E por que não, depois de todos esses anos, dar finalmente as mãos à concretude?
Concretude. Transcendência. Palavras-chaves dos amores distantes. Dos não começados. Dos teimosos. Dos fantasmas.
É que aos medrosos, o amor os assusta. As dores demasiadas transformaram seus desejos em apenas fantasias seguras... Onde não está o fim. As lágrimas ficam retidas.
Mas as de êxtase também.
O amor dos medrosos exige mais. Quando se dá mãos à concretude, ela, com um golpe tantas vezes aplicado, arrasta as cabeças os corpos as almas os juízos pra um lugar distante, onde os abraços são sensações físicas indeléveis. Impregnados à estrutura do ser, exigem dos medrosos que aguentem senti-los a cada momento em que o próximo abraço está distante, por vezes, em muito mais de um sentido. A concretude dos amores é maravilhosa aos medrosos. A concretude dos amores é cruel aos medrosos. A eles, é bom que saibam de antemão dessa inexorabilidade, para que façam seus infinitos cálculos, onde decidem o que é melhor para suas almas, que sabem ser frequentemente inconsoláveis.
"A que(m) eu darei a mão?"
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Colômbia, depois de todos esses anos.
(Escrevi isso no segundo dia que eu estava aqui e deixei assim, não terminado:)
Uma paixão avassaladora que surgiu, pra ser bem sincera, eu não sei há quantos anos. Vim pra Colômbia realizar um projeto, mas também saciar essa sede irrestrita que eu sentia há muito tempo de chegar perto de coisas que eu só vi nos livros e só escutei nas canções dos daqui.
A todos os que me perguntam: o que foi que tu foi fazer aí? Eu vim por um intercâmbio de curta duração. Serão apenas 45 dias aqui, na cidade de Barranquilla, que fica no departamento Atlântico, na costa da Colômbia. Esse intercâmbio é promovido pela AIESEC, que é uma Ong que age prioritariamente com isso, intercâmbios. Eles procuram a integração entre os povos através de oportunidades como essa, de que jovens universitários do mundo inteiro, possam vivenciar coisas diferentes do que estão acostumados. O meu projeto é o OC Army, que é um projeto basicamente cultural, onde vamos socializar as nossas vivências de nossos países, para, isso mesmo, jovens soldados do Exército da Colômbia. Bom, eu só vim ficar sabendo disso bem depois, quase quando já estava tudo acertado pra vir pra cá. Pensei (e disse pra muita gente), que era para fazer essa mesma coisa com crianças e/ou jovens de locais mais carentes de Barranquilla, o que eu, certamente, me daria muito melhor. Como nada é perfeito mesmo, amanhã começa essa jornada com os soldados. Ainda teremos treinamento, mas temos que ser proativos no que vamos ensinar (e aprender, logicamente). E estive pensando muito bem sobre isso, sobre as minhas próprias inclinações e pensei que é bom que os exércitos tenham esse tipo de vivência. Que se humanizem cada dia mais e mais, não é?
Estou hospedada na casa da Família Rivaldo. São três mulheres e um homem: a mãe, duas filhas e um filho. São gente muito generosa e boa, que moravam no interior da Colômbia e que se mudaram pra Barranquilla, pra cumprir o desejo do pai falecido. Apesar de ter falecido há um certo tempo, vejo que é uma presença constante nas conversas, nas paredes, nos retratos... Na lembrança dessa família bem apegada. E agora mesmo enquanto escrevo esse texto, uma voz canta o Ballenato - um ritmo musical daqui muito legal - em voz alta, porque essa galera é assim: coloca o som alto o dia todo e a mãe, uma senhora muito generosa e muito prática, que pode, a qualquer hora, começar a dançar e a cantar alguma música nesse ritmo, o ritmo que seu marido era cantor.
A cidade é quente, mas não tão quente quanto Teresina. Além do que, aqui venta muito, já que é uma cidade do litoral. Às vezes me parece que eu estou no Brasil, em uma capital do Nordeste que eu não conheço, só que com tudo dublado em espanhol. As pessoas comem muita comida frita, desde o café da manhã, até o jantar e falam um espanhol muito mais complicado do que em Bogotá, onde eu era constantemente elogiada pelo meu quase perfeito espanhol. hehe Aqui eu preciso que perguntar sempre: Como? Como?
____________________
8 de julho de 2014.
Muita, muita coisa na minha cabeça. Hoje, como todo mundo com consciênia que estava nesse planeta Terra deve saber, tivemos uma derrota acachapante pra Alemanha na Copa. O Plínio Arruda, o político mais simpático do Brasiiiiil, faleceu depois de uma longa jornada contra um câncer. Não foi assim o melhor dia, né? Eu acabei que fiquei me sentindo muito triste por causa dessas coisas. Não sei. Eu acho que eu até não deveria me importar tanto, já que eu não sou assim tão fascinada pelo Futebol em outros âmbitos... Mas em Copa, amigos... Ah, em Copas do mundo eu simplesmente perco o meu juízo. Acho que é porque remete aos tempos em que eu era só uma pirralha lá em Bacabal, pedindo dinheiro de porta em porta pros vizinhos das muitas ruas onde morei, pra que a gente conseguisse decorar a rua de maneira satisfatória. Há duas copas que eu não passo em Bacabal. Nessa Copa, foi tudo muito diferente do que eu imaginei. Vim pra cá e no primeiro jogo do Brasil depois que eu estava aqui, eu não era a única que vestia o amarelo, mas a única que também vestia o verde junto. Foi uma experiência nova e absurdamente louca pra mim, que saí até num Portal de Notícias por estar aqui justamente durante esse jogo e torcer pelo meu país da mesma forma. Ok. Não tão da mesma forma. Festa nas casas dos outros têm que ser bem mais contidas, certo?
Ontem foi o dia em que realmente traçamos as estratégias do Projeto de compartilhamento cultural com os soldados batedores do Batalhão de Barranquilla. Por conta de atrasos do próprio exército, como celebrações internas, não pudemos dar muito procedimento na atividade na primeira semana em que estivemos aqui. Só nesse projeto, são quase 30 pessoas. Gente de toda a parte do mundo que veio pra compartilhar e conhecer. Sair da zona de conforto. Gente da Alemanha, Holanda, República Tcheca, Porto Rico, México, Argentina, Estados Unidos, Itália, Rússia, Índia, China e é, claro, eu e mais dois representando o nosso Brasil baronil. Ou seja, por mais que você tenha que saber o espanhol pra poder se comunicar com o resto da cidade, das pessoas e tudo o mais, é muito importante que você saiba inglês, senão fica difícil criar qualquer tipo de laço com essa galera que é só bilíngue. Estou me saindo muito melhor do que eu imaginava, devo dizer. Meu inglês não é, de jeito nenhum, essas coisas, mas eu compreendo e me faço compreender muito bem, apesar das escorregadas na gramática e na falta de fluência. Não tem problema, o tempo taí pra isso.
A cidade tem algumas particularidades, como o fato de as ruas não terem nomes, nem datas, como no Brasil, mas são divididas em calles e carreras. E todas elas são numeradas, ou seja, pra saber um endereço, você tem que pegar calle número tal com carrera número tal, que eles vão bater certinho onde é. Eu ainda não entendi direito como funciona esse sistema, porque os números são contados de baixo pra cima (ou seria de cima pra baixo?), em direção ao mar, or something like that. Perdão, gente. Eu sou ruim de localização até em Bacabal. Outra coisa que me impressionou bastante foram os chamados Transmetros. São estações bem legais que estão espalhadas por toda a cidade, com ônibus bastante confortáveis, novos e com ar-condicionados, com uma passagem relativamente barata. Aliás, apesar de eu ter achado que o real era desvalorizado em relação ao peso colombiano -o que foi um erro crasso meu, demonstrando total inabilidade com números =( -, as coisas aqui são, em compensação, bem mais baratas que no Brasil. Perdi ou me roubaram um celular, nas incríveis 17 horas de escala que eu passei em Bogotá e, chegando aqui, eu comprei um moto g do mais econômico. Não era bem um luxo, porque eu realmente preciso aqui de um celular que tivesse android por vários e vários motivos. Que se fosse pra comprar, comprasse pelo menos logo um de vergonha. Custou 410 mil pesos, o que custou menos que 500 reais. Em qualquer lugar barato no Brasil, o mesmo modelo não sairia por menos de 600.
No final de semana, fomos a um povoado chamado Taganga. É perto daqui e lá tem praias incríveis, com uma cor inacreditável. Pena só que não era todo aquele paraíso perdido que todos nós imaginamos, já que a praia já está consumida por turistas e há lixo por muitos lugares. Em suma, turismo descontrolado num lugar só pode dar nisso mesmo, merda. Ainda assim, foi uma viagem super legal, bem barata, onde nós aproveitamos pra nos conhecermos melhor. Onde vivemos situações legais, onde saímos pra dançar numa danceteria que não cobrou nada pra entrada e nem tinha consumação mínima e dançamos esses ritmos que fazem qualquer um dançar até se acabar, sentindo a brisa do mar, já que era parte coberta, parte a céu aberto. Histórias, pessoas, sorrisos, surpresas... Coisas que mudaram o modo como nós somos hoje. Quem diria que eu iria fazer mais amizade com a russa e com a alemã do que com os outros latinos? rs Quem diria que eu iria conhecer o cara que já visitou 10 países, morou em vários deles, sabe 6 línguas fluentemente e não tem nem 25 anos? E a gente aqui se achando O cosmopolita porque terminou o curso de inglês.
