quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"Não há mais vida, não há..."



"No hay más vida, no hay
No hay más vida, no hay
No hay más lluvia, no hay
No hay más brisa, no hay
No hay más risa, no hay
No hay más llanto, no hay
No hay más miedo, no hay
No hay más canto, no hay (...)"


Não há mais nada. A morte levou tudo. O riso, a alegria, até o choro, a tristeza, o pranto. Essa música é da Shakira, feita pra trilha sonora do filme "O amor nos tempos do cólera", obra homônima do livro do Gabo.

Era segunda, já noite, nem tava tão tarde assim. Eu estava numa lanchonete perto de casa, revendo amigos que não via fazia muito, rindo das histórias e fazendo-os rir com outras. Deixa celular de mão, ele não é mais tão prazeroso assim... Mas quando olha, tá lá uma notificaçãozinha do grupo de amigos, dando uma notícia péssima: uma moça com a qual estudei no 1º período da Universidade, veio a falecer, depois da tentativa de suicídio, há um pouco mais de 40 dias.

Que fique claro: não éramos íntimas, os contatos que tínhamos eram apenas virtuais e muito esparsos. Não vou dizer que estou sentindo a sua morte como sentiria a de qualquer de meus amigos chegados, mas desde segunda estou com uma coisa estranha na garganta. Um marejar constante nos olhos, que eu reconheço de outras vezes em que outros que não eram ou já não eram tão meus assim, encontraram a inevitável. As especificidades desse caso, talvez, que me deixaram mais atenta. Era uma moça que eu me lembro de ser extremamente expansiva, efusiva, mais do que eu, até. Alguém que falava alto e tinha uma risada bonita. São poucas as lembranças, lamento. Mas ao ler os quatro posts enormes que ela escreveu antes da tentativa, às quatro da manhã de um outro dia de semana, doeu alguma coisa adormecida em mim. Era muita dor, não havia como não se abalar com aquilo. Uma mente que estava doente e que dava o último grito de socorro. Quem pode te julgar se não deu mais, querida?

Lembrei, é claro, dos dias maus. Mas em favor da minha própria saúde mental, coloquei esse assunto numa pastinha oculta do meu cérebro e toquei a vida em frente. A família conseguiu o acesso ao perfil e por lá eu sabia alguma coisa aqui, acolá. Não avançava. Continuava internada em coma na UTI, apenas estável. Faleceu. Por mais que eu esteja evitando pensar nisso, é algo que está pertinente na minha cabeça. "Mas, moça, você nem tinha mais contato com ela!". Eu sei! Por isso não me permito entrar em tristezas maiores.

Outras coisas também têm me tomado o juízo nesses últimos dias. Preocupações próprias da vida adulta, projetos novos, sonhos antigos, pressões e expectativas sobre o futuro... E a espera. Nem sempre é fácil e nem eu acho que tenha mesmo que ser. Sair da menoridade dói. E na  tempestade em copo de pensamentos etéreis, chega o recado bem dado, reafirmado tantas vezes, de que ainda não inventaram coisa mais necessária que a paz de espírito.

Eu sei que é só uma dessas coincidências sem sentido, mas estou quase pra terminar o livro do Gabo de novo. Já o li há não sei quantas vezes e as músicas do filme vão me acompanhando durante a leitura. "La despedida" é uma delas, das mais tristes que eu tenho na memória. E parece que não há maneira: todas as vezes que alguém se vai, ela me vem. Acho que por causa da certeza de que a tristeza da despedida, ainda que nós nos neguemos a ela, é traduzida perfeitamente nos versos: 

"Cuándo álguien se va/
El que se queda/
Sufre más..."

Que haja paz, pra que ainda haja vida.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

eu queria ser um passarinho e avuá
avuá numa corrente só
até as asa congelar no teu ním
pro teu abraço esquentar ar bichinha
e fazer as póbe avuar de novo
e chegar inté no céu
cuma quem num quer nada
e ficar lá avuano
inté tu chegar de novo
pra modi eu atinar
que as asinha que eu tinha
num avuava inté no céu
e de que foi teus assopro
que me dero asinha nova

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

"Senti sua falta hoje..."



Senti sua falta hoje. Esse tipo de relação é coisa esquisita, porque nunca esteve aqui perto. E, no entanto, eu sinto a falta. A gente parece que se apega num “oi”, num like, num comentário, num “boa noite”, mesmo que seja só isso. Quando o contato é vedado, essas são as únicas provas concretas que temos de que ainda estamos ali, de alguma forma, importando. Haha Eu sei, é assustador, mas sei que você me entende. É claro que as nuvens são as palavras que não podem ser trocadas em outros meios em que haja espectadores. As confissões feitas, com o coração balançando pra cá e pra lá como se não houvesse escapatória de uma morte muito próxima. Os desamparos achados na materialização da imaginação e o transporte imediato pra um lugar comum em que não faz nem frio, nem calor. Ele é perfeito pra nós.

É bom dizer as coisas que não diria antes. Sabe, é muito bom não ter medo. Meu Deus, muito bom mesmo.  Dizer das vontades, das loucuras... Falar as besteiras que eu não consigo me furtar de falar, ainda que isso signifique tirar onda comigo, com o nosso estado. Foi bom ter assumido que estava apaixonada. Ainda dá uma pontinha de medo, as implicações disso, mas não posso fazer muita coisa se isso é uma verdade. Ah, e eu te amo também. É. Falei. E, por favor, não ache que isso é pesado, porque a afirmação não vem com um contrato implícito pra você assinar. Olha, eu nem estou esperando que diga nada de volta. Inclusive não poder contar isso diretamente pra você, de boa, por não saber a sua reação, me faz odiar as pessoas que fizeram isso com outras. Não deveria ser pesado dizer da existência de um sentimento bom pra alguém, nem pra quem diz, nem pra quem escuta. Não é leviandade, já que tenho certeza. Meu coração não me engana assim, pelo contrário. E ele sabe que, independente até do nosso “resultado”, ele não deixará de sentir o que sente por você. Se ainda haverá paixão, isso é que eu não sei, já que o futuro é algo “escritível” (acabei de inventar), é certo, mas me parece que alguns sentimentos são muito bem não deliberáveis. Mas amor... Mudei o que eu pensava sobre ele. Tudo está mais generoso depois de alguns anos e sei que sempre haverá espaço pra você aqui dentro, talvez pela gratidão pelo muito bem que está fazendo.

A única coisa que eu queria era teu beijo e o teu afago, que se fazem cada vez mais e mais urgentes. Sejamos sinceros, já vivemos isso antes, não é difícil perceber. Se aconteceu a tão sonhada concretude é que não sei. No meu caso, o medo sempre vinha bater na porta de uma maneira que era difícil demais, porque ele sempre conseguia forçar essa entrada, mesmo que eu ficasse à postos. A diferença, agora, é que não vejo mais essa porta. E se um dia o medo vier fazer alguma visita, eu já posso dizer que já fui muito mais longe do que jamais havia ido. Ele vai embora.

Muitas vezes olhei pra minha vida e a vi tão distante da tua... Muito mais do que a geografia continental que já nos separa. Vi a tua vida estabilizada que eu tanto almejo, tuas viagens pelo mundo, teu conhecimento sobre coisas que eu não vivi. Sua própria idade, uma vantagem insuperável. Enquanto vejo em mim a garota que sonha muito mais do que realmente faz e ainda faz sangrar os dedões das mãos, de rasgar, quando alguma ansiedade vem mais profunda. Olho pra esse apartamento pequeno que vivo e nem sei se poderia te receber apropriadamente, sem carro, nessa cama de solteiro (apesar de saber que te queria nela do mesmo jeito), nesse calor, sem muita estrutura e conforto, nesse lar sem cadeiras e de paredes sujas.

Calma, eu sei que tu vai pensar nas minhas qualidades e até ralhar comigo mentalmente por eu ter me colocado em um “patamar menor”. Não, tô bem longe da baixa autoestima, mas sei ver a realidade quando ela se apresenta pra mim. E eu também entendo que, além de tudo isso, és também um homem, sujeito às falhas e aos esfriamentos do coração. Sim, eu racionalizo isso, ainda que internalizar, de fato, seja toda outra história. Ainda não conheci tuas manias, como te comportas quando tá com raiva, se o teu coração é constante ou não. E isso eu lamento, porque são coisas que eu também quero conhecer além do teu cheiro, do teu beijo, do teu sexo, do teu abraço, dos teus braços, das pernas, da tua voz no meu ouvido.

