domingo, 4 de maio de 2014

Compensações

A boa e velha compensação dos sonhos veio me visitar de novo. Dessa vez, concretizando um desejo simples, de há muito tempo, destinado a uma pessoa: um beijo. Alguém que eu quis (e tentei) beijar várias e várias vezes, mas que, por motivos que é melhor pra minha auto-estima não tentar elencar, nunca quis.
Como já é tarde e eu acordei cedo pra um domingo sem obrigações, protelei o registro do sonho e muito dele já se perdeu. Mas não a sensação. Eu tenho uma certeza de que, quando eu sonho com algum beijo (ora, já sonhei várias vezes com isso), é, realmente, como se o beijo da pessoa fosse daquela forma. Por ter beijado realmente quem eu já sonhei beijando e ter rememorada a exata sensação do sonho, isso é algo que eu carrego como verdadeiro, apesar de saber que é completamente irracional.
Nunca foi segredo que eu dou uma importância enorme aos meus sonhos, até porque consigo me lembrar deles, mesmo muito tempo depois de acordada. Existem sonhos que eu trago comigo há anos. Sonhos de quando eu era criança, sonhos apaixonados e sonhos em que os meus problemas foram resolvidos, de quando eu perdoei e fui perdoada... Coisa nesse naipe. Afora os sonhos que eu voo, os que eu saio correndo sobre o mundo, os que eu conheço celebridades (Sim, megalomaníaca, eu.)
Muita coisa se concretizou, desses sonhos, por que, claro, já havia o desejo. O próprio ato de sonhar já é o que define, certo, Jung? (Ou seria Freud? Não sei.)
Enfim, se o sonhado ocorrer da maneira que sonhou-se, meu Deus... Rapaz, o que me negastes, hein?

domingo, 27 de abril de 2014

O baú



Em todas as vezes em que esteve certo de algo, procurou as histórias da vida do pai e tentou alguma aproximação. Mas isso foi bem depois. Sabia que o velho tinha seus dias arquivados em páginas cuidadosamente escritas com a ponta da caneta bic, sempre de tinta azul ou preta. Gostava de escrever afundando as letras, pesando a mão. Foi como aprendeu a escrever, afinal de contas: na marra, depois de adulto e com a mulher ainda grávida do primeiro filho. Foi quando decidiu que iria pagar aulas com quem quer que se dispusesse em lhe dizer que símbolos eram aqueles que via nas conduções e não entendia. Não queria a humilhação de não poder ensinar pros filhos o que eles quereriam saber, quando viessem da escola todos os dias com as tarefinhas e com mais perguntas do que respostas, num processo sempre cumulativo de questionamentos embaraçosos.

Não era um pai amoroso, ou pelo menos, não daqueles que levavam as crianças pra passear ou colocava o mais velho no colo pra contar seus tempos de menino. Não foi assim como lhe ensinaram que um homem devia ser. Apesar de ter chorado escondido no nascimento dos dois filhos, tudo o que mostrou na frente dos outros, foi o beijo na testa suada da mulher exaurida e os risos formais que dava a cada par de amigos que entrava pra ver a criança gorda e sempre chorosa. A vida tinha sido muito difícil e casar foi mais uma urgência reparadora do que um planejamento pra vida. Ainda era muito cedo, o tempo era pouco e o dinheiro também. Um choro, porém, ficou engatado na garganta. Quando foi no cartório e precisou dizer o nome da primeira criança, um nome de astro americano, e o moço que fazia essas coisas perguntou como se soletrava e ele não sabia como responder. Sabia que haveria de ter algum “a”, mas como se parecia um “a” e onde era que ele se encaixava no meio daqueles fonemas que trazia consigo? Derrotado, deu o nome de Francisco ao primeiro pequeno. Era comum, o moço do cartório não precisaria perguntar como era que se escrevia. Ainda não tinha se sentido humilhado dessa forma. Durante toda a gravidez entrou em combate com a mulher pra lhe dar esse nome em particular, pra no final, uma simples questão prática e básica lhe impedir o intento. O choro na garganta se transformou numa raiva cega que não deixou que ele pegasse a condução pra casa. Foi à pé, pensando que as coisas não deveriam ser assim pra ele. Pra ninguém.

***

Francisco tinha já seus quase 30 anos quando achou um baú mal entalhado, todo empoeirado, em um quartinho da casa antiga em que seus pais ainda insistiam em morar, apesar da distância para o bairro em que os dois filhos moravam com suas respectivas famílias. A porta do banheiro de uso comum da casa estava emperrada e era preciso alguma ferramenta. Logo também foi detectado um defeito no trinco. Foi a um quartinho velho, onde ninguém mais entrava há muitos anos. Era o lugar que o pai queria que, um dia, fosse um escritório, onde podia sentar todas as noites e realizar tarefas sem ser incomodado por qualquer barulho que fosse. O pai sempre foi um homem difícil, com um aspecto muito duro. Por mais que o moço nunca tenha colocado em cheque o fato de ter sido amado por seu pai, o conhecia o suficiente pra saber o que poderia esperar dele ou não. Poderia esperar uma mão na cabeça, sem mais do que uma risada rápida do canto da boca e um quase grunhido que soava de aprovação. Fora isso, só lembrava do dia da ocasião especial em que o pai chegava do trabalho e ele ainda estava na rua jogando bola. Antes de ver que o pai se aproximava e sentir um frio gelar-lhe os ossos, marcou um gol. O pai foi ao encontro do menino petrificado que o olhava atentamente, pousou a mão em sua cabeça sem dizer palavra, mas o sorriso correu-lhe por toda a face, fruto de um orgulho muito sincero. No restante das ocasiões que Francisco se lembrava, parecia um gesto automático de alguém incapaz de sentimentos mais complexos. Porém, não se lembrava de sentir-se mais feliz do que quando isso acontecia. Ia correndo contar pra mãe, que enchia os olhos d’água, porque ela sim, colocava várias e várias vezes em cheque o amor do pai pelos filhos. Ela tinha o cuidado de fazê-lo apenas no escuro da madrugada, enquanto o marido dormia, no seguro do seu coração.

O baú estava com uma tranca muito velha, não foi difícil achar uma marreta no meio daquele quarto entocado e quebrá-lo em uma só pancada. Viu um mundo de cadernos mais ou menos finos, organizados dentro do baú médio, com um plástico grosso que os envolucrava do mundo exterior. Pegou o que estava mais em cima e abriu do começo: sem dúvidas, era um diário. E as pernas tremeram quando viu que era do pai. Poderia reconhecer aquela escrita forte e aquela letra mal desenhada a um milhão de quilômetros de distância. Sentiu uma vertigem, quando sentiu que as aproximações com o pai nunca tinham dado certo e que aquela era uma violação que nunca seria perdoada. Com o coração disparado, decidiu sentar-se e ler cada coisinha que tinha ali.

Os olhos foram a um dia de 18 anos atrás. Ele tinha 11 anos. O pai relatava que tinha saído do emprego e voltado pra casa e que estava muito cansado. Tinha sido um dia quente e ele tinha ficado muito feliz ao chegar em casa e ver que os filhos já estavam banhados, com uma roupa limpa, com os cabelos penteados e cheirosos, sentados na porta de casa com a mãe, esperando só por ele. Águas encheram os olhos de Francisco, porque em todos os dias do ritual, o pai nunca havia dito sequer uma palavra de aprovação ao esforço que a sua mãe fazia pra que os meninos saíssem da rua, com os pés pretos de sujos e ofegantes das corridas, pra que tomassem banho e se sentassem na porta, na cadeirinha que cada um tinha pra que esperassem o pai chegar. O relato continuou sobre uma chateação com um colega de trabalho e de como a mulher que passou na rua chamou-lhe atenção pelo rabo grande, o que arrancou risadas sufocadas do filho. Era um homem totalmente diferente que se apresentava ali.

