sábado, 12 de abril de 2008

Artes Visuais: a obra de Lucian Freud

É interessante pensar na proporção que uma obra de arte pode tomar. Ele, sozinho em sua oficina de trabalho, traço por traço, pincela com a alma, dá vida ao inanimado, tijolo por tijolo até que seu castelo esteja completamente erigido.





Auto-retrato do artista.


No cotidiano de sua lida, o pintor não pensa: "Uhm, vou pintar esse quadro e ele vai valer 50 milhões de dólares". Então... como é este processo que atribui o valor artístico de uma obra? Como um traço vale tanto?


Hoje li esta notícia e me surpreendi. Vocês estão olhando para uma tela que vale 35 milhões de dólares. A obra de maior valor pertencente a um artista vivo. Será que nesse caso poderíamos dizer que vale o quanto pesa? (ok, piadinha politicamente incorreta)

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Alguns de seus trabalhos:































Não conheço nada sobre a biografia do cara, apenas admiro sua obra. Por isso não enrolarei meus 4 leitores nem inventarei coisas que não sei. Apenas disponibilizarei alguns links sobre ele, caso vocês se interessem em consultar. O fato é que não há como ficar apático frente ao traço de Lucian Freud.






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Links recomendados:

Sobre a vida
Sobre a obra
Mais trabalhos
Informações detalhadas no Tate British

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cartas ao escafandrista III

Prezado escafandrista,


Aqui no passado os nossos homens célebres costumam ser homenageados com medalhas, capas de revistas de fofoca, estampam as fotografias de jornais, são "vítimas" de coberturas audiovisuais a respeito de suas vidas profissionais e privadas, são donos de páginas e páginas de nossos periódicos; até estátuas nossos homens de destaque ganham. Tudo para as nossas inestimadas celebridades.


Mas eu custo a entender, prezado escafandrista, como alguém pode considerar que excrementos de aves urbanas possam ser concebidos como homenagem. Sim, prezado escafandrista, a maioria das homenagens citadas terminam como banheiro público dessas aves e outros animais afins. Não sei se o prezado escafandrista entende o conceito de banheiro, por isso tentarei explicitá-lo para seu maior entendimento.


Em nossos dias aqui no passado, utilizamos locais reservados para realizar nossas necessidades fisiológicas, como fezes, urina, e, algumas vezes, para satisfazer nossas vontades sexuais. Aqui no nosso pretérito-mais-que-imperfeito, consideramos todos estes atos como sendo imorais.


Agora observe, prezado escafandrista, seus descendentes consideram imoral o que é da natureza.
Meu caro homem do futuro, ajude-me a entender o seguinte: como algo inerente ao homem pode considerado imoral? A moral, então, é algo não-transcendental? A moral está além do homem?





Vocês aí no futuro, cagam e mijam? Vocês ainda têm o hábito de foder?

Literatura (e psicanálise?): citação

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco."



Gabriel Garcia Márquez - Memórias de minhas putas tristes

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** Leitura recomendada:
Cem anos de solidão
Amor nos tempos do cólera

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Cartas ao escafandrista II

Prezado escafandrista,

Nós aqui do passado temos o hábito de freqüentar praias, namorar olhando as estrelas, bater papo tomando uma cervejinha, entre outras atividades realizadas a céu aberto. Responda, caro escafandrista, existe cerveja aí no futuro? Qual o entorpecente que vocês costumam utilizar? Meus contemporâneos usam vários tipos de drogas (sim chamamos os entorpecentes de drogas, como se fosse uma droga se entorpecer, imagina...), a maioria delas já foram institucionalizadas, enquanto outras permanecem ilegais (por falar em ilegal, vocês têm leis por aí?).

Qual é a pena para os que não seguem as leis? Aqui no passado as penas são aplicáveis quase que exclusivamente para os que não possuem dinheiro. Estimado escafandrista, vocês aí do futuro possuem dinheiro? Como é a distribuição da riqueza entre vocês? Aqui no passado é tudo muito desigual. Uma pequena parcela da população conventra a grande maioria das riquezas do mundo.

Há gente morrendo de fome no futuro, prezado escafandrista? Aqui no passado isto é coisa rotineira. Morrer de fome faz parte do cotidiano de muitas famílias. Não que eu me importe com isso, pois tenho a minha fatia do bolo (ainda que pequena, quase ínfima fatia). Nós temos fome de consumo.



E vocês, têm fome de quê?

terça-feira, 8 de abril de 2008

Cinema: Timecode

Ficha técnica:
Diretor: Mike Figgis
Roteirista: Mike Figgis
Ano de lançamento: 2000
Gênero: Drama
Duração: 93 minutos
Elenco: Xander Berkeley, Stellan Skarsgård, Golden Brooks, Saffron Burrows, Salma Hayek, Holly Hunter, Jeanne Tripplehorn







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Sinopse: O diretor Mike Figgis (Despedida em Las Vegas) inova ao dividir a tela em quatro partes para contar a história de um misterioso assassinato. Quatro personagens principais estão no centro da história: um executivo do cinema e sua esposa, uma aspirante a atriz que está no meio de um caso e uma mulher cujas ações irão alterar para sempre seus destinos.



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Mais uma sessão do Cineminha na Liga aqui no Blog. Dessa vez o personagem principal é um diretor (e roteirista) inglês, chamado Mike Figgis. Figgis é um entusiasta do cinema digital e seus filmes tentam quebrar barreiras e preconceitos que muitos cinegrafistas ainda têm em relação ao video no cinema.
Ele mostra que é possível fazer filmes de qualidade com baixo orçamento, sem precisar recorrer à película e se submeter a todas as suas limitações. Dá um empurrãozinho em todos aqueles que possuem idéias na cabeça, uma mini-dv à mão, mas não têm coragem pra começar a filmar.