Ainda bem que te encontrei, rapaz. Improvavelmente, como tudo na minha vida, mas te encontrei. O teu senso de vida, tua moral admirável... Penso que vi seu caráter bom. E me apaixonei mesmo, porque aí já não tinha escapatória pra esse meu pobre coração. É claro que o teu rosto lindo, a tua barba pretinha, teus olhos assustados e teu corpo de homem tiveram uma participação terrível nesse processo. rs (Esse perfil só trabalha com vdds vddrssms!). Ainda estou sentindo a falta de ti que me fez começar esse texto quase madrugador, enquanto o vizinho me torra a paciência novamente com o barulho de uma rede. Eu, vítima do meu próprio orgulho, acabo por me privar de ti do que escolher te chamar, porque não quero passar a impressão de estar apaixonada demais (olha!). No entanto, olha aqui o tamanho do texto. Tsc tsc tsc

Sei lá, perdão. Desde o aniversário do Fagner, estou com Fanatismo na cabeça. E aquela voz se rasgando, naquela poesia sofrida, me fez achar que me rasgar não teria tanto problema. Fica com esta outra também, que não sai da mais da cabeça:



Boa noite e espero que tenha os melhores sonhos. 


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Lembrei de coisas

Nesse dia espreguiçado, deitada no chão frio do quarto quente, passei o dia lembrando coisas. Até um minuto atrás foi o dia das crianças e aí, amigo, dá jeito não. Lembro mesmo. Logo eu que sou um poço de nostalgias por cima de nostalgias. As histórias marcam por tempos indeterminados demais.

Lembrei do dia em que minha mãe apareceu no primeiro colégio cristão, pra me levar pra ver a esquadrilha da fumaça. Uma loja muito grande da cidade a trouxe, em ocasião do seu aniversário. Era quando eu já estudava à tarde e o evento ia ser às quatro. Eu não tinha esperança de ir. Mary Jane, a bicicleta mais sensacional do Universo, não me levaria àquela distância em tempo hábil e mesmo que levasse, eu só sairia da aula já quase dando seis da noite. Mamãe apareceu de carro com o meu primo. Não tenho o meu irmão nessa lembrança. Com uma felicidade que não cabia em mim, fui ver, perto do aeroporto de Bacabal, aqueles aviões pequenos, fazendo tudo o que queriam no céu azul. Fiquei louca. Botei na minha cabeça que eu ia porque ia ser pilota da aeronáutica. A Jamila de agora ri que se acaba daquela menina, por ser tão inocente a ponto de acreditar que iria conseguir enfrentar qualquer curso que fosse de Exatas. Tadinha, gente. Quando fizeram a minha festa de 15 anos, naquela hora da entrada da debutante, a irmã da Igreja que era a cerimonialista ia dizendo todas as minhas características: evangélica, carinhosa, excelente aluna e que o meu sonho era fazer parte da aeronáutica. Ô, meu Deus... Como eu mudei!

Escrevendo sobre a Mary Jane, aí que lembrei de coisa mesmo. Jesus! Eu era um perigo naquela bicicletinha. Um terror mesmo, porque em primeiro lugar, ela nunca tinha freio. Eu a ganhei de uma amiga, depois que ajudei ela a se recuperar de terem roubado a sua bicicleta novinha, durante uma aula de educação física, no clube que tinha perto da minha casa. Eu tinha 9 anos e disso eu lembro bem, porque estava na 4ª série. A Mary Jane era uma bicicletinha rosa, Monark, daquelas sem o círculo no meio. Meus pais nem queriam aceitar, porque não queriam que eu recebesse caridade. Eu tinha visto a Mary na casa da minha amiga uma semana antes, quando a gente fez um trabalho em dupla. Ela tava esquecida em um quarto velho e eu vi e pedi pra dar umas voltas pela rua. Ainda não tinha tido nenhuma bicicletinha, mas tinha aprendido aos seis, na do meu primo. Foi uma tarde feliz. Nós terminamos o trabalho rapidão pra poder andar alternadamente naquela que seria minha companheira até os meus, acredite se quiser, 16 anos. E aí, a mãe dela comprou uma de gente grande pra ela, que roubaram justo no dia da estreia, no clube. As meninas da física ficaram consternadas, mas todo mundo foi fazer a sua atividade física normal. Eu fiquei lá com ela, levei pra minha casa, dei água com açúcar - o método infalível pra acalmar e matar de diabetes qualquer um. Enfim, ajudei. Eu juro que eu não queria nada, só imaginei o tamanho da surra que eu levaria se eu saísse de casa com uma bicicleta novinha e, por descuido, voltasse sem. 

A Mary foi feita pra ser minha. Por duas vezes eu a deixei dormindo na rua. Até na delegacia de Bacabal, meu pai teve que ir buscar e só devolveram porque ele falou com um policial vizinho da minha avó, porta de quem eu deixei a pobre Mary só. O vigia da rua viu e, ao invés de bater na porta da casa da Lulu, ligou pra polícia e eles levaram. Ô agonia grande, essa. Da primeira vez que eu a abandonei, eu fui pra um culto de rua perto da minha casa e a deixei, também, na calçada de um desconhecido. Terminou o culto e eu fui andando pra casa. Quando acordei no dia seguinte pra ir pro colégio, onde estava MJ? Eu nem acreditava no que estava acontecendo. Cheguei da escola e, com o coração na mão, fui no lugar. Na esquina, pedi pra Deus me dar minha bicicleta de volta. Eu leria a Bíblia toda em um ano. Ele cumpriu a parte, eu não. Ainda li até Provérbios, eu acho. A questão é, não importa o que acontecesse comigo, aquela bicicletinha rosa estava por perto. E nela eu rodei toda a Bacabal, muito mais do que os meus pais sequer podem imaginar. Eu não considerava ela realmente como um simples objeto, inclusive eu nem deixava que as pessoas a chamassem desse nome tão... Ordinário. Era Mary Jane e pronto e acabou-se, porque eu reconheço que eu sou chata em relação aos apelidos que eu quero que peguem. Foi uma grande amiga, que já não sei do paradeiro, por um descuido que eu ainda não consegui perdoar.

Uma vez, resolvemos eu e um grupo de amigas, sair pra explorar Bacabal. Por uma loucura dessas que dá na cabeça de menino, a gente decidiu andar na Avenida João Alberto, que é o lugar que o pessoal se reúne agora pra fazer caminhadas, à tardinha. Bom, nessa época isso ainda não era tão popular assim. Saímos de um lugar longe da Avenida até ela e resolvemos percorrê-la toda, chegar na BR e voltar pela Cohab. Meu Deus, eu não sei nem contar quantos quilômetros isso dá. Só sei que é circundar Bacabal por fora. Não tinha acostamento que prestasse e, quando bateu a sede e o cansaço daquele terror de sol quente, me bateu também o desespero e a certeza de que eu ia morrer atropelada por um daqueles caminhões gigantes que bozinavam pra nós, o que nos fazia morrer de medo. Quis chorar, quis voltar, mas não dava mais. Quando finalmente me vi na Cohab, ainda longe demais de casa, mas dentro da cidade em si, com casas ao meu redor e sem qualquer risco à minha integridade física, o alívio soçobrou qualquer cansaço do meu corpinho e pedalei, motivada pela sede, até em casa. Passei dois dias com o bumbum dolorido, as costas, as pernas que deram câimbras, sem que ninguém lá em casa tivesse percebido nada. Sim, a MJ também estava sem freio nessa época. Sim, pedalei horas em uma rodovia interestadual em uma bicicleta infantil sem freio. Raras eram as vezes que tinha, porque eu mandava colocar e algum mecanismo que estava além de qualquer conserto, quebrava novamente os freios novos. Nesses anos todos, a pobre Mary também nunca viu uma corrente ou cadeado, porque eu acreditava piamente que as coisas que eu me importava de tomar muito cuidado, se extraviavam mais facilmente.

