sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Bacabal...

Sim, terminando a palavra com reticências. Porque foi assim que eu passei boas horas do dia pronunciando essa palavra. Roubei a bicicleta do meu irmão por uns momentos e fui fazer uma das coisas que eu mais gosto de fazer quando estou aqui, que é andar numa bicicleta, por aí, sem qualquer direcionamento claro. Pôr em prática o verbo que eu aprendi em Teresina: "desopilar".
Pedalei, aproveitando que o tempo estava frio - ou melhor, não tão quente assim - e haviam algumas nuvens no céu, o que ainda não trazia o que seria mesmo a perfeição: o vento gelado de chuva, junto com as cores em sépia da realidade. Ainda hoje me lembro do melhor arco-íris que eu vi na minha vida, no quintal da casa da minha vó. Absolutamente tudo estava amarelo e mesmo as cores do arco-íris, se viam douradas. Eu fiquei o tempo que eu pude, olhando pro céu, mesmo com o pescoço doendo, porque sabia que seria uma imagem que ficaria pra sempre guardada. E é isso, ficou.
Parece que o ato "irresponsável" de sair sem rumo na cidade me despertaram sensações muito mais intensas do que costumam. Deve ser pelo estado da graça das alterações hormonais mensais, acrescidas de umas saudades terríveis de tanta coisa... Era saudade A por cima de saudade B por cima de saudade C. (C de Colômbia, no caso!). Parece que a minha vida agora é essa. A de sentir saudades de tudo o que me foi e me é bom. Talvez eu deva ver essa soma grandiosa de saudades como algo positivo, apesar de certa tormenta, por raciocinar que só podem ser resultado de muitas coisas boas que eu vivi/estou vivendo há um certo tempo. Eu sabia que o ano havia de ser grandioso, mas não tinha noção. Não se sabe até sentir.
A cidade estava como eu a deixei. As ruas esburacadas e outras não. O céu incrível. Um calor aceitável, pois era amenizado pelo vento, que sempre me traz boas recordações. Eu avançava os sinais e parecia que ia o peito explodir de recordações. Porque, à medida que eu via as ruas que percorri na minha infância, pra fazer tantos trajetos, ia lembrando de quem eu era e de quem agora sou. E imaginando se aquele detalhe daquela determinada lembrança não tivesse acontecido, o que seria de diferente. E percebendo, inquieta, que a menina que pedalava em outra bicicleta de fim desconhecido, com o nome mais legal que uma bicicleta monark infantil podia ter, tinha sido feliz, apesar das agruras, e que tinha até mais coração do que eu, por não ter sido picada ainda pelos escorpiões da vida.
Parei na praça que esteve tão lotada quanto não pôde, pra inauguração e que agora está ocupada por mendigos. Crianças ensaiavam numa pequena fanfarra pros desfiles de 7 de setembro, que se aproxima. O professor passava uma bronca aos dispersos e eu, parada, de longe, vendo tudo. Alguém percebeu que eu tirei duas fotos e se virou. rs Desculpa, criança. Continua aí que eu tô achando morto de lindo.
Andei pela rua da escola que eu estudei 11 anos. Andei pela rua da que estudei mais três. Andei pelas ruas dos cinco endereços diferentes que tive quando ainda morávamos de aluguel e constatei que era mais difícil andar por essas, porque sinto uma vergonha inexplicável dos vizinhos que ficaram por lá. Andei pelo centro, onde passava por fachadas com irresistíveis vidros espelhados que me atraíam pra minha própria imagem, desde quando eu não tinha feito as pazes com ela. Andei e vi rostos conhecidos, os familiares, os totalmente novos. Tracei trajetos pra coincidir o pôr-do-sol na avenida, onde é mais bonito de se ver, mas frustrei meus próprios planos com uma parada prolongada em outra pracinha, onde dois meninos brincavam de jogar uma bola de baleada um pro outro e outro andava de bicicleta tão indolentemente quanto eu.
A igreja da primeira praça, entrava uma velha de cabelos brancos. Passou também uma carroça, o homem em cima dela e o seu boi velho que carregava o peso dos dois. Aquelas pessoas eram tão reais, mas, ao mesmo, já tão inverossímeis pra mim. Tão meus e tão distantes. Os enterros nas casas, que presenciei no segundo dia que estava aqui, com uma placa na porta do finado que dizia "Família Enlutada", me pareceu algo de outro mundo. Tinha explicação: é pra que os carros de som das campanhas políticas vejam a placa e deixem as pessoas velarem seus mortos em paz.
Meu olhar sobre essa cidade era o olhar dos apaixonados. Se eu temia não achar mais beleza, depois de um mundo desconhecido de belezas que encontrei, me surpreendi por ver a beleza que talvez não veria, se não tivesse me distanciado. A beleza das crianças brincando na rua. A beleza das pessoas sentadas nas suas portas. O homem que dormia descangotado numa cadeira, em frente à sua casa. As mães buscando as crianças de rostos vermelhos, suados e uniformes sujos de tanto brincar. Aquela hora que aquele senhor que eu (acho que) não conheço, me deu "boa tarde", sem que houvesse malícia perceptível.
Não é à toa que eu sempre sonho comigo andando de bicicleta. Sempre foi um refúgio móvel pra alma.
Hospital Bom Pastor, com essa rua linda. Foi onde eu dei as caras ao mundo. hehe

Praça Sta Teresinha, com as crianças ensaiando pro 7 de setembro.


Uma palma bem florida.

Igreja de Santa Teresinha, onde a velha entrava.



Ai, não sei o nome dessa igrejinha.


Meu priminho de um aninho, realmente achando que tava muito escondido com essas mãozinhas tapando o rosto. Ownhhh!
Envolta por todo o carinho do mundo. ^^

Eu, desenhada por uma prima de cinco anos. Precisando malhar as pernas e os braços e dar um jeito nessa cara de zumbi. =(
O homem, a carroça e o boi velho.



Praça do Bom Pastor, onde eu era o próprio cão vestido de tanga (quando eu era criança). É aqui um dos lugares preferidos dos casais.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Desejo

Juntaram-se sabe-se lá como
Roeram seus passados com dentes afiados
Deram as mãos, de longe.

Não se tocavam.

Até que...
Abraçaram a sorte do destino
Enroscaram-se nas horas frias
E as aqueceram
Beijaram as fogueiras recíprocas
E encerraram-se num delírio mútuo.

