quarta-feira, 17 de abril de 2013

Outra dessas

Os dedos descalços
 E os pés flutuando
  Caminhando inertes
   E sem direção.
    Os dedos descalços
     Os dedos tateam
      As nuvens secretas
       Em extenso algodão
        As mãos compreendem
         O vasto segredo
           Repleto de noites
            E transpiração
             As mãos compreendem
              As mãos tateam
               Tateam caminhos
                 Do que há de paixão.


0:34 - 17/04/13
Em mais uma pausa pra respirar.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Os direitos [2]


Esperando da vida a oportunidade do abraço sem medos. Do enlace tranquilo. Esperando da vida que o alvo dos meus desejos veja que a história é nova, que tudo é novo e que nada mais poderá se repetir, mesmo que assim pareça. Estou dando de mim o que eu pensei que não daria: um pedaço do meu medo (aquele medo normal), pra saber se tem coragem. Esperando novamente que a saudade venha e nos cobre os seus direitos, porque ela cobra, sem qualquer dúvida. E esperando que essa espera não seja vã ou tola como já foi um dia. E tendo a consciência intranquila de que a espera não pode ser demorada demais, por que o meu medo é precioso demais pra que eu dê por muito tempo. É muito de mim. Quero, porque quero e preciso como eu ainda não havia precisado (ou como não sabia que precisava).


Espero que não se furte da felicidade que eu quero tanto dar, mas isso precisa ser querido também. Por muitos anos eu dediquei amor unilateralmente. Eu gostaria muito que, dessa vez, os quereres se ressincronizassem, que os medos fossem superados e que nós pudéssemos viver em plenitude esse nosso tempo, esse momento em especial, que eu temo que passe e nós nos percamos pra sempre, como eu já vi acontecer, como eu já fiz acontecer.


Vida, louca e querida, te deixo mais um pedido, mais um dentre todos os guardados que eu tenho no coração: que o nosso tempo não passe e que a vontade seja tão grande que suplante o medo.

("E quantos segredos trazem o coração de uma mulher?" Perguntou Zé Ramalho.)



08/04/13 – às 11:42. Uma pausa pra pôr pra fora.


sexta-feira, 15 de março de 2013

Às vezes eu fico me lembrando de como as coisas eram diferentes há um tempo atrás. Não há tão pouco tempo assim, levando em consideração os aspectos mais gerais da minha vida. E, não sei porque diabos, vim me lembrar de como era quando eu tinha os meus diários. Aquelas páginas em branco, cheias de privilégios, já que elas eram praticamente as únicas que me viam inteiramente. Ali o espelho era total. Depois que muita coisa aconteceu, nunca mais consegui um espelho tão definitivo quanto aquele. Nunca mais soube como era, de verdade, estar sufocada por uma situação durante o dia e saber, ter a certeza mais plena e absoluta, que as suas próprias palavras iam servir como o bálsamo pra deixar que a noite viesse sem maiores sobressaltos.

E eu só me lembrei disso, porque hoje foi um desses dias em que eu estive sufocada. Não durante o dia inteiro, ainda bem. Mas em uma parte considerável dele e, pra mim, na parte mais crítica: durante a noite. De repente, acontece algo que te leva há alguns dias atrás e te lembra de uma dorzinha que esteve ali e que você viu que não foi embora. Vulcões não se revolvem tão facilmente, como no mundinho minúsculo do Pequeno Príncipe.

Essa dor, por mais irracional que tenha sido e por mais que eu saiba que não darei qualquer tipo de prosseguimento a ela, me deixou a par da minha situação: ainda vulnerável às expectativas. Ainda querendo alcançar uma serenidade que eu queria que fosse como a sua natureza pede: natural. Algo que continuasse comigo mais tempo, nesses tempos. Só que aí a gente se lembra que não seria quem é se não fosse a falta dela nesses tempos, né?

Tô falando muito em código, né? Eu sei.