E quando me apaixonei? O currículo de amores platônicos começou a ser preenchido desde cedo, com uma paixão sem fim por um colega de classe que sempre me demonstrou desprezo, quando muito, uma amizade sem tônus, mas o suficiente pra me fazer passar noites em claro. Isso começou, sei lá, desde a 2ª série, eu suponho. Negócio bizarro mesmo. Era o tempo do amor puro e desavergonhado, porque eu não tinha pudores de mandar cartas e mais cartas de amor, mandar presentes, dar toda e qualquer bandeira de que eu queria aquele menino pra mim. Até o dia definitivo em que eu soube que ele era apaixonado por uma amigona minha. Veio a 5ª série, ele foi estudar na capital e acabou o amor. Amém! Mas vieram outros. Eu tinha a mania mais horrorosa do mundo de me apaixonar por professores. Dois, que isso aconteceu. Sendo que um desses amores não concretizados da infância (que, afinal, nem podia mesmo, né?) me acompanhou durante muitos e muitos anos. Dez, pra ser mais precisa. Outros amores, outras paixões vieram, mas esse amor cristalizado não me largava. Altos e baixos, mas estava ali presente. Até o dia não tão remoto em que sonhei e acordei chorando, porque algo dentro de mim me falou: "Moça, deixe isso ir". E eu deixei, com dor, mas deixei. Quando penso a respeito desse sonho, me pergunto se não foi uma forma do meu subconsciente me dizer, de forma bem mais explícita do que se pode esperar da mensagem contida em um, que aquele sentimento deveria dar lugar a qualquer outra coisa, mas que não havia mais lugar para ele, não daquela mesma forma, que tampouco era a original, mas mesmo em suas permutações, ainda o entendia como amor e ainda sofria por ele. Hoje, é apenas gratidão. Olhar pra trás e ser grata por uma amizade que eu pensei que não pudesse existir entre pessoas em que tudo era tão diferente. Idade, status, hierarquias, tudo. Nas épocas complicadas demais, ter aquele sentimento a qual me aferrei com o que pude, mesmo com o contato encerrado havia anos, foi uma forma de ter "vivido" alguma coisa na minha adolescência interrompida. As boas e velhas compensações que o meu coração e cérebro me faziam ter, por tanto sofrimento. Hoje, depois de tanto tempo, sei que não conseguiria alimentar amores platônicos dessa mesma forma. De perto ou de longe, eu preciso saber que há reciprocidade, pra que possa entregar meus sentimentos e tudo o mais que vem no pacote.

A vida, no momento, dá voltas. Retorna aos lugares de começo, meio e fim das histórias, por ganas de recontá-las. Deixando nas minhas mãos os desenlaces. Dando a oportunidade pra que eu, Jamila adulta, honre a criança determinada, atentada, pensativa, alegre e triste que eu fui.

Ps: Esse é o tipo de texto que a gente decide parar de escrever. De verdade, ele não tem fim.
Pps: Não revisado e sem qualquer pretensão de.
Ppps: A última linha foi escrita sem o consentimento da primeira. A mão estava solta e não era no que deu, que eu tinha pensado ao começar a escrever.

sábado, 6 de setembro de 2014

É quando.

Pensando muito bem, esse ano foi o marco das surpresas boas. Ainda não chegou no final, é claro, e só o que eu penso é no que ainda ele pode me trazer de bom. De ruim também, aliás, mas não me concentro nisso, por causa da esperança sem fim, ainda bem. Se alguns anos ficaram marcados pelos rótulos das surpresas boas e ruins que trouxeram, esse, talvez leve o rótulo do ano das realizações. 2003 ficou na memória como o mais feliz da vida. Dos tempos azuis, de um amor que perdurou muito mais do que aquela garota que percorria aquela cidade sem qualquer tipo de freios metafóricos e reais imaginou. Mas eu só tinha 13 anos e tudo o que existia, era cheio de impossibilidades.
2006 foi o ano da amargura. Dos sofrimentos infinitos que marcaram minha vida pra sempre. Do início de uma caminhada dura, íngreme. Onde as minhas mãos mais se feriram na tentativa de subir aquele poço profundo da miserabilidade humana em que eu cheguei. E saí.
2008 foi o começo do impossível. Entrei pra Universidade pra que fosse alguma coisa, enquanto ainda não podia ir atrás dos meus sonhos. Era bastante novo aquilo. Ainda assim, eu já me conformava com as velhas desculpas à consciência... "Não há problema passar a vida aqui, menina. Você não precisa ter tanta pressa assim. Não há fórmula pra ser feliz. E se você puder ser feliz aqui mesmo, qual é o problema?". Bom, eu estava certa. Se eu pudesse ser feliz lá, qual seria o problema?
Veio 2010, que ficou batizado como o ano improvável. Saí da minha cidade depois de tantas tentativas frustradas, de tantos sonhos abortados naquela gestação infindável. Estava nascendo. Não nasceu sem dor, no entanto. Mas tudo o que houve me deixou mais consciente dos meus movimentos, pelo menos. Nenhuma dessas dores foram necessárias, mas aconteceram. Não me restava o que fazer, a não ser o que fazia desde sempre. Continuar.
Chega 2014 e todos os seus marcos. Foi tanto, mas tanto... Esse ano foi inacreditável. Desses que se tem até medo de falar alguma coisa, porque vai que estraga, né? E mesmo que 2010, o ano das improbabilidades, tenha se passado há quase muito, as improbabilidades ainda me perseguem, porque é disso que é feita a minha existência. Uma sucessão terrível e maravilhosa delas, que se espraiam por toda a minha história. E uma em particular me vem alterando como eu pensei que não fosse mais ser possível pra esse tipo de coisa. Essa improbabilidade está fazendo com que eu passe por cima das minhas vergonhas, dos meus medos. Está fazendo que me desperte a vontade de passar frio, só pra que me esquente. De mudar ainda mais. De rir até a inconsciência. De não ter mais medidas. De transcender toda a distância dos extremos em um pulo e saltar por cima de duas décadas e poucos anos de incertezas, só pra dar o abraço que eu quero. Porque eu quero e não só quero, eu tenho.
E tudo ficou reduzido à simplicidade do "quando". Porque não é mais "se".

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Bacabal...

Sim, terminando a palavra com reticências. Porque foi assim que eu passei boas horas do dia pronunciando essa palavra. Roubei a bicicleta do meu irmão por uns momentos e fui fazer uma das coisas que eu mais gosto de fazer quando estou aqui, que é andar numa bicicleta, por aí, sem qualquer direcionamento claro. Pôr em prática o verbo que eu aprendi em Teresina: "desopilar".
Pedalei, aproveitando que o tempo estava frio - ou melhor, não tão quente assim - e haviam algumas nuvens no céu, o que ainda não trazia o que seria mesmo a perfeição: o vento gelado de chuva, junto com as cores em sépia da realidade. Ainda hoje me lembro do melhor arco-íris que eu vi na minha vida, no quintal da casa da minha vó. Absolutamente tudo estava amarelo e mesmo as cores do arco-íris, se viam douradas. Eu fiquei o tempo que eu pude, olhando pro céu, mesmo com o pescoço doendo, porque sabia que seria uma imagem que ficaria pra sempre guardada. E é isso, ficou.
Parece que o ato "irresponsável" de sair sem rumo na cidade me despertaram sensações muito mais intensas do que costumam. Deve ser pelo estado da graça das alterações hormonais mensais, acrescidas de umas saudades terríveis de tanta coisa... Era saudade A por cima de saudade B por cima de saudade C. (C de Colômbia, no caso!). Parece que a minha vida agora é essa. A de sentir saudades de tudo o que me foi e me é bom. Talvez eu deva ver essa soma grandiosa de saudades como algo positivo, apesar de certa tormenta, por raciocinar que só podem ser resultado de muitas coisas boas que eu vivi/estou vivendo há um certo tempo. Eu sabia que o ano havia de ser grandioso, mas não tinha noção. Não se sabe até sentir.
A cidade estava como eu a deixei. As ruas esburacadas e outras não. O céu incrível. Um calor aceitável, pois era amenizado pelo vento, que sempre me traz boas recordações. Eu avançava os sinais e parecia que ia o peito explodir de recordações. Porque, à medida que eu via as ruas que percorri na minha infância, pra fazer tantos trajetos, ia lembrando de quem eu era e de quem agora sou. E imaginando se aquele detalhe daquela determinada lembrança não tivesse acontecido, o que seria de diferente. E percebendo, inquieta, que a menina que pedalava em outra bicicleta de fim desconhecido, com o nome mais legal que uma bicicleta monark infantil podia ter, tinha sido feliz, apesar das agruras, e que tinha até mais coração do que eu, por não ter sido picada ainda pelos escorpiões da vida.
Parei na praça que esteve tão lotada quanto não pôde, pra inauguração e que agora está ocupada por mendigos. Crianças ensaiavam numa pequena fanfarra pros desfiles de 7 de setembro, que se aproxima. O professor passava uma bronca aos dispersos e eu, parada, de longe, vendo tudo. Alguém percebeu que eu tirei duas fotos e se virou. rs Desculpa, criança. Continua aí que eu tô achando morto de lindo.
Andei pela rua da escola que eu estudei 11 anos. Andei pela rua da que estudei mais três. Andei pelas ruas dos cinco endereços diferentes que tive quando ainda morávamos de aluguel e constatei que era mais difícil andar por essas, porque sinto uma vergonha inexplicável dos vizinhos que ficaram por lá. Andei pelo centro, onde passava por fachadas com irresistíveis vidros espelhados que me atraíam pra minha própria imagem, desde quando eu não tinha feito as pazes com ela. Andei e vi rostos conhecidos, os familiares, os totalmente novos. Tracei trajetos pra coincidir o pôr-do-sol na avenida, onde é mais bonito de se ver, mas frustrei meus próprios planos com uma parada prolongada em outra pracinha, onde dois meninos brincavam de jogar uma bola de baleada um pro outro e outro andava de bicicleta tão indolentemente quanto eu.
A igreja da primeira praça, entrava uma velha de cabelos brancos. Passou também uma carroça, o homem em cima dela e o seu boi velho que carregava o peso dos dois. Aquelas pessoas eram tão reais, mas, ao mesmo, já tão inverossímeis pra mim. Tão meus e tão distantes. Os enterros nas casas, que presenciei no segundo dia que estava aqui, com uma placa na porta do finado que dizia "Família Enlutada", me pareceu algo de outro mundo. Tinha explicação: é pra que os carros de som das campanhas políticas vejam a placa e deixem as pessoas velarem seus mortos em paz.
Meu olhar sobre essa cidade era o olhar dos apaixonados. Se eu temia não achar mais beleza, depois de um mundo desconhecido de belezas que encontrei, me surpreendi por ver a beleza que talvez não veria, se não tivesse me distanciado. A beleza das crianças brincando na rua. A beleza das pessoas sentadas nas suas portas. O homem que dormia descangotado numa cadeira, em frente à sua casa. As mães buscando as crianças de rostos vermelhos, suados e uniformes sujos de tanto brincar. Aquela hora que aquele senhor que eu (acho que) não conheço, me deu "boa tarde", sem que houvesse malícia perceptível.
Não é à toa que eu sempre sonho comigo andando de bicicleta. Sempre foi um refúgio móvel pra alma.
Hospital Bom Pastor, com essa rua linda. Foi onde eu dei as caras ao mundo. hehe