Minha opinião

Um experimento audiovisual. Uma tela dividida em quatro e um filme feito sem cortes, em tempo real. Hitchcock fez algo parecido no brilhante Festim Diabólico, filme realizado com apenas um corte (quem não se lembra do zoom in e out nas costas de um dos personagens?), mas não com a extensão e ousadia do Mike Figgis. O roteiro deixa a desejar, é verdade, mas a sincronia entre as "cenas" compensa. Ensaios e improviso. Tudo na medida certa.

Alex é o galã às avessas. Executivo do cinema, atravessa a meia-idade utilizando sua posição social para arrumar sexo com aspirantes a atriz. Cheira o tempo todo (aliás, qual personagem ali não é adepto ao pó?), trepa num cantinho com uma de suas amantes, enquanto sua mulher sofre de crise existencial na sala ao lado. Diz querer largar tudo e ir viver em Toscana. Propõe isso à sua mulher e à amante (Salma Hayek interpretando a maior biscate de sua carreira), porém fica claro que ele não abdicaria de suas facilidades para ter uma vida mansa em uma região remota da Itália. É tudo tipo.

Em uma das cenas (ou seria em quatro das cenas?), os operadores de câmera executaram um close up nos atores em quadro, talvez como uma tentativa de aproximação psicológica daqueles personagens. Interessante observar que todas as câmeras portavam lentes grande-angular (o que costuma tornar os closes mais poderosos, devido às distorções que essas lentes provocam ao se aproximarem do objeto em foco).

Em termos de história não há muito o que falar, mas a narrativa se torna interessante pela escolha estética do diretor. Pode se tornar confuso em alguns momentos, mesmo com a edição de som ajudando a identificar os "diálogos-chave" para ninguém se perder no meio do caminho. É, sem dúvida, um filme para iniciados e não para iniciantes (não havendo nenhum tipo de julgamento de valor neste enunciado).

* Destaque para a Holly Hunter (mesmo num papel sem destaque), sempre maravilhosa.

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Trecho do filme:















** Leitura indicada: Digital Filmmaking - Mike Figgis / Faber and Faber, Inc. 2007

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Promoção da semana:

Seja o primeiro a ir até meu scrapbook e dizer: "Salma Hayek é gostosa pra chuchu" e ganhe um brinde sensacional!

OBITUÁRIO...



Eis que veio a óbito

O senhor José Almeida da Conceição Sobrinho

Falecido sem ter terminado de pagar as prestações da casa financiada pela Caixa

Ou ido à Cancun


Morreu sem nunca ter fumado

Sem nunca ter bebido

Morreu sem nunca ter gozado


Sem nunca ter traído

(e sendo traído pela mulher que nunca o havia amado)


Deixou dois filhos

Um rapaz e um menino

Um com acne

Um asmático

Um cocainômano

Outro reprovado em matemática

Os dois

Porém

Orfãos de pai

E mãe ausente


Morreu, o senhor José Almeida da Conceição Sobrinho

Numa tarde de sábado em que jogavam Flamengo e Madureira

E uma jovem que ele não conhecia era estuprada num beco qualquer por um viciado em crack

[com uma faca de cozinha


As nuvens naquela tarde não choraram

Não houve chuva vento bater de portas calafrios súbitos

Nem a mais ínfima manifestação de consideração divina pela morte de um homem

Que viveu sempre

No mesmo

Lugar...



RICHARD

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Cartas ao escafandrista I

Prezado escafandrista,

Sim, um dia fomos minhocas. Vivemos décadas sob a terra nos amontoando. Possuíamos um ritmo frenético pois fomos informados por uma força do além que precisávamos produzir (e nós, talvez ingenuamente, acreditamos). Diariamente milhões de nós transitávamos por debaixo de calor, concreto, barulho e pernas, como que, pisoteados, fôssemos levados do trabalho para casa e de casa ao trabalho. Trabalhamos muito, sem saber exatamente o motivo de tanto labor (e dissabor). Vivemos o dia-a-dia desconhecendo o porquê. Lutamos pela nossa existência na desistência de saber pelo que existir. Ignoramos o instinto, somos apenas carne e razão. Formigas ambulantes, perdidas abaixo do solo, cuja única missão é erigir uma civilização. Progredir... progredir... num ir-e-vir cuja meta é lugar nenhum.

Religiões nos dão respostas superficiais e fantasiosas, são mitos de muitos. Há também os filósofos, que se esmeram em explicar o que parece inexplicável. Será que o prezado escafandrista, homem do nosso futuro, já foi presenteado com o que nos parece ser a grande resposta da vida: o motivo do processo nascer-e-morrer?

Prezado escafandrista, caso a viagem no tempo já seja possível na sua Era (meus contemporâneos acreditam que um dia será), peço que venha nos visitar aqui no passado e nos conte algumas de suas velhas novidades. Somos ávidos pelo conhecimento, ainda que não saibamos o que fazer com ele. Vivemos no escuro, pisoteando civilizações passadas como quem dança o ritmo compassado e moroso do que chamamos de concreto. São dois pra lá, e dois pra cá. E fica a pergunta...

... prezado escafandrista, do que é feito o futuro?

Cartas aos escafandristas - Introdução

A tecnologia aliada à História. Imagens produzidas no outro lado do mundo chegam aos nossos olhos em questão de segundos. Em contrapartida, muitas imagens dividem o lugar conosco sem que nosso olhar se volte a elas.

Os escafandristas descobrirão, através das imagens do cotidiano, como foi nossa civilização com uma dimensão extraordinariamente maior do que nossos arqueólogos o fazem hoje. Hábitos, costumes, normas, condutas, afeições, tudo poderá ser detalhadamente identificado através dos registros de imagem das nossas, hoje frenéticas, câmeras digitais. Nossa ferramenta não será mais o osso, mas a câmara escura. Nossa invenção não será a roda, mas a construção da iconografia do cotidiano.