Eu realmente não sei há quanto tempo eu sou blogueira daqui da Liga. Lembro só que os meus primeiros textos eram muito pífios. Daquela menina de dezoito anos que queria escrever, que achava bonito, mas que não fazia isso muitas vezes. O que dava aos meus textos um certo provincianismo e uma lógica meio furada de que eu precisava copiar o estilo de alguém. Hoje eu sei que posso não ser lá essas coisas, mas as coisas que eu escrevo, estão muito mais conscientes, pelo menos. A temporada de visita diária ao meu íntimo de mais de dois anos, me trouxe resultados surpreendentes e me deixou ciente de que sempre eu poderia me desvendar, com um texto ou dois. Que eu poderia, se não resolver, pelo menos compreender o que está se passando e racionalizar uma solução viável pra parar de doer. Sempre dava certo.

Hoje, por mais que eu saiba que vai parar de doer aquela dorzinha em particular, por algo que eu já havia perdoado, eu sei que hoje, especificamente hoje, isso está me incomodando. E outras questões surgem, sempre ligadas às expectativas que eu não sei deixar de fazer sobre o futuro, por mais que eu tente sempre me policiar em relação a isso. Viver mais o momento e deixar o depois pra depois mesmo.

É complicado... Sempre soube o que fazer quando era só eu. Mas nunca foi só eu, né, Jamila? Sempre havia algo ou alguém na vida. Eu não sou uma ilha. rs

Enfim, muito mais desabafo comigo mesma (já que eu sei que quase ninguém vai ler o que tá aqui mesmo) do que qualquer outra coisa. Eu sei que sensações vão passar por mim. Eu sei que isso vai passar, mas eu espero que logo. Respiro profundo e entendo que coisas boas estão só à minha espera e que essa insegurança não pode levar ninguém a nada. Um pouquinho de tristeza nunca matou ninguém (sendo só um pouquinho!).

Ah, outra coisa: PUTA QUE PARIU, como eu tô com saudades da minha mãe. Se eu chorar hoje à noite, vai ser por causa da falta dela. Eu só queria um abraço dela. Eita porra, dela e da minha vó. Do meu pai. Do meu irmão. Dos meus primos pequenos, da bebê. Isso me ajudaria a aliviar um pouco a alma, hoje.

Já respiro melhor agora. Já posso dormir melhor agora. (Se o calor deixar, é claro!)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

"E no meio de tanta gente, eu encontrei você..."


... E foi a coisa mais maravilhosa que poderia ter me acontecido. Chegou num momento da minha vida onde o que vivemos já não passava de uma esperança já se borrando no ar e a minha irritação com a Louca da Vida era visível e resistente. Claro, eu era feliz antes de ti. Claro, eu serei depois de ti. Mas fui tão mais feliz enquanto você, que os sentidos só me oferecem pontadas doloridas por toda a parte, por toda a pele. Onde nos tocamos. E nos tocamos demais.

Falou comigo hoje, e o meu corpo me respondeu ao seu nome com um arrepio frio na coluna, coisa que eu não sentia há tempos por ninguém. Talvez porque a Vida, essa entidade sem freios, a quem não ensinaram os nãos, enviou o moço pra me lembrar que eu ainda estava aqui, que ainda podia sentir cada coisinha dessas que sentem os apaixonados. Inclusive que eu teria esses ímpetos de escrever uma poesia louca na apostila, enquanto o professor dava um assunto novo e importante. Inclusive que eu poderia rir mais do meu riso, com uma intensidade bem maior, com um prazer bem, mas bem maior que o de sempre.

Veio como um furacão na minha vida, como todo o clichê de apaixonados... Naturalmente, como todo furacão, deixou as marcas quando desceu da minha cama e bebeu a água da geladeira que eu comprei pra que ele bebesse água gelada comigo da última vez. (Não só por isso, é claro! rs) Mas as marcas que me deixou, foram as melhores que um furacão poderia deixar.