Praça Sta Teresinha, com as crianças ensaiando pro 7 de setembro.


Uma palma bem florida.

Igreja de Santa Teresinha, onde a velha entrava.



Ai, não sei o nome dessa igrejinha.


Meu priminho de um aninho, realmente achando que tava muito escondido com essas mãozinhas tapando o rosto. Ownhhh!
Envolta por todo o carinho do mundo. ^^

Eu, desenhada por uma prima de cinco anos. Precisando malhar as pernas e os braços e dar um jeito nessa cara de zumbi. =(
O homem, a carroça e o boi velho.



Praça do Bom Pastor, onde eu era o próprio cão vestido de tanga (quando eu era criança). É aqui um dos lugares preferidos dos casais.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Desejo

Juntaram-se sabe-se lá como
Roeram seus passados com dentes afiados
Deram as mãos, de longe.

Não se tocavam.

Até que...
Abraçaram a sorte do destino
Enroscaram-se nas horas frias
E as aqueceram
Beijaram as fogueiras recíprocas
E encerraram-se num delírio mútuo.

E então e sempre,
Comeram a paz com bocas alegres
Beberam o viço das vidas vividas
Celebraram a sorte com sonos compartilhados.

Viveram o que não se pode conter.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Vida, vem cá só um instantinho?

Como não há mais saída viável pra mim, vai ser o jeito escrever mesmo. Eu já devo ter falado alguma coisa sobre isso em outro momento, ou com alguém, mas tem horas que não existem alternativas. Só o que dá é escrever. Passam-se os anos e eu não sei quando vou deixar de sentir uma falta imensa dos cadernos que estão guardados no guarda-roupa, que foram por um período crucial na minha vida, meus diários. Quem já se deu o trabalho de ler alguns dos meus textos aqui, sabe que a referência é quase obrigatória quando o assunto é sobre escrever. Não tem jeito. Marcou demais. E a forma abrupta com que parei de escrevê-los, mais ainda.
Quatro anos se passaram, desde então. E ainda sinto um buraco, um vazio, algo que pede pra que eu retome o hábito. Algo que diz: "Cria coragem, menina! Tu sabe se defender das coisas agora. Nada parecido pode te acontecer, não agora!". Mas, sei lá, o trauma ainda não foi superado. E aí, a maneira que há de expurgar, quando pesa o coração seja do que seja, é correr pra cá, pra tela quente do computador, pro bloquinho que carrego dos tempos de estágio, pras notas do celular e tentar colocar pra fora um pouco dos milhares de pensamentos, dos longos textos que fico escrevendo na minha cabeça o tempo todo.
Veio a viagem à Colômbia à minha cabeça. O quanto isso me mudou, hein? Sempre tinha muita gente pra não me deixar parar como paro aqui, sozinha nesse quarto quente. As 12 horas em Bogotá, mais as mais de 20 que passei em Guarulhos, me deram, obviamente, BASTANTE tempo pra pensar. Pensava nas descobertas, no passado, naquele presente frio pra caralho. Em quem eu tinha conhecido e tinha pouca esperança de ver, em quem eu não tinha conhecido, mas tinha muita vontade de ver... Enfim. Parece que me enredei na mesma teia das vontades que não podem ser realizadas assim, de pronto. De novo. Aí não sei se o segredo é ter mesmo paciência ou se é fazer uma loucura, não-sei-não-sei-não-sei. Que mané segredo o quê! Tem porra de segredo nenhum não. Mas, no momento, também não há o que fazer. Nem loucura, nem se eu quisesse agora
Olha, se a vida fosse mesmo uma pessoa, eu ia chegar nessa égua, ia sentar ela numa cadeira, ia falar mesmo no fundo dos olhos e dela e ia perguntar, com uma cara que ela ia  tremer mais que vara verde: "QUA-LÉ A TUA?"
Agora tenho que guardar mais todos os beijos que eu quero dar. Se fosse meu diário, eu escreveria tudo... rs




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Concretude

E por que não, depois de todos esses anos, dar finalmente as mãos à concretude?
Concretude. Transcendência. Palavras-chaves dos amores distantes. Dos não começados. Dos teimosos. Dos fantasmas.
É que aos medrosos, o amor os assusta. As dores demasiadas transformaram seus desejos em apenas fantasias seguras... Onde não está o fim. As lágrimas ficam retidas.
Mas as de êxtase também.
O amor dos medrosos exige mais. Quando se dá mãos à concretude, ela, com um golpe tantas vezes aplicado, arrasta as cabeças os corpos as almas os juízos pra um lugar distante, onde os abraços são sensações físicas indeléveis. Impregnados à estrutura do ser, exigem dos medrosos que aguentem senti-los a cada momento em que o próximo abraço está distante, por vezes, em muito mais de um sentido. A concretude dos amores é maravilhosa aos medrosos. A concretude dos amores é cruel aos medrosos. A eles, é bom que saibam de antemão dessa inexorabilidade, para que façam seus infinitos cálculos, onde decidem o que é melhor para suas almas, que sabem ser frequentemente inconsoláveis.

"A que(m) eu darei a mão?"

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Colômbia, depois de todos esses anos.