Essa é a minha primeira experiência fora do Brasil, durante um período que, às vezes parece muito curto, às vezes muito longo, de um mês e meio. Creio que isso é muito, quando se fala em saudades. Mas nem tanto assim, quando se pensa que vai pôr os pés num avião novamente e saber o mundo de coisas que você ainda não tinha aprendido, vão ficar pra trás. E quando eu vou ver essas pessoas de novo? Gente que eu já gosto, que já fiz amizade, me considero e me consideram como família? PORRA, como é que essas coisas acontecem, né? vsf
O meu coração está simplesmente cheio. Meu Deus do céu, de tanta coisa. De uma confusão tão grande de sentimentos, de cansaço, de alegria, de tristeza, de uma vontade de estar perto de alguém em particular, de uma vontade de sair pra dançar até eu me dar por satisfeita... Gente. Esse ano de 2014, tô ficando até com medo dele, porque o bicho tá sendo sem noção demais, em TODOS os sentidos. Maravilhosamente sem noção.
Obrigada pela tenacidade, meu Deus. Por essa teimosia, essa cara-de-pau, essa inexorabilidade que percorre o meu sangue. Quem sabe da minha trajetória, sabe do que eu estou falando. Cada conquista será sempre comemorada como um 7 a 1, só que pra nós. rs
Uma paixão avassaladora que surgiu, pra ser bem sincera, eu não sei há quantos anos. Vim pra Colômbia realizar um projeto, mas também saciar essa sede irrestrita que eu sentia há muito tempo de chegar perto de coisas que eu só vi nos livros e só escutei nas canções dos daqui.
A todos os que me perguntam: o que foi que tu foi fazer aí? Eu vim por um intercâmbio de curta duração. Serão apenas 45 dias aqui, na cidade de Barranquilla, que fica no departamento Atlântico, na costa da Colômbia. Esse intercâmbio é promovido pela AIESEC, que é uma Ong que age prioritariamente com isso, intercâmbios. Eles procuram a integração entre os povos através de oportunidades como essa, de que jovens universitários do mundo inteiro, possam vivenciar coisas diferentes do que estão acostumados. O meu projeto é o OC Army, que é um projeto basicamente cultural, onde vamos socializar as nossas vivências de nossos países, para, isso mesmo, jovens soldados do Exército da Colômbia. Bom, eu só vim ficar sabendo disso bem depois, quase quando já estava tudo acertado pra vir pra cá. Pensei (e disse pra muita gente), que era para fazer essa mesma coisa com crianças e/ou jovens de locais mais carentes de Barranquilla, o que eu, certamente, me daria muito melhor. Como nada é perfeito mesmo, amanhã começa essa jornada com os soldados. Ainda teremos treinamento, mas temos que ser proativos no que vamos ensinar (e aprender, logicamente). E estive pensando muito bem sobre isso, sobre as minhas próprias inclinações e pensei que é bom que os exércitos tenham esse tipo de vivência. Que se humanizem cada dia mais e mais, não é?
Estou hospedada na casa da Família Rivaldo. São três mulheres e um homem: a mãe, duas filhas e um filho. São gente muito generosa e boa, que moravam no interior da Colômbia e que se mudaram pra Barranquilla, pra cumprir o desejo do pai falecido. Apesar de ter falecido há um certo tempo, vejo que é uma presença constante nas conversas, nas paredes, nos retratos... Na lembrança dessa família bem apegada. E agora mesmo enquanto escrevo esse texto, uma voz canta o Ballenato - um ritmo musical daqui muito legal - em voz alta, porque essa galera é assim: coloca o som alto o dia todo e a mãe, uma senhora muito generosa e muito prática, que pode, a qualquer hora, começar a dançar e a cantar alguma música nesse ritmo, o ritmo que seu marido era cantor.
A cidade é quente, mas não tão quente quanto Teresina. Além do que, aqui venta muito, já que é uma cidade do litoral. Às vezes me parece que eu estou no Brasil, em uma capital do Nordeste que eu não conheço, só que com tudo dublado em espanhol. As pessoas comem muita comida frita, desde o café da manhã, até o jantar e falam um espanhol muito mais complicado do que em Bogotá, onde eu era constantemente elogiada pelo meu quase perfeito espanhol. hehe Aqui eu preciso que perguntar sempre: Como? Como?
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8 de julho de 2014.
Muita, muita coisa na minha cabeça. Hoje, como todo mundo com consciênia que estava nesse planeta Terra deve saber, tivemos uma derrota acachapante pra Alemanha na Copa. O Plínio Arruda, o político mais simpático do Brasiiiiil, faleceu depois de uma longa jornada contra um câncer. Não foi assim o melhor dia, né? Eu acabei que fiquei me sentindo muito triste por causa dessas coisas. Não sei. Eu acho que eu até não deveria me importar tanto, já que eu não sou assim tão fascinada pelo Futebol em outros âmbitos... Mas em Copa, amigos... Ah, em Copas do mundo eu simplesmente perco o meu juízo. Acho que é porque remete aos tempos em que eu era só uma pirralha lá em Bacabal, pedindo dinheiro de porta em porta pros vizinhos das muitas ruas onde morei, pra que a gente conseguisse decorar a rua de maneira satisfatória. Há duas copas que eu não passo em Bacabal. Nessa Copa, foi tudo muito diferente do que eu imaginei. Vim pra cá e no primeiro jogo do Brasil depois que eu estava aqui, eu não era a única que vestia o amarelo, mas a única que também vestia o verde junto. Foi uma experiência nova e absurdamente louca pra mim, que saí até num Portal de Notícias por estar aqui justamente durante esse jogo e torcer pelo meu país da mesma forma. Ok. Não tão da mesma forma. Festa nas casas dos outros têm que ser bem mais contidas, certo?
Ontem foi o dia em que realmente traçamos as estratégias do Projeto de compartilhamento cultural com os soldados batedores do Batalhão de Barranquilla. Por conta de atrasos do próprio exército, como celebrações internas, não pudemos dar muito procedimento na atividade na primeira semana em que estivemos aqui. Só nesse projeto, são quase 30 pessoas. Gente de toda a parte do mundo que veio pra compartilhar e conhecer. Sair da zona de conforto. Gente da Alemanha, Holanda, República Tcheca, Porto Rico, México, Argentina, Estados Unidos, Itália, Rússia, Índia, China e é, claro, eu e mais dois representando o nosso Brasil baronil. Ou seja, por mais que você tenha que saber o espanhol pra poder se comunicar com o resto da cidade, das pessoas e tudo o mais, é muito importante que você saiba inglês, senão fica difícil criar qualquer tipo de laço com essa galera que é só bilíngue. Estou me saindo muito melhor do que eu imaginava, devo dizer. Meu inglês não é, de jeito nenhum, essas coisas, mas eu compreendo e me faço compreender muito bem, apesar das escorregadas na gramática e na falta de fluência. Não tem problema, o tempo taí pra isso.
A cidade tem algumas particularidades, como o fato de as ruas não terem nomes, nem datas, como no Brasil, mas são divididas em calles e carreras. E todas elas são numeradas, ou seja, pra saber um endereço, você tem que pegar calle número tal com carrera número tal, que eles vão bater certinho onde é. Eu ainda não entendi direito como funciona esse sistema, porque os números são contados de baixo pra cima (ou seria de cima pra baixo?), em direção ao mar, or something like that. Perdão, gente. Eu sou ruim de localização até em Bacabal. Outra coisa que me impressionou bastante foram os chamados Transmetros. São estações bem legais que estão espalhadas por toda a cidade, com ônibus bastante confortáveis, novos e com ar-condicionados, com uma passagem relativamente barata. Aliás, apesar de eu ter achado que o real era desvalorizado em relação ao peso colombiano -o que foi um erro crasso meu, demonstrando total inabilidade com números =( -, as coisas aqui são, em compensação, bem mais baratas que no Brasil. Perdi ou me roubaram um celular, nas incríveis 17 horas de escala que eu passei em Bogotá e, chegando aqui, eu comprei um moto g do mais econômico. Não era bem um luxo, porque eu realmente preciso aqui de um celular que tivesse android por vários e vários motivos. Que se fosse pra comprar, comprasse pelo menos logo um de vergonha. Custou 410 mil pesos, o que custou menos que 500 reais. Em qualquer lugar barato no Brasil, o mesmo modelo não sairia por menos de 600.
No final de semana, fomos a um povoado chamado Taganga. É perto daqui e lá tem praias incríveis, com uma cor inacreditável. Pena só que não era todo aquele paraíso perdido que todos nós imaginamos, já que a praia já está consumida por turistas e há lixo por muitos lugares. Em suma, turismo descontrolado num lugar só pode dar nisso mesmo, merda. Ainda assim, foi uma viagem super legal, bem barata, onde nós aproveitamos pra nos conhecermos melhor. Onde vivemos situações legais, onde saímos pra dançar numa danceteria que não cobrou nada pra entrada e nem tinha consumação mínima e dançamos esses ritmos que fazem qualquer um dançar até se acabar, sentindo a brisa do mar, já que era parte coberta, parte a céu aberto. Histórias, pessoas, sorrisos, surpresas... Coisas que mudaram o modo como nós somos hoje. Quem diria que eu iria fazer mais amizade com a russa e com a alemã do que com os outros latinos? rs Quem diria que eu iria conhecer o cara que já visitou 10 países, morou em vários deles, sabe 6 línguas fluentemente e não tem nem 25 anos? E a gente aqui se achando O cosmopolita porque terminou o curso de inglês.