E então e sempre,
Comeram a paz com bocas alegres
Beberam o viço das vidas vividas
Celebraram a sorte com sonos compartilhados.

Viveram o que não se pode conter.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Vida, vem cá só um instantinho?

Como não há mais saída viável pra mim, vai ser o jeito escrever mesmo. Eu já devo ter falado alguma coisa sobre isso em outro momento, ou com alguém, mas tem horas que não existem alternativas. Só o que dá é escrever. Passam-se os anos e eu não sei quando vou deixar de sentir uma falta imensa dos cadernos que estão guardados no guarda-roupa, que foram por um período crucial na minha vida, meus diários. Quem já se deu o trabalho de ler alguns dos meus textos aqui, sabe que a referência é quase obrigatória quando o assunto é sobre escrever. Não tem jeito. Marcou demais. E a forma abrupta com que parei de escrevê-los, mais ainda.
Quatro anos se passaram, desde então. E ainda sinto um buraco, um vazio, algo que pede pra que eu retome o hábito. Algo que diz: "Cria coragem, menina! Tu sabe se defender das coisas agora. Nada parecido pode te acontecer, não agora!". Mas, sei lá, o trauma ainda não foi superado. E aí, a maneira que há de expurgar, quando pesa o coração seja do que seja, é correr pra cá, pra tela quente do computador, pro bloquinho que carrego dos tempos de estágio, pras notas do celular e tentar colocar pra fora um pouco dos milhares de pensamentos, dos longos textos que fico escrevendo na minha cabeça o tempo todo.
Veio a viagem à Colômbia à minha cabeça. O quanto isso me mudou, hein? Sempre tinha muita gente pra não me deixar parar como paro aqui, sozinha nesse quarto quente. As 12 horas em Bogotá, mais as mais de 20 que passei em Guarulhos, me deram, obviamente, BASTANTE tempo pra pensar. Pensava nas descobertas, no passado, naquele presente frio pra caralho. Em quem eu tinha conhecido e tinha pouca esperança de ver, em quem eu não tinha conhecido, mas tinha muita vontade de ver... Enfim. Parece que me enredei na mesma teia das vontades que não podem ser realizadas assim, de pronto. De novo. Aí não sei se o segredo é ter mesmo paciência ou se é fazer uma loucura, não-sei-não-sei-não-sei. Que mané segredo o quê! Tem porra de segredo nenhum não. Mas, no momento, também não há o que fazer. Nem loucura, nem se eu quisesse agora
Olha, se a vida fosse mesmo uma pessoa, eu ia chegar nessa égua, ia sentar ela numa cadeira, ia falar mesmo no fundo dos olhos e dela e ia perguntar, com uma cara que ela ia  tremer mais que vara verde: "QUA-LÉ A TUA?"
Agora tenho que guardar mais todos os beijos que eu quero dar. Se fosse meu diário, eu escreveria tudo... rs




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Concretude

E por que não, depois de todos esses anos, dar finalmente as mãos à concretude?
Concretude. Transcendência. Palavras-chaves dos amores distantes. Dos não começados. Dos teimosos. Dos fantasmas.
É que aos medrosos, o amor os assusta. As dores demasiadas transformaram seus desejos em apenas fantasias seguras... Onde não está o fim. As lágrimas ficam retidas.
Mas as de êxtase também.
O amor dos medrosos exige mais. Quando se dá mãos à concretude, ela, com um golpe tantas vezes aplicado, arrasta as cabeças os corpos as almas os juízos pra um lugar distante, onde os abraços são sensações físicas indeléveis. Impregnados à estrutura do ser, exigem dos medrosos que aguentem senti-los a cada momento em que o próximo abraço está distante, por vezes, em muito mais de um sentido. A concretude dos amores é maravilhosa aos medrosos. A concretude dos amores é cruel aos medrosos. A eles, é bom que saibam de antemão dessa inexorabilidade, para que façam seus infinitos cálculos, onde decidem o que é melhor para suas almas, que sabem ser frequentemente inconsoláveis.

"A que(m) eu darei a mão?"

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Colômbia, depois de todos esses anos.

(Escrevi isso no segundo dia que eu estava aqui e deixei assim, não terminado:)

Uma paixão avassaladora que surgiu, pra ser bem sincera, eu não sei há quantos anos. Vim pra Colômbia realizar um projeto, mas também saciar essa sede irrestrita que eu sentia há muito tempo de chegar perto de coisas que eu só vi nos livros e só escutei nas canções dos daqui.
A todos os que me perguntam: o que foi que tu foi fazer aí? Eu vim por um intercâmbio de curta duração. Serão apenas 45 dias aqui, na cidade de Barranquilla, que fica no departamento Atlântico, na costa da Colômbia. Esse intercâmbio é promovido pela AIESEC, que é uma Ong que age prioritariamente com isso, intercâmbios. Eles procuram a integração entre os povos através de oportunidades como essa, de que jovens universitários do mundo inteiro, possam vivenciar coisas diferentes do que estão acostumados. O meu projeto é o OC Army, que é um projeto basicamente cultural, onde vamos socializar as nossas vivências de nossos países, para, isso mesmo, jovens soldados do Exército da Colômbia. Bom, eu só vim ficar sabendo disso bem depois, quase quando já estava tudo acertado pra vir pra cá. Pensei (e disse pra muita gente), que era para fazer essa mesma coisa com crianças e/ou jovens de locais mais carentes de Barranquilla, o que eu, certamente, me daria muito melhor. Como nada é perfeito mesmo, amanhã começa essa jornada com os soldados. Ainda teremos treinamento, mas temos que ser proativos no que vamos ensinar (e aprender, logicamente). E estive pensando muito bem sobre isso, sobre as minhas próprias inclinações e pensei que é bom que os exércitos tenham esse tipo de vivência. Que se humanizem cada dia mais e mais, não é?
Estou hospedada na casa da Família Rivaldo. São três mulheres e um homem: a mãe, duas filhas e um filho. São gente muito generosa e boa, que moravam no interior da Colômbia e que se mudaram pra Barranquilla, pra cumprir o desejo do pai falecido. Apesar de ter falecido há um certo tempo, vejo que é uma presença constante nas conversas, nas paredes, nos retratos... Na lembrança dessa família bem apegada. E agora mesmo enquanto escrevo esse texto, uma voz canta o Ballenato - um ritmo musical daqui muito legal - em voz alta, porque essa galera é assim: coloca o som alto o dia todo e a mãe, uma senhora muito generosa e muito prática, que pode, a qualquer hora, começar a dançar e a cantar alguma música nesse ritmo, o ritmo que seu marido era cantor.
A cidade é quente, mas não tão quente quanto Teresina. Além do que, aqui venta muito, já que é uma cidade do litoral. Às vezes me parece que eu estou no Brasil, em uma capital do Nordeste que eu não conheço, só que com tudo dublado em espanhol. As pessoas comem muita comida frita, desde o café da manhã, até o jantar e falam um espanhol muito mais complicado do que em Bogotá, onde eu era constantemente elogiada pelo meu quase perfeito espanhol. hehe Aqui eu preciso que perguntar sempre: Como? Como?