Com a sua chegada tão inesperada, eu entendi que pras coisas não-pragmáticas da nossa vida, é melhor deixar que elas venham até nós. Como as músicas, as poesias e as paixões. Como o vento no rosto em uma tarde nublada... É igualável ao vento de um ventilador? É igualável ao vento de um abano? É sempre melhor que venha por si só, ao natural, à negligé (como os cabelos despenteados d'A Moreninha). Eu vi que eu realmente precisava ser mais serena. Em algum momento, coisas aconteceriam, quando estivessem na hora. Aconteceram, de fato.

Me deixou mais segura de mim, do meu poder feminino, da minha beleza, da minha personalidade e do meu caráter e sensibilidade. Com ele, eu provei que eu também sei estar com alguém, coisa que eu sempre tive bastante medo, justamente por nunca ter tido isso. Os meus medos foram infundados, graças a Deus. Também é saudável pra mim. Também é normal pra mim.

O moço apareceu e passou pelas minhas inúmeras barreiras como se elas nem existissem, sem um pingo de esforço. Apenas porque era assim o que foi. E como não ser eternamente grata à ele por isso? Por ter me feito entender, talvez sem saber, que o tempo ainda seria grato a mim, também.

Abri mão, não do que vivemos, não das minhas lembranças, não do afeto. Abri mão de um futuro nebuloso pra mim, que já estava entregue. Abri mão de muito, mas sabendo que era preciso. Conscientemente, aceitar esse futuro nebuloso, já seria a parte que me cabia do fado. E, conscientemente, eu não aceito fados que não são meus.

Talvez nós ainda nos encontremos na vida. Eu disse que se tudo estivesse certo, eu ainda o quereria. Talvez esteja, mas eu preciso saber que talvez não. Talvez a gente ainda viva pequenas doses de certas coisas, talvez não. Talvez a gente consiga de novo toda aquela intensidade que a gente teve, acrescida da saudade lancinante que me queimou no peito a vontade de dizer: "Não, não vai mais. Volta aqui. Esquece o que eu falei... Vem e faz amor comigo agora." rs

Vai tudo voltar aos seus eixos. Vai tudo voltar à normalidade. E eu vou voltar a esse eixo muito melhor, muito mais madura e muito mais feliz. Eu tenho certeza que sim. Por que é isso que acontece na minha vida, sempre. A certeza maior é que sempre vão vir intempéries, mas sempre virá a bonança. Eu apenas sei. Internalizei demais isso, ainda bem.

E, sem saber da ironia da situação, a música que me exaure os sentidos desde que a escutei a primeira vez, é a Ancora qui, que eu não achava nunca a tradução do italiano pro português. Achei pro inglês e li, quase sem acreditar, que ela é "Still here". rs



Talvez eu nem devesse estar escrevendo isso aqui. Mas eu quis e já me neguei demais pra essa semana.

Andei mil léguas
E quando mal pensei
Te encontrei
E estava cansada
Por ter andado tanto
Quase me encontrou
Caída
E eu mesma me levantei
Pra que pudesse andar contigo


06/02/13, mas só agora.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sei que devo ir
Não sei como vou
Nem com quem
Nem quando
Nem de onde sairei
Mas sei que devo.
É que sei que já andei tanto
E tanto isso me pesa
Que parece curvar minha jovem coluna
Por isso sei que tenho que ir.
Sim, será mais um caminho
Você pensará!
Mas o caminho será mais leve agora.
Que me perdoe o meu passado que me fez
As horas afogadas
Os beijos não dados
E os amores que não vivi
Os que vivi também, aliás.
Que ponham nessa conta também os de longe,
os esquecidos,
os venerados
e, finalmente, o eterno.
Que me perdoe o meu presente
Que me constrói todos os dias
E me resguarda dos percalços.
Você talvez não acredite
Mas em todos esses anos
A única coisa que fiz
Foi forrar-me de luz
E talvez acredite menos ainda
Que, para o caminho pretendido
Apenas isso me serve
Porque mais vida,
Muito, muito mais vida
É o que me espera.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Dele.