Essa é a minha primeira experiência fora do Brasil, durante um período que, às vezes parece muito curto, às vezes muito longo, de um mês e meio. Creio que isso é muito, quando se fala em saudades. Mas nem tanto assim, quando se pensa que vai pôr os pés num avião novamente e saber o mundo de coisas que você ainda não tinha aprendido, vão ficar pra trás. E quando eu vou ver essas pessoas de novo? Gente que eu já gosto, que já fiz amizade, me considero e me consideram como família? PORRA, como é que essas coisas acontecem, né? vsf
O meu coração está simplesmente cheio. Meu Deus do céu, de tanta coisa. De uma confusão tão grande de sentimentos, de cansaço, de alegria, de tristeza, de uma vontade de estar perto de alguém em particular, de uma vontade de sair pra dançar até eu me dar por satisfeita... Gente. Esse ano de 2014, tô ficando até com medo dele, porque o bicho tá sendo sem noção demais, em TODOS os sentidos. Maravilhosamente sem noção.
Obrigada pela tenacidade, meu Deus. Por essa teimosia, essa cara-de-pau, essa inexorabilidade que percorre o meu sangue. Quem sabe da minha trajetória, sabe do que eu estou falando. Cada conquista será sempre comemorada como um 7 a 1, só que pra nós. rs
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Perrengues
Eu não sei se é apenas por um momento de tristeza um pouco difícil de desprezar, dados os sustos do dia de hoje e os perrengues que sobrevieram, mas me veio um pensamento muito filho duma puta - um pensamento que não é novo - de que, pra mim, as coisas sempre são mais difíceis. Simplesmente é muito difícil eu planejar uma coisa, querer uma coisa, fazer uma coisa e dar tudo certo, sem sobressaltos, sem as sérias ameaças ao sucesso da empreitada. "Porra, Jamila, sua nojenta! Pra todo mundo é assim, caralho!" Ô, seu cara de cu, eu sei! Mas tem uma hora que você só olha as suas batalhas e vê o quanto elas foram desnecessárias. No sentido de por que que essas caralhas existiram mesmo? Pra provar o quê? A quem? Eu não vou ser uma pessoa infinitamente melhor se tudo que eu for fazer, tiver sempre a merda dum entrave feio na frente.
A minha sorte é que eu tenho esperança esperança esperança esperança esperança e enquanto eu tiver esperança esperança esperança absolutamente nada pode destruir meus sonhos. E, TALVEZ, por ter muita esperança, o universo ou seja lá o que for, me recompensa fazendo com que tudo dê certo, no final. Mesmo. Eu acho que eu já me acostumei. A tristeza tá aqui, ainda, algumas lágrimas e tal, mas tem uma certeza latejando no meu peito (talvez tenha sido isso que diagnosticaram), de que tudo vai se resolver.
Ora, meu anjo da guarda é displicente, mas é poderoso!
segunda-feira, 19 de maio de 2014
O mundo, todo ele, de novo.
Entrando nesse mundo de novo. É assim que eu me sinto nesses marcos cíclicos do tempo. É dia 18 de maio de 2014, exatamente às 23:58. Ainda faltam dois minutos pra chamar de meus. Talvez se acabem e eu nem perceba, porque estou escrevendo esse parágrafo e dando algumas suspiradas por estar com o peito inteiramente cheio de muito mais do que ar, daquela Vida que às vezes se instala em mim por horas e não quer sair e eu nem quero mais que ela vá, mas em algum momento ela vai. No entanto, como os gatos de rua que foram morar em casas: ela vai, mas ela sempre volta.
Se os meus cálculos não estiverem errados, em alguma parte do dia de algum dos dias do mês de agosto de 1989, meus pais sentiram alguma urgência inexorável. Ao liquidarem a urgência, o que era de se encontrar, se encontrou e eu fiquei, durante um tempo que eu ainda hoje considero pequeno, no lugar mais legal que alguém com um rabo maior que o corpo pode ficar. Dizendo mamãe, meio dia do dia 18 de maio de 1990, eu mostrei a cara, porque mesmo achando massa lá, já tava ficando chato e eu, mesmo pequena, sempre precisei de espaço.
Muita coisa rolou, muita água passou por debaixo desta ponte e hoje (?), como disse uma vez um conhecido, tá com 24 anos que eu "tou aí". E quando badalou a meia-noite e eu estava lá, rodeada de amigas, gritando e pulando junto comigo, veio essa sensação que eu mencionei acima: "Estou entrando no mundo de novo". E pelas provas que a Vida já me deu, puta que pariu! O que será que me aguarda?
Sonhei um sonho já sonhado antes, onde salvava bebês muito pequenos dentro de piscinas. E eles estavam imóveis, como se alguém os tivesse colocado ali, porque os bebês sabem nadar mesmo, certo? Mas eles não se mexiam e eram muito, mas muito pequenos. Só estou contando isso, porque, quando papai me ligou pra desejar os parabéns, eu estava vendo a cara de um que sorria pra mim, por que eu acabara de tirá-lo de dentro da piscina, como se fosse um agradecimento. Como ainda existe uma parte de mim que acredita em augúrios, pensei que fosse um bom pra começar essa reentrada no mundo. Salvando bebês extremamente novos do afogamento. Gente... What a vibe!
Esse ano, no meio, e já rolou coisa pra caramba. E tá sendo bem, bem bom. Desses que dá até medo de dizer que tá sendo bom, porque vai que... Né? Mas é impressionante. E tantas felicitações (sempre mais que bem vindas), me fizeram pensar que essas conquistas do dia-a-dia são desvalorizadas, talvez porque não estejam inseridas dentro desses marcos que nos fazem parar e pensar o que nós estamos realmente vivendo. Ainda assim, quando tudo terminou, eu tinha consciência de que muitas vezes eu deitei na minha cama agradecida por mais um dia completa e maravilhosamente normal.
Sentada aqui, dando fim a uma urgência bem menos inexorável do que a que fez com que meus pais me engendrassem, depois das lágrimas e do sorriso no rosto em caaaada mensagem que me mandaram pelo meu aniversário, eu creio que meus sentimentos estejam um pouco em frangalhos, pelo tanto que os pobres trabalharam hoje. Terrível e maravilhoso passar um aniversário com TPM. Mas... Como eu não vivo num episódio de Skins, não recomendo. Se não der pra evitar, passe o aniversário com tpm mesmo assim. Porque se o aniversário não rolar, então quer dizer que você já morreu.
Esse texto foi escrito exatamente ao contrário de qualquer ideia que eu tinha quando eu o comecei. Ideia que eu nem me lembro tanto assim. Já é quase uma hora do dia 19 e eu, em tese, já teria que estar dormindo. Acontece. Não é todo dia que se entra no mundo de novo.
domingo, 4 de maio de 2014
Compensações
A boa e velha compensação dos sonhos veio me visitar de novo. Dessa vez, concretizando um desejo simples, de há muito tempo, destinado a uma pessoa: um beijo. Alguém que eu quis (e tentei) beijar várias e várias vezes, mas que, por motivos que é melhor pra minha auto-estima não tentar elencar, nunca quis.
Como já é tarde e eu acordei cedo pra um domingo sem obrigações, protelei o registro do sonho e muito dele já se perdeu. Mas não a sensação. Eu tenho uma certeza de que, quando eu sonho com algum beijo (ora, já sonhei várias vezes com isso), é, realmente, como se o beijo da pessoa fosse daquela forma. Por ter beijado realmente quem eu já sonhei beijando e ter rememorada a exata sensação do sonho, isso é algo que eu carrego como verdadeiro, apesar de saber que é completamente irracional.
Nunca foi segredo que eu dou uma importância enorme aos meus sonhos, até porque consigo me lembrar deles, mesmo muito tempo depois de acordada. Existem sonhos que eu trago comigo há anos. Sonhos de quando eu era criança, sonhos apaixonados e sonhos em que os meus problemas foram resolvidos, de quando eu perdoei e fui perdoada... Coisa nesse naipe. Afora os sonhos que eu voo, os que eu saio correndo sobre o mundo, os que eu conheço celebridades (Sim, megalomaníaca, eu.)
Muita coisa se concretizou, desses sonhos, por que, claro, já havia o desejo. O próprio ato de sonhar já é o que define, certo, Jung? (Ou seria Freud? Não sei.)
Enfim, se o sonhado ocorrer da maneira que sonhou-se, meu Deus... Rapaz, o que me negastes, hein?
domingo, 27 de abril de 2014
O baú
Em todas as vezes em que esteve
certo de algo, procurou as histórias da vida do pai e tentou alguma
aproximação. Mas isso foi bem depois. Sabia que o velho tinha seus dias arquivados
em páginas cuidadosamente escritas com a ponta da caneta bic, sempre de tinta
azul ou preta. Gostava de escrever afundando as letras, pesando a mão. Foi como
aprendeu a escrever, afinal de contas: na marra, depois de adulto e com a
mulher ainda grávida do primeiro filho. Foi quando decidiu que iria pagar aulas
com quem quer que se dispusesse em lhe dizer que símbolos eram aqueles que via
nas conduções e não entendia. Não queria a humilhação de não poder ensinar pros
filhos o que eles quereriam saber, quando viessem da escola todos os dias com
as tarefinhas e com mais perguntas do que respostas, num processo sempre
cumulativo de questionamentos embaraçosos.