(Escrevi isso no segundo dia que eu estava aqui e deixei assim, não terminado:)

Uma paixão avassaladora que surgiu, pra ser bem sincera, eu não sei há quantos anos. Vim pra Colômbia realizar um projeto, mas também saciar essa sede irrestrita que eu sentia há muito tempo de chegar perto de coisas que eu só vi nos livros e só escutei nas canções dos daqui.
A todos os que me perguntam: o que foi que tu foi fazer aí? Eu vim por um intercâmbio de curta duração. Serão apenas 45 dias aqui, na cidade de Barranquilla, que fica no departamento Atlântico, na costa da Colômbia. Esse intercâmbio é promovido pela AIESEC, que é uma Ong que age prioritariamente com isso, intercâmbios. Eles procuram a integração entre os povos através de oportunidades como essa, de que jovens universitários do mundo inteiro, possam vivenciar coisas diferentes do que estão acostumados. O meu projeto é o OC Army, que é um projeto basicamente cultural, onde vamos socializar as nossas vivências de nossos países, para, isso mesmo, jovens soldados do Exército da Colômbia. Bom, eu só vim ficar sabendo disso bem depois, quase quando já estava tudo acertado pra vir pra cá. Pensei (e disse pra muita gente), que era para fazer essa mesma coisa com crianças e/ou jovens de locais mais carentes de Barranquilla, o que eu, certamente, me daria muito melhor. Como nada é perfeito mesmo, amanhã começa essa jornada com os soldados. Ainda teremos treinamento, mas temos que ser proativos no que vamos ensinar (e aprender, logicamente). E estive pensando muito bem sobre isso, sobre as minhas próprias inclinações e pensei que é bom que os exércitos tenham esse tipo de vivência. Que se humanizem cada dia mais e mais, não é?
Estou hospedada na casa da Família Rivaldo. São três mulheres e um homem: a mãe, duas filhas e um filho. São gente muito generosa e boa, que moravam no interior da Colômbia e que se mudaram pra Barranquilla, pra cumprir o desejo do pai falecido. Apesar de ter falecido há um certo tempo, vejo que é uma presença constante nas conversas, nas paredes, nos retratos... Na lembrança dessa família bem apegada. E agora mesmo enquanto escrevo esse texto, uma voz canta o Ballenato - um ritmo musical daqui muito legal - em voz alta, porque essa galera é assim: coloca o som alto o dia todo e a mãe, uma senhora muito generosa e muito prática, que pode, a qualquer hora, começar a dançar e a cantar alguma música nesse ritmo, o ritmo que seu marido era cantor.
A cidade é quente, mas não tão quente quanto Teresina. Além do que, aqui venta muito, já que é uma cidade do litoral. Às vezes me parece que eu estou no Brasil, em uma capital do Nordeste que eu não conheço, só que com tudo dublado em espanhol. As pessoas comem muita comida frita, desde o café da manhã, até o jantar e falam um espanhol muito mais complicado do que em Bogotá, onde eu era constantemente elogiada pelo meu quase perfeito espanhol. hehe Aqui eu preciso que perguntar sempre: Como? Como?

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8 de julho de 2014.


Muita, muita coisa na minha cabeça. Hoje, como todo mundo com consciênia que estava nesse planeta Terra deve saber, tivemos uma derrota acachapante pra Alemanha na Copa. O Plínio Arruda, o político mais simpático do Brasiiiiil, faleceu depois de uma longa jornada contra um câncer. Não foi assim o melhor dia, né? Eu acabei que fiquei me sentindo muito triste por causa dessas coisas. Não sei. Eu acho que eu até não deveria me importar tanto, já que eu não sou assim tão fascinada pelo Futebol em outros âmbitos... Mas em Copa, amigos... Ah, em Copas do mundo eu simplesmente perco o meu juízo. Acho que é porque remete aos tempos em que eu era só uma pirralha lá em Bacabal, pedindo dinheiro de porta em porta pros vizinhos das muitas ruas onde morei, pra que a gente conseguisse decorar a rua de maneira satisfatória. Há duas copas que eu não passo em Bacabal. Nessa Copa, foi tudo muito diferente do que eu imaginei. Vim pra cá e no primeiro jogo do Brasil depois que eu estava aqui, eu não era a única que vestia o amarelo, mas a única que também vestia o verde junto. Foi uma experiência nova e absurdamente louca pra mim, que saí até num Portal de Notícias por estar aqui justamente durante esse jogo e torcer pelo meu país da mesma forma. Ok. Não tão da mesma forma. Festa nas casas dos outros têm que ser bem mais contidas, certo?
Ontem foi o dia em que realmente traçamos as estratégias do Projeto de compartilhamento cultural com os soldados batedores do Batalhão de Barranquilla. Por conta de atrasos do próprio exército, como celebrações internas, não pudemos dar muito procedimento na atividade na primeira semana em que estivemos aqui. Só nesse projeto, são quase 30 pessoas. Gente de toda a parte do mundo que veio pra compartilhar e conhecer. Sair da zona de conforto. Gente da Alemanha, Holanda, República Tcheca, Porto Rico, México, Argentina, Estados Unidos, Itália, Rússia, Índia, China e é, claro, eu e mais dois representando o nosso Brasil baronil. Ou seja, por mais que você tenha que saber o espanhol pra poder se comunicar com o resto da cidade, das pessoas e tudo o mais, é muito importante que você saiba inglês, senão fica difícil criar qualquer tipo de laço com essa galera que é só bilíngue. Estou me saindo muito melhor do que eu imaginava, devo dizer. Meu inglês não é, de jeito nenhum, essas coisas, mas eu compreendo e me faço compreender muito bem, apesar das escorregadas na gramática e na falta de fluência. Não tem problema, o tempo taí pra isso.
A cidade tem algumas particularidades, como o fato de as ruas não terem nomes, nem datas, como no Brasil, mas são divididas em calles e carreras. E todas elas são numeradas, ou seja, pra saber um endereço, você tem que pegar calle número tal com carrera número tal, que eles vão bater certinho onde é. Eu ainda não entendi direito como funciona esse sistema, porque os números são contados de baixo pra cima (ou seria de cima pra baixo?), em direção ao mar, or something like that. Perdão, gente. Eu sou ruim de localização até em Bacabal. Outra coisa que me impressionou bastante foram os chamados Transmetros. São estações bem legais que estão espalhadas por toda a cidade, com ônibus bastante confortáveis, novos e com ar-condicionados, com uma passagem relativamente barata. Aliás, apesar de eu ter achado que o real era desvalorizado em relação ao peso colombiano -o que foi um erro crasso meu, demonstrando total inabilidade com números =( -, as coisas aqui são, em compensação, bem mais baratas que no Brasil. Perdi ou me roubaram um celular, nas incríveis 17 horas de escala que eu passei em Bogotá e, chegando aqui, eu comprei um moto g do mais econômico. Não era bem um luxo, porque eu realmente preciso aqui de um celular que tivesse android por vários e vários motivos. Que se fosse pra comprar, comprasse pelo menos logo um de vergonha. Custou 410 mil pesos, o que custou menos que 500 reais. Em qualquer lugar barato no Brasil, o mesmo modelo não sairia por menos de 600.
No final de semana, fomos a um povoado chamado Taganga. É perto daqui e lá tem praias incríveis, com uma cor inacreditável. Pena só que não era todo aquele paraíso perdido que todos nós imaginamos, já que a praia já está consumida por turistas e há lixo por muitos lugares. Em suma, turismo descontrolado num lugar só pode dar nisso mesmo, merda. Ainda assim, foi uma viagem super legal, bem barata, onde nós aproveitamos pra nos conhecermos melhor. Onde vivemos situações legais, onde saímos pra dançar numa danceteria que não cobrou nada pra entrada e nem tinha consumação mínima e dançamos esses ritmos que fazem qualquer um dançar até se acabar, sentindo a brisa do mar, já que era parte coberta, parte a céu aberto. Histórias, pessoas, sorrisos, surpresas... Coisas que mudaram o modo como nós somos hoje. Quem diria que eu iria fazer mais amizade com a russa e com a alemã do que com os outros latinos? rs Quem diria que eu iria conhecer o cara que já visitou 10 países, morou em vários deles, sabe 6 línguas fluentemente e não tem nem 25 anos? E a gente aqui se achando O cosmopolita porque terminou o curso de inglês.
Essa é a minha primeira experiência fora do Brasil, durante um período que, às vezes parece muito curto, às vezes muito longo, de um mês e meio. Creio que isso é muito, quando se fala em saudades. Mas nem tanto assim, quando se pensa que vai pôr os pés num avião novamente e saber o mundo de coisas que você ainda não tinha aprendido, vão ficar pra trás. E quando eu vou ver essas pessoas de novo? Gente que eu já gosto, que já fiz amizade, me considero e me consideram como família? PORRA, como é que essas coisas acontecem, né? vsf
O meu coração está simplesmente cheio. Meu Deus do céu, de tanta coisa. De uma confusão tão grande de sentimentos, de cansaço, de alegria, de tristeza, de uma vontade de estar perto de alguém em particular, de uma vontade de sair pra dançar até eu me dar por satisfeita... Gente. Esse ano de 2014, tô ficando até com medo dele, porque o bicho tá sendo sem noção demais, em TODOS os sentidos. Maravilhosamente sem noção.
Obrigada pela tenacidade, meu Deus. Por essa teimosia, essa cara-de-pau, essa inexorabilidade que percorre o meu sangue. Quem sabe da minha trajetória, sabe do que eu estou falando. Cada conquista será sempre comemorada como um 7 a 1, só que pra nós. rs