Este espaço também destina-se à publicação de cenas públicas e privadas. O registro do nosso dia-a-dia e o de nossos contemporâneos. Vamos nos comunicar com a tribo futura, contando aos nossos descendentes remotos como vivíamos em nossa prosaica civilização. O cotidiano será o personagem principal em nossas cartas.

Caso o leitor queira compartilhar imagens de sua autoria, estão convidados a alimentarem este pedaço de bits e bytes. Basta enviar um correio com a imagem, legenda, e data da situação ocorrida.

Abra o olho, estamos vivendo a Era da Imagem!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Literatura: poesia&música (ou não)

Gata não mia
Mas pede em segredo
A felicidade
Busca nos sonhos
A realidade
Não dorme pra ter raiz
Gata não reza
Mas pede em segredo
Um dia feliz
Busca na vida
O que se quis
E ainda assim
Marca pontos por fora
Gata não ama
Mas pede em segredo
Na minha cama
Busca no amor
Mais do que fama
Quer sentir dor
Gata que inflama

©

terça-feira, 1 de abril de 2008

Cineminha na Liga: A Rainha Margot

Ficha Técnica

Título no Brasil: A Rainha Margot
Título Original: La Reine Margot
Direção: Patrice Chéreau
País de Origem: França
Gênero: Drama
Ano de Lançamento: 1994
Elenco: Isabelle Adjani,Daniel Auteuil, Jean-Hugues Anglade, Vincent Perez, Virna Lisi, Pascal Greggory, Miguel Bosé






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Baseado no livro homônimo de Alexander Dumas, A Rainha Margot é, além de uma aulinha de História, uma abordagem psicanalítica sobre as questões levantadas, posteriormente, por Freud a respeito da necessidade da morte simbólica dos pais para a possibilidade de formação / construção do indivíduo.

Trata-se, sobretudo, de um tema contemporâneo: ódio religioso com fundo político (qualquer semelhança com o que ocorre hoje entre Cristãos x Muçulmanos x Judeus é mera coincidência?). Guerra civil entre católicos e protestantes, onde esses últimos eram obrigados a abjurarem de suas crenças se quisessem sobreviver.

Uma das coisas interessantes no filme, é como a psicologia dos personagens é delineada através de seus atos e gozos sexuais (quase sempre) desregrados. Na história contada por Dumas, e ilustrada por Chéreau, o desejo e o ato sexual são colocados como imperativos de gozo. Freud e Lacan se redescobririam mais tarde, em suas respectivas teorias psicanalíticas.


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Liberdade para o sexo em oposição à privação do amor.

É curioso observar como o sexo é encarado de forma natural e aceitável, enquanto o amor é, de certa forma, considerado algo maldito. O amor é visto como uma fraqueza. Inversão dos valores contemporâneos. Hoje valoriza-se muito mais o amor e condena-se o sexo. Isso pode soar como um paradoxo, num mundo onde bundas são estampadas em capas de revistas e o sexo é vendido às claras nas esquinas das grandes cidades, porém, não é necessário se aprofundar muito na questão para observarmos o quanto a sociedade atual julga o comportamento sexual de seus contemporâneos. Tentamos ser "modernos" (os contemporâneos de Margot o eram), porém retrocedemos vertiginosamente no que concerne às questões sexuais. A pós-modernidade é retrógrada e se esconde sob um disfarce progressista.

Fugi um pouco do filme para filosofar a respeito do contra-senso que permeia os valores morais do século XXI. Vou voltar à obra para tentar colocar sentido a estas minhas palavras desconexas.


Em determinado momento do filme, Margot diz ao seu marido que mostrar amor a alguém deve ser evitado, pois enfraquece o indivíduo, oferecendo armas para que o "inimigo" o destrua. Dumas coloca o amor como sinônimo de morte? É interessante lembrar que, em francês (idioma original da obra), usa-se o termo petit mort (pequena morte) para se referir ao clímax sensual – também conhecido como orgasmo.

O comportamento sexual de Margot é predominantemente masculino, pois suas atitudes indicam que ela é a predadora. É ela quem vai à caça de suas vítimas, tendo como meta exclusiva o gozo. A jovem é conhecida no Reino por suas práticas sexuais, e seu comportamento frio (indiferente) no que diz respeito aos sentimentos. Porém, em determinado momento, ela se percebe apaixonada... e por um protestante. Até conhecer La Môle, Margot parece sofrer uma interdição ao amor. Ao se apaixonar, ela "abdica" dos valores familiares e, conseqüentemente, da hipocrisia que imperava em sua família, para passar para o outro lado. Alia-se ao seu amor e, com isso, torna-se também aliada dos protestantes. Margot vislumbrou que só poderia se transformar em sujeito que ama caso se afastasse da sufocante família à qual fazia parte.

Outro ponto que também pode ser analisado pelo viés psicanalítico, é a notável dependência que o Rei Carlos IX possuía em relação à sua mãe, assim como a qualquer outra figura impositiva / absoluta. O pai de Carlos IX morre cedo, deixando o trono para seu primogênito assumir ainda criança. No decorrer do filme, torna-se evidente o efeito que a ausência da figura paterna causa na vida do rei – ainda que a Rainha Catharina (mãe de Carlos) tenha substituído a figura do pai. Esta substituição da figura materna pela paterna acaba por gerar, também, a ausência do feminino no seio familiar (o que talvez sirva como influência para o comportamento de Margot, já que sua mãe a masculiniza durante toda a história). O Almirante Coligny (protestante e melhor amigo de Carlos IX), serve como apoio paternal ao Rei. Após a morte deste, Carlos IX realiza a transferência da figura da paternidade para seu cunhado, Henrique de Navarra. Em um momento da narrativa, o rei diz que Coligny serviu para que ele se tornasse independente da mãe e, de certa forma, se tornasse independente dele próprio.