Não era um pai amoroso, ou pelo menos, não
daqueles que levavam as crianças pra passear ou colocava o mais velho no colo
pra contar seus tempos de menino. Não foi assim como lhe ensinaram que um homem
devia ser. Apesar de ter chorado escondido no nascimento dos dois filhos, tudo
o que mostrou na frente dos outros, foi o beijo na testa suada da mulher
exaurida e os risos formais que dava a cada par de amigos que entrava pra ver a
criança gorda e sempre chorosa. A vida tinha sido muito difícil e casar foi
mais uma urgência reparadora do que um planejamento pra vida. Ainda era muito
cedo, o tempo era pouco e o dinheiro também. Um choro, porém, ficou engatado na
garganta. Quando foi no cartório e precisou dizer o nome da primeira criança, um
nome de astro americano, e o moço que fazia essas coisas perguntou como se
soletrava e ele não sabia como responder. Sabia que haveria de ter algum “a”,
mas como se parecia um “a” e onde era que ele se encaixava no meio daqueles
fonemas que trazia consigo? Derrotado, deu o nome de Francisco ao primeiro
pequeno. Era comum, o moço do cartório não precisaria perguntar como era que se
escrevia. Ainda não tinha se sentido humilhado dessa forma. Durante toda a
gravidez entrou em combate com a mulher pra lhe dar esse nome em particular,
pra no final, uma simples questão prática e básica lhe impedir o intento. O
choro na garganta se transformou numa raiva cega que não deixou que ele pegasse
a condução pra casa. Foi à pé, pensando que as coisas não deveriam ser assim
pra ele. Pra ninguém.
***
Francisco tinha já seus quase 30
anos quando achou um baú mal entalhado, todo empoeirado, em um quartinho da
casa antiga em que seus pais ainda insistiam em morar, apesar da distância para
o bairro em que os dois filhos moravam com suas respectivas famílias. A porta
do banheiro de uso comum da casa estava emperrada e era preciso alguma
ferramenta. Logo também foi detectado um defeito no trinco. Foi a um quartinho
velho, onde ninguém mais entrava há muitos anos. Era o lugar que o pai queria
que, um dia, fosse um escritório, onde podia sentar todas as noites e realizar
tarefas sem ser incomodado por qualquer barulho que fosse. O pai sempre foi um
homem difícil, com um aspecto muito duro. Por mais que o moço nunca tenha
colocado em cheque o fato de ter sido amado por seu pai, o conhecia o
suficiente pra saber o que poderia esperar dele ou não. Poderia esperar uma mão
na cabeça, sem mais do que uma risada rápida do canto da boca e um quase grunhido
que soava de aprovação. Fora isso, só lembrava do dia da ocasião especial em
que o pai chegava do trabalho e ele ainda estava na rua jogando bola. Antes de
ver que o pai se aproximava e sentir um frio gelar-lhe os ossos, marcou um gol.
O pai foi ao encontro do menino petrificado que o olhava atentamente, pousou a
mão em sua cabeça sem dizer palavra, mas o sorriso correu-lhe por toda a face,
fruto de um orgulho muito sincero. No restante das ocasiões que Francisco se
lembrava, parecia um gesto automático de alguém incapaz de sentimentos mais
complexos. Porém, não se lembrava de sentir-se mais feliz do que quando isso
acontecia. Ia correndo contar pra mãe, que enchia os olhos d’água, porque ela
sim, colocava várias e várias vezes em cheque o amor do pai pelos filhos. Ela tinha
o cuidado de fazê-lo apenas no escuro da madrugada, enquanto o marido dormia,
no seguro do seu coração.
O baú estava com uma tranca muito
velha, não foi difícil achar uma marreta no meio daquele quarto entocado e
quebrá-lo em uma só pancada. Viu um mundo de cadernos mais ou menos finos,
organizados dentro do baú médio, com um plástico grosso que os envolucrava do
mundo exterior. Pegou o que estava mais em cima e abriu do começo: sem dúvidas,
era um diário. E as pernas tremeram quando viu que era do pai. Poderia
reconhecer aquela escrita forte e aquela letra mal desenhada a um milhão de quilômetros
de distância. Sentiu uma vertigem, quando sentiu que as aproximações com o pai
nunca tinham dado certo e que aquela era uma violação que nunca seria perdoada.
Com o coração disparado, decidiu sentar-se e ler cada coisinha que tinha ali.
Os olhos foram a um dia de 18
anos atrás. Ele tinha 11 anos. O pai relatava que tinha saído do emprego e
voltado pra casa e que estava muito cansado. Tinha sido um dia quente e ele
tinha ficado muito feliz ao chegar em casa e ver que os filhos já estavam
banhados, com uma roupa limpa, com os cabelos penteados e cheirosos, sentados
na porta de casa com a mãe, esperando só por ele. Águas encheram os olhos de
Francisco, porque em todos os dias do ritual, o pai nunca havia dito sequer uma
palavra de aprovação ao esforço que a sua mãe fazia pra que os meninos saíssem
da rua, com os pés pretos de sujos e ofegantes das corridas, pra que tomassem
banho e se sentassem na porta, na cadeirinha que cada um tinha pra que
esperassem o pai chegar. O relato continuou sobre uma chateação com um colega
de trabalho e de como a mulher que passou na rua chamou-lhe atenção pelo rabo grande, o que arrancou risadas
sufocadas do filho. Era um homem totalmente diferente que se apresentava ali.
***
O velho, nessa época, tinha
diabetes. Como era muito teimoso, continuava a comer de tudo sem qualquer
restrição. Um dia, uma faca escorregou de sua mão enquanto tentava utilizá-la
como chave de fenda, pra abrir um radinho de pilha que parou de funcionar com
as pilhas ainda novinhas. A faca caiu no seu pé. Sangrou. Doeu. Sangrou mais e
não cicatrizou. Quatro dias depois, quando não importava mais qualquer brio,
foi ao hospital, sinceramente arrependido das teimosias. Não porque tinha medo
de morrer, mas tinha medo de não morrer e ficar ali, dependente de sua mulher,
de seus filhos, de uma enfermeira, de quem quer que fosse. O que mais lhe
aterrorizava era a possibilidade infame de morrer como um cachorro sem dono na
porra de um hospital. Ficou mesmo alguns dias em observação na mesma porra de hospital,
a ferida só fazia aumentar e sabia do risco de perder o pé. Foi pra casa, não
cuidou e voltou pra cirurgia de retirada de membro.
A família toda ficou chocada, mas
ninguém mais que o próprio velho. Tinha cuidado de si o tempo que precisou,
desde quando tinha seus oito anos. Sempre cuidou também de quem precisou de si,
desde que pôde. Xingou a médica, xingou os enfermeiros, xingou Deus, xingou o diabo,
xingou a quem e o quê pôde. Não adiantou. O pé foi embora e uma lágrima desceu
pelo olho esquerdo quando acordou da anestesia e percebeu que o mundo jamais
seria como antes. Amargurado, parou o que tinha feito o hábito de sua vida por
mais de 20 anos: escrever as palavras que necessitava pra todas as noites.
Deitado na maca do hospital, com
a mulher, os filhos e netos, ponderou sobre o destino de sua alma, se tivesse
morrido na mesa de cirurgia. Pediu perdão a Deus pelas palavras, não falou nada
ao diabo e soube que teria que permanecer no purgatório por algum tempo, antes
que pudesse caminhar (que ironia!) aos terrenos sagrados. O espírito estava
abatido, mas, mais uma vez, não podia deixar transparecer.
Foi quando o filho mais velho
passou a visitar todos os dias a casa dos pais. Não importava se passava menos
tempo com a mulher e com a filha, se tinha que pegar um engarrafamento sem fim
pra chegar em casa só pra dormir, se tinha emagrecido por comer pouco de
preocupação com o pai. As páginas que lia clandestinamente, no silêncio daquele
quarto onde mal se podia respirar, lhe absorviam os miolos do cérebro, porque
já não podia parar mais.
***
“18 de maio de 1988, 22:00
Minha vida não tá fácil. Os meninos estão ficando maiores e tão precizando
de muitas coisas. Toda hora a mulher me cobra isso cobra aquilo. Hoje foram
umas chuteiras que eu não sei como vou fazer pra comprar. Francisco vai disputar
um campeonato e eu vou deixar porque todo homem tem que jogar bola na vida. Eu não
tive essa oportunidade não vo negar aos meus filhos. Isabel me disse que o
aumento ta fora de jogada aquela rapariga. Não trocava minha mulher por duas
dela apesar dela ser bem gostosa e a Iraci já ta capengando um pouco. O trabalho
foi angostiante por causa disso e eu fiquei muito nervoso quando o seu João chegou
dizendo que tava circulando notícia que alguns funcionário iam ser mandado
embora. Se já tá uma merda do jeito que tá, pagando só as contas mesmo e mal
imagina meu Deus deixar de ganhar esse. Já to velho e não aguento muito outro
trabalho pesado. Já pensou? Eu ter que capinar terreno pra bota comida dentro
de casa. Meu Deus e santa teresinha não deixai eu perder meu emprego pelo amor
de Deus.”