São dois pássaros que dançam
a mesma música.
São dois pássaros que voam
na mesma corrente.
São dois pássaros que bebem
da mesma fonte.
São dois corpos nus,
Entrelaçados,
no quarto pequeno,
no meio da noite
e no começo do infinito.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Aleatoriedades.

Eu queria acreditar nessas universos paralelos, onde eu estou vivendo felicíssima com o amor da minha vida ao meu lado. Meus filhos são educados e amorosos e nem ao menos reclamariam se eu comesse todos os doces que eles passaram a noite pedindo aos vizinhos - claro, não é tradição brasileira. Mas eu estaria vivendo na New York paralela - e, além de bem sucedida, os detalhes da minha vida sexual seriam indescritíveis de tão excitantes e revigorantes.

Mas o caso é que não. Vivo onde vivo e filhos estão nos planos pra vida, mas não pra tão cedo na vida. Ainda é preciso que eu ache o pai deles. O mais importante é que o pai deles me ache. E me queira. E me queira mais. E me queira de uma forma que ele não sossegue enquanto não me tiver. E que isso não seja alguma coisa má, pelo contrário.

A grande verdade, a verdade incontestável, é que eu não vivo sem sentir. E quando não há ninguém alvo dos meus represados desejos, há sempre aquela velha história do passado, que já fez-me o favor de se cristalizar e que eu nem ao menos sei se ainda se trata de amor mesmo ou uma gratidão profunda, o que não deixa de ser uma forma de amor.

O homem que conseguir romper as muitas e todas as barreiras que eu carrego, que conseguir meu amor e os meus desejos, eu digo apenas uma coisa: esse homem vai conhecer a felicidade.

***

Não sei porque, me tem batido na cuca que eu poderia escrever um livro. Lógico, por mais que eu saiba que sou alguém que tem uma autoestima alta pra cacildis, sei que literariamente, o negócio é sempre mais embaixo. E aí não adianta forçar histórias, nem ideias, nem projeções, se a inspiração e o talento não estiverem presentes, em primeiro lugar.

Pra falar a verdade, eu comecei, quando tinha 18 anos, a escrever um livro. Era uma história medíocre, mas eu consegui ainda que fosse algo agradável de se ler. Parei na página 50 e tanta por que desestimulei, lendo histórias realmente boas dos autores que eu gosto. Inveja mesmo. E aquela constatação difícil que, por mais que eu tente e queira, eu jamais seria capaz de construir alguma história realmente magistral. Uma pena.

Talvez todo possível autor possa se sentir assim, ou talvez seja mesmo só coisa minha em relação às histórias que não me pertencem. Não tenho culpa. Fui apresentada muito cedo a mestres muito mestres. O saldo positivo disso foi que a minha imaginação se mostra capaz de escrever bem de coisas que realmente acontecem, como nos meus textos jornalísticos. Mas mesmo neles, ainda há muito o que aprender. Vícios demais a serem corrigidos e uma subjetividade exagerada que não me larga. Se eu conseguir alguma fama, justifico como o meu estilo... rs

***

O fim do ano tá pra rolar. E eu, nesse ano, ainda  não tive coragem de fazer aquela retrospectiva dos fatos mais marcantes do ano. Mas uma coisa eu sou capaz de me lembrar muito bem. Em 2008, também no final do ano, escrevi em um tópico na LP (mãe da LJ, o que tornou possível esse blog), chamado: "O monstro 2009". Nele eu falava sobre como era essa sensação estranha de que um ano ia acontecer e que eu não fazia a mínima idea do que ME ia acontecer nele. Afinal, 2008 havia me dado mostras de que a vida era algo demasiado frágil. 2006 me provou isso me atirando num precipício sem me dar paraquedas e eu caí. Caí rolando na parede do penhasco e quebrando cada ossinho que eu tinha no meu corpo frágil. Quando cheguei ao fundo, ao olhar pras minhas mãos, conseguindo abrir os olhos, percebi que ainda estava viva e que ainda havia pelo que viver. Subi, alquebrada, dolorida, pedra por pedra, galho por galho, com uma força que eu nunca havia imaginado que tivesse. Escorregava, levantava e subia de novo. Em 2008, eu ainda não havia atingido o topo e mesmo em 2012, eu sei que eu ainda não atingi.