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Perrengues

Eu não sei se é apenas por um momento de tristeza um pouco difícil de desprezar, dados os sustos do dia de hoje e os perrengues que sobrevieram, mas me veio um pensamento muito filho duma puta - um pensamento que não é novo - de que, pra mim, as coisas sempre são mais difíceis. Simplesmente é muito difícil eu planejar uma coisa, querer uma coisa, fazer uma coisa e dar tudo certo, sem sobressaltos, sem as sérias ameaças ao sucesso da empreitada. "Porra, Jamila, sua nojenta! Pra todo mundo é assim, caralho!" Ô, seu cara de cu, eu sei! Mas tem uma hora que você só olha as suas batalhas e vê o quanto elas foram desnecessárias. No sentido de por que que essas caralhas existiram mesmo? Pra provar o quê? A quem? Eu não vou ser uma pessoa infinitamente melhor se tudo que eu for fazer, tiver sempre a merda dum entrave feio na frente.
A minha sorte é que eu tenho esperança esperança esperança esperança esperança e enquanto eu tiver esperança esperança esperança absolutamente nada pode destruir meus sonhos. E, TALVEZ, por ter muita esperança, o universo ou seja lá o que for, me recompensa fazendo com que tudo dê certo, no final. Mesmo. Eu acho que eu já me acostumei. A tristeza tá aqui, ainda, algumas lágrimas e tal, mas tem uma certeza latejando no meu peito (talvez tenha sido isso que diagnosticaram), de que tudo vai se resolver.

Ora, meu anjo da guarda é displicente, mas é poderoso! 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O mundo, todo ele, de novo.

Entrando nesse mundo de novo. É assim que eu me sinto nesses marcos cíclicos do tempo. É dia 18 de maio de 2014, exatamente às 23:58. Ainda faltam dois minutos pra chamar de meus. Talvez se acabem e eu nem perceba, porque estou escrevendo esse parágrafo e dando algumas suspiradas por estar com o peito inteiramente cheio de muito mais do que ar, daquela Vida que às vezes se instala em mim por horas e não quer sair e eu nem quero mais que ela vá, mas em algum momento ela vai. No entanto, como os gatos de rua que foram morar em casas: ela vai, mas ela sempre volta.
Se os meus cálculos não estiverem errados, em alguma parte do dia de algum dos dias do mês de agosto de 1989, meus pais sentiram alguma urgência inexorável. Ao liquidarem a urgência, o que era de se encontrar, se encontrou e eu fiquei, durante um tempo que eu ainda hoje considero pequeno, no lugar mais legal que alguém com um rabo maior que o corpo pode ficar. Dizendo mamãe, meio dia do dia 18 de maio de 1990, eu mostrei a cara, porque mesmo achando massa lá, já tava ficando chato e eu, mesmo pequena, sempre precisei de espaço.
Muita coisa rolou, muita água passou por debaixo desta ponte e hoje (?), como disse uma vez um conhecido, tá com 24 anos que eu "tou aí". E quando badalou a meia-noite e eu estava lá, rodeada de amigas, gritando e pulando junto comigo, veio essa sensação que eu mencionei acima: "Estou entrando no mundo de novo". E pelas provas que a Vida já me deu, puta que pariu! O que será que me aguarda?
Sonhei um sonho já sonhado antes, onde salvava bebês muito pequenos dentro de piscinas. E eles estavam imóveis, como se alguém os tivesse colocado ali, porque os bebês sabem nadar mesmo, certo? Mas eles não se mexiam e eram muito, mas muito pequenos. Só estou contando isso, porque, quando papai me ligou pra desejar os parabéns, eu estava vendo a cara de um que sorria pra mim, por que eu acabara de tirá-lo de dentro da piscina, como se fosse um agradecimento. Como ainda existe uma parte de mim que acredita em augúrios, pensei que fosse um bom pra começar essa reentrada no mundo. Salvando bebês extremamente novos do afogamento. Gente... What a vibe!
Esse ano, no meio, e já rolou coisa pra caramba. E tá sendo bem, bem bom. Desses que dá até medo de dizer que tá sendo bom, porque vai que... Né? Mas é impressionante. E tantas felicitações (sempre mais que bem vindas), me fizeram pensar que essas conquistas do dia-a-dia são desvalorizadas, talvez porque não estejam inseridas dentro desses marcos que nos fazem parar e pensar o que nós estamos realmente vivendo. Ainda assim, quando tudo terminou, eu tinha consciência de que muitas vezes eu deitei na minha cama agradecida por mais um dia completa e maravilhosamente normal.
Sentada aqui, dando fim a uma urgência bem menos inexorável do que a que fez com que meus pais me engendrassem, depois das lágrimas e do sorriso no rosto em caaaada mensagem que me mandaram pelo meu aniversário, eu creio que meus sentimentos estejam um pouco em frangalhos, pelo tanto que os pobres trabalharam hoje. Terrível e maravilhoso passar um aniversário com TPM. Mas... Como eu não vivo num episódio de Skins, não recomendo. Se não der pra evitar, passe o aniversário com tpm mesmo assim. Porque se o aniversário não rolar, então quer dizer que você já morreu.

Esse texto foi escrito exatamente ao contrário de qualquer ideia que eu tinha quando eu o comecei. Ideia que eu nem me lembro tanto assim. Já é quase uma hora do dia 19 e eu, em tese, já teria que estar dormindo. Acontece. Não é todo dia que se entra no mundo de novo.

domingo, 4 de maio de 2014

Compensações

A boa e velha compensação dos sonhos veio me visitar de novo. Dessa vez, concretizando um desejo simples, de há muito tempo, destinado a uma pessoa: um beijo. Alguém que eu quis (e tentei) beijar várias e várias vezes, mas que, por motivos que é melhor pra minha auto-estima não tentar elencar, nunca quis.
Como já é tarde e eu acordei cedo pra um domingo sem obrigações, protelei o registro do sonho e muito dele já se perdeu. Mas não a sensação. Eu tenho uma certeza de que, quando eu sonho com algum beijo (ora, já sonhei várias vezes com isso), é, realmente, como se o beijo da pessoa fosse daquela forma. Por ter beijado realmente quem eu já sonhei beijando e ter rememorada a exata sensação do sonho, isso é algo que eu carrego como verdadeiro, apesar de saber que é completamente irracional.
Nunca foi segredo que eu dou uma importância enorme aos meus sonhos, até porque consigo me lembrar deles, mesmo muito tempo depois de acordada. Existem sonhos que eu trago comigo há anos. Sonhos de quando eu era criança, sonhos apaixonados e sonhos em que os meus problemas foram resolvidos, de quando eu perdoei e fui perdoada... Coisa nesse naipe. Afora os sonhos que eu voo, os que eu saio correndo sobre o mundo, os que eu conheço celebridades (Sim, megalomaníaca, eu.)
Muita coisa se concretizou, desses sonhos, por que, claro, já havia o desejo. O próprio ato de sonhar já é o que define, certo, Jung? (Ou seria Freud? Não sei.)
Enfim, se o sonhado ocorrer da maneira que sonhou-se, meu Deus... Rapaz, o que me negastes, hein?

domingo, 27 de abril de 2014

O baú



Em todas as vezes em que esteve certo de algo, procurou as histórias da vida do pai e tentou alguma aproximação. Mas isso foi bem depois. Sabia que o velho tinha seus dias arquivados em páginas cuidadosamente escritas com a ponta da caneta bic, sempre de tinta azul ou preta. Gostava de escrever afundando as letras, pesando a mão. Foi como aprendeu a escrever, afinal de contas: na marra, depois de adulto e com a mulher ainda grávida do primeiro filho. Foi quando decidiu que iria pagar aulas com quem quer que se dispusesse em lhe dizer que símbolos eram aqueles que via nas conduções e não entendia. Não queria a humilhação de não poder ensinar pros filhos o que eles quereriam saber, quando viessem da escola todos os dias com as tarefinhas e com mais perguntas do que respostas, num processo sempre cumulativo de questionamentos embaraçosos.