Francisco parou várias vezes pra
enxugar os olhos, porque em algum momento do breve relato deste dia em
particular, os olhos se embaçaram demais pra que ele pudesse enxergar. Parou,
respirou e sentiu suas têmporas pressionadas, em uma dor de cabeça que lhe fez
curvar. Depois de casado e com uma filha, nunca passara por qualquer tipo de
aflição financeira, porque já era muito bem empregado mesmo antes do casamento
e das demais responsabilidades. Pensou em sua pequena. Nos sonhos dela, nos
seus sonhos próprios e nos seus sonhos pra ela. Pensou em seu pai, pensou nos
seus antigos sonhos e de como achava que o seu pai nunca aprovaria seus
devaneios, como ser jogador de futebol profissional. Lembrou da época em que o
pai acabou realmente perdendo o emprego e como era triste vê-lo circulando anúncios
em jornais e saindo de casa cedo, procurando algum trabalho. Antes de saber,
quando lhe foi negado o pedido das chuteiras novas e a própria ida ao
campeonato, gritou pra mãe, que lhe deu a notícia com a mão no coração, e foi
ao quarto que dividia com o irmão, sentou na sua cama e chorou, como alguém que
sentiu um sonho perto do nascimento, abortado tragicamente por algum acidente
cruel. Mais tarde, quando soube do ocorrido com o pai, foi muito lento em
relacionar um episódio ao outro, e não deu nenhum efeito de causa e
consequência ao fato, o que lhe rendeu ainda alguns meses do seu ódio cego e
surdo, mas não destituído do paladar ou do tato, pois quando se lembrava, um
gosto de bile vinha à boca – embora não soubesse identificar – e a mão se
guiava a algum objeto próximo, que tinha ganas de arremessar à parede, mas não
o fazia porque sabia que levaria uma surra muito da caprichada.
No fundo do baú, meteu a mão e
achou o primeiro caderno, dentro de uma outra sacola plástica. Como percebeu,
seu pai sempre numerava todos quando terminava um e passava para o seguinte.
Viu a letra pesada mais uma vez, que ainda não era a cursiva, mas uma letra de
fôrma, muito mais pesada, quase inutilizando as costas da folha, de quando o
pai achou um pequeno curso no centro da cidade, que ensinava adultos a ler.
‘FRANCISCO
MEU FILHO NACEU
IRACI TEVE FRANCISCO
BOTEI O NOME DE FRANCISCO’
Assim, sem assinaturas, sem
datas, sem maiores detalhes. Saiu do quarto agoniado, pensando ter passado
tempo demais ali dentro, mesmo achando que os pais não desconfiavam de nada. A
mãe só se ocupava da novela e de atender o marido em alguma necessidade. O pai
estava na cadeira de rodas e também ficava na frente da TV, mesmo que não
gostasse, porque não teria que gritar pra que lhe buscassem qualquer coisa ou
quando quisesse ir ao banheiro. Por fim, acabou gostando dos enredos das
novelas e acompanhava de bom grado as novelas e o jornal. Não viu ou ouviu os
passos do filho mais velho. Sentiu apenas um abraço por trás, onde um braço se
enfiava por baixo das axilas e o outro lhe segurava a face. Arregalou os olhos e
sentindo alguma dor da cirurgia, se virou como pôde e viu o filho, tomado pela
inspiração divina, com os olhos arregalados, vermelhos e fixos aos seus.
Assombrado, pensou que o homem tinha perdido o juízo e, se assim o fosse, ele
pouco poderia fazer, sentado naquela cadeira. Não demorou, quedou-se
paralisado, pois a súbita inspiração do Espírito Santo que viu nos olhos do
filho, reconheceu-a em si. Tomado de um terror magnífico, compreendeu que as
ausências demoradas de seu filho no fundo da casa e as suas visitas diárias
tinham nada a ver com a sua cirurgia ou pra ajudar a mãe. Compreendeu que
estava sendo lido, que o lugar onde deixou pedaços de si que nunca havia
exposto a ninguém, estava sendo escrutinado pelo próprio filho, sem
autorização. Sentiu-se desconcertado, envergonhado, porque se lembrava de
confissões feitas, como as poucas traições à mulher e uns sentimentos
desencontrados, que foi colhendo ao acaso, com os percalços da vida, e
guardando para aquelas páginas diárias, que lhe serviam de consolo e compreensão
paciente e tenaz. A mãe observava àquilo, perturbada, sem a menor pista do que
poderia estar acontecendo. Perdeu o beijo roubado que o vilão da novela deu na
mocinha, que fez com ela se apaixonasse perdidamente e para sempre.
Francisco, por sua vez, percebeu
a inquietação do pai e viu-se descoberto do crime. Da incursão não autorizada à
intimidade da pessoa que julgou ter a menor complexidade humana que já conheceu
em toda a sua vida. Pelo convívio diário até o casamento, achou que conhecia
aquela homem que chamava de pai, com a palma da sua mão. Viu que estava
enganado e, desde então, com a mulher e a filha dormindo, deitado na cama,
observando o teto, tinha vontade de ligar pro pai e perguntar: “Por que você
simplesmente não abria a porra dessa sua boca e nos dizia essas coisas,
caralho?”, mas não podia. Sabia que, durante as madrugadas insones, era o único
momento em que sentia raiva dos sentimentos escondidos, dos afagos de pai que
ele e seu irmão foram privados. Sentia um rancor que parecia ser alimentado de
trevas, pois quando a manhã chegava, tudo o que queria era que a noite se
aproximasse novamente, pra que pudesse dirigir do trabalho à casa dos pais, ver
o rosto daquele homem novo e se enterrar nos seus escritos novamente, em uma
ansiedade que o maltratava, mas lhe dava um ânimo que só sentiu no dia que
pediu a mulher em casamento.
O velho baixou o rosto, numa
submissão clara de quem se viu destituído do poder elementar de se guiar por
vontade própria, mesmo nos pequenos caminhos domésticos. Não disse
absolutamente nada e tudo o que mais desejava no mundo, era que fosse deixado
só, nem que fosse pra morrer de uma vez. Era bom que deixava de dar trabalho.
***
A conversa definitiva veio 15
dias depois. A família se empertigava com os efeitos daquele estranhamento
silencioso. O irmão mais novo e recém-casado, sempre alheio aos acontecimentos,
estava muito mais preocupado com qual seria a forma de satisfazer a mulher
fogosa com quem casou do que com as ligações constantes da mãe, perguntando se
ele sabia de alguma coisa. O pai estava mais quieto do que de costume e
Francisco, de comportamento expansivo e extrovertido, ria apenas na presença da
filha, pois as crianças não devem pagar pelos erros dos adultos. Quando apareceu
na casa dos pais, depois de tanto tempo de presença constante e da ausência
abrupta, sua mãe não conteve as lágrimas, pois imaginou que o velho teria dito
algo dessas coisas que não podem ser ditas aos corações sensíveis, como são esses
homens de hoje em dia e que o filho nunca mais apareceria em casa na vida, pela
teimosia dos homens dessa família.
Entraram os homens no quarto,
depois do pedido alto de Francisco para uma palavra séria. Em uma conversa como
nunca antes, de perguntas nunca feitas, de verdade semi ditas e de mentiras mal
contadas, os homens lavaram a roupa suja da infância do próprio velho, para que
chegassem na do novo e assim desembaraçarem o nó feito pelos anos, que quis confundi-los.
O velho ouviu coisas que o fez pensar que já era sua hora de morrer e o novo,
de que já era hora de sair de lá, pra, de fato, nunca mais retornar. No final das
contas, o pai compreendeu, não sem dificuldade, as tristezas do seu filho, a
quem jurava que tinha satisfeito completamente no seu dever de pai. O filho
compreendeu as incapacidades afetivas de seu pai – embora já soubesse que não
se tratavam de incapacidades de sentimentos, mas de comunicação –, com a maior
facilidade, pois, ao percorrer por aqueles espaços privados e proibidos, se
surpreendeu e aprendeu que, não importa o quanto se ache que conheça alguém, ninguém
tem perdido de antemão a capacidade da surpresa. Pediu o perdão mais dolorido e
culpado de sua alma, por que sabia que se pudesse voltar no tempo, teria feito
tudo de novo. E aquele perdão que pedia se referia somente à culpa da dor que
causou naquele senhor que redescobriu, já aleijado, velho e doente, a quem,
mais do que nunca, amava e, pelas primeiras vezes na vida, se sentia amado
completamente.
Escrito para o meu amigo Trovador das Gerais, que um dia, há algum tempo, me pediu um conto sobre anonimato. Não sei como, a história se guiou sozinha à isso que está escrito. No rapaz que descobriu um novo alguém, violando um anonimato pretendido anteriormente e se fazendo anônimo, em pequenas doses diárias, mesmo que essa palavra não seja completamente apropriada aos atos praticados... Não sei. Fiquei com essa impressão. rs
sábado, 19 de abril de 2014
Para ele.
Hoje é 17 de abril de 2014 e eu
estou digitando no primeiro computador onde escrevi meus parcos textos
digitais. Onde sangrei tantas vezes o meu coração, muito mais juvenil, em
linhas que não importavam na forma. Eu era tudo o que eu poderia ser, em uma época
em que feridas se abriam com mais facilidade e o fluxo de sangue que corria
pelas minhas mãos, era muito maior do que o corre hoje. Hoje é o aniversário de
Bacabal, minha cidade, 94 anos. Pouco o que comemorar. E hoje também morreu o
Gabriel García Márquez e é por isso que eu estou aqui, jorrando, sem saber qual
será o conteúdo da próxima linha.
Só o que me lembro é que, há
pouquíssimo tempo atrás, no seu último aniversário, me veio também a ânsia de
escrever pra ele, que eu disse ser um sentimento inevitável, de execução
igualmente inevitável. Disse que sabia que não era eterno, por isso era
necessário comemorar cada aniversário. Não escrevi, porque achei não ser de bom
tom, mas o juízo completava: “... porque cada aniversário bem que pode ser o
último”. E foi. Não é eterno, como eu
desejava, como toda a gente que hoje chora comigo, desejava.
Meu coração de fã estremeceu
quando soube que ele tinha sido internado. Como funcionam essas coisas, hein?