Mas tudo o que aconteceu, não sei, me deu uma esperança de que coisas boas vão me acontecer, agora ou depois. E eu sei que vão mesmo. Não é uma questão de fé, é uma questão de certeza absoluta. Eu SEI disso. O monstro 2013 ainda me faz pensar um pouco, ter algum receio. Mas isso é típico em mim. Eu sei que quando o dia 1º amanhecer, eu vou sentir aquelas mesmas sensações de peito cheio de vida que eu sinto nesses amanheceres especiais.

***


Digo mais uma coisa que eu esqueci de mencionar: eu estou apaixonada. Explodindo. Cometo a ousadia de parafrasear Gullar: eu sou uma fogueira de 1,61 de altura. Eu posso a qualquer hora desintegrar-me em soluços.

E já o fiz.





sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

É verdade.

Eu peço mesmo socorro.
Eu faço mesmo isso.

Eu me rasgo, eu me sofro.
Eu renego.
E eu peço socorro.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O sonho de João

João saiu de casa mais ansioso do que de costume. Ele não gostava da sensação de que algo de ruim estaria pra acontecer e essa sensação estava se fazendo cada vez mais presente desde o sonho que tivera durante a madrugada. O pior é que não tinha o costume de ficar dando importância a sonhos. Sonhos pra ele eram só o cérebro pirando um pouquinho, nada demais.

O da noite foi um tanto mais assustador: um anjo vinha conversar com ele sobre a sua vida. Não a vida dele, de João, mas a vida do anjo. O lugar era a casa de João e ao mesmo tempo não era. Ele se lembrou que quando convidou o anjo a se sentar, sem saber que era um anjo, abriu a cortina da janela e a vista dava pra torre Eiffel. E não havia lógica alguma que dissesse pro rapaz que aquilo era algo anormal.

A casa também estava mudada: ao invés da televisão lcd 42'' comprada em 2007 - quando só quem possuia uma era gente rico pra caralho - estava a televisão de tubo, de madeira ainda, de quando ele era criança viciada em pica-pau. O piso ainda era um que ele, depois, viu que não reconhecia de parte nenhuma da sua vida: um piso preto, parecia coisa de lápide de cemitério. Fazer essa constatação arrepiou-lhe os cabelos da nuca, quando estava já na parada de ônibus.

O homem, que depois disse que era anjo, vinha absolutamente de lugar nenhum. Ele apenas surgiu. Ele se virou e o cara tava ali, parado, olhando pra ele, com vontade de conversar. O cara se sentou no sofá pequeno e João no chão, (mas isso também era estranho. João NÃO senta no chão) esperando que o primeiro iniciasse a conversa. E iniciou. Começou falando que Deus - Deus mesmo, não o velho branco e barbado que Hollywood insistia em fazer se passar por ele - era um sujeito dado às pandeguices. Nada de luxúria, claro, mas ainda um pândego que gostava de tirar uma com a hoste celestial. Enviava a rapaziada pra desertos ao invés das regiões populosas. Ele, o anjo, disse que entendia, ou se esforçava pra entender.

Pra ele, Deus fazia isso porque era que nem aqueles pais que querem que os filhos aprendam na marra, com a taca que a vida dá. E ele não tirava a razão, mas ficava puto quando tinha que ficar olhando as nuvens na conchinchina ao invés de estar fazendo algo realmente útil pra alguém.