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8 de julho de 2014.


Muita, muita coisa na minha cabeça. Hoje, como todo mundo com consciênia que estava nesse planeta Terra deve saber, tivemos uma derrota acachapante pra Alemanha na Copa. O Plínio Arruda, o político mais simpático do Brasiiiiil, faleceu depois de uma longa jornada contra um câncer. Não foi assim o melhor dia, né? Eu acabei que fiquei me sentindo muito triste por causa dessas coisas. Não sei. Eu acho que eu até não deveria me importar tanto, já que eu não sou assim tão fascinada pelo Futebol em outros âmbitos... Mas em Copa, amigos... Ah, em Copas do mundo eu simplesmente perco o meu juízo. Acho que é porque remete aos tempos em que eu era só uma pirralha lá em Bacabal, pedindo dinheiro de porta em porta pros vizinhos das muitas ruas onde morei, pra que a gente conseguisse decorar a rua de maneira satisfatória. Há duas copas que eu não passo em Bacabal. Nessa Copa, foi tudo muito diferente do que eu imaginei. Vim pra cá e no primeiro jogo do Brasil depois que eu estava aqui, eu não era a única que vestia o amarelo, mas a única que também vestia o verde junto. Foi uma experiência nova e absurdamente louca pra mim, que saí até num Portal de Notícias por estar aqui justamente durante esse jogo e torcer pelo meu país da mesma forma. Ok. Não tão da mesma forma. Festa nas casas dos outros têm que ser bem mais contidas, certo?
Ontem foi o dia em que realmente traçamos as estratégias do Projeto de compartilhamento cultural com os soldados batedores do Batalhão de Barranquilla. Por conta de atrasos do próprio exército, como celebrações internas, não pudemos dar muito procedimento na atividade na primeira semana em que estivemos aqui. Só nesse projeto, são quase 30 pessoas. Gente de toda a parte do mundo que veio pra compartilhar e conhecer. Sair da zona de conforto. Gente da Alemanha, Holanda, República Tcheca, Porto Rico, México, Argentina, Estados Unidos, Itália, Rússia, Índia, China e é, claro, eu e mais dois representando o nosso Brasil baronil. Ou seja, por mais que você tenha que saber o espanhol pra poder se comunicar com o resto da cidade, das pessoas e tudo o mais, é muito importante que você saiba inglês, senão fica difícil criar qualquer tipo de laço com essa galera que é só bilíngue. Estou me saindo muito melhor do que eu imaginava, devo dizer. Meu inglês não é, de jeito nenhum, essas coisas, mas eu compreendo e me faço compreender muito bem, apesar das escorregadas na gramática e na falta de fluência. Não tem problema, o tempo taí pra isso.
A cidade tem algumas particularidades, como o fato de as ruas não terem nomes, nem datas, como no Brasil, mas são divididas em calles e carreras. E todas elas são numeradas, ou seja, pra saber um endereço, você tem que pegar calle número tal com carrera número tal, que eles vão bater certinho onde é. Eu ainda não entendi direito como funciona esse sistema, porque os números são contados de baixo pra cima (ou seria de cima pra baixo?), em direção ao mar, or something like that. Perdão, gente. Eu sou ruim de localização até em Bacabal. Outra coisa que me impressionou bastante foram os chamados Transmetros. São estações bem legais que estão espalhadas por toda a cidade, com ônibus bastante confortáveis, novos e com ar-condicionados, com uma passagem relativamente barata. Aliás, apesar de eu ter achado que o real era desvalorizado em relação ao peso colombiano -o que foi um erro crasso meu, demonstrando total inabilidade com números =( -, as coisas aqui são, em compensação, bem mais baratas que no Brasil. Perdi ou me roubaram um celular, nas incríveis 17 horas de escala que eu passei em Bogotá e, chegando aqui, eu comprei um moto g do mais econômico. Não era bem um luxo, porque eu realmente preciso aqui de um celular que tivesse android por vários e vários motivos. Que se fosse pra comprar, comprasse pelo menos logo um de vergonha. Custou 410 mil pesos, o que custou menos que 500 reais. Em qualquer lugar barato no Brasil, o mesmo modelo não sairia por menos de 600.
No final de semana, fomos a um povoado chamado Taganga. É perto daqui e lá tem praias incríveis, com uma cor inacreditável. Pena só que não era todo aquele paraíso perdido que todos nós imaginamos, já que a praia já está consumida por turistas e há lixo por muitos lugares. Em suma, turismo descontrolado num lugar só pode dar nisso mesmo, merda. Ainda assim, foi uma viagem super legal, bem barata, onde nós aproveitamos pra nos conhecermos melhor. Onde vivemos situações legais, onde saímos pra dançar numa danceteria que não cobrou nada pra entrada e nem tinha consumação mínima e dançamos esses ritmos que fazem qualquer um dançar até se acabar, sentindo a brisa do mar, já que era parte coberta, parte a céu aberto. Histórias, pessoas, sorrisos, surpresas... Coisas que mudaram o modo como nós somos hoje. Quem diria que eu iria fazer mais amizade com a russa e com a alemã do que com os outros latinos? rs Quem diria que eu iria conhecer o cara que já visitou 10 países, morou em vários deles, sabe 6 línguas fluentemente e não tem nem 25 anos? E a gente aqui se achando O cosmopolita porque terminou o curso de inglês.
Essa é a minha primeira experiência fora do Brasil, durante um período que, às vezes parece muito curto, às vezes muito longo, de um mês e meio. Creio que isso é muito, quando se fala em saudades. Mas nem tanto assim, quando se pensa que vai pôr os pés num avião novamente e saber o mundo de coisas que você ainda não tinha aprendido, vão ficar pra trás. E quando eu vou ver essas pessoas de novo? Gente que eu já gosto, que já fiz amizade, me considero e me consideram como família? PORRA, como é que essas coisas acontecem, né? vsf
O meu coração está simplesmente cheio. Meu Deus do céu, de tanta coisa. De uma confusão tão grande de sentimentos, de cansaço, de alegria, de tristeza, de uma vontade de estar perto de alguém em particular, de uma vontade de sair pra dançar até eu me dar por satisfeita... Gente. Esse ano de 2014, tô ficando até com medo dele, porque o bicho tá sendo sem noção demais, em TODOS os sentidos. Maravilhosamente sem noção.
Obrigada pela tenacidade, meu Deus. Por essa teimosia, essa cara-de-pau, essa inexorabilidade que percorre o meu sangue. Quem sabe da minha trajetória, sabe do que eu estou falando. Cada conquista será sempre comemorada como um 7 a 1, só que pra nós. rs


