fazer presente por ainda muito, muito tempo. O mais provável é que seja pra sempre. E eu sinto que, a qualquer momento, posso explodir e sufocar de tantas palavras por sair e de tantas lembranças por lembrar. E, de ontem pra cá, quantas vezes não já explodimos, todos?

Há quatro anos atrás, na estrondosa comemoração dos seus 80 anos, nós, como família, pudemos estar todos juntos e celebrar a sua vida, o seu exemplo e o seu amor. Na ocasião, pude falar o quanto ela era - e é! - peça central e insubstituível na minha vida. Veio choro de cá, coisa difícil de sair assim, e veio o seu, bem mais fácil e torrencial, mas ainda assim delicado. O abraço, tão saudoso abraço, chegou. Era só pra dizer: "É tudo verdade. É tudo mais que verdade." Ontem, na viagem mais pesada da vida, eu não tinha dimensão do que ainda estava por enfrentar. Mas tinha. Tinha que te chorar, Lulu, todos tínhamos. Por que a dor não se cabia e precisava extravasar e ainda bem mesmo que extravasou.

Pouco a pouco, vamos todos nós organizando a mente. Filtrando todos os risos, selecionando as melhores gaitadas, ajeitando aqui e ali, tudo o que representa pra nós, como família e tudo o que representa individualmente. Tu era uma pessoa-refúgio. Tu era um lugar, Lulu. Tu era um bálsamo. Tu era mais do que a matrona bondosa de 84 anos. Tu era a minha amiga mais íntima, mais besta pra me rir, a melhor plateia que jamais existirá. A gente não tinha isso de idade quando tava junta. Passei minha adolescência dormindo contigo, na tarefa doce de ser tua companhia e a tua bengala, de acordar às 5 pra desligar o ar-condicionado no palitinho, porque o controle tinha quebrado. Morria de raiva de acordar contigo cantando a música da mulher preguiçosa que, pensando bem, era só verdades. "Mulher preguiçosa/ Não cose, nem fia/ Se deita na cama/ Se acorda mei-dia..." Só verdades mesmo. rs

E, olha, não foi pouco que essa gata me escatitou. E era coisa que nem dá pra sair rasgando em público não, viu? haha Fora as hilariantes tiradas, num humor tão leve e tão faceiro... Outro dia, a gente sentada na calçada, fofocando horrores da vida alheia (sim), passa um menino de bicicleta, o pneu dele derrapa e ele desvia em direção a uma moto que vinha no sentido contrário. Quase acontece um acidente feio. Depois do grito fino que ela deu, assustada que só ela, gritou pra ele: "- Ei, menino, tu quer que a gente vá tomar café com peta na tua casa, é?" hahahaha E, claro, a gente ficou lá se acabando de rir. E a risada dela tá ecoando na mente, no peito, na alma ferida.

"Tu tem que viver". Ela disse, depois que eu falei um episódio dolorido que tinha acontecido recentemente, à época. Ela sabia que, dizendo isso, estaria passando por cima de todas as convenções, alheias e próprias. Mas ela sabia o que era melhor pra mim. Tive que viver mesmo, absoluta verdade. E a vida se mostrou muito maior do que eu tinha imaginado. Ela me entendia. Ela sabia que podia ser livre. Ela não me julgava e eu retribuía o favor.

Vou sentir falta, vó. Lucila, de luz. Lulu, de amor. Estou mais do que certa de que a senhora teve a vida que quis. E realizou o desejo, o mais profundo e guardado de todos os corações humanos: teve a certeza de que amou e foi amada intensamente. E todo o legado que deixou por onde passou, se explica: era desses casos raros de pessoas que viviam o que acreditavam.

Vou continuar, ainda sem saber como, por que tenho e por que foi o que tu sempre fez. Não serão as últimas lágrimas que derramo por ti, nem as últimas palavras a escrever, nem as últimas músicas em espanhol a cantar. 

"O mundo pode mudar ainda mais, o tempo pode passar, nós próprias podemos mudar, mas a senhora sempre me terá por inteiro. Te amo de todo, por que de todo tu é perfeita. Perfeita até mesmo nas imperfeições. Te amo de todo não por que compartilhamos o mesmo sangue, mas por que a senhora já faz parte da minha própria estrutura. Está dentro de mim, assim como as estrelas estão no firmamento.
O meu amor é teu pra sempre."

Sempre. O amor, esse absurdo de amor, que vai curar.

"Como é que você pôde se perder de mim?"

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Identidade

Sou alma. Matéria
Sou espessa, sou nascer
Sou ideia
Sou abrigo
Contigo. Florescer.

Sou bandeira
Sou amado
Sou culpado
Desmorrer.

Sou a peça
Sou o nado
Sou calhado
Sou querer.

(18/05/15)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Pollyanna adulta

A vida de desempregada não é legal. Não precisa ser nenhum mestre Yoda pra saber disso. Talvez, a única vantagem, seja o tempo que se tem pra fazer as coisas que você gosta, mas nem isso é bem aproveitado se você está constantemente preocupada com as contas, com o rico dinheiro que você não receberá no quinto dia útil. Fora que fica uma sensação terrível de culpa. Sim, de culpa. "O que foi que eu fiz de errado no meu último emprego?" "Eu não deveria estar assim, estando prestes a completar meu primeiro quarto de século de vida." E é sim a primeira vez na vida, desde que me entendo por gente, que eu não tenho obrigação de nada. Eram sempre os anos do maternal, depois o ensino fundamental, ensino médio, a vida dividida em períodos da Universidade... Pra depois alguns trabalhos esparsos e agora, o terrível fantasma do nada. E olha que eu estudo por conta própria, mas ainda não consegui demover essa sensação de culpa e o pior, de incerteza.
Depois desse primeiro parágrafo pessimista, o leitor (?) pode pensar que eu estou me sentindo terrivelmente mal, certo? Verdade, não é legal mesmo. Mas ainda assim não consigo não sentir uma esperança de que as coisas vão se ajeitar. Eu lembro muito bem da época em que meus sonhos eram impossíveis de verdade. E, olha que coisa, está tudo consumado. E o que eu fiz foi sonhar sonhos dentro de sonhos. E, me desculpe a vida real, mas é no mundo onírico que eu quero caminhar. Pior que eu e ela somos íntimas. Nos conhecemos a fundo. Estamos sempre de mãos dadas. Então, desde sempre, estou caminhando do jeito que as coisas devem ser, afinal de contas: os pés no chão e a cabeça nas nuvens.
Mas minha esperança não me faz patética. Nem minha felicidade, nem a alegria de viver e muito menos a liberdade. Tudo isso foi conquistado à suor e sangue, com batalhas que eu travei comigo e com os outros desde muito nova pra poder alcançar o que eu alcancei. Eu não sou nenhuma Pollyanna idiotizada. Eu não estou cantando com os pássaros o tempo todo, nem agradecendo ao sagrado pela brisa da manhã. Problemas e questões de todas as espécies parecem me rondar, sempre com um pretexto ridículo pra aparecerem. A questão é: posso desistir? Posso. Irei? Não. Não dá, cara.
Nada é muito fácil, mas eu tenho plena consciência de que, mesmo com todas as adversidades, continuo sendo infinitamente privilegiada nessa sociedade que desmoronou e continua desmoronando, pedaço por pedaço, gente por gente.
Por fim, a esperança cumpre o seu papel. Acalma o meu coração, com o aviso da Pollyanna já adulta pra si mesma: "De pior você já passou".