***

O velho, nessa época, tinha diabetes. Como era muito teimoso, continuava a comer de tudo sem qualquer restrição. Um dia, uma faca escorregou de sua mão enquanto tentava utilizá-la como chave de fenda, pra abrir um radinho de pilha que parou de funcionar com as pilhas ainda novinhas. A faca caiu no seu pé. Sangrou. Doeu. Sangrou mais e não cicatrizou. Quatro dias depois, quando não importava mais qualquer brio, foi ao hospital, sinceramente arrependido das teimosias. Não porque tinha medo de morrer, mas tinha medo de não morrer e ficar ali, dependente de sua mulher, de seus filhos, de uma enfermeira, de quem quer que fosse. O que mais lhe aterrorizava era a possibilidade infame de morrer como um cachorro sem dono na porra de um hospital. Ficou mesmo alguns dias em observação na mesma porra de hospital, a ferida só fazia aumentar e sabia do risco de perder o pé. Foi pra casa, não cuidou e voltou pra cirurgia de retirada de membro.

A família toda ficou chocada, mas ninguém mais que o próprio velho. Tinha cuidado de si o tempo que precisou, desde quando tinha seus oito anos. Sempre cuidou também de quem precisou de si, desde que pôde. Xingou a médica, xingou os enfermeiros, xingou Deus, xingou o diabo, xingou a quem e o quê pôde. Não adiantou. O pé foi embora e uma lágrima desceu pelo olho esquerdo quando acordou da anestesia e percebeu que o mundo jamais seria como antes. Amargurado, parou o que tinha feito o hábito de sua vida por mais de 20 anos: escrever as palavras que necessitava pra todas as noites.

Deitado na maca do hospital, com a mulher, os filhos e netos, ponderou sobre o destino de sua alma, se tivesse morrido na mesa de cirurgia. Pediu perdão a Deus pelas palavras, não falou nada ao diabo e soube que teria que permanecer no purgatório por algum tempo, antes que pudesse caminhar (que ironia!) aos terrenos sagrados. O espírito estava abatido, mas, mais uma vez, não podia deixar transparecer.

Foi quando o filho mais velho passou a visitar todos os dias a casa dos pais. Não importava se passava menos tempo com a mulher e com a filha, se tinha que pegar um engarrafamento sem fim pra chegar em casa só pra dormir, se tinha emagrecido por comer pouco de preocupação com o pai. As páginas que lia clandestinamente, no silêncio daquele quarto onde mal se podia respirar, lhe absorviam os miolos do cérebro, porque já não podia parar mais.

***

“18 de maio de 1988, 22:00

Minha vida não tá fácil. Os meninos estão ficando maiores e tão precizando de muitas coisas. Toda hora a mulher me cobra isso cobra aquilo. Hoje foram umas chuteiras que eu não sei como vou fazer pra comprar. Francisco vai disputar um campeonato e eu vou deixar porque todo homem tem que jogar bola na vida. Eu não tive essa oportunidade não vo negar aos meus filhos. Isabel me disse que o aumento ta fora de jogada aquela rapariga. Não trocava minha mulher por duas dela apesar dela ser bem gostosa e a Iraci já ta capengando um pouco. O trabalho foi angostiante por causa disso e eu fiquei muito nervoso quando o seu João chegou dizendo que tava circulando notícia que alguns funcionário iam ser mandado embora. Se já tá uma merda do jeito que tá, pagando só as contas mesmo e mal imagina meu Deus deixar de ganhar esse. Já to velho e não aguento muito outro trabalho pesado. Já pensou? Eu ter que capinar terreno pra bota comida dentro de casa. Meu Deus e santa teresinha não deixai eu perder meu emprego pelo amor de Deus.”

Francisco parou várias vezes pra enxugar os olhos, porque em algum momento do breve relato deste dia em particular, os olhos se embaçaram demais pra que ele pudesse enxergar. Parou, respirou e sentiu suas têmporas pressionadas, em uma dor de cabeça que lhe fez curvar. Depois de casado e com uma filha, nunca passara por qualquer tipo de aflição financeira, porque já era muito bem empregado mesmo antes do casamento e das demais responsabilidades. Pensou em sua pequena. Nos sonhos dela, nos seus sonhos próprios e nos seus sonhos pra ela. Pensou em seu pai, pensou nos seus antigos sonhos e de como achava que o seu pai nunca aprovaria seus devaneios, como ser jogador de futebol profissional. Lembrou da época em que o pai acabou realmente perdendo o emprego e como era triste vê-lo circulando anúncios em jornais e saindo de casa cedo, procurando algum trabalho. Antes de saber, quando lhe foi negado o pedido das chuteiras novas e a própria ida ao campeonato, gritou pra mãe, que lhe deu a notícia com a mão no coração, e foi ao quarto que dividia com o irmão, sentou na sua cama e chorou, como alguém que sentiu um sonho perto do nascimento, abortado tragicamente por algum acidente cruel. Mais tarde, quando soube do ocorrido com o pai, foi muito lento em relacionar um episódio ao outro, e não deu nenhum efeito de causa e consequência ao fato, o que lhe rendeu ainda alguns meses do seu ódio cego e surdo, mas não destituído do paladar ou do tato, pois quando se lembrava, um gosto de bile vinha à boca – embora não soubesse identificar – e a mão se guiava a algum objeto próximo, que tinha ganas de arremessar à parede, mas não o fazia porque sabia que levaria uma surra muito da caprichada.

No fundo do baú, meteu a mão e achou o primeiro caderno, dentro de uma outra sacola plástica. Como percebeu, seu pai sempre numerava todos quando terminava um e passava para o seguinte. Viu a letra pesada mais uma vez, que ainda não era a cursiva, mas uma letra de fôrma, muito mais pesada, quase inutilizando as costas da folha, de quando o pai achou um pequeno curso no centro da cidade, que ensinava adultos a ler.

‘FRANCISCO
MEU FILHO NACEU
IRACI TEVE FRANCISCO
BOTEI O NOME DE FRANCISCO’

Assim, sem assinaturas, sem datas, sem maiores detalhes. Saiu do quarto agoniado, pensando ter passado tempo demais ali dentro, mesmo achando que os pais não desconfiavam de nada. A mãe só se ocupava da novela e de atender o marido em alguma necessidade. O pai estava na cadeira de rodas e também ficava na frente da TV, mesmo que não gostasse, porque não teria que gritar pra que lhe buscassem qualquer coisa ou quando quisesse ir ao banheiro. Por fim, acabou gostando dos enredos das novelas e acompanhava de bom grado as novelas e o jornal. Não viu ou ouviu os passos do filho mais velho. Sentiu apenas um abraço por trás, onde um braço se enfiava por baixo das axilas e o outro lhe segurava a face. Arregalou os olhos e sentindo alguma dor da cirurgia, se virou como pôde e viu o filho, tomado pela inspiração divina, com os olhos arregalados, vermelhos e fixos aos seus. Assombrado, pensou que o homem tinha perdido o juízo e, se assim o fosse, ele pouco poderia fazer, sentado naquela cadeira. Não demorou, quedou-se paralisado, pois a súbita inspiração do Espírito Santo que viu nos olhos do filho, reconheceu-a em si. Tomado de um terror magnífico, compreendeu que as ausências demoradas de seu filho no fundo da casa e as suas visitas diárias tinham nada a ver com a sua cirurgia ou pra ajudar a mãe. Compreendeu que estava sendo lido, que o lugar onde deixou pedaços de si que nunca havia exposto a ninguém, estava sendo escrutinado pelo próprio filho, sem autorização. Sentiu-se desconcertado, envergonhado, porque se lembrava de confissões feitas, como as poucas traições à mulher e uns sentimentos desencontrados, que foi colhendo ao acaso, com os percalços da vida, e guardando para aquelas páginas diárias, que lhe serviam de consolo e compreensão paciente e tenaz. A mãe observava àquilo, perturbada, sem a menor pista do que poderia estar acontecendo. Perdeu o beijo roubado que o vilão da novela deu na mocinha, que fez com ela se apaixonasse perdidamente e para sempre.