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Perrengues

Eu não sei se é apenas por um momento de tristeza um pouco difícil de desprezar, dados os sustos do dia de hoje e os perrengues que sobrevieram, mas me veio um pensamento muito filho duma puta - um pensamento que não é novo - de que, pra mim, as coisas sempre são mais difíceis. Simplesmente é muito difícil eu planejar uma coisa, querer uma coisa, fazer uma coisa e dar tudo certo, sem sobressaltos, sem as sérias ameaças ao sucesso da empreitada. "Porra, Jamila, sua nojenta! Pra todo mundo é assim, caralho!" Ô, seu cara de cu, eu sei! Mas tem uma hora que você só olha as suas batalhas e vê o quanto elas foram desnecessárias. No sentido de por que que essas caralhas existiram mesmo? Pra provar o quê? A quem? Eu não vou ser uma pessoa infinitamente melhor se tudo que eu for fazer, tiver sempre a merda dum entrave feio na frente.
A minha sorte é que eu tenho esperança esperança esperança esperança esperança e enquanto eu tiver esperança esperança esperança absolutamente nada pode destruir meus sonhos. E, TALVEZ, por ter muita esperança, o universo ou seja lá o que for, me recompensa fazendo com que tudo dê certo, no final. Mesmo. Eu acho que eu já me acostumei. A tristeza tá aqui, ainda, algumas lágrimas e tal, mas tem uma certeza latejando no meu peito (talvez tenha sido isso que diagnosticaram), de que tudo vai se resolver.

Ora, meu anjo da guarda é displicente, mas é poderoso! 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O mundo, todo ele, de novo.

Entrando nesse mundo de novo. É assim que eu me sinto nesses marcos cíclicos do tempo. É dia 18 de maio de 2014, exatamente às 23:58. Ainda faltam dois minutos pra chamar de meus. Talvez se acabem e eu nem perceba, porque estou escrevendo esse parágrafo e dando algumas suspiradas por estar com o peito inteiramente cheio de muito mais do que ar, daquela Vida que às vezes se instala em mim por horas e não quer sair e eu nem quero mais que ela vá, mas em algum momento ela vai. No entanto, como os gatos de rua que foram morar em casas: ela vai, mas ela sempre volta.
Se os meus cálculos não estiverem errados, em alguma parte do dia de algum dos dias do mês de agosto de 1989, meus pais sentiram alguma urgência inexorável. Ao liquidarem a urgência, o que era de se encontrar, se encontrou e eu fiquei, durante um tempo que eu ainda hoje considero pequeno, no lugar mais legal que alguém com um rabo maior que o corpo pode ficar. Dizendo mamãe, meio dia do dia 18 de maio de 1990, eu mostrei a cara, porque mesmo achando massa lá, já tava ficando chato e eu, mesmo pequena, sempre precisei de espaço.
Muita coisa rolou, muita água passou por debaixo desta ponte e hoje (?), como disse uma vez um conhecido, tá com 24 anos que eu "tou aí". E quando badalou a meia-noite e eu estava lá, rodeada de amigas, gritando e pulando junto comigo, veio essa sensação que eu mencionei acima: "Estou entrando no mundo de novo". E pelas provas que a Vida já me deu, puta que pariu! O que será que me aguarda?
Sonhei um sonho já sonhado antes, onde salvava bebês muito pequenos dentro de piscinas. E eles estavam imóveis, como se alguém os tivesse colocado ali, porque os bebês sabem nadar mesmo, certo? Mas eles não se mexiam e eram muito, mas muito pequenos. Só estou contando isso, porque, quando papai me ligou pra desejar os parabéns, eu estava vendo a cara de um que sorria pra mim, por que eu acabara de tirá-lo de dentro da piscina, como se fosse um agradecimento. Como ainda existe uma parte de mim que acredita em augúrios, pensei que fosse um bom pra começar essa reentrada no mundo. Salvando bebês extremamente novos do afogamento. Gente... What a vibe!
Esse ano, no meio, e já rolou coisa pra caramba. E tá sendo bem, bem bom. Desses que dá até medo de dizer que tá sendo bom, porque vai que... Né? Mas é impressionante. E tantas felicitações (sempre mais que bem vindas), me fizeram pensar que essas conquistas do dia-a-dia são desvalorizadas, talvez porque não estejam inseridas dentro desses marcos que nos fazem parar e pensar o que nós estamos realmente vivendo. Ainda assim, quando tudo terminou, eu tinha consciência de que muitas vezes eu deitei na minha cama agradecida por mais um dia completa e maravilhosamente normal.
Sentada aqui, dando fim a uma urgência bem menos inexorável do que a que fez com que meus pais me engendrassem, depois das lágrimas e do sorriso no rosto em caaaada mensagem que me mandaram pelo meu aniversário, eu creio que meus sentimentos estejam um pouco em frangalhos, pelo tanto que os pobres trabalharam hoje. Terrível e maravilhoso passar um aniversário com TPM. Mas... Como eu não vivo num episódio de Skins, não recomendo. Se não der pra evitar, passe o aniversário com tpm mesmo assim. Porque se o aniversário não rolar, então quer dizer que você já morreu.