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Dúvida: há amor incestuoso entre a Catharina e seu filho Anjou? Muitas vezes há indicações que respondem a esta pergunta, mas nenhuma resposta é definitiva. Eu acredito que haja sim, até por todo o tal contexto psicanalítico que mencionei anteriormente. A rainha gostaria de governar ao lado de um rei que a merecesse. A rainha e o rei juntos, sentados no trono, em seus delírios de mandos e desmandos. Cortem cabeças, apunhalem os inimigos, embrenhem-se nas entranhas daqueles que se opõe.

Ali está a semente que germinará, fazendo nascer, anos mais tarde, o Estado Absolutista francês.

Matar em nome de Deus. Um deus. Qualquer deus. Há deus? Adeus.


Vive la Révolution!


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Em relação à parte técnica, destaque para a fotografia primorosa, figurino, direção consciente, direção de arte (certamente com intenso trabalho de pesquisa)... tudo nota dez. Além disso, há a performance impecável da Isabelle Adjani, alva, linda, e perfeita em cada gesto.


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* Indicação de Filme: Lutero - Eric Till
* Indicação de Leitura: A Rainha Margot - Alexander Dumas
Hamlet - William Shakespeare









Trecho do filme:

Cineminha+IV



** Mais uma vez me desculpo pela evidente falta de linearidade do texto.

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PROMOÇÃO MALUCA:
O primeiro leitor que escrever a seguinte senha no meu scrapbook ganha um magnífico prêmio:
Agatha, ò, Soberana, cadê meu prêmio?


domingo, 30 de março de 2008

Literatura: Técnicas de Sedução

Era sempre a mesma história. Ela fugindo das investidas dele, e ele, cada vez mais incisivo, tentando levá-la para a cama de qualquer jeito.

Dionísio e Isadora haviam se conhecido há alguns meses na casa de um amigo em comum, que já o havia alertado sobre a atitude pudica da amiga em questão, fato que fez com que ele fosse invadido por um desejo incontrolável de desvirtuá-la. A idéia de ser o primeiro a se deitar com ela, a idéia de corrompê-la, a idéia de apresentá-la aos prazeres mundanos o seduzia imensamente.


Ela viveu seus 23 anos em abstinência total dos prazeres sensuais. Era uma virgem que dizia querer preservar sua castidade até que encontrasse seu príncipe consorte. Dona de um temperamento passivo e às vezes apático, vivia de forma indulgente, guardando a felicidade para ser vivida apenas no dia seguinte. Sem saber, na sua inocência de menina pós-púbere, que o dia seguinte poderia não chegar.
As investidas de Dionísio eram cada vez mais agressivas. O que começou com flores, bombons e convites para jantar, se transformou em telefonemas libidinosos no meio da noite, mensagens eróticas, sempre diretas e sem rodeios.
Durante bastante tempo Isadora se manteve implacável aos apelos de seu pretendente, não cedendo sequer um beijo ao pobre Dionísio, que, a esta altura, já dedicava todos os seus momentos de solidão lasciva à imagem de sua musa inspiradora. Não era possível dormir e acordar sem pensar nela, sem imaginar seu toque, sua boca, seus carinhos, e seu sexo tímido engolindo o dele. Era assim que começava a se masturbar, e terminava sempre jorrando seu líquido seminal em abundância. Cada gota de seu leite era destinada a ela.


Não é que Isadora não gostasse de seu admirador. Ela gostava. Gostava das conversas, gostava da companhia e também gostava de se sentir desejada. Chegou a se sentir excitada uma ou duas vezes, mas se penitenciou por ter tido tais reações físicas. Não queria pensar nisso. Não queria pensar que poderia renunciar à sua virtude precocemente, e, o que seria pior, com a pessoa errada. O que ela precisava era de uma prova cabal de que Dionísio seria o homem que a faria ceder aos prazeres da carne, que a faria sucumbir em seus braços, que a faria entregar seu corpo e sua alma de moça pura. Ainda que ela precisasse dessa demonstração, ela não sabia ao certo como essas provas se apresentariam.

Em uma noite escura de outono, quando levava Isadora para casa após assistirem a uma retrospectiva de cinema político italiano, Dionísio se apercebeu em um momento inefável de cólera. Mirou para sua companhante, aproximou-se dela ostentando um olhar inflamado, pegou em seus braços com força e a levou até o muro mais próximo, enfiando a língua quente e viril dentro de sua boca. Viu-se como um vampiro ao sugar e morder o pescoço de Isadora enquanto esmagava o corpo frágil de sua vítima usando como compressores a parede e seu próprio corpo. E, como um animal faminto que devora sua presa, rasgou as roupas delicadas de mulher inocente e enfiou seu membro rijo dentro do sexo até então imaculado de Isadora. Nesse momento ela já se contorcia, entregue aos delírios que eram apenas daquele homem, mas que agora tratava-se também de seus próprios desejos. E eram.

Tudo aconteceu ali, em uma rua deserta e mal iluminada, a duas quadras de sua casa. Foi então que ela compreendeu. Estava ali a prova que precisava. Era ele o homem com quem tencionava passar o resto da vida.

Em três meses estavam casados e ela, radiante, carregava em seu ventre o primogênito do casal. O primeiro dos quatro filhos que tiveram.

Amanhã será a colação de grau de Ricardo, o filho mais novo do casal.

© Agatha


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* Filme recomendado: Ata-me, Pedro Almodóvar
* Leitura recomendada: Memória de minhas putas tristes, Gabriel Gárcia Márquez

sábado, 29 de março de 2008

Poesia: para ler ouvindo

- Toc toc toc
- Quem bate?
- É o vento.