Francisco, por sua vez, percebeu a inquietação do pai e viu-se descoberto do crime. Da incursão não autorizada à intimidade da pessoa que julgou ter a menor complexidade humana que já conheceu em toda a sua vida. Pelo convívio diário até o casamento, achou que conhecia aquela homem que chamava de pai, com a palma da sua mão. Viu que estava enganado e, desde então, com a mulher e a filha dormindo, deitado na cama, observando o teto, tinha vontade de ligar pro pai e perguntar: “Por que você simplesmente não abria a porra dessa sua boca e nos dizia essas coisas, caralho?”, mas não podia. Sabia que, durante as madrugadas insones, era o único momento em que sentia raiva dos sentimentos escondidos, dos afagos de pai que ele e seu irmão foram privados. Sentia um rancor que parecia ser alimentado de trevas, pois quando a manhã chegava, tudo o que queria era que a noite se aproximasse novamente, pra que pudesse dirigir do trabalho à casa dos pais, ver o rosto daquele homem novo e se enterrar nos seus escritos novamente, em uma ansiedade que o maltratava, mas lhe dava um ânimo que só sentiu no dia que pediu a mulher em casamento.

O velho baixou o rosto, numa submissão clara de quem se viu destituído do poder elementar de se guiar por vontade própria, mesmo nos pequenos caminhos domésticos. Não disse absolutamente nada e tudo o que mais desejava no mundo, era que fosse deixado só, nem que fosse pra morrer de uma vez. Era bom que deixava de dar trabalho.

***

A conversa definitiva veio 15 dias depois. A família se empertigava com os efeitos daquele estranhamento silencioso. O irmão mais novo e recém-casado, sempre alheio aos acontecimentos, estava muito mais preocupado com qual seria a forma de satisfazer a mulher fogosa com quem casou do que com as ligações constantes da mãe, perguntando se ele sabia de alguma coisa. O pai estava mais quieto do que de costume e Francisco, de comportamento expansivo e extrovertido, ria apenas na presença da filha, pois as crianças não devem pagar pelos erros dos adultos. Quando apareceu na casa dos pais, depois de tanto tempo de presença constante e da ausência abrupta, sua mãe não conteve as lágrimas, pois imaginou que o velho teria dito algo dessas coisas que não podem ser ditas aos corações sensíveis, como são esses homens de hoje em dia e que o filho nunca mais apareceria em casa na vida, pela teimosia dos homens dessa família.

Entraram os homens no quarto, depois do pedido alto de Francisco para uma palavra séria. Em uma conversa como nunca antes, de perguntas nunca feitas, de verdade semi ditas e de mentiras mal contadas, os homens lavaram a roupa suja da infância do próprio velho, para que chegassem na do novo e assim desembaraçarem o nó feito pelos anos, que quis confundi-los. O velho ouviu coisas que o fez pensar que já era sua hora de morrer e o novo, de que já era hora de sair de lá, pra, de fato, nunca mais retornar. No final das contas, o pai compreendeu, não sem dificuldade, as tristezas do seu filho, a quem jurava que tinha satisfeito completamente no seu dever de pai. O filho compreendeu as incapacidades afetivas de seu pai – embora já soubesse que não se tratavam de incapacidades de sentimentos, mas de comunicação –, com a maior facilidade, pois, ao percorrer por aqueles espaços privados e proibidos, se surpreendeu e aprendeu que, não importa o quanto se ache que conheça alguém, ninguém tem perdido de antemão a capacidade da surpresa. Pediu o perdão mais dolorido e culpado de sua alma, por que sabia que se pudesse voltar no tempo, teria feito tudo de novo. E aquele perdão que pedia se referia somente à culpa da dor que causou naquele senhor que redescobriu, já aleijado, velho e doente, a quem, mais do que nunca, amava e, pelas primeiras vezes na vida, se sentia amado completamente.

Escrito para o meu amigo Trovador das Gerais, que um dia, há algum tempo, me pediu um conto sobre anonimato. Não sei como, a história se guiou sozinha à isso que está escrito. No rapaz que descobriu um novo alguém, violando um anonimato pretendido anteriormente e se fazendo anônimo, em pequenas doses diárias, mesmo que essa palavra não seja completamente apropriada aos atos praticados... Não sei. Fiquei com essa impressão. rs

sábado, 19 de abril de 2014

Para ele.



Hoje é 17 de abril de 2014 e eu estou digitando no primeiro computador onde escrevi meus parcos textos digitais. Onde sangrei tantas vezes o meu coração, muito mais juvenil, em linhas que não importavam na forma. Eu era tudo o que eu poderia ser, em uma época em que feridas se abriam com mais facilidade e o fluxo de sangue que corria pelas minhas mãos, era muito maior do que o corre hoje. Hoje é o aniversário de Bacabal, minha cidade, 94 anos. Pouco o que comemorar. E hoje também morreu o Gabriel García Márquez e é por isso que eu estou aqui, jorrando, sem saber qual será o conteúdo da próxima linha.

Só o que me lembro é que, há pouquíssimo tempo atrás, no seu último aniversário, me veio também a ânsia de escrever pra ele, que eu disse ser um sentimento inevitável, de execução igualmente inevitável. Disse que sabia que não era eterno, por isso era necessário comemorar cada aniversário. Não escrevi, porque achei não ser de bom tom, mas o juízo completava: “... porque cada aniversário bem que pode ser o último”.  E foi. Não é eterno, como eu desejava, como toda a gente que hoje chora comigo, desejava.

Meu coração de fã estremeceu quando soube que ele tinha sido internado. Como funcionam essas coisas, hein? Porra, eu nem conhecia o cara. O cara mesmo é que nem me conhecia... E cá estou, lacrimejando intermitentes instantes, desde a hora que soube da sua morte. Lembro-me de como o conheci, já tardiamente - como sempre é a impressão das coisas espetaculares que conhecemos e que poderíamos ter conhecido antes - em 2008, época em que compramos esse mesmo computador que digitei meus parcos textos digitais, como eu disse anteriormente. Eu fiz o caminho inverso. Assisti “O amor nos tempos do cólera” e, quando vi aquela história daquele amor tão perseverante, reconheci meu próprio coração no de Florentino Ariza, porque os mesmos ardores e dores, eu também já havia vivido (menos comer pétalas de rosas). Enlouqueci. Nas 24 horas que tive direito ao DVD do filme alugado, assisti quantas vezes eu pude. Nos créditos do filme, vi que era baseado na obra do Gabriel e pedi pra que me dessem o livro. Depois de muito tempo, o livro chegou e eu afundava nas redes de minha mãe nas horas vagas em minha casa e depois, na cama de minha avó, antes do ritual diário de escrever várias páginas à mão, no meu caderno diário avulso e desprotegido.