Disse que corria alguns riscos estando ali, conversando com um humano. Que era claro que ele já tinha sido descoberto (o Cara é onipresente, pô!), mas que quis tentar. Foi em João porque era um nome legal, bíblico, do primo de nosso Senhor e ele pensou que não queria ter que lidar com a geleia que ficaria o cérebro de algum ateu inconsequente ou algum outro tipo de fundamentalista religioso a qual ele se mostrasse.

Bom, João era o quê? Nem o próprio sabia. Nos tempos do Orkut, ele tinha marcado a opção "Com um lado espiritual independente de religiões". E era mesmo o que ele era. Ideal pras confissões do anjo que não queria também alarde em cultos evangélicos ou romarias de católicos à casa do sonhador.

Jamais teve a intenção de dizer o fim do mundo a ninguém. Ele sabia que ia rolar, porque tinha escutado uma conversa secreta de Deus com São Pedro, só sabia que não ia ser por água de novo. Tavam aí os arco-íris garantindo que a terra não ia ser destruída assim novamente.

Depois de dizer que não tinha inveja dos humanos - sua única vontade terrena era comer chocolate, embora soubesse que jamais comeria nada, depois do incidente com a maçã - o anjo olhou pra fora, deu uma olhada na torre Eiffel e soltou:

- Cara, você mora no Maranhão! Torre Eiffel? Pelo amor de Deus! Que cérebro ridículo, ô!

Riu e depois sumiu.

E João tinha permanecido a conversa toda calado. Tinha ficado atônito, olhando as feições daquele cara, mas não conseguia abrir a boca. Depois que levantou pra ir pro estágio, também não conseguia mais lembrar de como o cara era. Sabia que não era pra se importar com esses sonhos doidos, mas estava. No frigir dos ovos, já não sabia mais nem se o cara era anjo mesmo. Tá, ele apareceu do nada, sumiu do nada, mas sonho, cara... Sonho é sonho mesmo.

João, pobre João, quando chegou no estágio, atarantado, quase não conseguia cumprir as tarefas do dia. O olhar estava meio vago e a concentração não dava conta.

Os dias foram passando e João foi ficando mais estranho. Demorava a levantar, comia com apatia e dormia assim que chegava do trabalho. Terminou-se a semana e João já tinha faltado a quinta e a sexta e só se levantava quando chacoalhado fortemente pelo seu pai, que tinha mais força pra tarefa que a mãe. Preocupados, os pais de João chamaram um primo que era médico pra ver o que se passava com o rapaz. Exames feitos e nada demais detectado. Talvez fosse verme. A mãe ia preparar um lambedor de mastruz ou qualquer mato que tivesse no quintal da sogra.

O rapaz não se levantava mais. Só dormia. 36 horas de sono profundo, sem roncos, sem muitos movimentos, apenas o mexer suave das pálpebras, que indicava que estava sonhando.

Depois de 15 dias, João parou de respirar.

Sua alma foi em busca do homem que havia lhe sugado o animus. O anjo chorava (sim, anjos choram!) e João já sentia a boca solta pra falar-lhe. Perguntou porque estava chorando. O homem sentado na pedra mostrou que já havia falado com um humano antes, e que tivera que ferí-lo, porque o homem exigia uma bênção pra deixá-lo ir embora. Teve que dar. Depois disso, tinha prometido a si mesmo que nunca mais faria dessas. Fez. Não tinha mais presentes a dar, e sim um fardo a quem se dirigisse: a procura incessante que a alma procurada faria a si. Castigo divino inclemente, ele tentara esquecer.

João fechou os olhos e abraçou o que chorava. Sabia que estava morto, sabia que isso era algo ruim, mas tinha uma consciência lacerante de que, se lhe fosse dado o poder de escolha, faria tudo pra sonhar com o anjo de novo. Agora que sua alma achou o homem que a sentenciou, sentia o vazio completamente cheio das coisas completadas, dos objetivos satisfeitos e das dores saciadas. Sua alma chorou uma tristeza alegre, enquanto ria. Não havia nada a explicar nem a pedir explicação. Pousou a mão no ombro do anjo e, em silêncio, foram os dois aos portões do paraíso, onde só a entrada de João era permitida.