Esse texto foi escrito exatamente ao contrário de qualquer ideia que eu tinha quando eu o comecei. Ideia que eu nem me lembro tanto assim. Já é quase uma hora do dia 19 e eu, em tese, já teria que estar dormindo. Acontece. Não é todo dia que se entra no mundo de novo.

domingo, 4 de maio de 2014

Compensações

A boa e velha compensação dos sonhos veio me visitar de novo. Dessa vez, concretizando um desejo simples, de há muito tempo, destinado a uma pessoa: um beijo. Alguém que eu quis (e tentei) beijar várias e várias vezes, mas que, por motivos que é melhor pra minha auto-estima não tentar elencar, nunca quis.
Como já é tarde e eu acordei cedo pra um domingo sem obrigações, protelei o registro do sonho e muito dele já se perdeu. Mas não a sensação. Eu tenho uma certeza de que, quando eu sonho com algum beijo (ora, já sonhei várias vezes com isso), é, realmente, como se o beijo da pessoa fosse daquela forma. Por ter beijado realmente quem eu já sonhei beijando e ter rememorada a exata sensação do sonho, isso é algo que eu carrego como verdadeiro, apesar de saber que é completamente irracional.
Nunca foi segredo que eu dou uma importância enorme aos meus sonhos, até porque consigo me lembrar deles, mesmo muito tempo depois de acordada. Existem sonhos que eu trago comigo há anos. Sonhos de quando eu era criança, sonhos apaixonados e sonhos em que os meus problemas foram resolvidos, de quando eu perdoei e fui perdoada... Coisa nesse naipe. Afora os sonhos que eu voo, os que eu saio correndo sobre o mundo, os que eu conheço celebridades (Sim, megalomaníaca, eu.)
Muita coisa se concretizou, desses sonhos, por que, claro, já havia o desejo. O próprio ato de sonhar já é o que define, certo, Jung? (Ou seria Freud? Não sei.)
Enfim, se o sonhado ocorrer da maneira que sonhou-se, meu Deus... Rapaz, o que me negastes, hein?

domingo, 27 de abril de 2014

O baú



Em todas as vezes em que esteve certo de algo, procurou as histórias da vida do pai e tentou alguma aproximação. Mas isso foi bem depois. Sabia que o velho tinha seus dias arquivados em páginas cuidadosamente escritas com a ponta da caneta bic, sempre de tinta azul ou preta. Gostava de escrever afundando as letras, pesando a mão. Foi como aprendeu a escrever, afinal de contas: na marra, depois de adulto e com a mulher ainda grávida do primeiro filho. Foi quando decidiu que iria pagar aulas com quem quer que se dispusesse em lhe dizer que símbolos eram aqueles que via nas conduções e não entendia. Não queria a humilhação de não poder ensinar pros filhos o que eles quereriam saber, quando viessem da escola todos os dias com as tarefinhas e com mais perguntas do que respostas, num processo sempre cumulativo de questionamentos embaraçosos.

Não era um pai amoroso, ou pelo menos, não daqueles que levavam as crianças pra passear ou colocava o mais velho no colo pra contar seus tempos de menino. Não foi assim como lhe ensinaram que um homem devia ser. Apesar de ter chorado escondido no nascimento dos dois filhos, tudo o que mostrou na frente dos outros, foi o beijo na testa suada da mulher exaurida e os risos formais que dava a cada par de amigos que entrava pra ver a criança gorda e sempre chorosa. A vida tinha sido muito difícil e casar foi mais uma urgência reparadora do que um planejamento pra vida. Ainda era muito cedo, o tempo era pouco e o dinheiro também. Um choro, porém, ficou engatado na garganta. Quando foi no cartório e precisou dizer o nome da primeira criança, um nome de astro americano, e o moço que fazia essas coisas perguntou como se soletrava e ele não sabia como responder. Sabia que haveria de ter algum “a”, mas como se parecia um “a” e onde era que ele se encaixava no meio daqueles fonemas que trazia consigo? Derrotado, deu o nome de Francisco ao primeiro pequeno. Era comum, o moço do cartório não precisaria perguntar como era que se escrevia. Ainda não tinha se sentido humilhado dessa forma. Durante toda a gravidez entrou em combate com a mulher pra lhe dar esse nome em particular, pra no final, uma simples questão prática e básica lhe impedir o intento. O choro na garganta se transformou numa raiva cega que não deixou que ele pegasse a condução pra casa. Foi à pé, pensando que as coisas não deveriam ser assim pra ele. Pra ninguém.

***

Francisco tinha já seus quase 30 anos quando achou um baú mal entalhado, todo empoeirado, em um quartinho da casa antiga em que seus pais ainda insistiam em morar, apesar da distância para o bairro em que os dois filhos moravam com suas respectivas famílias. A porta do banheiro de uso comum da casa estava emperrada e era preciso alguma ferramenta. Logo também foi detectado um defeito no trinco. Foi a um quartinho velho, onde ninguém mais entrava há muitos anos. Era o lugar que o pai queria que, um dia, fosse um escritório, onde podia sentar todas as noites e realizar tarefas sem ser incomodado por qualquer barulho que fosse. O pai sempre foi um homem difícil, com um aspecto muito duro. Por mais que o moço nunca tenha colocado em cheque o fato de ter sido amado por seu pai, o conhecia o suficiente pra saber o que poderia esperar dele ou não. Poderia esperar uma mão na cabeça, sem mais do que uma risada rápida do canto da boca e um quase grunhido que soava de aprovação. Fora isso, só lembrava do dia da ocasião especial em que o pai chegava do trabalho e ele ainda estava na rua jogando bola. Antes de ver que o pai se aproximava e sentir um frio gelar-lhe os ossos, marcou um gol. O pai foi ao encontro do menino petrificado que o olhava atentamente, pousou a mão em sua cabeça sem dizer palavra, mas o sorriso correu-lhe por toda a face, fruto de um orgulho muito sincero. No restante das ocasiões que Francisco se lembrava, parecia um gesto automático de alguém incapaz de sentimentos mais complexos. Porém, não se lembrava de sentir-se mais feliz do que quando isso acontecia. Ia correndo contar pra mãe, que enchia os olhos d’água, porque ela sim, colocava várias e várias vezes em cheque o amor do pai pelos filhos. Ela tinha o cuidado de fazê-lo apenas no escuro da madrugada, enquanto o marido dormia, no seguro do seu coração.