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Elenice

"Que merda de dúvida do caralho, cara!", falou Elenice. Gostava tão pouco do que tinha no prato, mas sentia uma fome tão descomunal que, mesmo em dúvida, não teve outro procedimento a não ser comer o que lhe era oferecido. Falar isso, no entanto, lhe custou uma noite trancada no quarto. Nesse tempo ninguém tinha celular. Não tinha TV. Não tinha nem a porra dum livro naquela desgraça de quarto trancado que ela pudesse ler. Pra quem mesmo que ela ia pedir ajuda quando tivesse a oportunidade? Ela elencou várias pessoas que pudessem ser úteis em algum momento, mas deixou tudo de lado. Um monte de paspalhos que não teriam colhões suficientes pra lhe ajudar como precisava. Não conseguia dormir porque fazia muito calor e não tiveram a decência de reparar que o ventilador estava quebrado. Tirou toda a roupa, não ficou nem de calcinha. Procurou em algum lugar a água que tinham lhe dado pra uma eventual sede durante a noite e, cuidadosamente, sem deixar derramar nenhuma gota, ia colocando na mão em forma de concha. Esse pouquinho de água, passou de um lado e outro do pescoço suado, mesmo com o cabelo preso. O suor pingava e descia pelas pontas de seus seios. Era inevitável.

Olhou a barriga, já despontava. O pai da criança foi o babaca mais babaca de todos os babacas que ela teve o azar de se apaixonar. No fim das contas, isso nem importava mais. Quando ela chegou em casa e disse que queria fazer um pronunciamento, a família achou que fosse uma das brincadeiras dela. Não, cara. Elenice falava seríssimo. Era pronunciamento mais importante que o que o Presidente tinha dado na quarta passada. Era coisa mais feia que bater em mãe. Era coisa mais séria que pedir empréstimo pra gerente de banco usando havaianas. Não deram nem as horas pra ela, claro. Continuou todo mundo a comer a refeição sem graça do dia, na hora que ela se levantou e colocou uma das mãos na barriga. A mãe sentiu uma agonia ruim no peito. O pai, um esfriamento do espinhaço. O irmão, um arregalamento de olhos. Elenice só disse as seguintes palavras: "Vocês não vão ouvir, não?! Eu tô grávida, porra!"

Essa menina não sabia falar sem xingar. Era mal dela. Tudo quanto foi professor, desde quando ela era pequenininha, reclamava pra mãe, pro pai, pra santa caridade, mas não tinha jeito. O satanás que se apossou dos couros dessa criatura não tinha piedade. Quando ela foi ficando grande, todo mundo já tinha desistido. As outras meninas da rua levavam surras às 10 da noite, quando voltavam pra casa pra dormir, porque já tinham sido advertidas pra não andar com essa filhote de besta-fera. Elenice foi ficando mais moça, interessou-se por caras. A maioria não a queria. Era boca-quente demais, essa mulher. "O cara pra namorar Elenice tem que saber que uma hora é ela que come ele", um inventou o dito que se espalhou mais rápido que fogo na caatinga. Elenice achava era graça desses ridículos que achavam que ela ia mesmo querer alguma coisa com qualquer um deles. Os alvos dela eram outros. Eram os professores que davam as menores notas pra ela. Eram os que diziam xingamentos muito piores dos que ela sabia, só pra provocá-la. Eram os que jamais diriam que nunca namorariam com ela por esse ou aquele motivo. Pelo contrário, ela queria quem tinha coragem pra dizer: "Elenice, se tu tirasse metade dessa tua cara de mau, tu ia saber o que tem de gostoso no mundo". 

Um dia, decidiu que aquela virgindade já tinha passado do tempo. Tinha 18 anos recém-completados e tinha ouvido falar duma senhora idosa que vivia só no final da rua e que se espalhou a conversa que tinha morrido virgem. Achou aquela coisa toda tão triste que, quando na sentinela da velha, olhou pro cadáver inviolado e jurou pra si mesma: "Mas antes morrer puta velha do que moça velha".

Parece que o diabo sempre fica atento a essas determinações ditas em voz alta (ou mesmo em voz baixas, em enterros de senhoras virgens). Duas semanas depois, se mudou pra rua paralela um rapaz cabeludo, cheio de brinco. Ele não era mais legal por ser assim. Os outros achavam que aquilo era coisa de viado e ele teve que demonstrar mais de uma vez que o lance dele não era aquele. Elenice andava com a ideia fixa na cabeça, quando viu o rapaz. Ela soube que seria ele, pelo raio que sentiu nas carnes quando o viu, diferente de tudo o que já tinha sentido até então. E, como nem pra nascer esperou sua mãe fazer força, foi ao ataque, disposta a entregar a um desconhecido o fardo que para si se tornou a sua virgindade. Não foi difícil, como se pode imaginar de um rapaz que está tentando provar sua masculinidade entre o bando.