Não era um pai amoroso, ou pelo menos, não daqueles que levavam as crianças pra passear ou colocava o mais velho no colo pra contar seus tempos de menino. Não foi assim como lhe ensinaram que um homem devia ser. Apesar de ter chorado escondido no nascimento dos dois filhos, tudo o que mostrou na frente dos outros, foi o beijo na testa suada da mulher exaurida e os risos formais que dava a cada par de amigos que entrava pra ver a criança gorda e sempre chorosa. A vida tinha sido muito difícil e casar foi mais uma urgência reparadora do que um planejamento pra vida. Ainda era muito cedo, o tempo era pouco e o dinheiro também. Um choro, porém, ficou engatado na garganta. Quando foi no cartório e precisou dizer o nome da primeira criança, um nome de astro americano, e o moço que fazia essas coisas perguntou como se soletrava e ele não sabia como responder. Sabia que haveria de ter algum “a”, mas como se parecia um “a” e onde era que ele se encaixava no meio daqueles fonemas que trazia consigo? Derrotado, deu o nome de Francisco ao primeiro pequeno. Era comum, o moço do cartório não precisaria perguntar como era que se escrevia. Ainda não tinha se sentido humilhado dessa forma. Durante toda a gravidez entrou em combate com a mulher pra lhe dar esse nome em particular, pra no final, uma simples questão prática e básica lhe impedir o intento. O choro na garganta se transformou numa raiva cega que não deixou que ele pegasse a condução pra casa. Foi à pé, pensando que as coisas não deveriam ser assim pra ele. Pra ninguém.

***

Francisco tinha já seus quase 30 anos quando achou um baú mal entalhado, todo empoeirado, em um quartinho da casa antiga em que seus pais ainda insistiam em morar, apesar da distância para o bairro em que os dois filhos moravam com suas respectivas famílias. A porta do banheiro de uso comum da casa estava emperrada e era preciso alguma ferramenta. Logo também foi detectado um defeito no trinco. Foi a um quartinho velho, onde ninguém mais entrava há muitos anos. Era o lugar que o pai queria que, um dia, fosse um escritório, onde podia sentar todas as noites e realizar tarefas sem ser incomodado por qualquer barulho que fosse. O pai sempre foi um homem difícil, com um aspecto muito duro. Por mais que o moço nunca tenha colocado em cheque o fato de ter sido amado por seu pai, o conhecia o suficiente pra saber o que poderia esperar dele ou não. Poderia esperar uma mão na cabeça, sem mais do que uma risada rápida do canto da boca e um quase grunhido que soava de aprovação. Fora isso, só lembrava do dia da ocasião especial em que o pai chegava do trabalho e ele ainda estava na rua jogando bola. Antes de ver que o pai se aproximava e sentir um frio gelar-lhe os ossos, marcou um gol. O pai foi ao encontro do menino petrificado que o olhava atentamente, pousou a mão em sua cabeça sem dizer palavra, mas o sorriso correu-lhe por toda a face, fruto de um orgulho muito sincero. No restante das ocasiões que Francisco se lembrava, parecia um gesto automático de alguém incapaz de sentimentos mais complexos. Porém, não se lembrava de sentir-se mais feliz do que quando isso acontecia. Ia correndo contar pra mãe, que enchia os olhos d’água, porque ela sim, colocava várias e várias vezes em cheque o amor do pai pelos filhos. Ela tinha o cuidado de fazê-lo apenas no escuro da madrugada, enquanto o marido dormia, no seguro do seu coração.

O baú estava com uma tranca muito velha, não foi difícil achar uma marreta no meio daquele quarto entocado e quebrá-lo em uma só pancada. Viu um mundo de cadernos mais ou menos finos, organizados dentro do baú médio, com um plástico grosso que os envolucrava do mundo exterior. Pegou o que estava mais em cima e abriu do começo: sem dúvidas, era um diário. E as pernas tremeram quando viu que era do pai. Poderia reconhecer aquela escrita forte e aquela letra mal desenhada a um milhão de quilômetros de distância. Sentiu uma vertigem, quando sentiu que as aproximações com o pai nunca tinham dado certo e que aquela era uma violação que nunca seria perdoada. Com o coração disparado, decidiu sentar-se e ler cada coisinha que tinha ali.

Os olhos foram a um dia de 18 anos atrás. Ele tinha 11 anos. O pai relatava que tinha saído do emprego e voltado pra casa e que estava muito cansado. Tinha sido um dia quente e ele tinha ficado muito feliz ao chegar em casa e ver que os filhos já estavam banhados, com uma roupa limpa, com os cabelos penteados e cheirosos, sentados na porta de casa com a mãe, esperando só por ele. Águas encheram os olhos de Francisco, porque em todos os dias do ritual, o pai nunca havia dito sequer uma palavra de aprovação ao esforço que a sua mãe fazia pra que os meninos saíssem da rua, com os pés pretos de sujos e ofegantes das corridas, pra que tomassem banho e se sentassem na porta, na cadeirinha que cada um tinha pra que esperassem o pai chegar. O relato continuou sobre uma chateação com um colega de trabalho e de como a mulher que passou na rua chamou-lhe atenção pelo rabo grande, o que arrancou risadas sufocadas do filho. Era um homem totalmente diferente que se apresentava ali.

***

O velho, nessa época, tinha diabetes. Como era muito teimoso, continuava a comer de tudo sem qualquer restrição. Um dia, uma faca escorregou de sua mão enquanto tentava utilizá-la como chave de fenda, pra abrir um radinho de pilha que parou de funcionar com as pilhas ainda novinhas. A faca caiu no seu pé. Sangrou. Doeu. Sangrou mais e não cicatrizou. Quatro dias depois, quando não importava mais qualquer brio, foi ao hospital, sinceramente arrependido das teimosias. Não porque tinha medo de morrer, mas tinha medo de não morrer e ficar ali, dependente de sua mulher, de seus filhos, de uma enfermeira, de quem quer que fosse. O que mais lhe aterrorizava era a possibilidade infame de morrer como um cachorro sem dono na porra de um hospital. Ficou mesmo alguns dias em observação na mesma porra de hospital, a ferida só fazia aumentar e sabia do risco de perder o pé. Foi pra casa, não cuidou e voltou pra cirurgia de retirada de membro.

A família toda ficou chocada, mas ninguém mais que o próprio velho. Tinha cuidado de si o tempo que precisou, desde quando tinha seus oito anos. Sempre cuidou também de quem precisou de si, desde que pôde. Xingou a médica, xingou os enfermeiros, xingou Deus, xingou o diabo, xingou a quem e o quê pôde. Não adiantou. O pé foi embora e uma lágrima desceu pelo olho esquerdo quando acordou da anestesia e percebeu que o mundo jamais seria como antes. Amargurado, parou o que tinha feito o hábito de sua vida por mais de 20 anos: escrever as palavras que necessitava pra todas as noites.

Deitado na maca do hospital, com a mulher, os filhos e netos, ponderou sobre o destino de sua alma, se tivesse morrido na mesa de cirurgia. Pediu perdão a Deus pelas palavras, não falou nada ao diabo e soube que teria que permanecer no purgatório por algum tempo, antes que pudesse caminhar (que ironia!) aos terrenos sagrados. O espírito estava abatido, mas, mais uma vez, não podia deixar transparecer.

Foi quando o filho mais velho passou a visitar todos os dias a casa dos pais. Não importava se passava menos tempo com a mulher e com a filha, se tinha que pegar um engarrafamento sem fim pra chegar em casa só pra dormir, se tinha emagrecido por comer pouco de preocupação com o pai. As páginas que lia clandestinamente, no silêncio daquele quarto onde mal se podia respirar, lhe absorviam os miolos do cérebro, porque já não podia parar mais.

***

“18 de maio de 1988, 22:00

Minha vida não tá fácil. Os meninos estão ficando maiores e tão precizando de muitas coisas. Toda hora a mulher me cobra isso cobra aquilo. Hoje foram umas chuteiras que eu não sei como vou fazer pra comprar. Francisco vai disputar um campeonato e eu vou deixar porque todo homem tem que jogar bola na vida. Eu não tive essa oportunidade não vo negar aos meus filhos. Isabel me disse que o aumento ta fora de jogada aquela rapariga. Não trocava minha mulher por duas dela apesar dela ser bem gostosa e a Iraci já ta capengando um pouco. O trabalho foi angostiante por causa disso e eu fiquei muito nervoso quando o seu João chegou dizendo que tava circulando notícia que alguns funcionário iam ser mandado embora. Se já tá uma merda do jeito que tá, pagando só as contas mesmo e mal imagina meu Deus deixar de ganhar esse. Já to velho e não aguento muito outro trabalho pesado. Já pensou? Eu ter que capinar terreno pra bota comida dentro de casa. Meu Deus e santa teresinha não deixai eu perder meu emprego pelo amor de Deus.”