O baú estava com uma tranca muito velha, não foi difícil achar uma marreta no meio daquele quarto entocado e quebrá-lo em uma só pancada. Viu um mundo de cadernos mais ou menos finos, organizados dentro do baú médio, com um plástico grosso que os envolucrava do mundo exterior. Pegou o que estava mais em cima e abriu do começo: sem dúvidas, era um diário. E as pernas tremeram quando viu que era do pai. Poderia reconhecer aquela escrita forte e aquela letra mal desenhada a um milhão de quilômetros de distância. Sentiu uma vertigem, quando sentiu que as aproximações com o pai nunca tinham dado certo e que aquela era uma violação que nunca seria perdoada. Com o coração disparado, decidiu sentar-se e ler cada coisinha que tinha ali.

Os olhos foram a um dia de 18 anos atrás. Ele tinha 11 anos. O pai relatava que tinha saído do emprego e voltado pra casa e que estava muito cansado. Tinha sido um dia quente e ele tinha ficado muito feliz ao chegar em casa e ver que os filhos já estavam banhados, com uma roupa limpa, com os cabelos penteados e cheirosos, sentados na porta de casa com a mãe, esperando só por ele. Águas encheram os olhos de Francisco, porque em todos os dias do ritual, o pai nunca havia dito sequer uma palavra de aprovação ao esforço que a sua mãe fazia pra que os meninos saíssem da rua, com os pés pretos de sujos e ofegantes das corridas, pra que tomassem banho e se sentassem na porta, na cadeirinha que cada um tinha pra que esperassem o pai chegar. O relato continuou sobre uma chateação com um colega de trabalho e de como a mulher que passou na rua chamou-lhe atenção pelo rabo grande, o que arrancou risadas sufocadas do filho. Era um homem totalmente diferente que se apresentava ali.

***

O velho, nessa época, tinha diabetes. Como era muito teimoso, continuava a comer de tudo sem qualquer restrição. Um dia, uma faca escorregou de sua mão enquanto tentava utilizá-la como chave de fenda, pra abrir um radinho de pilha que parou de funcionar com as pilhas ainda novinhas. A faca caiu no seu pé. Sangrou. Doeu. Sangrou mais e não cicatrizou. Quatro dias depois, quando não importava mais qualquer brio, foi ao hospital, sinceramente arrependido das teimosias. Não porque tinha medo de morrer, mas tinha medo de não morrer e ficar ali, dependente de sua mulher, de seus filhos, de uma enfermeira, de quem quer que fosse. O que mais lhe aterrorizava era a possibilidade infame de morrer como um cachorro sem dono na porra de um hospital. Ficou mesmo alguns dias em observação na mesma porra de hospital, a ferida só fazia aumentar e sabia do risco de perder o pé. Foi pra casa, não cuidou e voltou pra cirurgia de retirada de membro.

A família toda ficou chocada, mas ninguém mais que o próprio velho. Tinha cuidado de si o tempo que precisou, desde quando tinha seus oito anos. Sempre cuidou também de quem precisou de si, desde que pôde. Xingou a médica, xingou os enfermeiros, xingou Deus, xingou o diabo, xingou a quem e o quê pôde. Não adiantou. O pé foi embora e uma lágrima desceu pelo olho esquerdo quando acordou da anestesia e percebeu que o mundo jamais seria como antes. Amargurado, parou o que tinha feito o hábito de sua vida por mais de 20 anos: escrever as palavras que necessitava pra todas as noites.

Deitado na maca do hospital, com a mulher, os filhos e netos, ponderou sobre o destino de sua alma, se tivesse morrido na mesa de cirurgia. Pediu perdão a Deus pelas palavras, não falou nada ao diabo e soube que teria que permanecer no purgatório por algum tempo, antes que pudesse caminhar (que ironia!) aos terrenos sagrados. O espírito estava abatido, mas, mais uma vez, não podia deixar transparecer.

Foi quando o filho mais velho passou a visitar todos os dias a casa dos pais. Não importava se passava menos tempo com a mulher e com a filha, se tinha que pegar um engarrafamento sem fim pra chegar em casa só pra dormir, se tinha emagrecido por comer pouco de preocupação com o pai. As páginas que lia clandestinamente, no silêncio daquele quarto onde mal se podia respirar, lhe absorviam os miolos do cérebro, porque já não podia parar mais.

***

“18 de maio de 1988, 22:00

Minha vida não tá fácil. Os meninos estão ficando maiores e tão precizando de muitas coisas. Toda hora a mulher me cobra isso cobra aquilo. Hoje foram umas chuteiras que eu não sei como vou fazer pra comprar. Francisco vai disputar um campeonato e eu vou deixar porque todo homem tem que jogar bola na vida. Eu não tive essa oportunidade não vo negar aos meus filhos. Isabel me disse que o aumento ta fora de jogada aquela rapariga. Não trocava minha mulher por duas dela apesar dela ser bem gostosa e a Iraci já ta capengando um pouco. O trabalho foi angostiante por causa disso e eu fiquei muito nervoso quando o seu João chegou dizendo que tava circulando notícia que alguns funcionário iam ser mandado embora. Se já tá uma merda do jeito que tá, pagando só as contas mesmo e mal imagina meu Deus deixar de ganhar esse. Já to velho e não aguento muito outro trabalho pesado. Já pensou? Eu ter que capinar terreno pra bota comida dentro de casa. Meu Deus e santa teresinha não deixai eu perder meu emprego pelo amor de Deus.”

Francisco parou várias vezes pra enxugar os olhos, porque em algum momento do breve relato deste dia em particular, os olhos se embaçaram demais pra que ele pudesse enxergar. Parou, respirou e sentiu suas têmporas pressionadas, em uma dor de cabeça que lhe fez curvar. Depois de casado e com uma filha, nunca passara por qualquer tipo de aflição financeira, porque já era muito bem empregado mesmo antes do casamento e das demais responsabilidades. Pensou em sua pequena. Nos sonhos dela, nos seus sonhos próprios e nos seus sonhos pra ela. Pensou em seu pai, pensou nos seus antigos sonhos e de como achava que o seu pai nunca aprovaria seus devaneios, como ser jogador de futebol profissional. Lembrou da época em que o pai acabou realmente perdendo o emprego e como era triste vê-lo circulando anúncios em jornais e saindo de casa cedo, procurando algum trabalho. Antes de saber, quando lhe foi negado o pedido das chuteiras novas e a própria ida ao campeonato, gritou pra mãe, que lhe deu a notícia com a mão no coração, e foi ao quarto que dividia com o irmão, sentou na sua cama e chorou, como alguém que sentiu um sonho perto do nascimento, abortado tragicamente por algum acidente cruel. Mais tarde, quando soube do ocorrido com o pai, foi muito lento em relacionar um episódio ao outro, e não deu nenhum efeito de causa e consequência ao fato, o que lhe rendeu ainda alguns meses do seu ódio cego e surdo, mas não destituído do paladar ou do tato, pois quando se lembrava, um gosto de bile vinha à boca – embora não soubesse identificar – e a mão se guiava a algum objeto próximo, que tinha ganas de arremessar à parede, mas não o fazia porque sabia que levaria uma surra muito da caprichada.