Ninguém sabe como aconteceu. Ele colocou a camisinha direito, já tinha usado uma antes, sabia como é que era. Não sabiam se tinha rasgado, se tinha saído, se alguma mão com algum fluído tinha ido onde não era pra ir, mas não tinha mais pra onde correr. Elenice estava definitivamente grávida e desconsolada, mas ainda mantendo a pose de forte sob a qual viveu a vida toda. O rapaz correu e ela desejou do fundo do coração que o raio que a atingiu quando o viu tivesse lhe feito o favor de a ter matado de uma vez.

***

Era tarde da noite no quarto quente. Elenice vivia agora sob o mutismo da família e a inexistência social. Todo mundo sabia que estava grávida. As amigas tinham pena, os pais das amigas tinham raiva e medo. Os próprios pais mal lhe dirigiam a palavra. O irmão que ainda tentava falar algumas coisas pra animar. Tudo isso veio na cabeça de Elenice de uma vez, vergando o pescoço da moça pra frente. Nua, grávida, vulnerável, triste, raivosa e trancada. Ninguém teria pena de Elenice. Ninguém mostraria compaixão com a moça da boca suja. Um grito terrível se formou e no meio de lágrimas e cabelos na cara, se libertou, acordando a casa toda. Correram pra acudir. Elenice sentia dores. Levaram pro hospital. Elenice chorava, segurando a barriga. Perdia muito sangue. Elenice lembrou do raio. Lembrou do velório. Lembrou da senhora velha. Lembrou da promessa daquele dia. Elenice tinha tomado remédio pra abortar. Elenice tinha tudo pra conseguir, mas não deu, pessoal. Elenice soltou as mãos do mundo pelo seu sangue, que corria como rio de dentro de suas pernas. 

sábado, 11 de abril de 2015

Ela

Entre mortos e feridos, lá estava ela. Em pé. Como sempre esteve a vida inteira.
Carregou tanta coisa na cabeça, que eu realmente não sei como ela conseguiu manter-se de pé a vida toda. Hoje, é muito o que ela carrega. A vida foi-se entrando e permaneceu tanto que agora, há muito pra sustentar. Ela sustenta. Há tanta graça nela. Tanta flor, tanto amor, tanto amor, meu deus. E eu, abestalhada, olho pra ela como se ela fosse de outro mundo. Mas não como se fosse algo desconhecido ou estranho. Mas como ela é: é outro mundo feito de abraços.
Ela passou por tantas dores nessa vida. Eu, daqui, nem posso me lembrar de todas. Perdeu os pais logo cedo, foi humilhada por tanta gente, casou com um homem que muito a fez sofrer, assistiu alguns de seus filhos serem levados pela morte. Depois que o Tempo, esse senhor implacável, veio, não sei se houve algum alívio. Sempre era alguma coisa a ocupar esse coração generoso. E eu sei que eu já fui e talvez ainda seja, um dos pesos. O que mais me surpreende é que ela é feliz. Sua capacidade de sorrir se manteve e eu gosto de pensar que eu herdei isso.
A memória já lhe falha. O ficar "em pé" já não é mais uma afirmação literal na vida dela. Ela tosse. Ela sente dores. Ela espera.
Estar longe dela é uma dor. A última noite, passamos nós duas de mãos dadas. Ela, na sua rede. Eu, na cama. Ela não conseguia dormir. Eu não podia. Deitei de maneira que pudesse vigiá-la, velar seu sono, segurar sua mão, ficar alerta a qualquer coisa. Lágrimas desceram quando vi aqueles dois olhinhos se fechando lentamente, pra pegar no sono, enquanto eu prendia até a respiração, morta de medo que qualquer de meus movimentos pudesse impedir de isso acontecer.
É difícil testemunhar o crepúsculo de uma vida tão amada. Vê-la perder-se em confusões tão simplórias. Mas não há o que se fazer. A cada engano, o riso natural. O abraço sempre dirá: "Não interessa o que aconteça, meu amor, encoste aqui o seu coração no meu, que tudo vai ficar bem".
"Não sofra antecipadamente", me disseram. Não. Não mais. Eu imagino, é claro. Ela mesma fala disso. Ela sabe. Nós sabemos. Mas meu coração está sereno, apesar de tudo. Eu só quero cantar pra ela o máximo que eu puder, dar todos os beijos e abraços que eu puder e dizer pra ela o quanto eu puder, que eu a amo. Segurar na mão do refúgio e dizer que ele sempre o será. :)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A caçada

É muito difícil olhar pra como a irracionalidade se manifesta. Já a vi tantas vezes, mas ao contrário do que eu pensei, o olhar nunca se acostumou. É preciso olhar mais além. Ver onde está o amor. Procurar, procurar bem fundo, ainda que ele se esconda. Agarrar-se nele pra poder seguir adiante. É ver a humilhação, a frustração que gera essa irracionalidade. O ódio de todos os planos de vida idos por água abaixo. No momento, depois da confusão, nós três estamos nessa mesa, sentados, confusos, irritados. Três cabeças baixas. Eu, escrevendo esse texto no bloco de notas do celular. Meu pai, humilhado pelo que dissemos a ele, depois da vergonha que nos fez passar. Meu irmão, lendo a bíblia. Temos pouca coisa em comum. Por isso é que é preciso procurar o amor no mais profundo, onde quer que esteja. Perscrutar, cavar como se procura por água quando se está com sede. Não há saída. Ou se faz isso ou todos nós afundaremos no abismo sem fim da solidão.