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Deixe-me ser
Um pedaço da sua história
Esse tempo sem glória
Que você viveu

Deixe-me ser
O seu ledo engano
O teu erro profano
Esse espaço em vão

Deixe-me abrir
Teus caminhos pro nada
E ser mera risada
Que te faz aprender

Deixe-me ser
Esse vento que bate
E desfaz teu cabelo
E te faz esquecer


©

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Video: Brincadeira de criança

O video abaixo foi editado em 32 minutos.
Os personagens são fictícios. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


Argumento: Agatha
Edição: Agatha
Falta do que fazer: Agatha

Imagens coletadas no Youtube

Inclassificável: a voz terceiro-mundista

Pior eu, que nem raça tenho. Sou preta, branca e amarela. Sou índio, gentio da terra. Carrego tudo em mim. Sinto as dores e a liberdade de ser. Pior eu, que não me classifico. Fico em cima do muro, percebo tudo assim. Melhor eu que nem raça tenho. Melhor eu, que sou brasileiro.



Brasileiros de terno. Há coisa mais estranha? Fomos feitos para o sol. Somos de lua. Somos da rua. Brasileiros em sua realidade crua. Índios, brancos, negros, na mais mestiça mistura. Caminhando sob o raio solar que ilumina idéias puras, fissuras, falsas juras, e a imensa loucura que é ser brasileiro.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Música: Improvisando no Jazz

Em um cantinho da América do Sul, um dos maiores músicos do século XX empunhava seu violão, enquanto em algum canto do mundo, outro grande músico sacava seu trumpete agudo, ou um sax melancólico, para embelezar as ondas sonoras e torná-las navegáveis. Nas areias de Ipanema nasce a Bossa Nova, música nascida no berço da classe média alta carioca, que bebeu da fonte do samba e do jazz, ambos ritmos nascidos no seio da cultura negra e marginal.

O que une essas duas turmas tão diferentes? A paixão pela música, o ritual que envolve criar uma melodia, harmonizá-la, distribuí-la, executá-la. Convidar bons músicos, selecionar algumas canções, preparar o setlist. Tudo isso regado a uma grande quantidade de álcool e outras substâncias que têm o poder de entorpecimento (and does the music itself hasn't this power?). O processo de fazer música pode ser muito atraente, e certamente era para todos esses musicistas.

Não há como não se apaixonar pelo vigor, genialidade, e até certa displicência, de muitos dos músicos de jazz. Eles tocam com a alma, pressupondo que alma existe. Utilizam o corpo apenas como materialização de sua arte, pois a arte deles é abstrata, pois vai de homem a homem, de espírito a espírito. A comunicação é flutuante, é invisível, mas plenamente perceptível e deleitosa. No jazz, a regra é seguir a música. É ela que nos leva, é ela que direciona os caminhos pelos quais seus executores percorrerão, e não o contrário.

No jazz, quem manda é a música.


Onde nasce o jazz, jaz o dogma.


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SOBRE O TEMA:

Leitura recomendada: História Social do Jazz, Eric Hobsbawm
Filme recomendado: Round Midnight, Bertrand Tavernier
Som recomendado: Lester Young (uma das maiores influências dos jazzmen)



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Sons relacionados:
- Bud Powell e sua carreira meteórica, decorrente do alto consumo de drogas, mulheres, e afins. Um dos mestres do improviso no piano.
- Charles Mingus com um baixo acústico que guia os outros músicos pelos caminhos harmônicos das canções.
- Charlie Parker um dos (e talvez o mais) brilhantes saxofonistas da história do jazz.
- Dizzy Gillespie é o trumpetman por excelência. Famoso por alcançar notas altas, e mantê-las lá em cima.
- Miles Davis é, pra mim, o maior trumpetista de jazz por toda a criatividade inventiva que trouxe ao ritmo.
- Chet Baker e um trumpete melódico, doido pra chorar.
- Duke Ellington compositor, pianista, e arranjador. O cara já foi até comparado ao Mozart.
- John Coltrane é um cara que eu acho genial. Resume nas notas produzidas por seu sax o espírito do jazz.
- Thelonious Monk com seu piano excêntrico, mostrando porque este é considerado um instrumento de percussão.

Os menos velhinhos também merecem destaque:

- O sax alto Paul Desmond, que tocou no insuperável quarteto do grande pianista Dave Brubeck. Por favor ouçam Time Out (com Eugene Wright no baixo e Joe Morello na bateria), um dos discos seminais do jazz.
- A guitarra jazzística do George Benson também merece ser citada, ainda que o músico transite entre o pop e o smooth jazz.

Os "brancos" Dave Brubeck e Paul Desmond, dois nomes respeitáveis do jazz.


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Ps.: os sons relacionados foram representados apenas com músicos. Em breve recomendações de vozes femininas do jazz.

terça-feira, 25 de março de 2008

OS DIAMANTES SÃO ETERNOS!!


Pedrinho, era um rapaz franzino, curvado sob o peso de uma idade que, se para outras pessoas representava talvez o auge da vitalidade, para sua compleição doentia chegava a ser um verdadeiro recorde.

Tinha vinte e dois anos.

Calmo, chegando mesmo a ser indolente.

Nunca se apressara para nada na vida.

Exceção feita ao seu casamento, que fora decidido logo após o primeiro mês de paixão arrebatadora.

Verdade seja dita: a notícia do casamento passou longe de causar o espanto que foi provocado quando dona Alfonsina, mãe de Pedrinho, anunciou que seu filho arranjara uma namoradinha – a primeira desses vinte e dois anos – e que essa namoradinha era Marina.

Abre-se aqui um parênteses para as devidas explicações: marina mudara-se para aquele pacato bairro há cerca de dois anos e desde então se tornara objeto de desejo de toda a população masculina – e até de parte da feminina – do local.

Jovem filha de um rico fazendeiro, mudara-se para a capital a fim de cursar uma faculdade e logo foi descoberta por uma agência de modelo.

Vinte aninhos incompletos, corpo esguio – exceção aos fartos seios, naturalíssimos, que eram o sonho dos marmanjos e o terror dos fabricantes de silicone – tudo indicava que dentro de pouco tempo seria uma modelo internacionalmente reconhecida.