No fundo do baú, meteu a mão e achou o primeiro caderno, dentro de uma outra sacola plástica. Como percebeu, seu pai sempre numerava todos quando terminava um e passava para o seguinte. Viu a letra pesada mais uma vez, que ainda não era a cursiva, mas uma letra de fôrma, muito mais pesada, quase inutilizando as costas da folha, de quando o pai achou um pequeno curso no centro da cidade, que ensinava adultos a ler.

‘FRANCISCO
MEU FILHO NACEU
IRACI TEVE FRANCISCO
BOTEI O NOME DE FRANCISCO’

Assim, sem assinaturas, sem datas, sem maiores detalhes. Saiu do quarto agoniado, pensando ter passado tempo demais ali dentro, mesmo achando que os pais não desconfiavam de nada. A mãe só se ocupava da novela e de atender o marido em alguma necessidade. O pai estava na cadeira de rodas e também ficava na frente da TV, mesmo que não gostasse, porque não teria que gritar pra que lhe buscassem qualquer coisa ou quando quisesse ir ao banheiro. Por fim, acabou gostando dos enredos das novelas e acompanhava de bom grado as novelas e o jornal. Não viu ou ouviu os passos do filho mais velho. Sentiu apenas um abraço por trás, onde um braço se enfiava por baixo das axilas e o outro lhe segurava a face. Arregalou os olhos e sentindo alguma dor da cirurgia, se virou como pôde e viu o filho, tomado pela inspiração divina, com os olhos arregalados, vermelhos e fixos aos seus. Assombrado, pensou que o homem tinha perdido o juízo e, se assim o fosse, ele pouco poderia fazer, sentado naquela cadeira. Não demorou, quedou-se paralisado, pois a súbita inspiração do Espírito Santo que viu nos olhos do filho, reconheceu-a em si. Tomado de um terror magnífico, compreendeu que as ausências demoradas de seu filho no fundo da casa e as suas visitas diárias tinham nada a ver com a sua cirurgia ou pra ajudar a mãe. Compreendeu que estava sendo lido, que o lugar onde deixou pedaços de si que nunca havia exposto a ninguém, estava sendo escrutinado pelo próprio filho, sem autorização. Sentiu-se desconcertado, envergonhado, porque se lembrava de confissões feitas, como as poucas traições à mulher e uns sentimentos desencontrados, que foi colhendo ao acaso, com os percalços da vida, e guardando para aquelas páginas diárias, que lhe serviam de consolo e compreensão paciente e tenaz. A mãe observava àquilo, perturbada, sem a menor pista do que poderia estar acontecendo. Perdeu o beijo roubado que o vilão da novela deu na mocinha, que fez com ela se apaixonasse perdidamente e para sempre.

Francisco, por sua vez, percebeu a inquietação do pai e viu-se descoberto do crime. Da incursão não autorizada à intimidade da pessoa que julgou ter a menor complexidade humana que já conheceu em toda a sua vida. Pelo convívio diário até o casamento, achou que conhecia aquela homem que chamava de pai, com a palma da sua mão. Viu que estava enganado e, desde então, com a mulher e a filha dormindo, deitado na cama, observando o teto, tinha vontade de ligar pro pai e perguntar: “Por que você simplesmente não abria a porra dessa sua boca e nos dizia essas coisas, caralho?”, mas não podia. Sabia que, durante as madrugadas insones, era o único momento em que sentia raiva dos sentimentos escondidos, dos afagos de pai que ele e seu irmão foram privados. Sentia um rancor que parecia ser alimentado de trevas, pois quando a manhã chegava, tudo o que queria era que a noite se aproximasse novamente, pra que pudesse dirigir do trabalho à casa dos pais, ver o rosto daquele homem novo e se enterrar nos seus escritos novamente, em uma ansiedade que o maltratava, mas lhe dava um ânimo que só sentiu no dia que pediu a mulher em casamento.

O velho baixou o rosto, numa submissão clara de quem se viu destituído do poder elementar de se guiar por vontade própria, mesmo nos pequenos caminhos domésticos. Não disse absolutamente nada e tudo o que mais desejava no mundo, era que fosse deixado só, nem que fosse pra morrer de uma vez. Era bom que deixava de dar trabalho.

***

A conversa definitiva veio 15 dias depois. A família se empertigava com os efeitos daquele estranhamento silencioso. O irmão mais novo e recém-casado, sempre alheio aos acontecimentos, estava muito mais preocupado com qual seria a forma de satisfazer a mulher fogosa com quem casou do que com as ligações constantes da mãe, perguntando se ele sabia de alguma coisa. O pai estava mais quieto do que de costume e Francisco, de comportamento expansivo e extrovertido, ria apenas na presença da filha, pois as crianças não devem pagar pelos erros dos adultos. Quando apareceu na casa dos pais, depois de tanto tempo de presença constante e da ausência abrupta, sua mãe não conteve as lágrimas, pois imaginou que o velho teria dito algo dessas coisas que não podem ser ditas aos corações sensíveis, como são esses homens de hoje em dia e que o filho nunca mais apareceria em casa na vida, pela teimosia dos homens dessa família.