Porra, eu nem conhecia o cara. O cara mesmo é que nem me conhecia... E cá
estou, lacrimejando intermitentes instantes, desde a hora que soube da sua
morte. Lembro-me de como o conheci, já tardiamente - como sempre é a impressão
das coisas espetaculares que conhecemos e que poderíamos ter conhecido antes -
em 2008, época em que compramos esse mesmo computador que digitei meus parcos
textos digitais, como eu disse anteriormente. Eu fiz o caminho inverso. Assisti
“O amor nos tempos do cólera” e, quando vi aquela história daquele amor tão
perseverante, reconheci meu próprio coração no de Florentino Ariza, porque os
mesmos ardores e dores, eu também já havia vivido (menos comer pétalas de
rosas). Enlouqueci. Nas 24 horas que tive direito ao DVD do filme alugado,
assisti quantas vezes eu pude. Nos créditos do filme, vi que era baseado na
obra do Gabriel e pedi pra que me dessem o livro. Depois de muito tempo, o
livro chegou e eu afundava nas redes de minha mãe nas horas vagas em minha casa
e depois, na cama de minha avó, antes do ritual diário de escrever várias páginas
à mão, no meu caderno diário avulso e desprotegido.
Lá eu prendia a respiração a cada
palavra e a cada gesto. Entendia, com o olhar da própria vivência, aquele homem
que não achou cura para o seu coração aflito, que não soube sarar jamais aquele
sentimento. Tudo aquilo se refletia nas minhas escritas diárias, onde eu
faltava sublimar de tanto amor, como só os adolescentes conseguem. Naquela
mesma época, coloquei para sempre duas músicas na minha cabeça: “Hay amores” e
“La despedida”, ambas de outra colombiana que também me acompanhou de lá pra
cá, a Shakira. Foi aí o começo do meu amor por ela também, o que já é outra
história. E com a inclinação às renitências que herdei de meus pais, a primeira
música não se escapou dos meus sentidos mais nunca. Era insuportável até pra
mais paciente das almas me ouvir cantar mais e mais uma vez aquela música,
mesmo com as minhas traduções, adaptações e etc. Infernizei os ouvidos de quem
eu pude, na Universidade, cantando em qualquer ocasião em alto e bom som...
Quantas mesas foram subidas pra que fossem o palco dessa música? E até hoje me
faz lacrimejar, ouvir a parte que existem amores “que se vuelven resistentes a
los daños, como el vino que mejora con los años...”
Tudo se impregnou de forma
indelével. Ao terminar de ler o livro, com um sorriso na alma, sabia que
alguém, de muito muito longe, sem qualquer intenção, desvendou os pedaços
entrecortados de uma história longa que ainda não tinha sido contada, em mim. E
isso é só uma pequena parte das emoções que esse homem me despertou, tantas
vezes. Era por isso, Gabito, que comemorava os teus aniversários. Era-me caro.
Eu sabia que quando o teu dia chegasse, não choraria como se fosse um dos meus,
mas choraria como se fosse um desses nossos que abalaram as estruturas de tanta
gente, de milhares de garotas que talvez, como eu, estejam sentadas na frente
de computadores, escrevendo as declarações de seus corações à sua memória.
Chegou a mim. Sua vida ressoou em
mim. Aqui. Nessa cidade tão improvável, como Macondo. Num lugar tão distante
quanto as cidades-natal dos ciganos. Numa menina com o coração tão vagabundo
quanto o de qualquer Aureliano. Tua hora também chegou, o que era inevitável,
assim como o que o cheiro das amêndoas amargas despertavam, assim como os
sentimentos indeléveis, assim como este texto lacrimejado.
Vai com Deus, Gabo.
“Cuando álguien se va
El que se queda
Sufre más”
(La despedida - Shakira)
quinta-feira, 6 de março de 2014
Inevitable
| Abre essa porta e me dá um abraço, homem! |
Comemoro os aniversários, porque sei que não é eterno. E a cada ano a mais, é um presente ter alguém que não deveria morrer, aqui nesse mundo de tanta loucura. Tua vida veio ressoar aqui em mim, bem longe. Desculpa a intimidade, mas tu deves saber como são as coisas inevitáveis...
***
Hace algún tiempo, todos los años escribo alguna cosa para el cumpleaños de Gabo. No es algo que yo planejo para que parezca cult, o cualquiera de esas cosas. Es solo un amor de esos que me haz lacrimejar toda vez que leio que, para alguien, era inevitable no recordar el destino de los amores contrariados al sentir el olor de las almendras amargas. Al igual que Isabel Allende dijo, tocó los acordes correctos que estaban en mí. Y aquella música permanente, por tanto tiempo dormida, cantó más una vez e por mucho tiempo más. Es por eso, Gabriel, que te amo. No me conoces, no te conozco, pero ¿cómo no decir menos que estas palabras fuertes heridas tan a menudo en bocas inclementes? He sido dada a conocer sin querer. He sido amada. Pero amé sabendo, sin embargo.
Celebro los cumpleaños, porque sé que no es eterno. Y a cada año, es un regalo tener a alguien que no debe morir, aquí, en este mundo de tanta locura. Su vida resuena en mí, tan lejos. Perdón por la intimidad, pero usted debe saber como son las cosas inevitables...
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Queria não ter que escrever só sobre amor.
Mas eu não escrevo só sobre amor. Mas a urgência vagabunda que me impele e provavelmente me mataria, é só ele que me faz. Eu queria que não TER que escrever só sobre amor. Eu queria conseguir não sufocar. Mas, alguém disse e eu vi, mas não lembro mais quem foi: "Tu e eu temos amanheceres pendentes..." e bateu aquela bad.
Engraçadas as coisas que aconteceram essa semana, esse mês, esse período novo e tão louco. Os janeiros parecem vir com alguma coisa predestinação pras grandes alegrias ou grandes tristezas. Ou, sei lá, pras grandes intensidades. Sempre posso esperar muito de um janeiro.
(- E o amor, menina, não era o que você tava sufocando por escrever?)
Ora, mas como não? Se não é também sempre do que se tratam os janeiros? Seja pra trazer, pra lembrar, pra sorrir, pra enterrar...
Já quase se acaba, enfim. Foram grandes as vidas que vivi.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Isso não é uma crônica
Não, não é. Eu acabei de assistir a um filme morto de lindo e queria escrever em algum lugar as coisas bonitas que vieram na minha cabeça depois que eu terminei de vê-lo. Eu teria feito isso no meu diário, se eu ainda tivesse um diário. Mas vou fazer de conta que aqui é ele, então não vou me importar tanto com estilo, se tá aquele texto bem fechadinho, dentre outras bobagens.
Eu só estou com uma melancolia muito grande pra deixar passar. Não sei, uma melancolia daquelas boas. Alguma coisa que te puxa pra um passado de lembranças que nunca vão se apagar, mesmo que se passem mais dez anos. Mesmo que se passe mais um. Eu sei bem do que estou falando. Depois que o filme acabou, eu fiquei calada por um bom tempo, até ligar o notebook pra escrever. Na minha cabeça, mesmo durante as cenas do filme, eu ficava me lembrando dos meus amores juvenis e de como eu sabia obstinadamente o que eu queria pra cada pedacinho da minha vida: não havia espaço pra meios-termos ou dúvidas. Mesmo as impossibilidades eram certas. Deus! Como me fizeram sentir viva, as minhas paixões.
Há algo que me puxa sempre pra eternidade delas. Eu não sei entender direito o porquê. Eu ainda sou daquelas que, no fundo, sonha um amor recíproco, calmo e ao mesmo tempo, intenso. Nessas horas é que eu posso jurar que a Vida não me ensinou nada, que eu ainda não aprendi da fluidez das coisas... Mas não sei, é algo que me preocupa, porque sei também que espero, o que é muito mais grave do que "apenas" sonhar.
E aí vêm as perguntas ardentes no meu cérebro: Quem, de fato, sou eu? Uma jovem de 23 lutando pra conseguir os seus sonhos. Mas quais são todos os meus sonhos? O que está, de verdade, aqui dentro pulando feito um doido no meu coração pra se libertar? Eu estarei ainda à mercê de amores mal curados? Parece que eu ainda tenho uma vida a enfrentar de expectativas que eu não consigo deixar de fazer, não correspondidas, pela frente. Mas, ao mesmo tempo, quem serei eu se não forem essas mesmas expectativas de felicidades? Que me perdoem os facilmente escandalizáveis, mas eu sinto que há algo de grandioso esperando por mim. Desde pequena, desde que consigo me lembrar. Por mais estranhas e difíceis que as coisas fossem em determinados momentos, eu apenas sabia que nada seria daquele jeito pra sempre. De fato, tudo mudou. E eu me pego espantada, sem ter a mínima ideia do que pode me acontecer daqui pra frente. Eu rio, porque eu simplesmente não tenho a MENOR NOÇÃO de pra onde a Vida vai me levar, porque Ela já deu mostras de que é extremamente renitente em mim. Totalmente teimosa e fantasiosa. Não, ela não se larga fácil. Veio uma porrada de lágrimas que embaçam a tela, mas ainda bem que eu aprendi a digitar sem olhar. HAHAHAHAHA Porra! Como assim, cara? Vai dormir, Jamila.
Há alguma coisa... Há algum mundo... Eu, de novo, não sei. Parece que eu vou terminar esse texto e passar mais algum tempo calada. Deus, meu bom Deus, pra quê tanta alma? rs
Boa noite pra mim, Jamila.