Lá eu prendia a respiração a cada palavra e a cada gesto. Entendia, com o olhar da própria vivência, aquele homem que não achou cura para o seu coração aflito, que não soube sarar jamais aquele sentimento. Tudo aquilo se refletia nas minhas escritas diárias, onde eu faltava sublimar de tanto amor, como só os adolescentes conseguem. Naquela mesma época, coloquei para sempre duas músicas na minha cabeça: “Hay amores” e “La despedida”, ambas de outra colombiana que também me acompanhou de lá pra cá, a Shakira. Foi aí o começo do meu amor por ela também, o que já é outra história. E com a inclinação às renitências que herdei de meus pais, a primeira música não se escapou dos meus sentidos mais nunca. Era insuportável até pra mais paciente das almas me ouvir cantar mais e mais uma vez aquela música, mesmo com as minhas traduções, adaptações e etc. Infernizei os ouvidos de quem eu pude, na Universidade, cantando em qualquer ocasião em alto e bom som... Quantas mesas foram subidas pra que fossem o palco dessa música? E até hoje me faz lacrimejar, ouvir a parte que existem amores “que se vuelven resistentes a los daños, como el vino que mejora con los años...”

Tudo se impregnou de forma indelével. Ao terminar de ler o livro, com um sorriso na alma, sabia que alguém, de muito muito longe, sem qualquer intenção, desvendou os pedaços entrecortados de uma história longa que ainda não tinha sido contada, em mim. E isso é só uma pequena parte das emoções que esse homem me despertou, tantas vezes. Era por isso, Gabito, que comemorava os teus aniversários. Era-me caro. Eu sabia que quando o teu dia chegasse, não choraria como se fosse um dos meus, mas choraria como se fosse um desses nossos que abalaram as estruturas de tanta gente, de milhares de garotas que talvez, como eu, estejam sentadas na frente de computadores, escrevendo as declarações de seus corações à sua memória.

Chegou a mim. Sua vida ressoou em mim. Aqui. Nessa cidade tão improvável, como Macondo. Num lugar tão distante quanto as cidades-natal dos ciganos. Numa menina com o coração tão vagabundo quanto o de qualquer Aureliano. Tua hora também chegou, o que era inevitável, assim como o que o cheiro das amêndoas amargas despertavam, assim como os sentimentos indeléveis, assim como este texto lacrimejado.

Vai com Deus, Gabo.

“Cuando álguien se va
El que se queda
Sufre más”

(La despedida - Shakira)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Inevitable

Abre essa porta e me dá um abraço, homem!
Há algum tempo, todos os anos eu escrevo alguma coisa para o aniversário do Gabo. Não é algo que eu planejo pra parecer cult, nem nada dessas coisas. É só um amor desses que me faz lacrimejar toda santa vez que leio que, pra alguém, era inevitável não se lembrar do destino dos amores contrariados ao sentir o cheiro das amêndoas amargas. Como disse a Isabel Allende em Eva Luna, ele tocou as cordas certas que haviam em mim. E aquela música permanente, adormecida havia tanto tempo, cantou mais uma vez e durante muito tempo mais. É por isso, Gabriel, que eu te amo. Não me conhece, não te conheço, mas como dizer menos do que essas palavras fortes injuriadas tantas vezes em bocas inclementes? Fui desvendada sem querer. Fui amada sem saber. Amei sabendo, no entanto.
Comemoro os aniversários, porque sei que não é eterno. E a cada ano a mais, é um presente ter alguém que não deveria morrer, aqui nesse mundo de tanta loucura. Tua vida veio ressoar aqui em mim, bem longe. Desculpa a intimidade, mas tu deves saber como são as coisas inevitáveis...

***
Hace algún tiempo, todos los años escribo alguna cosa para el cumpleaños de Gabo. No es algo que yo planejo para que parezca cult, o cualquiera de esas cosas. Es solo un amor de esos que me haz lacrimejar toda vez que leio que, para alguien, era inevitable no recordar el destino de los amores contrariados al sentir el olor de las almendras amargas. Al igual que Isabel Allende dijo, tocó los acordes correctos que estaban en mí. Y aquella música permanente, por tanto tiempo dormida, cantó más una vez e por mucho tiempo más. Es por eso, Gabriel, que te amo. No me conoces, no te conozco, pero ¿cómo no decir menos que estas palabras fuertes heridas tan a menudo en bocas inclementes? He sido dada a conocer sin querer. He sido amada. Pero amé sabendo, sin embargo.

Celebro los cumpleaños, porque sé que no es eterno. Y a cada año, es un regalo tener a alguien que no debe morir, aquí, en este mundo de tanta locura. Su vida resuena en mí, tan lejos. Perdón por la intimidad,  pero usted debe saber como son las cosas inevitables...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Queria não ter que escrever só sobre amor.
Mas eu não escrevo só sobre amor. Mas a urgência vagabunda que me impele e provavelmente me mataria, é só ele que me faz. Eu queria que não TER que escrever só sobre amor. Eu queria conseguir não sufocar. Mas, alguém disse e eu vi, mas não lembro mais quem foi: "Tu e eu temos amanheceres pendentes..." e bateu aquela bad. 
Engraçadas as coisas que aconteceram essa semana, esse mês, esse período novo e tão louco. Os janeiros parecem vir com alguma coisa predestinação pras grandes alegrias ou grandes tristezas. Ou, sei lá, pras grandes intensidades. Sempre posso esperar muito de um janeiro. 
(- E o amor, menina, não era o que você tava sufocando por escrever?)
Ora, mas como não? Se não é também sempre do que se tratam os janeiros? Seja pra trazer, pra lembrar, pra sorrir, pra enterrar...

Já quase se acaba, enfim. Foram grandes as vidas que vivi.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Isso não é uma crônica

Não, não é. Eu acabei de assistir a um filme morto de lindo e queria escrever em algum lugar as coisas bonitas que vieram na minha cabeça depois que eu terminei de vê-lo. Eu teria feito isso no meu diário, se eu ainda tivesse um diário. Mas vou fazer de conta que aqui é ele, então não vou me importar tanto com estilo, se tá aquele texto bem fechadinho, dentre outras bobagens.
Eu só estou com uma melancolia muito grande pra deixar passar. Não sei, uma melancolia daquelas boas. Alguma coisa que te puxa pra um passado de lembranças que nunca vão se apagar, mesmo que se passem mais dez anos. Mesmo que se passe mais um. Eu sei bem do que estou falando. Depois que o filme acabou, eu fiquei calada por um bom tempo, até ligar o notebook pra escrever. Na minha cabeça, mesmo durante as cenas do filme, eu ficava me lembrando dos meus amores juvenis e de como eu sabia obstinadamente o que eu queria pra cada pedacinho da minha vida: não havia espaço pra meios-termos ou dúvidas. Mesmo as impossibilidades eram certas. Deus! Como me fizeram sentir viva, as minhas paixões.
Há algo que me puxa sempre pra eternidade delas. Eu não sei entender direito o porquê. Eu ainda sou daquelas que, no fundo, sonha um amor recíproco, calmo e ao mesmo tempo, intenso. Nessas horas é que eu posso jurar que a Vida não me ensinou nada, que eu ainda não aprendi da fluidez das coisas... Mas não sei, é algo que me preocupa, porque sei também que espero, o que é muito mais grave do que "apenas" sonhar.

E aí vêm as perguntas ardentes no meu cérebro: Quem, de fato, sou eu? Uma jovem de 23 lutando pra conseguir os seus sonhos. Mas quais são todos os meus sonhos? O que está, de verdade, aqui dentro pulando feito um doido no meu coração pra se libertar? Eu estarei ainda à mercê de amores mal curados? Parece que eu ainda tenho uma vida a enfrentar de expectativas que eu não consigo deixar de fazer, não correspondidas, pela frente. Mas, ao mesmo tempo, quem serei eu se não forem essas mesmas expectativas de felicidades? Que me perdoem os facilmente escandalizáveis, mas eu sinto que há algo de grandioso esperando por mim. Desde pequena, desde que consigo me lembrar. Por mais estranhas e difíceis que as coisas fossem em determinados momentos, eu apenas sabia que nada seria daquele jeito pra sempre. De fato, tudo mudou. E eu me pego espantada, sem ter a mínima ideia do que pode me acontecer daqui pra frente. Eu rio, porque eu simplesmente não tenho a MENOR NOÇÃO de pra onde a Vida vai me levar, porque Ela já deu mostras de que é extremamente renitente em mim. Totalmente teimosa e fantasiosa. Não, ela não se larga fácil. Veio uma porrada de lágrimas que embaçam a tela, mas ainda bem que eu aprendi a digitar sem olhar. HAHAHAHAHA Porra! Como assim, cara? Vai dormir, Jamila.