Todos os homens solteiros e um ou dois dos casados da região já tinham tentado, sem sucesso, conquistá-la.

Mas marina era uma garota tímida e reservada.

Mantinha uma rotina que se limitava ao roteiro casa-faculdade-trabalho-casa e, raras vezes, se permitia uma ida a praia.

Só para tomar uma cor.

Conhecera Pedrinho por força da convivência e logo se tornaram amigos.

Devido à sua timidez, Pedrinho era o único do bairro que não a tratava como um objeto sexual.

E logo por isso, a bela acabou se apaixonando por aquele fiapo de gente.

A notícia do namoro causou verdadeiro furor àqueles homens, que olhavam cobiçosos o corpo escultural com o qual, apesar da timidez de sua dona e para desespero deles, ela se espremia dentro de uma lingerie minúscula, em vários outdoors e capas de revistas pela cidade.

Quatro meses e meio atrás – por iniciativa dela – começaram o romance.

Tórrido, diga-se de passagem.

Já na segunda semana tiveram sua primeira noite de amor, onde Pedrinho, apesar da sua compleição franzina, mostrara levar jeito para a coisa, e a tímida menina do interior se transformara numa verdadeira deusa da luxúria.

Desde então qualquer hora era boa.

No trabalho, em casa ou até mesmo na praia, qualquer encontro dos dois se transformava num verdadeiro incêndio.

Pedrinho passou a ser alvo de inveja e até mesmo de ódio por parte de alguns homens mais exaltados.

Mas nada poderia estragar sua alegria.

E daqui a alguns instantes ele estaria no altar, tornando de direito o que já é de fato e sagrando diante de Deus a sua posse sobre aquele monumento.

Cuidou de tudo nos mínimos detalhes e espalhou avisos por toda a casa para não correr o risco de esquecer as alianças.

Eram alianças de ouro dezoito quilates com um pequeno – eu diria até, minúsculo – diamante incrustado, que foram presente de sua mãe e tinham custado quase cinqüenta anos de economia.

Nada podia dar errado.

Mas deu.

Apesar de todos os cuidados, Pedrinho só lembrou das alianças ao chegar na frente da igreja.

O desespero tomou conta dele.

O apartamento do casal, local onde tinha esquecido as alianças, ficava do outro lado da cidade, e a limusine chegaria dentro de poucos instantes trazendo a noiva.

Entrou em pânico.

Ficou paralisado e não conseguia confessar a ninguém o erro que cometera.

Os minutos passavam numa rapidez alucinante e nenhuma solução ocorria ao desesperado noivo, que nada mais fazia senão esperar, apático.

E a limusine trazendo a noiva despontou na esquina, enquanto todos tentavam em vão levar Pedrinho – que nem andava nem explicava o porquê – até o altar.

Foi quando o inesperado aconteceu: Carlos, amigo de infância de Pedrinho, que ficara com uma cópia da chave do apartamento para preparar uma surpresa para os “pombinhos” apareceu, esbaforido, trazendo o salvador estojo com as alianças.

Ao ver aquele pequeno volume sendo agitado de forma triunfal na mão do seu amigo do outro lado da rua, Pedrinho percebeu o quanto era afortunado, e com o peito quase explodindo de alegria correu ao encontro de Carlos e do seu destino.

Foi atropelado por um caminhão carregado de melancias e morreu ali mesmo na rua, deixando para trás a quase-viúva mais linda de que se tem notícia e dois anéis de diamantes dos quais nunca mais se ouviu falar.


(DEUS)

domingo, 23 de março de 2008

Crônica da Poesia: poemando na Liga

Uma bebedeira, um mal de amor, um bem de amor, alguma dor qualquer. Esses são alguns dos motores que iniciam a necessidade de escrever. Tec tec tec tec... onomatopéia do teclado recebendo a inspiração do deus que habita em cada um de nós.

Muitas vezes são versos curtos os que mais dizem, os mais reveladores, os que mais se estendem sobre os temas da existência. E assim a gente se abre, a gente se mostra, a gente se apresenta. É assim que deixamos de ser transparentes para tornar concreto o substrato do abstrato que nos constrói. Assim, com versos.



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Versos cujo pai
É o título
Cuja mãe
Sou eu
Cujo irmão
São poemas crus
Cuja avó
É tinta
E o avô, papel
Versos que
Sempre quis construir
Ei-lo,
É um poema vadio



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A cidade como ela é
Sem idade
A cidade a ser desvendada
Cidade desvirginada
A cidade depravada
Cidade ansiedade
Sem idade, sem verdade
A cidade da maldade
O herói da iniqüidade
Cidade é sociedade
Cidade aparta entendimento
Cidade a todo momento
A cidade que deus castiga
Essa cidade mendiga
Cidade da falência
Cidade é inocência
City da veemência
Na cidade sem clemência
A verdade sem cidade
Berço da tranqüilidade



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Toda a água que cai
Evapora
E a árvore nasce
Sorrindo
Passarinho que canta
Lá fora
A abelha que passa
Zunindo
Todo amor que inicia
Vai embora
Sentimento que acaba
Iludindo
E julgamos infinito
Por ora
Esse amor acaba
Nos traindo
Decisão tem que ser
É agora
Se há dúvida não vá
Sem ter vindo
Adiar não adianta
Por fora
Se é pra ser, seja já
Estou indo



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A primavera esconde traços
Do inverno que

O outono não quis revelar

As folhas da estação
Dançam como
Pássaros deixando
Seus ninhos
Pra sempre

Voam leves e tolas
Voam belas e breves

Como o efêmero vôo
É a vida que segue
Até o ponto onde
A alma dança
E se liberta
Do corpo que fede