Eu só estou com uma melancolia muito grande pra deixar passar. Não sei, uma melancolia daquelas boas. Alguma coisa que te puxa pra um passado de lembranças que nunca vão se apagar, mesmo que se passem mais dez anos. Mesmo que se passe mais um. Eu sei bem do que estou falando. Depois que o filme acabou, eu fiquei calada por um bom tempo, até ligar o notebook pra escrever. Na minha cabeça, mesmo durante as cenas do filme, eu ficava me lembrando dos meus amores juvenis e de como eu sabia obstinadamente o que eu queria pra cada pedacinho da minha vida: não havia espaço pra meios-termos ou dúvidas. Mesmo as impossibilidades eram certas. Deus! Como me fizeram sentir viva, as minhas paixões.
Há algo que me puxa sempre pra eternidade delas. Eu não sei entender direito o porquê. Eu ainda sou daquelas que, no fundo, sonha um amor recíproco, calmo e ao mesmo tempo, intenso. Nessas horas é que eu posso jurar que a Vida não me ensinou nada, que eu ainda não aprendi da fluidez das coisas... Mas não sei, é algo que me preocupa, porque sei também que espero, o que é muito mais grave do que "apenas" sonhar.
E aí vêm as perguntas ardentes no meu cérebro: Quem, de fato, sou eu? Uma jovem de 23 lutando pra conseguir os seus sonhos. Mas quais são todos os meus sonhos? O que está, de verdade, aqui dentro pulando feito um doido no meu coração pra se libertar? Eu estarei ainda à mercê de amores mal curados? Parece que eu ainda tenho uma vida a enfrentar de expectativas que eu não consigo deixar de fazer, não correspondidas, pela frente. Mas, ao mesmo tempo, quem serei eu se não forem essas mesmas expectativas de felicidades? Que me perdoem os facilmente escandalizáveis, mas eu sinto que há algo de grandioso esperando por mim. Desde pequena, desde que consigo me lembrar. Por mais estranhas e difíceis que as coisas fossem em determinados momentos, eu apenas sabia que nada seria daquele jeito pra sempre. De fato, tudo mudou. E eu me pego espantada, sem ter a mínima ideia do que pode me acontecer daqui pra frente. Eu rio, porque eu simplesmente não tenho a MENOR NOÇÃO de pra onde a Vida vai me levar, porque Ela já deu mostras de que é extremamente renitente em mim. Totalmente teimosa e fantasiosa. Não, ela não se larga fácil. Veio uma porrada de lágrimas que embaçam a tela, mas ainda bem que eu aprendi a digitar sem olhar. HAHAHAHAHA Porra! Como assim, cara? Vai dormir, Jamila.
Há alguma coisa... Há algum mundo... Eu, de novo, não sei. Parece que eu vou terminar esse texto e passar mais algum tempo calada. Deus, meu bom Deus, pra quê tanta alma? rs
Boa noite pra mim, Jamila.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
O raio
Alguém já sentiu o raio?
Sim, ainda empolgada com a leitura d'O Chefão, que há muito deveria já ter figurado nos livros lidos. Mas, fazer o quê... A gente não pode ler tudo o que quer. A vida sempre vai deixar algumas lacunas das coisas maravilhosas que a gente poderia ter feito e toda aquela coisa que todo mundo tá cansado de saber, que o mundo não dá conta da gente ou a gente não dá conta do mundo.
Mas o caso é que eu li sobre o tal do raio. Algo que o sicilianos antigos diziam da sensação (ou ocasião) única na vida, de avistar um ser humano e seu sangue revolver-se dentro do seu corpo e depois fugir e depois voltar novamente, carregando litros de um desejo incontrolável por quem se teve o raio. Uma paixão tão sôfrega e instantânea que não há cura conhecida a não ser a posse do ser dos desejos. Você fica paralisado, sem sentir o próprio corpo, um tanto quanto catatônico e sem o raciocínio inteiro.
Eu lembro de um raio.
Eu devia ter, no máximo, dez anos e até hoje eu não sei como isso aconteceu. E ainda mais, por que isso aconteceu. Sempre estudei no mesmo colégio a vida toda, durante o ensino fundamental. É um colégio religioso, protestante. Na época, figurava entre os melhores da minha cidade, o que queria sim dizer grande coisa. Os alunos eram tidos como muito inteligentes e ávidos e, com efeito, a turma com o qual passei mais de onze anos, galgou passos largos nessa vida. Não podemos dizer que não tivemos uma boa base. Mas não era sobre isso que eu queria falar.
Meu irmão e eu sempre íamos com o meu pai à escola. Não de carro, coisa que nunca possuímos, mas de bicicleta mesmo. Sempre foi o único meio de transportes do qual dispomos e eu, particularmente, nunca achei isso ruim. Na nossa cidade, mais que isso, só mesmo pelo conforto. Qualquer distância pode ser percorrida por uma bicicleta facilmente. Pois bem, houve um período em que as vacas começaram a engordar e as chuvas a cair, estas últimas não metaforicamente. Morávamos em ruas que sempre alagavam e não foi só uma vez que eu cheguei na escola toda molhada e tive que ligar pra casa pedindo pra mandarem roupa, coisa que me causava bastante constrangimento por n motivos. Um conhecido nosso fazia transporte escolar e minha mãe o contratou pra nos levar à escola, pelo menos durante algum tempo. Nós sempre chegávamos atrasados, porque eram muitas crianças e, não raro, a gente se espremia em mais de oito corpinhos magrelos dentro de um gol prata da primeira geração, todo acabado. Meu Deus, como fui feliz naquele carro...
Um dia, ao chegar na escola, saímos e fomos buscar nossas mochilas de carrinho no porta-malas. Quando eu avistei um homem saindo de um terreno que servia como estacionamento pra uma empresa da minha cidade, em frente ao colégio. O homem me viu e parou a bicicleta dele. Eu o vi, parei, petrifiquei e não conseguia mais sair do lugar. Eu lembro MUITO bem de como o homem era. Ele tinha um cabelo liso, oval, os olhos azuis bem claros, usava óculos. Era de um branco já marcado pelo sol. Se vestia com uma camiseta amarela e uma calça com um tecido que era parecido com o jeans, mas não era jeans. Os óculos dele eram enormes, como muito se vê por aí hoje em dia. Meus olhos se enchem de água ao me lembrar desse episódio, porque foi marcante demais. Eu deixei cair a minha mochila das minhas mãos, enquanto todo mundo saía de dentro do carro. Nós não conseguimos nos mover. Do outro lado da rua, eu via que os olhos deles estavam cravados nos meus, talvez sem entender o que estava acontecendo. Meu coração acelerou como se precisasse daquela violência pra continuar a viver e eu senti uma onda de arrepios percorrer toda a extensão do meu pequeno corpo, da cabeça aos pés. Uma sacudida de um colega da mesma turma me tirou do meu torpor. Tudo isso durou uns cinco minutos e do meio pro fim, comecei a lacrimejar por uma emoção que eu ainda não tinha sentido antes. Não era amor, não era paixão. Não. Era uma conexão inimaginável com um ser humano totalmente desconhecido pra mim. Eu peguei minha mochila do chão e caminhei pra entrada, olhando pra trás pra ver se continuava a ver aquele homem tão misterioso que nem falou comigo, mas que me causou essa impressão tão forte.
Lembro bem de, muito tempo depois, tê-lo visto passando na rua perto da praça da primeira casa que morei, também de bicicleta. A imagem dele ficara gravada em mim e naquele momento, como não poderia deixar de ser, estava bem mais nítida que agora. Eu ia à pé pra casa da minha avó, porque aquele era o caminho. O homem passou por mim e, creio fortemente, me reconheceu. Foi mais adiante e eu o acompanhava, com os olhos quase pra furá-lo. Eu sentia no meu corpo inteiro as batidas inclementes do coração. E pra minha total exasperação, o homem dá a meia-volta na sua bicicleta, olha pra mim, para, pensa e segue o seu caminho. Obviamente, a melhor saída. Eu era uma criança, afinal de contas. E obviamente, nada aconteceria dali, nada de carnal, nada de concreto. No entanto, sempre tive propensões pra amizades com pessoas mais velhas. Talvez isso sim pudesse acontecer. Mas o mais provável era que eu saísse correndo por não conseguir disfarçar a ansiedade no momento. Não sei. Só sei que esse foi um evento que eu jamais consegui qualquer explicação. Não fui atrás de explicações cósmicas, religiosas, nada. Foi um raio sem qualquer deliberação clara que me atingiu, apenas. Com todo o direito que um raio tem, deixou as marcas na memória.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
O barqueiro.
Não sou fatalista, nem pessimista. Superei a fase do "foi porque Deus quis". Mas ainda existem coisas que insisto em colocar as razões, não as culpas, nos fatos anteriores a mim, como o fato de eu ser extremamente renitente em relação aos meus sentimentos. Parece que a massa com a qual fui feita derramou demais o ingrediente da lembrança, da fixação. Nada escapa à regra, aplicável a quase tudo na minha vida: dos amores aos ódios, das alegrias às tristezas, tudo fica interminavelmente registrado. E parece que precisa, por força, que tudo seja bastante intenso.
Acredite ou não, mas eu ainda me lembro do meu primeiro amor. Eu sentia-me torturada e viva ao mesmo tempo, pois se jamais poderia esperar o retorno do sentimento, também jamais poderia esperar viver sem ele. Desde sempre, os amores platônicos fizeram-me companhia. Talvez, por isso, o meu cérebro me dá a possibilidade infame de continuar sentindo coisas mesmo quando tudo de concreto já se passou há muito tempo. O caso mais grave entrou em remissão depois de 10 anos! E ainda hoje não sei dizer se já curou.