Entraram os homens no quarto, depois do pedido alto de Francisco para uma palavra séria. Em uma conversa como nunca antes, de perguntas nunca feitas, de verdade semi ditas e de mentiras mal contadas, os homens lavaram a roupa suja da infância do próprio velho, para que chegassem na do novo e assim desembaraçarem o nó feito pelos anos, que quis confundi-los. O velho ouviu coisas que o fez pensar que já era sua hora de morrer e o novo, de que já era hora de sair de lá, pra, de fato, nunca mais retornar. No final das contas, o pai compreendeu, não sem dificuldade, as tristezas do seu filho, a quem jurava que tinha satisfeito completamente no seu dever de pai. O filho compreendeu as incapacidades afetivas de seu pai – embora já soubesse que não se tratavam de incapacidades de sentimentos, mas de comunicação –, com a maior facilidade, pois, ao percorrer por aqueles espaços privados e proibidos, se surpreendeu e aprendeu que, não importa o quanto se ache que conheça alguém, ninguém tem perdido de antemão a capacidade da surpresa. Pediu o perdão mais dolorido e culpado de sua alma, por que sabia que se pudesse voltar no tempo, teria feito tudo de novo. E aquele perdão que pedia se referia somente à culpa da dor que causou naquele senhor que redescobriu, já aleijado, velho e doente, a quem, mais do que nunca, amava e, pelas primeiras vezes na vida, se sentia amado completamente.

Escrito para o meu amigo Trovador das Gerais, que um dia, há algum tempo, me pediu um conto sobre anonimato. Não sei como, a história se guiou sozinha à isso que está escrito. No rapaz que descobriu um novo alguém, violando um anonimato pretendido anteriormente e se fazendo anônimo, em pequenas doses diárias, mesmo que essa palavra não seja completamente apropriada aos atos praticados... Não sei. Fiquei com essa impressão. rs

sábado, 19 de abril de 2014

Para ele.



Hoje é 17 de abril de 2014 e eu estou digitando no primeiro computador onde escrevi meus parcos textos digitais. Onde sangrei tantas vezes o meu coração, muito mais juvenil, em linhas que não importavam na forma. Eu era tudo o que eu poderia ser, em uma época em que feridas se abriam com mais facilidade e o fluxo de sangue que corria pelas minhas mãos, era muito maior do que o corre hoje. Hoje é o aniversário de Bacabal, minha cidade, 94 anos. Pouco o que comemorar. E hoje também morreu o Gabriel García Márquez e é por isso que eu estou aqui, jorrando, sem saber qual será o conteúdo da próxima linha.

Só o que me lembro é que, há pouquíssimo tempo atrás, no seu último aniversário, me veio também a ânsia de escrever pra ele, que eu disse ser um sentimento inevitável, de execução igualmente inevitável. Disse que sabia que não era eterno, por isso era necessário comemorar cada aniversário. Não escrevi, porque achei não ser de bom tom, mas o juízo completava: “... porque cada aniversário bem que pode ser o último”.  E foi. Não é eterno, como eu desejava, como toda a gente que hoje chora comigo, desejava.

Meu coração de fã estremeceu quando soube que ele tinha sido internado. Como funcionam essas coisas, hein? Porra, eu nem conhecia o cara. O cara mesmo é que nem me conhecia... E cá estou, lacrimejando intermitentes instantes, desde a hora que soube da sua morte. Lembro-me de como o conheci, já tardiamente - como sempre é a impressão das coisas espetaculares que conhecemos e que poderíamos ter conhecido antes - em 2008, época em que compramos esse mesmo computador que digitei meus parcos textos digitais, como eu disse anteriormente. Eu fiz o caminho inverso. Assisti “O amor nos tempos do cólera” e, quando vi aquela história daquele amor tão perseverante, reconheci meu próprio coração no de Florentino Ariza, porque os mesmos ardores e dores, eu também já havia vivido (menos comer pétalas de rosas). Enlouqueci. Nas 24 horas que tive direito ao DVD do filme alugado, assisti quantas vezes eu pude. Nos créditos do filme, vi que era baseado na obra do Gabriel e pedi pra que me dessem o livro. Depois de muito tempo, o livro chegou e eu afundava nas redes de minha mãe nas horas vagas em minha casa e depois, na cama de minha avó, antes do ritual diário de escrever várias páginas à mão, no meu caderno diário avulso e desprotegido.

Lá eu prendia a respiração a cada palavra e a cada gesto. Entendia, com o olhar da própria vivência, aquele homem que não achou cura para o seu coração aflito, que não soube sarar jamais aquele sentimento. Tudo aquilo se refletia nas minhas escritas diárias, onde eu faltava sublimar de tanto amor, como só os adolescentes conseguem. Naquela mesma época, coloquei para sempre duas músicas na minha cabeça: “Hay amores” e “La despedida”, ambas de outra colombiana que também me acompanhou de lá pra cá, a Shakira. Foi aí o começo do meu amor por ela também, o que já é outra história. E com a inclinação às renitências que herdei de meus pais, a primeira música não se escapou dos meus sentidos mais nunca. Era insuportável até pra mais paciente das almas me ouvir cantar mais e mais uma vez aquela música, mesmo com as minhas traduções, adaptações e etc. Infernizei os ouvidos de quem eu pude, na Universidade, cantando em qualquer ocasião em alto e bom som... Quantas mesas foram subidas pra que fossem o palco dessa música? E até hoje me faz lacrimejar, ouvir a parte que existem amores “que se vuelven resistentes a los daños, como el vino que mejora con los años...”

Tudo se impregnou de forma indelével. Ao terminar de ler o livro, com um sorriso na alma, sabia que alguém, de muito muito longe, sem qualquer intenção, desvendou os pedaços entrecortados de uma história longa que ainda não tinha sido contada, em mim. E isso é só uma pequena parte das emoções que esse homem me despertou, tantas vezes. Era por isso, Gabito, que comemorava os teus aniversários. Era-me caro. Eu sabia que quando o teu dia chegasse, não choraria como se fosse um dos meus, mas choraria como se fosse um desses nossos que abalaram as estruturas de tanta gente, de milhares de garotas que talvez, como eu, estejam sentadas na frente de computadores, escrevendo as declarações de seus corações à sua memória.

Chegou a mim. Sua vida ressoou em mim. Aqui. Nessa cidade tão improvável, como Macondo. Num lugar tão distante quanto as cidades-natal dos ciganos. Numa menina com o coração tão vagabundo quanto o de qualquer Aureliano. Tua hora também chegou, o que era inevitável, assim como o que o cheiro das amêndoas amargas despertavam, assim como os sentimentos indeléveis, assim como este texto lacrimejado.

Vai com Deus, Gabo.

“Cuando álguien se va
El que se queda
Sufre más”

(La despedida - Shakira)