sábado, 4 de abril de 2015

Compay, Zaz, Juanica, Chan Chan e o Violão

Compay Segundo sentou na cama. Não conseguiu dormir por mais um segundo sequer. Sonhou com Juanica, com Chan Chan. Estavam numa praia, cada qual com sua enorme peneira na mão, sacudindo montes de areias que pegavam. Era o trabalho de refinar a areia pra construir a casa que faria da vida deles um paraíso. Juanica se remexia pra balançar a peneira devagar. Estava suada. Vestia uma saia ordinária, uma blusa de tecido frágil, surrada, que deixava os bicos dos seios circunscritos, mesmo debaixo do sutiã. Tinha um chapéu de palha enorme na cabeça e uma chinela rasteira, ambos feitos por ela mesma. Chan Chan olhou. Juanica não parava de remexer daquela forma. Os seios moviam pra lá e pra cá delicadamente. Era uma dança inconsciente o que fazia Juanica. Chan Chan sentiu um esmorecimento, uma fraqueza conhecida, uma súbita vontade de morrer. Juanica, inocente, falava sobre a vida na casa nova. Tudo muito bem feito, dos móveis bons, de tudo arrumado, sem parar de se remexer. Estava quente. Juanica estava quente. Chan Chan sentia o calor de Juanica começar a cozinhar seus sentidos. Lembrou de outras horas quentes, suadas, movimentadas. Uma agonia lhe subiu pelas pernas, uma mão invisível o acariciou. Soltou a peneira e resfolegante, tocou Juanica nas ancas. Juanica percebeu o olhar de Chan Chan, parou de se remexer. Jogou a sua peneira no chão. Deixou o trabalho pra depois...


Compay acordou. Quatro notas tocavam na sua cabeça. Ainda podia sentir a agonia de Chan Chan. Podia sentir o calor de Juanica. Sentado, pegou o lápis, o papel e copiou tudo o que viu.

***

Zaz tinha um violão quando era mais moça. Era lindo. Não era um violão de marca. Foi ficando velho e isso, estranhamente, fazia com que as notas saíssem mais fluídas. Zaz cresceu. A moça ficou grande, começou a cantar, a ganhar algum dinheiro. O violão ficou pra trás. Zaz mudou-se pra Paris e, à pedido de sua mãe, levou o violão antigo consigo. Com aquele olhar nostálgico que se dá pras coisas queridas, porém inúteis, deu um breve suspiro e guardou o violão velho num espaço vazio do pequeno guarda-roupa. Como não existe coisa mais triste que um instrumento que não é tocado, o violão chorou. Devia ser o calor ou o frio expandindo ou encolhendo a madeira, mas o certo é que o violão chorou. Um chorado triste, um pedido de resgate. Zaz ouviu o choro e abriu o guarda-roupa imediatamente. Sorriu pro velho companheiro. Assim que o colocou entre os braços e seios, tocou as cordas desafinadas de tanto tempo e soube que ali havia uma música triste. O violão voltou à vida, mesmo de madeira velha, mesmo de cordas desafinadas, mesmo de canções tristes que estavam guardadas em si, só esperando por Zaz.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Não consegui colocar um título

Há dois dias que eu estou em Bacabal. Isso sempre me alegra o coração. É bom vir pra cá, abraçar quem me é querido e me dedicar, sem culpa, à nobre arte da desocupação. Só que sempre que eu venho pra cá, talvez pelo próprio ócio, uma onda de pensamentos bem mais urgentes me invadem. Desde ontem, um pensamento tá fixo na cabeça e hoje, por conta de duas mortes precoces - mas fora do meu círculo íntimo -, se agravou: o pensamento do quanto deve ser difícil ser mãe ou pai de alguém. Enfim, ter a responsabilidade de amar e proteger a outro ser humano, mesmo que ele não tenha sido gerado por si. Coisas acontecendo o tempo todo nesse mundo que me dá cada vez menos esperanças, me dão bastante medo de ter essa responsabilidade, ainda que tudo seja um plano dado quase como certo na minha vida, num futuro a longo prazo.

Pensei no quanto deve ter sido difícil pra minha mãe. Ela não tinha nada pra "dar certo", sabe? Meus avós maternos moravam no interior de um interior, no Maranhão. Pelo pouco de detalhes que sei da vida deles, não tinham más condições até minha avó adoecer e meu vô ter que vender quase tudo que tinha pra arcar com as despesas de um tratamento infrutífero. Acabou que ficaram bem pobres. Sem chance de um estudo mínimo de qualidade, minha mãe foi mandada pra ter o mesmo destino de tantas jovens, até hoje, pelo meu Estado. Teve que morar na casa de alguém que tivesse alguma condição na cidade grande, pra cuidar da casa e dos filhos da patroa, sem receber nada e estar sujeita à toda a sorte de humilhações que se pode ter ideia. Destino esse que, infelizmente, na minha própria casa, anos e anos depois, com eu e meu irmão ainda pequenos, fizemos repetir à outra jovem, saída do mesmo lugar que saiu minha mãe, com a mesma tarefa. Não esqueço disso, jamais. E é uma das coisas que sinto que, se tivesse condições, quereria compensar e pedir perdão.

De toda a maneira, o início de minha mãe foi bem mais complicado do que o meu. Nunca precisei trabalhar por um prato de comida e sempre tive, à duras penas, acesso à educação formal em umas das melhores escolas particulares daqui. Tive apertos, dificuldades, mas nada que realmente tivesse impedido o meu pleno desenvolvimento intelectual e físico. Mas eu estou "perdendo o ponto".

Quando eu nasci, as coisas ainda não estavam, digamos, plenas. Minha mãe tinha a minha idade e já era mãe de um menino de um ano e meio. Meu pai era ainda quem sustentava a casa, confiado que o comércio do mercado central da cidade, onde praticamente todos os meus tios paternos trabalharam, nunca iria decair como decaiu. Não sei em que ano, minha mãe entrou pra Universidade e começou a estudar pra ser professora. Conseguiu. Eu me lembro nitidamente de ir ao seu baile, aos seis anos, com o cabelinho chanel e banguela. E de ser uma espécie de "dama de honra", ao entrar na missa de ação de graças, carregando uma cesta de anéis da pedra azul que iam ser benzidos pelo padre. Depois da minha própria experiência na Universidade, o meu respeito pra com as mulheres que tinham jornadas de trabalho duplas ou triplas e filhos pra cuidar e que se formaram, aumentou consideravelmente. E o respeito E solidariedade pras que não conseguiram, também.