Há alguma coisa... Há algum mundo... Eu, de novo, não sei. Parece que eu vou terminar esse texto e passar mais algum tempo calada. Deus, meu bom Deus, pra quê tanta alma? rs

Boa noite pra mim, Jamila.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O raio

Alguém já sentiu o raio?

Sim, ainda empolgada com a leitura d'O Chefão, que há muito deveria já ter figurado nos livros lidos. Mas, fazer o quê... A gente não pode ler tudo o que quer. A vida sempre vai deixar algumas lacunas das coisas maravilhosas que a gente poderia ter feito e toda aquela coisa que todo mundo tá cansado de saber, que o mundo não dá conta da gente ou a gente não dá conta do mundo.
Mas o caso é que eu li sobre o tal do raio. Algo que o sicilianos antigos diziam da sensação (ou ocasião) única na vida, de avistar um ser humano e seu sangue revolver-se dentro do seu corpo e depois fugir e depois voltar novamente, carregando litros de um desejo incontrolável por quem se teve o raio. Uma paixão tão sôfrega e instantânea que não há cura conhecida a não ser a posse do ser dos desejos. Você fica paralisado, sem sentir o próprio corpo, um tanto quanto catatônico e sem o raciocínio inteiro.

Eu lembro de um raio.

Eu devia ter, no máximo, dez anos e até hoje eu não sei como isso aconteceu. E ainda mais, por que isso aconteceu. Sempre estudei no mesmo colégio a vida toda, durante o ensino fundamental. É um colégio religioso, protestante. Na época, figurava entre os melhores da minha cidade, o que queria sim dizer grande coisa. Os alunos eram tidos como muito inteligentes e ávidos e, com efeito, a turma com o qual passei mais de onze anos, galgou passos largos nessa vida. Não podemos dizer que não tivemos uma boa base. Mas não era sobre isso que eu queria falar.

Meu irmão e eu sempre íamos com o meu pai à escola. Não de carro, coisa que nunca possuímos, mas de bicicleta mesmo. Sempre foi o único meio de transportes do qual dispomos e eu, particularmente, nunca achei isso ruim. Na nossa cidade, mais que isso, só mesmo pelo conforto. Qualquer distância pode ser percorrida por uma bicicleta facilmente. Pois bem, houve um período em que as vacas começaram a engordar e as chuvas a cair, estas últimas não metaforicamente. Morávamos em ruas que sempre alagavam e não foi só uma vez que eu cheguei na escola toda molhada e tive que ligar pra casa pedindo pra mandarem roupa, coisa que me causava bastante constrangimento por n motivos. Um conhecido nosso fazia transporte escolar e minha mãe o contratou pra nos levar à escola, pelo menos durante algum tempo. Nós sempre chegávamos atrasados, porque eram muitas crianças e, não raro, a gente se espremia em mais de oito corpinhos magrelos dentro de um gol prata da primeira geração, todo acabado. Meu Deus, como fui feliz naquele carro...

Um dia, ao chegar na escola, saímos e fomos buscar nossas mochilas de carrinho no porta-malas. Quando eu avistei um homem saindo de um terreno que servia como estacionamento pra uma empresa da minha cidade, em frente ao colégio. O homem me viu e parou a bicicleta dele. Eu o vi, parei, petrifiquei e não conseguia mais sair do lugar. Eu lembro MUITO bem de como o homem era. Ele tinha um cabelo liso, oval, os olhos azuis bem claros, usava óculos. Era de um branco já marcado pelo sol. Se vestia com uma camiseta amarela e uma calça com um tecido que era parecido com o jeans, mas não era jeans. Os óculos dele eram enormes, como muito se vê por aí hoje em dia. Meus olhos se enchem de água ao me lembrar desse episódio, porque foi marcante demais. Eu deixei cair a minha mochila das minhas mãos, enquanto todo mundo saía de dentro do carro. Nós não conseguimos nos mover. Do outro lado da rua, eu via que os olhos deles estavam cravados nos meus, talvez sem entender o que estava acontecendo. Meu coração acelerou como se precisasse daquela violência pra continuar a viver e eu senti uma onda de arrepios percorrer toda a extensão do meu pequeno corpo, da cabeça aos pés. Uma sacudida de um colega da mesma turma me tirou do meu torpor. Tudo isso durou uns cinco minutos e do meio pro fim, comecei a lacrimejar por uma emoção que eu ainda não tinha sentido antes. Não era amor, não era paixão. Não. Era uma conexão inimaginável com um ser humano totalmente desconhecido pra mim. Eu peguei minha mochila do chão e caminhei pra entrada, olhando pra trás pra ver se continuava a ver aquele homem tão misterioso que nem falou comigo, mas que me causou essa impressão tão forte.

Lembro bem de, muito tempo depois, tê-lo visto passando na rua perto da praça da primeira casa que morei, também de bicicleta. A imagem dele ficara gravada em mim e naquele momento, como não poderia deixar de ser, estava bem mais nítida que agora. Eu ia à pé pra casa da minha avó, porque aquele era o caminho. O homem passou por mim e, creio fortemente, me reconheceu. Foi mais adiante e eu o acompanhava, com os olhos quase pra furá-lo. Eu sentia no meu corpo inteiro as batidas inclementes do coração. E pra minha total exasperação, o homem dá a meia-volta na sua bicicleta, olha pra mim, para, pensa e segue o seu caminho. Obviamente, a melhor saída. Eu era uma criança, afinal de contas. E obviamente, nada aconteceria dali, nada de carnal, nada de concreto. No entanto, sempre tive propensões pra amizades com pessoas mais velhas. Talvez isso sim pudesse acontecer. Mas o mais provável era que eu saísse correndo por não conseguir disfarçar a ansiedade no momento. Não sei. Só sei que esse foi um evento que eu jamais consegui qualquer explicação. Não fui atrás de explicações cósmicas, religiosas, nada. Foi um raio sem qualquer deliberação clara que me atingiu, apenas. Com todo o direito que um raio tem, deixou as marcas na memória.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O barqueiro.