1:36 - do dia novo, do recomeço.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pra mim, finalmente.

"Entre dois pontos,
Se são pontos bem definidos:
Há uma linha
Mas não há trem.

Entre dois pontos,
Se são pontos bem decididos:
Há uma linha
E há trem também."

sábado, 3 de novembro de 2012

"How sweet it can be?"

Quão doce isso pode ser, pelo amor de Deus?
Quanto de beijos não seriam trocados e quantas vezes, as mãos suadas não seriam entrelaçadas?
E quantos risos não daria ao te ver acordando,
E quantas histórias te contaria, ao te ver chegando,
E quantas horas de vida, por nós passando,
E quantos absurdos de tremores, não me darias, me amando?

Quão doce isso pode ser, pelo amor de Deus...


Tentando desesperadamente esquecer que essa música existe:

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Tá dum jeito...

... Tão intenso, tão forte, tão louco... Que está começando a doer, já. E não há forma pior de perceber que eu já estou completamente entregue. Isso não deveria ser assim. Deveria ser bom, somente bom. No entanto, "As coisas vão dar certo no final. Se elas ainda não deram, é porque ainda não é o final". E eu só posso me apegar a isso. rs

domingo, 21 de outubro de 2012

Para o meu amor que dorme.

Dorme, aquele que fez-se eterno,
Sem saber dessa feitura,
Com o mais suave dos meus beijos.
E sonha,
Com as mãos entrelaçadas às minhas,
Várias canções que não sabia...

...Ainda.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O que sai às 3 e pouco da manhã.

Vai desmanchar-se em soluços, mas continua sem que as lágrimas desçam.
Vai ser arrebatada para os céus fulgurantes num gozo nunca antes visto, mas continua contentando-se.
Vai queimar na fogueira das palavras, mas continua calada.
Vai rasgar sua garganta num canto, mas continua apenas pensando.
Vai abrir-se e expôr-se num rompante, mas continua deixando pra lá.
Vai obedecer, mas continua dizendo não.
Vai agir, mas continua imóvel.
Vai sair, mas continua dentro.
Vai, mas continua.

domingo, 9 de setembro de 2012

Falhando miseravelmente em resistir...

Terrivelmente, terrivelmente sexualizada.
E o pior, é que isso não necessita de que nos toquemos.
Ele fala, ele escreve, e o sangue flui imediatamente. Estou sem sentidos. Estou nua, mesmo quando vestida, pois meu corpo reclama o toque da roupa. Ele sente que há algo sobre os seios, que há algo sobre minhas costas e sobretudo, que há algo sobre...
Ele sabe que me provoca e gosta absurdamente disso. Ele sabe que eu não sucumbo nunca, mas precisa sempre me tentar...
Oh, Deus, eu preciso pensar. rs

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Os direitos.