Tudo começou a partir daí. Minha mãe passou em concurso e a ganhar mais que o meu pai. Com mais condições, passou a sustentar a casa, o que, desconfio, foi um golpe terrível à equivocada crença de meu pai de que era "papel do homem" fazê-lo. Eu era pequena e lembro pouco, mas o casamento já estava caindo aos pedaços à época. Pra resguardar uma história que não é só minha, só posso dizer que, nessa parte, tudo mudou... Pra pior. E muito sofrimento isso me custou.

Quando adoeci, foi que vi nos olhos dos meus pais, o quanto era difícil ser o que eles eram pra mim. Passei a depender quase que inteiramente deles, até pra algumas tarefas básicas. Minha coragem era minha, mas não seria nada se eu não tivesse com quem contar. E não tivesse a mais absoluta certeza que, acontecesse o que acontecesse, eles estariam ali, comigo, não desistindo de mim. Que eles queriam absorver todas as dores que eu sentia pra eles. Que eles morreriam pra não me ver definhar.

Esse amor é o que eu procuro me lembrar, quando as coisas caminham pra rumos indesejados. É o perdão, sempre tabu na minha casa, pedido por minha mãe, depois de uma longa conversa sobre as conclusões que tirei sobre o que me causava aquilo tudo, é que eu evoco quando a irracionalidade bate à porta.

Depois de cinco anos morando fora, tudo mudou. O que era complicado e difícil entre nós, ficou discutível, debatível. As paredes da minha casa ainda têm as marcas dos meus pés, porque não foi pouco que eu tive que colocar o pé nelas pra que a realidade fosse outra. O que era impossível se tornou possível. Surgiu cumplicidade entre eu e a minha mãe. Surgiu a possibilidade de conversar entre adultos com o meu pai. Surgiu o diálogo, forçado pela saudade que finalmente fazia com que perguntássemos sobre os nossos dias e que pudéssemos dizer "eu te amo" sem constrangimentos, no final dos telefonemas. Surgiu aceitação, mesmo sem a completa compreensão do que se passava comigo. Surgiu o respeito pela minha individualidade, pelos meus sonhos e pelas minhas opiniões, bastante tóxicas pra mentalidade deles, eu sei. Mas os caminhos foram abertos e eu pretendo seguir por eles. Nada é ideal, já se sabe. Somos imperfeitos demais. Mas eu não perco a esperança de que, pelo menos no que eu posso interferir, podemos mudar ainda mais.

Hoje, quando duas tragédias mencionadas no começo desse texto vieram à tona, quando jovens vida se foram, deixando um rastro terrível de dor nos pais, foi que me veio a certeza mais que absoluta de que eu quero me manter nesse mundo por muito tempo ainda. "Cuando álguien se va/ El que se queda/ Sufre más", você está certa, Shakira. Por amor aos meus pais, é que eles precisam viver menos do que eu e meu irmão. E por amor a mim e a ele, é que precisamos que essa separação só seja daqui a muuuuuito, muuuuuuito tempo.

sábado, 21 de março de 2015

O lugar indomável

"Costumava haver sempre um pouco mais de mim aqui (e em outros lugares adorados). Eu olhava pra isso e percebia um monte de possibilidades que nenhum outro poderia já ter me dado outro dia. Eu entendia os preços que eu poderia pagar, mas haviam as horas derramadas, sempre muito gratas, onde eu poderia conversar de absolutamente tudo. Elas valeram a pena. Parecia um território de sonho, porque a não ser pelas limitações práticas, eu não conseguia ensinar àquele lugar a palavra não. Mesmo que ensinasse, não aprenderia. Era de natureza bastante selvagem. Vinha de partes não exploradas antes, que ainda estavam se acostumando à exposição. Era o avesso do avesso, o que acontecia. Foi o derrame que me curou."


(Eu mesma, não sei quando, não sei nem onde, mas sei sobre o quê.)

segunda-feira, 16 de março de 2015

O quê que dá

Já escrevi bastante sobre a possibilidade de deixar pra lá. Cogitada, buscada, solicitada. Como, mesmo com todos os esforços, isso não aconteceu, procurei ficar em paz com o querer. Querer é querer e eu acho que é daquelas forças muito mais fortes que quaisquer racionalizações. Apesar de saber que sentimentos podem ser gerados e influenciados, ainda há uma grande parte de mim que acredita na não-deliberação, pelo menos plena, deles. Lembrei do trecho de um dos livros da Isabel Allende, que eu não lembro qual, que dizia que o amor era um mal renitente. Alguém havia deixado a janela do quarto aberta e ele entrou com o vento. Depois disso, não havia cura que remisse do mal - palavras da autora. Essa é a impressão que eu tenho sobre alguns sentimentos: que se pode provocar, mas não se pode retirar. Parecem entidades, espíritos que tomam o corpo, que só vão embora quando querem, geralmente depois de terem feito muito estrago.

Hoje em dia, olho pra irracionalidade desse próprio querer. Como, depois de tanto afastamento, distâncias geográficas, problemas e tempo, ele ainda sobrevive e não dá sinais de recuo? Explica-se: eu sou mesmo assim. As constâncias fizeram história, seja pros sentimentos bons ou ruins. O que explica também o fato de eu ser muitíssimo grata e muitíssimo rancorosa. Aquele que tem o meu bom grado, não o deixará de ter. Aquele que me fez mal, dificilmente vai ter um perdão voluntário, apesar da lida empreendida pra tirar alguns pesos que trago no coração que acabam por fazer mal só a mim, que sinto.

Sei que deixar aberto em algum lugar, por mais escondido que seja, a confissão que o querer que tinha lá no começo ainda é o mesmo, é ficar vulnerável. Aos medos, angústias e inseguranças que também podem estar acontecendo do lado de lá. Entender que existem, faz parte. Entender que nada está dado, também faz parte. Saber que deve haver bom senso da sua parte pra se proteger, é necessário. Isso não quer dizer ficar na defensiva, tampouco deixar de fazer os planos e tentar. Significa saber que não há obrigatoriedade. Que, se houver honestidade e a preocupação mútua com os sentimentos, que nos é devida, entre mortos e feridos, sairemos bem. Que a minha felicidade é responsabilidade só minha. Querer é apenas querer. Ponto. É um bichinho incômodo quando não se tem e quando se cogita que pode não se ter, mas ou é um bichinho que você convive com ele, ou ele lhe morde. Presta atenção, pode até devorar. Querer é um bichinho que é disputado diariamente por outros dois: a esperança e o medo. Parece até aqueles desenhos antigos do Tom e Jerry, com um diabinho e um anjinho falando em cada ouvido.