Não sou fatalista, nem pessimista. Superei a fase do "foi porque Deus quis". Mas ainda existem coisas que insisto em colocar as razões, não as culpas, nos fatos anteriores a mim, como o fato de eu ser extremamente renitente em relação aos meus sentimentos. Parece que a massa com a qual fui feita derramou demais o ingrediente da lembrança, da fixação. Nada escapa à regra, aplicável a quase tudo na minha vida: dos amores aos ódios, das alegrias às tristezas, tudo fica interminavelmente registrado. E parece que precisa, por força, que tudo seja bastante intenso.
Acredite ou não, mas eu ainda me lembro do meu primeiro amor. Eu sentia-me torturada e viva ao mesmo tempo, pois se jamais poderia esperar o retorno do sentimento, também jamais poderia esperar viver sem ele. Desde sempre, os amores platônicos fizeram-me companhia. Talvez, por isso, o meu cérebro me dá a possibilidade infame de continuar sentindo coisas mesmo quando tudo de concreto já se passou há muito tempo. O caso mais grave entrou em remissão depois de 10 anos! E ainda hoje não sei dizer se já curou.
Costumávamos fazer um peça na minha escola que ficou na minha cabeça. Era uma peça de sentimentos que vinham nuns barquinhos de cartolina que nós fazíamos, com os nossos "nomes" escritos neles. Vinham vários e já não lembro a ordem. Mas se o espírito não me comete um terrível engano, lembro de o Tempo - que nem era um sentimento, senão uma entidade - ser o único barqueiro a parar na ilha para a Tristeza. Era o que lhe dava carona e lhe tirava daquela ilha, onde estava gritando há muito tempo para os outros que passavam, pedindo por socorro. A metáfora é linda, se a história não estiver errada e esta ter sido uma falsa memória: o tempo é o único a carregar as nossas tristezas. Isso, de certa forma, me consola. Definitivamente me emociona.
Sobre a renitência dos sentimentos e a intensidade deles, me lembro das histórias que me foram contadas por outros, sobre meus pais. Lembro de dizerem que eles eram o casal mais apaixonado que já viram, que era um amor daqueles loucos, desesperados, que não havia meios-termos. Mas ao mesmo tempo, bastante conturbado, cheio de brigas homéricas, que causavam o desfalecimento imediato no semblante de meu pai. Eram muito jovens, mas mesmo a idade não alterou certas coisas no relacionamento. Talvez tenha amainado os amores, mas não os conflitos. Meu irmão e eu viemos e não sei o que continuou o mesmo, o que mudou, no que havia de anterior a nós entre eles.
Era sobre a história deles, desse sentimento que havia, pelo menos no tenro começo, que era intenso e voraz, que fê-los casarem-se sem saber do que os esperavam. Tenho certeza de que puxei essa propensão às intensidades. Como poderia eu ser diferente se sou filha de meus pais? Se a carne deles é a minha, se o sangue deles é o meu? É algo fora da minha capacidade de estornar. Só me resta lidar o melhor que posso com as dores advindas de ter muito sangue nas veias.
O Tempo me disse, enquanto íamos no barquinho conversando, que não há nada melhor que manter a própria serenidade. Apontou pra trás e me fez ver que já estava fora da ilha.

domingo, 17 de novembro de 2013

A dedicatória

O chefão. Mario Puzo.
É, o cara é mestre, o cara é foda. Eu assisti aos três filmes e com a minha santa ignorância (, Batman!), eu nem manjei que o primeiro foi feito baseado no livro do Puzo. Desde então, fiquei um tanto quanto louca pra ler. Acho que do mesmo jeito que eu fiquei quando tinha por que tinha que ler "O amor nos tempos do Cólera" do Márquez, depois que vi o filme, senão o mundo ia se acabar.
São Paulo, maio de 2013. Último dia da viagem, a Luana e eu saímos da Feira da Liberdade e encontramos um sebo maravilhoso. Entre tantos títulos que me passavam pela cabeça procurar e achar, não passava esse. Até que eu vi e minha mão foi guiada instintivamente a ele. Era a escolha primordial e a verba disponível, se fosse pouca pra outro, que fosse só pra ele, não fazia mal.
Até que eu abri as páginas e folheei. O livro estava muito gasto. Não valiam os vinte reais que eu teria dar. E não pelo estado estético dele, mas pelo físico, digamos assim. As folhas estavam caindo todas e eu pensei em desistir da compra, até mais uma outra folheada no começo do livro, onde eu quase ia perdendo essa dedicatória, que sanou todas as minhas dúvidas.
Eu li e a vista consequentemente embaçou, por algum cisco que caiu no olho. Eram tempos de remissão e ainda havia muita sensibilidade nos olhos e creio que em mais outros cantos. E os ciscos eram meio que teimosos.

E me perguntei do porquê de alguém vender a um sebo um livro com uma dedicatória tão especial, tão bonita. E me perguntei onde ficaria a Chico City. E me perguntei por quais caminhos aquele livro já passou até que chegasse em minhas mãos. Aliás, uma pergunta sempre feita aos livros comprados em sebos.

Um coração quebrado? Onde livrar-se das lembranças físicas talvez aliviasse a melancolia das lembranças vívidas de um amor que não durou a eternidade sonhada pelos amantes? Talvez. Sinceramente, tomara que não. Talvez fosse algum desses infortúnios que faz com que percamos coisas que nos são extremamente valiosas, como um empréstimo mal pensado ou uma mudança de endereço. A boa e velha má sorte.

Todos esses pensamentos vieram novamente ao começar a ler, na semana passada, o tal do livro desfolhado. Caiu um cisquinho menor no olho, menos irritante dessa vez. Mas é bom não confundir, moços! Agora é porque eu também quero um cargo público hiper-remunerado.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Uma carta para Janines.

Janine,

Eu abri o blogger pra escrever qualquer coisa relacionada a mim, aos meus sofrimentos presentes, aos possíveis futuros e tudo o mais. Provavelmente eu iria expurgar um monte de coisas que estão aqui, de certo modo, presas. Mas deixa isso um pouquinho pra lá. Eu abri o "site" de novo e lá estava o seu pedido, talvez a sua provocação, de que, se era pra eu escrever, que escrevesse pra ti. E porque não, afinal?

Eu conheço pouco sobre você. Aliás, acho que nada. Talvez só que você é parmerense, faz Direito na mesma Universidade que eu e que é tímida. Tão tímida que foi preciso eu perguntar por você meia centena de vezes quando eu topava com a Amanda e ela me dizia: "A Janine tá estudando/Ela tá na sala/Ela ficou fazendo trabalho" e eu, morta de vergonha por ser uma aluninha medíocre, ficava: "Meu Deus do céu, ô diabo que estuda, nan!"

Creio eu também que tu deva ter lá os seus recém-completados 20 anos. Esse povo entra cada vez mais cedo na Universidade, benzaDeus! Eu não sou muito mais velha do que isso, mas sigo tendo uma impressão danada de que já vivi umas três vidas pra cada ano completado depois dos 20. A vintolescência me deixou mais forte, menos suscetível às dores e mais consciente dos meus movimentos. Eu espero, de coração, que isso aconteça com você também.

Eu tiro por mim. Quem me vê andando serelepe pela rua, não sabe de qualquer agrura que eu já passei. Da única vez que te vi na P.A. do CCHL, só pude perceber que você não olha nos olhos enquanto conversa, mas isso, é claro, era sinal de uma intimidade que não tínhamos e ainda não temos. Te desejo força quando escreves dos desafios acadêmicos, que 2013 anda ruim, que o desgraçamento da cabeça está em níveis estratosféricos, tenha certeza! Muito há de Vida a correr pelas suas veias e muito há de alegria também. Vai na fé, menina. Ela não costuma falhar. (Ok! De vez em quando ela dá umas quebrada e tal, mas...)

Desejo a ti, assim como pra todos os amigos queridos que eu fiz no site, felicidade e paz de espírito. Que pouco lhe falte! ("Que nunca lhe falte" seria um pedido utópico demais). De todas as coisas que nós devemos zelar, a mais importante é ela, que é a que mais faz falta quando se vai. Guarde a sua.

Abraço, querida.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

La chamana de mis dias.

Hoje, aniversário de morte de um ano da minha diva Chavela Vargas. E eu aqui, chorando, com um copo de vinho na mão, escutando suas músicas, porque são viscerais demais, sanguíneas demais, intensas demais, como tudo o que ela sempre foi e representou.
A xamã agora está no seu céu mexicano, dando vivas e se deixando pintar para os retratos de Frida.