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O imediatismo
Da mediação
Arranca o lirismo
Do olhar da paixão
A catapulta pula
Aos olhos da moral
E faz o infinito
Além do bem e mal
O único impulso
Que exprime o desejo
É mais do que abraço
Vai muito além de um beijo
Caráter que se queira
Não quer mais ser enfim
Se olho para dentro
Eu busco além de mim
Sou grata ao inato
Pois nasci desse jeito
Esta sou eu, de fato
Humano com defeito




É por isso que eu me orgulho de deixar o sol bater forte em minha cuca, e permitir que a seiva maluca percorra os meus sentidos. Como eu queria ser engolida por uma multidão faminta, ávida por vida e morte. Quem sabe um dia dou sorte?

sexta-feira, 21 de março de 2008

Cinema: Shadows e Sombras em John Cassavetes

Título original: Shadows
Diretor: John Cassavetes
Gênero: Drama
Duração: 82 minutos
País: EUA
Ano de Lançamento: 1959
Elenco: Ben Carruthers, Lelia Goldoni, Hugh Hurd, Anthony Ray, Dennis Sallas





Sinopse:A vida de três irmãos na Nova Iorque dos anos 50 é explorada no primeiro filme realizado por John Cassavetes, ator e cineasta impulsionador do cinema independente. Neste objeto de puro improviso consegue capturar a essência da era beat e o início de uma grande mudança que se preparava para acontecer. O racismo deixava de ser tão evidente e tomava lentamente a forma de tabu, aqui evidente no confronto de um novo namorado da irmã mais nova com o resto da família, e o jazz a todos dominava. É também o retrato de uma geração perdida no desespero silencioso de não conseguir traçar um caminho para o seu futuro. Isso toma a forma nos dois irmãos mais novos: Ben, um trompetista que passa os seus dias com os amigos a deambular por Manhattan e Lelia, cujo espírito tempestuoso acaba por subjugar involuntariamente todos aqueles que dela se aproximam. Shadows é um pequeno filme que quase esteve perdido para sempre e que merece ser visto, especialmente como marco essencial de uma nova era do cinema norte-americano.


Fonte: MakingOff



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Minha opinião: Um dos filmes essenciais a qualquer cinéfilo, obra do maior ícone do cinema independente norte-americano. Exemplo vigoroso de como fazer filmes com uma câmera na mão e idéias em ponto de ebulição na cabeça.
Fala-se muito que esta é uma história sobre a questão racial, e blá blá blá, mas eu vi um filme diferente desse aí que comentam. Vi um filme sobre indivíduos isolados em contraponto à eterna necessidade de se sentirem parte de algo maior. Nossa insatisfação não-perecível em sermos isso... apenas nós. Não nos aceitamos como detentores de um mundo completo, definido, e abundantemente rico que existe em cada um de nós.


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Decupando as cenas...

O início mostra cenas onde jovens se divertem ao som do que viria ser o rock (já era rock?). O filme, que supostamente trata sobre questões raciais, mostra que jovens (negros e brancos) se divertindo juntos. Ainda que a maioria deles fosse (na festa em questão), predominantemente, branca.
Os três amigos (que mais tarde descobriríamos ser Ben, Dennis e Tom) entram num clube que está tocando jazz (ou ainda era bebop? Eles diferenciavam muito melhor do que a gente diferencia hoje, o que mostra que nosso "ouvido" mudou - denotando a diferença das gerações)
Os rapazes abordam mulheres (provavelmente putas) e cada um começa a noite conversando, em particular, com uma delas. Eles tentam falar sobre banalidades da vida particular, mesmo estando ali para "fazer negócios". O que me faz pensar sobre a necessidade dessa abordagem inicial "vamos falar sobre nós dois enquanto a gente não trepa".

Enquanto isso, em outro lugar da cidade, o irmão de Ben, Hugh, se vê envolvido em um dilema... ele é um cantor de jazz e está desconfortável em ter que apresentar o show de umas meninas, que, segundo ele, não dizem nada. Apresentar a arte na qual realmente acreditam e vêem valor, ou ganhar dinheiro com o "comercial"? Ilustra a virada da noite nova yorquina... transição dos jazz clubs para as casas de espetáculo. Hugh fica incomodado com a ideia de ter que se "vender". Rupe diz: Cada um dá o seu jeito do jeito que pode. O cara infere que essa é a maneira que elas encontraram para sobreviver. Então... todo trabalho é digno? Enquanto umas prostituem o corpo, outras prostituem suas ideologias (isso quando têm alguma). Hugh questiona o fato de não ter o que falar quando for apresentar o bando de meninas burras... Rupe diz pra ele ser simpático. É o espetáculo surgindo... showtime! Sem qualidade intelectual ou arte contemplativa, mas com entretetimento garantido. Imagens que passam sem dar espaço pra gente pensar. É opressor, mas é uma droga que anestesia.

Quando ele começa a cantar e ninguém presta atenção... conversas paralelas. O dono do bar diz sobre a música de Hugh: Cara, isso é um sonífero. Então é isso o que queremos? Estamos ávidos pelo consumo de puro entretenimento. O conteúdo desse frasco é vazio, mas o frasco é bonito, vamos consumí-lo e colocá-lo na estante de casa.

Ben vive pegando dinheiro emprestado com todos... é um jovem irresponsável. Vai pedir grana ao Hugh (seu irmão), que está mais preocupado com sua situação do que resolver um contrato de trabalho. Ele é irmão mais velho de "brancos" e o mais responsável.
Lelia anda pela noite de NY e fica encantada com os letreiros... é confundida com uma puta por um cara, que a aborda... este arruma briga com um outro que chegou para defendê-la (o irmão havia previsto a cena).


David diz aos rapazes:
Se vocês sempre fazem a mesma coisa, vocês nunca farão nada com suas vidas. Mas eles estão se divertindo. Por que vocês não fazem algo? Aprendem algo.. existem milhares de coisas para se fazer em Nova York. Fazer coisas diferentes, conhecer pessoas novas.