O diacho é só o que o psiquiatra (e hoje, amigo) disse e ficou ecoando na cabeça por ainda muito tempo: "Você precisa parar de pensar!". Foi quase um grito. Ele quis dizer: "Corra riscos. Faça. Voe.", mas também: "Deixe sua cabeça descansar. Apenas pare de ver e rever todas as hipóteses do jogo antes mesmo dele acontecer".

E a ironia desse texto que me fez lembrar desse conselho de cinco anos atrás, em uma situação totalmente diferente desta, é que, com ele, eu estou fazendo justamente o contrário. Hehehe

Certamente como eu teria me enfiado em muita enrascada na vida se eu não fosse assim. Mas tenho consciência do tanto que deixei de viver por ser. O medo levou os meus melhores anos e agora eu corro atrás deles. Sem as ilusões de adolescente, sem o medo infantil, sem o congelamento inicial da vida adulta. Nesse caso, o único que eu posso fazer com o meu querer é submetê-lo à mais essa prova do tempo, do não-palpável. Aquietar e ver no quê é que dá. :)


sexta-feira, 6 de março de 2015

O primeiro dia

Hoje, ao dar os parabéns a um amigo mexicano, procurei uma foto nossa no meio dos arquivos que trouxe da Colômbia. Não fico fazendo isso todas as vezes que eu tenho vontade, porque, querendo ou não, dessensibiliza. Pelo muito amor que eu nutro pelos meus nervos, também não quero me desmanchar em lágrimas todas as vezes que vejo, mas quero que sim, que me invada a doce saudade daquele mês e meio bem aproveitado, que me marcou pra vida.

Lá, além da minha família colombiana, fiquei próxima de um tantão mais de gente. Eu jurava que esses amores todos em períodos pequenos de tempo era coisa de Big Brother querendo voto. Não. Essa parada foi séria mesmo. Não sei se foi porque foi a primeira vez e a primeira vez marca mais mesmo ou se foi aquela áurea de felicidade intransigente que nos revestia a todos. Só sei que o aniversário do meu amigo me fez lembrar das caminhadas. Eram muitas. Em grupos ou só. Pela cidade, pelas viagens, pelas trilhas, pelas praias, por nós mesmos. Caminhamos horrores debaixo daquele sol escaldante que fez a holandesa ir bater no hospital do exército no primeiro dia. Ainda éramos semi desconhecidos. Antes da nossa primeira ida oficial ao batalhão, combinamos de ir ao Museo del Caribe. Era lindo e pra acabar logo com meu coração, tinha um pôster enorme do Gabriel García Márquez dizendo que em todos os lugares se sentia estrangeiro, menos no Caribe. Ainda estava de pouco a morte dele e foda-se: ainda hoje me enche de águas nos olhos. Pegamos o ônibus rumo ao batalhão de dentro da cidade, onde seria o nosso ponto de encontro de todos os dias. O Exército da Colômbia, no primeiro dia, nos deu o mini ônibus deles. Não teve quem pudesse ter sossego dentro daquele troço. Era ensurdecedor. Tinham uns 8 mexicanos e eles eram quem puxavam as músicas. Eu fui ao lado da outra brasileira do projeto nos bancos primeiros. Isso lá é coisa que se faça? Viramos e ficamos de joelhos nas poltronas e começamos a cantar as músicas que eles cantavam, mesmo sem saber. Até que, antes de chegar lá, paramos de gritos e canções e começamos a nos apresentar formalmente. Hi, people! My name is Jamila. (Hiiiii, Jamila!). I'm 24. I'm brazilian and my favourite thing is... uh... I don't know... Let me see...

Sim. Coisa de ensino fundamental mesmo.

Chegamos. Fomos recebidos por duas senhoras evangélicas e um soldado, também evangélico. Nada contra per se. Mas tinham umas 30 pessoas ali de tantos países e religiões diferentes e pessoas sem religião também, como eu. A entidade que nos levou não sabia que aquilo aconteceria. Na verdade, estavam tão chocados quanto nós. As senhorinhas saíram decepcionadas porque ninguém se converteu ao protestantismo. Perdão, senhoras, mas eu já tive a minha cota e a maioria ali nem sequer falava espanhol. ¯\_(ツ)_/¯

O terreno era arenoso e não tinham banheiros femininos em parte alguma. Apenas dentro dos alojamentos, que eram galpões cheinhos de beliches muito bem arrumadas. Nada estava sujo ou fora do lugar. O que estava em péssimas condições eram os banheiros que, afinal de contas, tivemos que usar. Mas nada abate o espírito de quem enfrentou banheiro químico de carnaval de rua.

Foi a primeira vez que vimos aqueles rapazes. Quase a mesma idade que todos nós, a maioria negra e pobre. O serviço militar na Colômbia é obrigatório, mas obrigatório mesmo. Por não compreender muito bem o espanhol extremamente rápido que os costenhos falavam, fiquei sem entender a parte da explicação da minha host sister sobre como se dá a dispensa. Parece que o rapaz tem que pagar uma taxa que não é muito baratinha, não. E, como no Brasil, sem o certificado de que se prestou serviço, ele só se FO-DE. Não dá pra fazer porra nenhuma de prática na sua vida e, uma hora ou outra, você vai ter que fazer, se não tiver o dinheiro pra pagar. E é um ano inteirinho. Parece que se quiser escapar, quando te pegarem, é mais tempo, cumpádi. Um parente da minha família colombiana passou foi 2 anos na mata fechada, por não ter cumprido no tempo certo. Quando falávamos com eles individualmente, diziam as mesmas coisas. A cartilhazinha do bom soldado: era bom o Exército, dava disciplina, amor à pátria amada, salve salve! Mas 3 meses até poder ver a família era ruim. Ir pra selva fechada depois de um tempo e arriscar a vida pra lutar contra as FARC era ruim. Não podia falar isso alto. Não podia embargar a voz. Soldado é macho brabo. ¿Como está la moral? ¡Alta, muy alta! 