Costumávamos fazer um peça na minha escola que ficou na minha cabeça. Era uma peça de sentimentos que vinham nuns barquinhos de cartolina que nós fazíamos, com os nossos "nomes" escritos neles. Vinham vários e já não lembro a ordem. Mas se o espírito não me comete um terrível engano, lembro de o Tempo - que nem era um sentimento, senão uma entidade - ser o único barqueiro a parar na ilha para a Tristeza. Era o que lhe dava carona e lhe tirava daquela ilha, onde estava gritando há muito tempo para os outros que passavam, pedindo por socorro. A metáfora é linda, se a história não estiver errada e esta ter sido uma falsa memória: o tempo é o único a carregar as nossas tristezas. Isso, de certa forma, me consola. Definitivamente me emociona.
Sobre a renitência dos sentimentos e a intensidade deles, me lembro das histórias que me foram contadas por outros, sobre meus pais. Lembro de dizerem que eles eram o casal mais apaixonado que já viram, que era um amor daqueles loucos, desesperados, que não havia meios-termos. Mas ao mesmo tempo, bastante conturbado, cheio de brigas homéricas, que causavam o desfalecimento imediato no semblante de meu pai. Eram muito jovens, mas mesmo a idade não alterou certas coisas no relacionamento. Talvez tenha amainado os amores, mas não os conflitos. Meu irmão e eu viemos e não sei o que continuou o mesmo, o que mudou, no que havia de anterior a nós entre eles.
Era sobre a história deles, desse sentimento que havia, pelo menos no tenro começo, que era intenso e voraz, que fê-los casarem-se sem saber do que os esperavam. Tenho certeza de que puxei essa propensão às intensidades. Como poderia eu ser diferente se sou filha de meus pais? Se a carne deles é a minha, se o sangue deles é o meu? É algo fora da minha capacidade de estornar. Só me resta lidar o melhor que posso com as dores advindas de ter muito sangue nas veias.
O Tempo me disse, enquanto íamos no barquinho conversando, que não há nada melhor que manter a própria serenidade. Apontou pra trás e me fez ver que já estava fora da ilha.
Acredite ou não, mas eu ainda me lembro do meu primeiro amor. Eu sentia-me torturada e viva ao mesmo tempo, pois se jamais poderia esperar o retorno do sentimento, também jamais poderia esperar viver sem ele. Desde sempre, os amores platônicos fizeram-me companhia. Talvez, por isso, o meu cérebro me dá a possibilidade infame de continuar sentindo coisas mesmo quando tudo de concreto já se passou há muito tempo. O caso mais grave entrou em remissão depois de 10 anos! E ainda hoje não sei dizer se já curou.
Costumávamos fazer um peça na minha escola que ficou na minha cabeça. Era uma peça de sentimentos que vinham nuns barquinhos de cartolina que nós fazíamos, com os nossos "nomes" escritos neles. Vinham vários e já não lembro a ordem. Mas se o espírito não me comete um terrível engano, lembro de o Tempo - que nem era um sentimento, senão uma entidade - ser o único barqueiro a parar na ilha para a Tristeza. Era o que lhe dava carona e lhe tirava daquela ilha, onde estava gritando há muito tempo para os outros que passavam, pedindo por socorro. A metáfora é linda, se a história não estiver errada e esta ter sido uma falsa memória: o tempo é o único a carregar as nossas tristezas. Isso, de certa forma, me consola. Definitivamente me emociona.
Sobre a renitência dos sentimentos e a intensidade deles, me lembro das histórias que me foram contadas por outros, sobre meus pais. Lembro de dizerem que eles eram o casal mais apaixonado que já viram, que era um amor daqueles loucos, desesperados, que não havia meios-termos. Mas ao mesmo tempo, bastante conturbado, cheio de brigas homéricas, que causavam o desfalecimento imediato no semblante de meu pai. Eram muito jovens, mas mesmo a idade não alterou certas coisas no relacionamento. Talvez tenha amainado os amores, mas não os conflitos. Meu irmão e eu viemos e não sei o que continuou o mesmo, o que mudou, no que havia de anterior a nós entre eles.
Era sobre a história deles, desse sentimento que havia, pelo menos no tenro começo, que era intenso e voraz, que fê-los casarem-se sem saber do que os esperavam. Tenho certeza de que puxei essa propensão às intensidades. Como poderia eu ser diferente se sou filha de meus pais? Se a carne deles é a minha, se o sangue deles é o meu? É algo fora da minha capacidade de estornar. Só me resta lidar o melhor que posso com as dores advindas de ter muito sangue nas veias.
O Tempo me disse, enquanto íamos no barquinho conversando, que não há nada melhor que manter a própria serenidade. Apontou pra trás e me fez ver que já estava fora da ilha.
domingo, 17 de novembro de 2013
A dedicatória
O chefão. Mario Puzo.
É, o cara é mestre, o cara é foda. Eu assisti aos três filmes e com a minha santa ignorância (, Batman!), eu nem manjei que o primeiro foi feito baseado no livro do Puzo. Desde então, fiquei um tanto quanto louca pra ler. Acho que do mesmo jeito que eu fiquei quando tinha por que tinha que ler "O amor nos tempos do Cólera" do Márquez, depois que vi o filme, senão o mundo ia se acabar.
São Paulo, maio de 2013. Último dia da viagem, a Luana e eu saímos da Feira da Liberdade e encontramos um sebo maravilhoso. Entre tantos títulos que me passavam pela cabeça procurar e achar, não passava esse. Até que eu vi e minha mão foi guiada instintivamente a ele. Era a escolha primordial e a verba disponível, se fosse pouca pra outro, que fosse só pra ele, não fazia mal.
Até que eu abri as páginas e folheei. O livro estava muito gasto. Não valiam os vinte reais que eu teria dar. E não pelo estado estético dele, mas pelo físico, digamos assim. As folhas estavam caindo todas e eu pensei em desistir da compra, até mais uma outra folheada no começo do livro, onde eu quase ia perdendo essa dedicatória, que sanou todas as minhas dúvidas.
Eu li e a vista consequentemente embaçou, por algum cisco que caiu no olho. Eram tempos de remissão e ainda havia muita sensibilidade nos olhos e creio que em mais outros cantos. E os ciscos eram meio que teimosos.
E me perguntei do porquê de alguém vender a um sebo um livro com uma dedicatória tão especial, tão bonita. E me perguntei onde ficaria a Chico City. E me perguntei por quais caminhos aquele livro já passou até que chegasse em minhas mãos. Aliás, uma pergunta sempre feita aos livros comprados em sebos.
Um coração quebrado? Onde livrar-se das lembranças físicas talvez aliviasse a melancolia das lembranças vívidas de um amor que não durou a eternidade sonhada pelos amantes? Talvez. Sinceramente, tomara que não. Talvez fosse algum desses infortúnios que faz com que percamos coisas que nos são extremamente valiosas, como um empréstimo mal pensado ou uma mudança de endereço. A boa e velha má sorte.
Todos esses pensamentos vieram novamente ao começar a ler, na semana passada, o tal do livro desfolhado. Caiu um cisquinho menor no olho, menos irritante dessa vez. Mas é bom não confundir, moços! Agora é porque eu também quero um cargo público hiper-remunerado.
É, o cara é mestre, o cara é foda. Eu assisti aos três filmes e com a minha santa ignorância (, Batman!), eu nem manjei que o primeiro foi feito baseado no livro do Puzo. Desde então, fiquei um tanto quanto louca pra ler. Acho que do mesmo jeito que eu fiquei quando tinha por que tinha que ler "O amor nos tempos do Cólera" do Márquez, depois que vi o filme, senão o mundo ia se acabar.
São Paulo, maio de 2013. Último dia da viagem, a Luana e eu saímos da Feira da Liberdade e encontramos um sebo maravilhoso. Entre tantos títulos que me passavam pela cabeça procurar e achar, não passava esse. Até que eu vi e minha mão foi guiada instintivamente a ele. Era a escolha primordial e a verba disponível, se fosse pouca pra outro, que fosse só pra ele, não fazia mal.
Até que eu abri as páginas e folheei. O livro estava muito gasto. Não valiam os vinte reais que eu teria dar. E não pelo estado estético dele, mas pelo físico, digamos assim. As folhas estavam caindo todas e eu pensei em desistir da compra, até mais uma outra folheada no começo do livro, onde eu quase ia perdendo essa dedicatória, que sanou todas as minhas dúvidas.
Eu li e a vista consequentemente embaçou, por algum cisco que caiu no olho. Eram tempos de remissão e ainda havia muita sensibilidade nos olhos e creio que em mais outros cantos. E os ciscos eram meio que teimosos.
E me perguntei do porquê de alguém vender a um sebo um livro com uma dedicatória tão especial, tão bonita. E me perguntei onde ficaria a Chico City. E me perguntei por quais caminhos aquele livro já passou até que chegasse em minhas mãos. Aliás, uma pergunta sempre feita aos livros comprados em sebos.
Um coração quebrado? Onde livrar-se das lembranças físicas talvez aliviasse a melancolia das lembranças vívidas de um amor que não durou a eternidade sonhada pelos amantes? Talvez. Sinceramente, tomara que não. Talvez fosse algum desses infortúnios que faz com que percamos coisas que nos são extremamente valiosas, como um empréstimo mal pensado ou uma mudança de endereço. A boa e velha má sorte.
Todos esses pensamentos vieram novamente ao começar a ler, na semana passada, o tal do livro desfolhado. Caiu um cisquinho menor no olho, menos irritante dessa vez. Mas é bom não confundir, moços! Agora é porque eu também quero um cargo público hiper-remunerado.
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