As lágrimas são fáceis pra essa canção:

sábado, 3 de agosto de 2013

Há quanto tempo, né?
Tanta coisa que já mudou. Eu nem sei por onde começar e nem sei se devo.
O fato é: eu só estou escrevendo por que algo importante aconteceu. Novamente. E, na verdade, o que está me fazendo sentir coisas nesse momento não foi o que realmente aconteceu (como nunca o é), mas o que eu estou sentindo sobre o fato. Hoje, faleceu alguém que eu odiava bastante. Bastante mesmo. Como eu nunca odiei e nunca serei capaz de odiar a mais alguém na minha vida, espero.
Talvez, pra isso, seja mister explicar algumas coisas: em um dia como esse, há três anos atrás, no começo de agosto, eu estava pra viver um dos piores dias da minha vida. 2010 foi o ano que eu me mudei pra Teresina e o ano que eu comecei a viver mais as coisas que eu sempre soube que poderia, não fossem as amarras que eu mesma me enredava sempre na minha cidade. Dava desculpas à mim mesma por não estar fazendo as coisas que eu queria, por não estar vivendo as experiências que eu queria e sabia que já era tempo de viver. Por vontade, não pelos outros. Ponto.
Vim pra Teresina atrás de um sonho, atrás de um ideal. Mas não só atrás disso: também vim pra Teresina atrás de uma nova vida. Vi essa cidade como um recomeço, uma nova chance, algo melhor. Melhor do que as horas agoniantes que havia vivido a adolescência quase toda, ou a melhor parte dela, ao explodir a grande bomba que ficou estilhaçando minha vida por muito tempo, desde os meus dezesseis anos, aquela que eu não posso deixar de falar nunca: a porra da síndrome do pânico.
E chega a moça serelepe, contente, mas morta de medo. Na cidade onde não tinha um amigo sequer, um conhecido que a valhesse, foi contar com um velho amigo que poderia levar pra onde quisesse: o diário que mantinha desde 2008. Nele, resvalava todas as minhas emoções, todos os meus ódios, meus acontecimentos, minhas iras, meus amores, minhas paixões, minhas taras, meus xingamentos, minhas bênçãos. TUDO. Se há algo de que me orgulho, mesmo depois do que tudo aconteceu, foi o fato de eu ter conseguido ao máximo não filtrar os meus pensamentos - lógico, sempre nos limites da escrita e da rapidez com que a minha mão era capaz de escrever. Nunca pensei em fazer uma versão digital (e mais segura) desse diário. Pra mim era imprescindível o papel pautado em branco e uma caneta com tinta. Eu queria minha letra. Eu queria minha subjetividade riscada ali, eu queria à mim, no que possível fosse da minha totalidade. Tentei.
Consegui até Agosto de 2010.

Na van que me trazia da minha cidade pra cá, mamãe perguntou ao motorista se ele conhecia algum lugar onde nós duas pudéssemos ficar, pelo menos durante a primeira noite que eu passasse aqui. Ele nos indicou uma pensão que ficava perto de onde eu estudo e que, segundo ele, eram de gentes muito boas. Pessoas evangélicas (não vou escrever qualquer juízo de valor sobre isso, pelo menos, não agora), muito respeitáveis e rígidas nas normas, porque não podia ser da "bagunça", claro. Claro.
Nessa época, conheci pessoas maravilhosas. Os amigos que eu fiz lá, apesar de que raramente eu mantenho qualquer contato, ainda me pego pensando no quanto foram essenciais naqueles meses chorados e novos em que eu saí da minha terra, depois de 19 anos morando por lá. Todos estávamos na mesma situação e era natural que todos nos ajudássemos. Obviamente, fui também viver as coisas que eu pretendia viver e que a mim não seriam mais vedadas pela pessoa que mais me impedia, sempre: eu mesma. Saí pra festas, bebi, fiquei bêbada, vomitei, beijei, dancei que me acabei. Mas também fiz amigos, estudei como nunca tinha estudado na minha vida, passei em todas as disciplinas, contornei crises. Enfim... Vivi. E não tinha perdido a minha responsabilidade, meu tino, como muita gente na minha família julgava que eu o faria.

E registrava diariamente nos meus cadernos numerados o que me acontecia, porque sabia que o tempo ia passar e a minha memória nunca foi nada confiável. E pra conseguir também. Sabia que, em qualquer momento que fosse da minha vida, aquelas páginas não me deixariam decepcionadas. Não me deixariam de ouvir. Seriam pacientes com as minhas lamúrias de saudades, minhas paixonites do primeiro período de faculdade, com o mesmo velho amor encarniçado de anos, com as minhas raivas, com qualquer Jamila que ali se apresentasse. Eu trabalhava minhas emoções nele. Eu me resolvia. Tudo na mais plena confiança de que só eu tinha acesso, porque todo mundo sabe que a presença de um observador diminui a espontâneidade de qualquer experimento.

Pois bem. Em Agosto de 2010, eu fui aviltada de uma forma que nunca tinha me acontecido antes. O casal velhinho e respeitável da pensão, estava nada mais nada menos do que lendo o meu diário. Lendo os segredos e as histórias que não pertenciam à mais ninguém, senão a mim. Acharam que, por superiores donos da pensão que eram, poderiam pegar os escritos das pessoas que moravam lá e ler. Isso mesmo: leram. Leram todos os meus segredos e confissões, daquelas que você não conta pro melhor amigo. Invadiram uma esfera muito maior que eu jamais havia deixado ninguém entrar: o profundo do meu íntimo, clandestinamente, sem qualquer permissão e sem qualquer conhecimento. O tempo foi passando e eu fui percebendo que aquelas pessoas que haviam me acolhido tão bem outrora, estavam me tratando deliberadamente mal. Inclusive a própria empregada da casa, que se fazia de minha amiga, conversava comigo como que pra confirmar coisas que eu havia escrito no diário. E a coisa foi chegando a um ponto tão insuportável, que a dona de lá me chamou pra conversar e falou coisas que eu nunca poderia imaginar que ela saberia, porque não tinha como, por outro meio. Basicamente, ela me acusou de várias coisas, me fez várias chantagens veladas, como a de que eu teria que sair de lá. Mal sabia ela que era a coisa que eu mais desejava na minha vida, naqueles momentos. Saí da tal conversa, liguei pra minha mãe e disse tudo o que havia me dito. Sem compressões e sem alívios pra mim, por mais que eu tivesse contando a minha versão. Fui embora de novo pra minha cidade. Voltei com a minha mãe, pra que ela dissesse absolutamente tudo que havia dito pra mim na cara dela, nada mais justo. Fui à Universidade e quando voltei com o coração pesadíssimo pelo resultado da conversa, encontro, atônita, minha mãe me dizendo que ela se recusou a falar qualquer coisa a meu respeito e disse que era pra deixar tudo pra lá. Hoje sei que foi o puro remorso pelo que estavam fazendo comigo. Só que por aí não parou. Começaram a me tratar bem por um tempo, mas eu descobri que estavam falando mal de mim pra MÃE da galera que chegava lá, que já morava comigo. Qual não foi a minha surpresa quando eu tive que mudar de quarto, sendo que eu me dava super bem com as duas outras meninas com quem eu dividia o quarto? Ainda mais sob a ridícula desculpa de que era pra que "as evangélicas ficassem em um quarto e as que não eram, em outro, pra não ter problema". Eu poderia contestar, mas não fiz pra não arrumar mais confusão. Mas eu juro que o dia que eu pensei que eu fosse morrer de ódio foi o dia que eu descobri que o real motivo foi que a mãe de uma das meninas que morava no quarto comigo, ao ouvir o quão "louca" eu era, temia pelo futuro da sua filha ao lado de tão má companhia, olha! E hoje eu me lembro o tanto de vezes em que acolhi a sua filha chorando morta de desesperada por não conseguir passar no vestibular, ou dava conselhos pra que estudasse mais, dentre outras coisas.