Eu só contei isso pra uma só pessoa e agora escrevo: um dia um soldado se acabou de chorar pra mim. Tinha saudades da família, não estava se aguentando mais. Engraçado que nós éramos as pessoas neutras, porém eu sentia um ar de desconfiança da parte deles. Éramos diferentes demais, num nível enorme já entre nós e mais ainda entre eles. Também tememos. Não a eles, mas o que fazer com eles. Como era que chegaríamos aos seus corações? O quê de bom ensinar e aprender com aqueles rapazes, pelo amor de alguma coisa!? Era inevitável que um caminho de comunicação se abrisse e, apesar do tempo perdido com planejamentos infrutíferos, conseguimos. O rapaz que chorou o fez escondido, até me assustou quando me abordou. Eu voltava do banheiro, quando ele se aproximou e começou a falar amenidades, até que tocou no assunto que estávamos conversando no sub-grupo que eu fiquei. Chorou. Talvez quisesse fazê-lo antes, mas tinha que segurar. Eu sabia falar espanhol, entenderia. Ele precisava desatar aquele nó. Sem querer, ajudei a desatá-lo. Por obra da minha cabeça flutuante, não perguntei o seu nome e seu rosto me escapou. Mas ficou aquela pessoa sofrendo nos meus olhos. Falando rápido demais coisas que eu tentava entender, sendo que já entendia. O léxico da saudade é universal. Pela situação, pelo lugar que estávamos, um abraço, por mais que urgisse, não cabia ali. Só podia ajudá-lo com palavras. Espero que outros abraços tenham te confortado, soldado. 

Voltando ao primeiro dia: quando terminamos e voltamos ao ônibus, a uma hora que passamos nele na volta foi pior do que a ida. Os mexicanos quase todos já se conheciam já do México e não teve parêa pra essa galera. Botaram foi todo mundo pra bailar. Chegamos no batalhão, muitos sem saber voltar pra casa (eu). Uma galera pegou táxi, mas eu tinha que aprender a me virar. Fiquei esperando por uma das moças da Aiesec pra ir comigo, porque ela iria pegar o mesmo ônibus que eu e me ensinaria onde descer. Só que a pobre da holandesa desmaiou nos braços de uma mexicana e tivemos que levá-la pro hospital do batalhão. Eu no imbróglio com: 1) holandesa desmaiada; 2) a alemã colega de quarto dela; 3) a menina da Ong e 4) o outro holandês (voador). Agora pense bem aí: eu, a aleatória, na emergência de um hospital do exército, com pessoas que eu não tinha nenhuma intimidade. O legal foi que a moça da Ong teve que sair pra resolver coisas burocráticas na recepção do hospital e eu fiquei traduzindo duas línguas que, apesar de conhecer, não sou nenhuma pica das galáxias nelas. Enquanto a gente tava esperando a moça ficar melhor pra poder ir embora, ainda tentei jogar meu charme malemolente e brasileño no holandês, um belo exemplar dos "sqh" - "Sinceramente, que homem!". Absolutamente sem sucesso. A única conversação que teve foi quando ele me pediu emprestado o carregador do celular e só. Quando a gente saiu do táxi, ele ainda me chamou de Jessie. "Jessie é minha mão na tua cara, rapá!", pensei. Aliás, meu insucesso com os rapazes do mundo de lá foi o que me fez tomar a drástica decisão do uso do Tinder. E o conhecimento que adveio daí, meu senhor do céu...

E esse foi só o primeiro dia. Eu não conseguia sequer dormir na primeira semana que eu cheguei lá. O quartinho simples que fiquei hospedada era quente e pequeno, mas esse não era o problema. O negócio era que estava acontecendo! O coração pesou. Ia dormir, invariavelmente, às 4 da manhã, depois de muito pelejar pra pegar no sono. Acabou, depois desse período e só veio me pegar de novo na hora de partir. Caminhei demais, como disse no começo. Com a russa, com o aniversariante mexicano, com a porto-riquenha, com quem viesse. Fazem falta as caminhadas da estação Joe Arroyo até a casa dos Rivaldo e ouvir da Rubys que "A Jamila le gusta caminar, no?". Parar no parque Surisalcedo e comprar um copão enorme de sorvete a 5 mil pesos, enquanto via as crianças jogando basquete na quadra e os velhos conversando suas velhices. Faz falta sentir aquela completude de se estar no lugar certo, no momento certo, com as pessoas certas, fazendo o que se quer. Quando o vi o mar de Cartagena, chorei. Quando vi o Río Magdalena, chorei. Quando estava no avião, sabendo que tudo aquilo nunca mais se repetiria da mesma maneira, chorei. Compreenda, leitor (?): estive mês e meio de coração distraído e de lágrima fácil.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

"Não adiante seus relógios"

Um dia, não faz muito tempo, eu fui outra pessoa. Meu nome era Jamilinha, mocinha bem comportada e exemplar. Eu era bem mais nova e minhas relações virtuais eram até mais fortes do que são hoje. No finado Orkut, era a Livres-pensadores e as comunidades que orbitavam em volta dela, as comunidades-filhas. A Liga da Justiça LP foi das mais legais, um refúgio para a época em que a LP estava intransitável pra gente que tivesse o mínimo de bom senso. Acabamos construindo esse blog que eu, timidamente, pedi pra postar também. Nada que se aproveitasse, mas eu ainda continuo achando isso pros textos de agora, né? Deu que todo mundo perdeu o tesão pelo blog e eu esqueci dele por muito, muito tempo. Até que me vi sem minhas folhas pautadas e diárias e voltei pra ele, sozinha praticamente, pra não explodir pelas n razões que minha vintolescência tem, precisa nem dizer.

Agora, com a página inicial aberta, fui olhar o blog de um amigo que se tornou indispensável à minha própria felicidade. Sempre admirado pela escrita impecável, pelo cuidado que tinha com cada palavrinha, medida com balanças hiper precisas. Se fazia de judeu mão-de-vaca pra gente, que faltava morrer de rir com as tiradas hilárias, com os floreios que fazia pra que o português escrito fosse igual ao que pretendia representar. Muito tempo depois, quando ficamos íntimos, soube que já tinha sido ator, que cortava o Brasil em diversas apresentações, mas que largou tudo pra uma vida (e uma conta bancária) estável como bancário. Quem diria... 