E aí, no final da noite, depois de um filme francês, apareceram à moça as coisas que se precisam ler. Que o fado joga nos rostos, como aquela folha que se desprega da árvore e enceguece pra outros caminhos enquanto não se tira da face e a olha com algum respeito.
Nas três e meia da madrugada de um dia misturado, leu a carta mais linda de amor. Era de um escritor pra uma mocinha... Talvez a última ainda fosse uma criança na ocasião da carta. Ora, talvez. Não se sabe. Mas se sabe que era um amor tão puro e tão lindo que cabia em uma caixa cheia de beijos e que nenhum poderia perder-se no caminho.
Já a moça que leu, com lágrimas nos olhos e coração batendo como de um condenado, sentiu que precisava imediatamente de um amor também, forte e constante. Arrepios incendiaram-na e a lembrança de um querido manifestou-se sordidamente. Cantando na alma velhas canções de amor, soube que precisava, infelizmente, mais que uma caixa pros seus beijos. Se fosse amor, não haveria de ser tão puro assim. Queria o amor das vontades respeitadas. Que o cansaço fosse mais que entre o nariz e o queixo e que mãos se entrelaçassem mais que uma ou duas vezes. E se lembrou, com carinho, que o rapaz que queria, de si precisou e chamou. E lá ela se foi, abriu por querer as próprias feridas e sangrou na caminhada, mas foi sabendo que estava feliz.
Os beijos da moça ainda precisam se enclausurar, que não podem ainda chegar perto do moço. Tragam-na a caixa pra que os guarde! Ela lamenta, mas é assim que é. Mas sabe e espera que talvez chegue em algum momento a proximidade suave, mas que será tão profunda, que a Saudade precise vir reclamar aos dois, os seus direitos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A fermata.


Talvez pouca gente saiba qual a dor de um amor impregnado. Eu sei.
Amei com toda a intensidade que o meu coração feminino e extremamente juvenil poderia alcançar. Com a minha ansiedade própria, traguei cada pedaço de solidão como se fosse o último e cada gota de reciprocidade como se estivesse a secar de sede nalgum deserto. E estava.
Corpo demasiado impúbere, mãos trêmulas, cabelos constantemente embaraçados e a não consciência de que esse estado era algo distante do que um adolescente poderia querer para si. Não obstante isso tudo, a palavra sempre foi medida, a inteligência ressaltada, o esforço recompensado e a risada muito fácil.
E então, do meio deserto e vindo da terra do sol causticante, ele chegou. Enorme como um templo, imperioso como um soldado e extremamente bonito aos meus olhos. Como já era grande, tanto por idade, quanto por tamanho, sabia reconhecer onde estava o que realmente lhe interessava. E era eu. Sei que era eu.
Ele foi a fermata que fez o tempo me obedecer. Deixei as armas pra trás, mas não os medos. Ainda assim, fiquei serena, muito mais risonha, alegre da existência. Saía pelas ruas da cidade na minha bicicletinha de mocinha e falava com ela das felicidades e das dores. A pobre ouvia tudo calada, era o jeito. Quando se zangava, inventava de cair a corrente ou rebentar o freio. E, morta de amor, eu retornava à rotina diária na espera de vê-lo pra ter que amá-lo tudo de novo. Tempos azuis.
O tempo passou e a reciprocidade foi se manifestando suavemente, mais parecia uma brisa no rosto. Porém, quando me dei conta pela primeira vez, andei como uma ferida pelas ruas, chorando parcas lágrimas em ruas desertas e cantando as canções que fiz em minha'lma nos tempos da inocência. Jamais abandonei a fermata. Ela continuou como a sua natureza manda: indefinida e pra sempre.
Aqueles sentimentos alucinados pareciam me ferver, meu Deus.

Eu já sabia que o futuro me reservava coisas inimagináveis, mas não poderia imaginar que, nove anos depois, ainda sentiria dores de um amor impregnado.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Amei-te tantas vezes. Umas vinte e duas.
Enquanto te amava, cerca de 40 diferentes beijos molharam minha boca.
Abraços, então, esses foram aos milhares.

Permaneci acordada um ano de noites, jurando, em cada dessas noites, que talvez minhas 22 fases de amor por ti, teriam que algum dia ter um fim.
Somente um.

Os recados sutis de amor existiram em numerais incalculáveis,
enquanto a primeira loucura ainda se convertia, dela mesma, em trezentas explosões pintadas, majoritariamente, de vermelho.

Tantas foram as vezes, tantos os numerais, que não consegui contá-los todos. Às vezes, nem ao menos dividi-los.
No final, meu amor foi centrifugado. Aquela quantidade assombrosa virou uma coisa bruta, destilada.
Meus prováveis 22 estágios de amor já não contêm mais dor.