Francisco parou várias vezes pra enxugar os olhos, porque em algum momento do breve relato deste dia em particular, os olhos se embaçaram demais pra que ele pudesse enxergar. Parou, respirou e sentiu suas têmporas pressionadas, em uma dor de cabeça que lhe fez curvar. Depois de casado e com uma filha, nunca passara por qualquer tipo de aflição financeira, porque já era muito bem empregado mesmo antes do casamento e das demais responsabilidades. Pensou em sua pequena. Nos sonhos dela, nos seus sonhos próprios e nos seus sonhos pra ela. Pensou em seu pai, pensou nos seus antigos sonhos e de como achava que o seu pai nunca aprovaria seus devaneios, como ser jogador de futebol profissional. Lembrou da época em que o pai acabou realmente perdendo o emprego e como era triste vê-lo circulando anúncios em jornais e saindo de casa cedo, procurando algum trabalho. Antes de saber, quando lhe foi negado o pedido das chuteiras novas e a própria ida ao campeonato, gritou pra mãe, que lhe deu a notícia com a mão no coração, e foi ao quarto que dividia com o irmão, sentou na sua cama e chorou, como alguém que sentiu um sonho perto do nascimento, abortado tragicamente por algum acidente cruel. Mais tarde, quando soube do ocorrido com o pai, foi muito lento em relacionar um episódio ao outro, e não deu nenhum efeito de causa e consequência ao fato, o que lhe rendeu ainda alguns meses do seu ódio cego e surdo, mas não destituído do paladar ou do tato, pois quando se lembrava, um gosto de bile vinha à boca – embora não soubesse identificar – e a mão se guiava a algum objeto próximo, que tinha ganas de arremessar à parede, mas não o fazia porque sabia que levaria uma surra muito da caprichada.

No fundo do baú, meteu a mão e achou o primeiro caderno, dentro de uma outra sacola plástica. Como percebeu, seu pai sempre numerava todos quando terminava um e passava para o seguinte. Viu a letra pesada mais uma vez, que ainda não era a cursiva, mas uma letra de fôrma, muito mais pesada, quase inutilizando as costas da folha, de quando o pai achou um pequeno curso no centro da cidade, que ensinava adultos a ler.

‘FRANCISCO
MEU FILHO NACEU
IRACI TEVE FRANCISCO
BOTEI O NOME DE FRANCISCO’

Assim, sem assinaturas, sem datas, sem maiores detalhes. Saiu do quarto agoniado, pensando ter passado tempo demais ali dentro, mesmo achando que os pais não desconfiavam de nada. A mãe só se ocupava da novela e de atender o marido em alguma necessidade. O pai estava na cadeira de rodas e também ficava na frente da TV, mesmo que não gostasse, porque não teria que gritar pra que lhe buscassem qualquer coisa ou quando quisesse ir ao banheiro. Por fim, acabou gostando dos enredos das novelas e acompanhava de bom grado as novelas e o jornal. Não viu ou ouviu os passos do filho mais velho. Sentiu apenas um abraço por trás, onde um braço se enfiava por baixo das axilas e o outro lhe segurava a face. Arregalou os olhos e sentindo alguma dor da cirurgia, se virou como pôde e viu o filho, tomado pela inspiração divina, com os olhos arregalados, vermelhos e fixos aos seus. Assombrado, pensou que o homem tinha perdido o juízo e, se assim o fosse, ele pouco poderia fazer, sentado naquela cadeira. Não demorou, quedou-se paralisado, pois a súbita inspiração do Espírito Santo que viu nos olhos do filho, reconheceu-a em si. Tomado de um terror magnífico, compreendeu que as ausências demoradas de seu filho no fundo da casa e as suas visitas diárias tinham nada a ver com a sua cirurgia ou pra ajudar a mãe. Compreendeu que estava sendo lido, que o lugar onde deixou pedaços de si que nunca havia exposto a ninguém, estava sendo escrutinado pelo próprio filho, sem autorização. Sentiu-se desconcertado, envergonhado, porque se lembrava de confissões feitas, como as poucas traições à mulher e uns sentimentos desencontrados, que foi colhendo ao acaso, com os percalços da vida, e guardando para aquelas páginas diárias, que lhe serviam de consolo e compreensão paciente e tenaz. A mãe observava àquilo, perturbada, sem a menor pista do que poderia estar acontecendo. Perdeu o beijo roubado que o vilão da novela deu na mocinha, que fez com ela se apaixonasse perdidamente e para sempre.

Francisco, por sua vez, percebeu a inquietação do pai e viu-se descoberto do crime. Da incursão não autorizada à intimidade da pessoa que julgou ter a menor complexidade humana que já conheceu em toda a sua vida. Pelo convívio diário até o casamento, achou que conhecia aquela homem que chamava de pai, com a palma da sua mão. Viu que estava enganado e, desde então, com a mulher e a filha dormindo, deitado na cama, observando o teto, tinha vontade de ligar pro pai e perguntar: “Por que você simplesmente não abria a porra dessa sua boca e nos dizia essas coisas, caralho?”, mas não podia. Sabia que, durante as madrugadas insones, era o único momento em que sentia raiva dos sentimentos escondidos, dos afagos de pai que ele e seu irmão foram privados. Sentia um rancor que parecia ser alimentado de trevas, pois quando a manhã chegava, tudo o que queria era que a noite se aproximasse novamente, pra que pudesse dirigir do trabalho à casa dos pais, ver o rosto daquele homem novo e se enterrar nos seus escritos novamente, em uma ansiedade que o maltratava, mas lhe dava um ânimo que só sentiu no dia que pediu a mulher em casamento.

O velho baixou o rosto, numa submissão clara de quem se viu destituído do poder elementar de se guiar por vontade própria, mesmo nos pequenos caminhos domésticos. Não disse absolutamente nada e tudo o que mais desejava no mundo, era que fosse deixado só, nem que fosse pra morrer de uma vez. Era bom que deixava de dar trabalho.

***

A conversa definitiva veio 15 dias depois. A família se empertigava com os efeitos daquele estranhamento silencioso. O irmão mais novo e recém-casado, sempre alheio aos acontecimentos, estava muito mais preocupado com qual seria a forma de satisfazer a mulher fogosa com quem casou do que com as ligações constantes da mãe, perguntando se ele sabia de alguma coisa. O pai estava mais quieto do que de costume e Francisco, de comportamento expansivo e extrovertido, ria apenas na presença da filha, pois as crianças não devem pagar pelos erros dos adultos. Quando apareceu na casa dos pais, depois de tanto tempo de presença constante e da ausência abrupta, sua mãe não conteve as lágrimas, pois imaginou que o velho teria dito algo dessas coisas que não podem ser ditas aos corações sensíveis, como são esses homens de hoje em dia e que o filho nunca mais apareceria em casa na vida, pela teimosia dos homens dessa família.

Entraram os homens no quarto, depois do pedido alto de Francisco para uma palavra séria. Em uma conversa como nunca antes, de perguntas nunca feitas, de verdade semi ditas e de mentiras mal contadas, os homens lavaram a roupa suja da infância do próprio velho, para que chegassem na do novo e assim desembaraçarem o nó feito pelos anos, que quis confundi-los. O velho ouviu coisas que o fez pensar que já era sua hora de morrer e o novo, de que já era hora de sair de lá, pra, de fato, nunca mais retornar. No final das contas, o pai compreendeu, não sem dificuldade, as tristezas do seu filho, a quem jurava que tinha satisfeito completamente no seu dever de pai. O filho compreendeu as incapacidades afetivas de seu pai – embora já soubesse que não se tratavam de incapacidades de sentimentos, mas de comunicação –, com a maior facilidade, pois, ao percorrer por aqueles espaços privados e proibidos, se surpreendeu e aprendeu que, não importa o quanto se ache que conheça alguém, ninguém tem perdido de antemão a capacidade da surpresa. Pediu o perdão mais dolorido e culpado de sua alma, por que sabia que se pudesse voltar no tempo, teria feito tudo de novo. E aquele perdão que pedia se referia somente à culpa da dor que causou naquele senhor que redescobriu, já aleijado, velho e doente, a quem, mais do que nunca, amava e, pelas primeiras vezes na vida, se sentia amado completamente.

Escrito para o meu amigo Trovador das Gerais, que um dia, há algum tempo, me pediu um conto sobre anonimato. Não sei como, a história se guiou sozinha à isso que está escrito. No rapaz que descobriu um novo alguém, violando um anonimato pretendido anteriormente e se fazendo anônimo, em pequenas doses diárias, mesmo que essa palavra não seja completamente apropriada aos atos praticados... Não sei. Fiquei com essa impressão. rs