Nesses tempos, eu ainda era a Jamilinha, lembra? 19 aninhos e caloura de pedagogia em Bacabal, onde gostava de imaginar que estava longe do bem e do mal. E deixava essa parte da minha vida virtual, que teve grandes impactos na minha vida offline, bem escondida de quem quer que fosse. Era o espaço sem filtros, onde ainda dava de falar aqueles pensamentos indiscretos e reprováveis que teimavam em aparecer. Era onde eu podia dizer, sem vergonha nenhuma, que sentia desejos, apesar da virgindade pretendida até o casório, que já era pra ter acontecido aos 24-quase-25 anos da Jamilinha. Dos pensamentos reprimidos sobre a religião sob a qual vivi minha vida toda.

Pulamos anos, uns dois ou três, não lembro direito, pra que todo o contato fosse recobrado com uma intensidade espantosa e uma constância quase religiosa. A diferença de idade de 22 anos simplesmente nunca importou, já que eram nossas mentes que conversavam, apesar de corpos às vezes se quererem implicitamente. Nada poderia se declarar naquela época, pois ainda havia muito de Jamilinha em mim. Mas aproveitamos as horas pras piadas internas, pras risadas, pra todas as besteiras que poderíamos. Uma vez li que mentes podem se encontrar em qualquer idade, ainda que existam as improbabilidades.

Um dia, ainda longe desse ano conversado, ele escreveu algo que postarei sem a autorização e sem dar os créditos, porque confio que não vai se zangar: 

"Domingo, 9 de agosto de 2009

A vida é um dia

Hoje, mais maduro, acho que compreendo o tempo. Imagino seu passar e percebo o meu. Ainda não sei se já é tarde ou noite, não sei da minha hora. Mal vejo meus minutos. Vejo segundos. Aprendi que tudo pode esperar, que mais importante é uma gentileza, que o que urge é o abraço, que o que se foi não se recupera mais. Aprendi também que, se o tempo foi perdido, há sempre de se consertá-lo, de outra maneira, atrasado, mas há de se consertá-lo, ainda que não se possa voltar atrás. Mas essas são as coisas de se pensar. O que se sentir não é tão simples assim.

Não tenho medo da meia-noite, mas já sinto saudades do meio-dia."

Pra mim, foi um alento ler isso, não sei bem dizer o porquê, já que fala de uma sensação ainda distante pra mim. É um texto, se não triste, bem melancólico. À época, ainda muito Jamilinha, falei que ainda esperava pela vida vir. Ainda ansiava pela sensação queimante pelas minhas veias de um meio-dia quente que não haveria de chegar naquele meu lugar, protegida do bem e do mal externo do mundo. Disse-me: "Para você, ainda é manhã, Jamilinha... Não adiante seus relógios..."

De fato, por mais dificultoso que fosse dar freio às ansiedades próprias e inventadas, olhei pro mundo. Sentei mais ao lado de minha avó de 79 anos na calçada e escutei os seus quase 80 anos de histórias. Colocar as coisas em perspectiva funcionou. Ainda teria tempo pra mim. Ainda melhorariam as coisas. O tempo ainda havia de ser grato, ainda que não houvesse nenhuma lógica que me garantisse isso. Fluiu, de fato. Veio uma saraivada de coisas boas e más e, mesmo assim, sigo mantendo-me em pé.

Hoje, especialmente hoje, "não adiantar meus relógios" foi o melhor conselho que alguém poderia ter me dado há cinco anos.

Aliás, que horas são? rs


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O texto entrosado

Ia escrever aqui, mas o texto se perdeu gritantemente. Enveredou-se pelo parapeito da janela do escritório, enquanto eu senti o cheiro da pipoca que fizeram, num segundo bobo de distração. Eu não lembro direito do que se tratava, mas já estava com todo ele pronto, na ponta dos dedos, bem na desdita hora em que me escapou. Observei atentamente por todos os cantos, para ver se tornava, mas apareceu outro, este que se escreve só, sem que haja um esforço real dessa cabeça que se transtorna. Texto idiota, entrosado, ridículo, impertinente, enchedor de saco, que não deveria estar aqui fazendo porra nenhuma! Era sobre o mundo que queria escrever. Da mulher baleada no pescoço pelo ex-marido que agora está paraplégica. Era do juiz que foi afastado do trabalho porque "soltava demais" gente pobre e preta que roubava valores irrisórios, como 6 reais ou dois salames num supermercado e de outro juiz que levou os carros do Eike Batista pra sua garagem. Mas não é sobre eles que estou escrevendo, é um texto totalmente diferente que sai. Já é do sonho que eu tive ontem, onde beijava como nunca alguém que quero há muito e, quando já tirávamos nossas roupas pra consumação de um desejo encrustado, a obra do condomínio me sacode às 6:40 da manhã, um pouco mais tarde do que a mulher do Chico sacode ele. Já é do sonho de hoje, que me jogou numa excursão com membros da minha ex-igreja num lugar montanhoso que mais parecia as fotos que a paixão me mandou, que depois me chamavam praquela conversa "de volta pra Jesus" mais uma vez. Eu dizia: "Gente, vocês não entendem mesmo, né?"
Esse texto vê coisas, está esquizofrênico. Ele imagina como será ou se não será mais a viagem que eu espero há quatro meses. Ele avança no tempo, pra volta, e, na cabeça dele, só existem duas realidades: ou saudade ou frustração. Mas vê também tranquilidade, qualquer que seja o cenário. Ele sabe disso, esse texto maluco. Ainda faltam quinze minutos pro fim do expediente e só o que o texto sabe é que ele poderia muito bem não estar sendo escrito. Que poderia sair em pequenas capsulas de 140 caracteres e que muito mais gente saberia do teor dele. Que o que foi pelo parapeito está ali, do lado de fora, me observando sentada em frente a um notebook escrevendo freneticamente, e me diz: "meu deus, que bom que eu fui embora".