Minha vista rodou, escureceu. Eu acho que a minha pressão deve ter baixado nessa hora. O estresse tava alto demais. Pra evitar escândalos, calei toda a raiva que eu tinha dentro, respirei com muita vontade e entrei pro quarto novo, com as novas companheiras e escrevi todo o ódio que havia naquele momento na minha alma. Escrevi todos os xingamentos novos e antigos e creio que ainda inventei alguns. E disso não me arrependo. Da minha esfera íntima, quem tinha o domínio era eu, só quem poderia ter acesso também era eu. E ainda fiz isso pra não evitar mais problemas com aquele povo. Porque não tinha pra onde ir, porque não podia ser expulsa e ter que ligar desesperada pra um "recém-amigo" pra que me desse abrigo à noite, porque não podia ligar pra minha mãe chorando dizendo que tinha esculhambado um povo que me humilhou só porque não concordavam com o modo de viver que eu havia escolhido pra mim. Uma pessoa adulta, com cérebro, que estava tomando decisões. Quem eram eles ou quem era qualquer pessoa pra me falar alguma coisa? Alguém por ali pagava minhas contas, por acaso? E muito além disso: o que eu fazia ou deixava de fazer fora daquele ambiente, não era problema de absolutamente NINGUÉM.

No outro dia, tendo tomado café da manhã com pão e ódio, segui pra minha jornada diária que era das 8 às 18, na Universidade. Eis que no meio da tarde, o meu celular toca de um número desconhecido, mas tava no silencioso e eu não atendi. Tocou várias vezes e todas as chamadas ficaram perdidas. Cheguei lá na pensão, jantei. Tudo muito normalmente, tirando o fato de eu não aguentar nem olhar na cara desse pessoal. Fui pro meu quarto pegar um dinheiro pra ir ao shopping que fica perto de lá, quando sou abordada pela filha deles. Uma mulher que eu julgava ter mais de 30 anos e que morava lá também, ou que, pelo menos, passava uma boa parte do tempo. Me abordou da maneira mais violenta o possível e eu sem entender o porquê daquilo. Quando eu vi algo em suas mãos que fez o meu mundo desmoronar à minha volta: a XEROX do meu diário. Isso mesmo, amiguinhos. Nada mais, nada menos que várias páginas xerocadas do meu diário. Figurando, claro, as ofensas íntimas que eu havia escrito no dia anterior. Porque, logicamente, foram lá dar a lidinha do dia e acharam o que tavam merecendo ouvir. Tivemos uma briga corporal, mesmo com a minha força já perdida, mas mesmo assim eu não consegui recuperar o meu diário. Comecei a gritar e a chorar ao mesmo tempo. A visão ficou embaçada e ela seguia me gritando coisas e mais coisas dizendo coisas como: "Você tem que pedir perdão pra Deus", "Eu vou te processar", dentre outras coisas que o melhor pra minha sanidade não lembrar. E eu gritava e gritava, perguntando porque eles tinham feito aquilo. E tentava reaver meu diário, mas ela não me dava. Fragilizada que eu tava, mal conseguia me manter em pé.

Me empurrou de volta ao quarto que eu estava, com a porta em frente ao que tudo aconteceu. Atirou-me lá dentro e disse, sarcástica: "Olha, não vai dar uma crise não, viu?". Cambaleante, fui tomar um banho. Tirei toda minha roupa e fui pra debaixo do chuveiro. Vomitei todo o meu jantar recém comido (cara, eu podia ter morrido nessa porra, sei lá) e desmaiei em cima dele. Depois de um tempo, acordei e consegui pegar meu celular pra pedir ajuda. Liguei pro pessoal de lá, meus amigos. Uma delas me procurou no quarto e me limpou e me vestiu, também já passando mal pelo susto. Foi quando todo mundo apareceu, depois que ela gritou pela casa pedindo ajuda.

Todos vieram, inclusive quem tinha me causado aquilo. Fui levada pra cama já em crise, sem conseguir enxergar quase nada do mundo, com o meu cérebro totalmente alucinado, com toda aquela sensação escrota que essa merda de doença pode causar numa pessoa. Todas. Todas elas. Pelo menos, todas as que se manifestavam em mim, que botavam pra fuder mesmo com qualquer perspectiva de juízo. Nessa hora, eles ME PERDOARAM, acredita? ME PERDOARAM. Perdoaram pelo quê, meu Deus? Quem fez o mal pra quem? Na cabeça desse povo moralista, que só respeita quem anda na linha que eles traçam pra moças, pras pessoas, pra quem quer que seja, EU tinha errado. Eu tinha errado porque fui colocar a MINHA raiva em um lugar de fala que era só MEU. Do meu mais íntimo. Fora que eu nem falei que à tarde, antes de eu chegar, eles ligaram tocando o terror pra minha mãe, dizendo que iam me expulsar de lá e LERAM minhas confissões e segredos pra ela, como se já não bastasse tudo o que eu já tinha sofrido até então.

Talvez foi a crise mais longa da minha vida. Não dá nem pra colocar tudo, mas o cara pegou um óleo lá e me ungiu, me EXORCIZANDO, tá ligado? Tipo, o cara tava falando que era pro coisa-ruim sair de mim, galerinha do barulho. Meu celular tinha sumido (depois eu descobri que meu pai tinha ligado e que quem atendeu foi a filha deles e disse que EU ESTAVA MUITO BEM, OBRIGADA). Certamente estavam com medo de pra quem eu poderia ligar, quem eu poderia acionar. Mas eles nem precisavam ter ficado preocupados. Eu estava submersa em tanta agonia e sofrimento que até a possibilidade de defesa me foi tirada.

E foi, na minha vida, a maior maldade que pessoas já me fizeram. No outro dia, um amigo foi lá me buscar e eu tive que ser levada ao hospital pra tomar soro. E nunca mais pisei daquele lugar. Saí de lá com a roupa do corpo pra nunca mais voltar, graças a Deus. Alguém tem noção do quanto isso me doeu? Do quanto isso me abalou? Na própria fé que eu tinha das pessoas... Fui pra minha cidade sem saber como eu ia ter coragem de voltar de novo e ficar sem minha família... Alguém tem noção do quanto eu sofri com minha vó me dizendo coisas como se eu mesma tivesse provocado essa situação, como se fosse, de algum modo, legítimo que eles lessem mesmo algo que à eles não pertencia? O quanto eu sofri com a minha mãe realmente achando que eu que estava errada nessa história toda, no final das contas? Quando a moral cristã falou mais alto e eu tive que ouvir de gente que me ama e que eu amo, que eu não deveria ter escrito nada daquilo... Ou que eu deveria ter tomado mais cuidado com o meu diário... Como se fosse possível em um lugar onde não se tinha a menor privacidade e se pagava muito caro por isso.

Tudo doeu e ainda dói. E eu não pude buscar justiça, porque não tive o apoio da família. Quem mais quereria um escândalo, não é mesmo? E também não tinha estruturas físicas e principalmente psicológicas pra passar por isso sozinha. Quantas noites chorei na minha cama por tudo o que isso representou, meu Deus? Quanto de ódio não foi despertado? Eu nunca pensei que pudesse sentir essas sensações ruins que eu senti em relação ao que quer que fosse, imagine à um ser humano. Imagine à um grupo de seres humanos. Nunca pensei, mas eu senti.

Soube, através de um grupo onde fui "jogada" por um outro ex-pensionista, que o cara tava doente, muito doente mesmo. E que hoje, prestes a completar 3 anos daquela desgraça, morreu.

Velho, eu não tô nem aí.