Diálogo:
Dennis diz: Você não tem respeito pela arte. (quando parece não saber sobre o que está falando)
Tom responde: Você não passa de um idiota, um pequeno burro arrogante. Eu fui à universidade, Dennis.
Dennis espantado: Você?

Enquanto os dois discutem, Ben contempla uma das obras expostas na parte externa do museu. Tom fala sobre o clima da faculdade, as pessoas arrogantes..
Em relação à obra de arte, Ben diz: a questão não é entender, mas sentir (oh, bom menino!).
Quando estão em frente à estátua da mulher nua, falam sobre ela de forma divertida. Depois que a conversa acaba, Dennis fica olhando pra ela, e pensando. Então qualquer obra de arte faz pensar? Seria esse o objetivo? Seria esse o termômetro que diferencia a arte da tentativa (frustrada) de arte?
Cena de uma festa (com os amigos de David). A câmera presencia uma conversa entre intelectuais que falam sobre o existencialismo em Sartre. Tony participa do papo como espectador atento, emitindo comentários superficiais.
Em outro momento da mesma festa, Tony dá em cima de uma moça, depois de uma abodagem inicial, ela diz que é casada, e percebe que o marido está ao lado acompanhando a conversa toda. Fica sem graça, desconversa, e finge que precisa sair para pegar uma bebida. Em alguma cenas posteriores, tem uma atitude semelhante ao perceber que o irmão de Lelia é negro.

Ainda na festa, David fala de um dos personagens criados pela Lili. Mais tarde podemos ver que este personagem trata-se dela mesma.
Diálogo:
David: Esta menina não tem nenhum controle sobre si mesma. Foi ferida profundamente, mas continua vivendo sua vida como se nada tivesse acontecido.Isto é incoerente. A vida é algo mais do que imaginação.
Lelia: O ponto é, se você é você mesmo,não irá machucar-se.

David cobra realismo nos textos de Lelia, mas ele não observa que os textos são tão impregnados de realismo, que este chega a brotar em sua frente (exemplo oferecido quando Lili beija o, então desconhecido, Tony para ilustrar seu texto.

David (apresentando a situação e o personagem de Lili): É o primeiro dia da personagem. Ela anda calmamente pela calçada da quinta avenida. vê um desconhecido logo abaixo em uma esquina da rua e lhe dá um beijo. Um estranho. É revoltante,para uma tarde de domingo.
Lelia: Não é nada! Se eu quisesse eu faria isso (e beija Tony)
Tony: Acho que estou do lado dela David.
Lelia: David, poderia me buscar mais champagne?
David: É ainda mais revoltante na vida real.
A certa altura, David diz à Lelia: "Às vezes uma pessoa é pode acabar com sua vida. E tudo o que irá te dizer vai ser "sinto muito".
Ao se relacionar com os dois, ela une o intelecto de David com o vigor juvenil de Tony. Um misto de Jules et Jim? Talvez Cassavetes tenha se inspirado no triângulo existente no romance de Henri-Pierre Roché, adaptado pelo Truffaut para o cinema.

Cena dos três no Central Park.. plano geral de David correndo atrás de Lelia e Tony, que fugiam dele (para, mais tarde, ela entregar sua virgindade ao Tony).

Lelia: Eu tenho a sensação que nunca serei inteligente e que nunca terei o que quero.
Tony: Se sente em uma caixa que não consegue sair.
Lelia fica surpresa e diz: Meninos nunca entendem coisas desse tipo. Viu, eu estou muito atrasada.
Tony: Atrás de quem?
Lelia: Agora você fala como o David.
Tony: Espero que não.
Lelia: Por quê? David é uma das pessoas mais inteligentes que já conheci.
Tony: Mas não é muito romântico. Quando conheço alguém que gosto, e ela gosta de mim, eu aceito minhas inclinações românticas.
Tony Convida Lalia pra subir.. ela fica meio receosa mas sobe. Diferente dos outros meninos (Ben, Tom, Dennis), ele consegue sexo sem pagar. Ele oferece bebida a ela, mas ela não quer nada pra beber, vai fazer sexo sem dinheiro e sem álcool. Não dá dinheiro mas oferece promessas de amor eterno. Sempre há algo em troca.

Lelia (após a tentativa de sexo com Tony): Eu não sabia que poderia ser tão horrível.
Tony: Não fique tão triste querida, vai ser melhor da próxima vez.
Lelia: Não vai ter próxima vez.
Lelia parece ter ficado traumatizada com o sexo e com toda a situação posterior. Ela diz: Eu achava que estar com você seria tão importante, tão significativo. Que depois duas pessoas estariam tão próximas como é possível ficar. Mas ao invés disso somos só dois estranhos. Acabou. Pelo menos isso eu entendo sobre a vida (a cena em que ela fala isso está coberta de sombras).
Associei esta cena à cena final, quando Ben se despede dos amigos e passa a andar sozinho pelas ruas (cheias de sombra) de NY Tony se mostra desconfortável quando ela apresenta seu irmão. O clima fica tenso e Hugh o expulsa da casa deles. O relacionamento entre Lelia e Tony termina ali.
Em determinado momento, na festa que Hugh oferece em casa, uma mulher diz à Lelia: Sabe do que você precisa? De um cara que se preocupe com você e proteja seus valores. Precisa de um lar, seguro, e com crianças querida. É disso que precisa.

Mostra claramente a antítese entre a visão (e comportamento) das mulheres anteriores à década de 60, e a nova geração, que estava despertando para a vida no início dos anos 60. (O filme foi filmado em 1957-58 mas só foi lançado em 59, por falta de grana).

Nesta mesma festa, após a briga com Ben, Hugh conversa com uma mulher, e fala sobre seus problemas. Ruppert intervem no assunto, e diz para Hugh conversar sobre coisas mais interessantes. Hugh reclama sobre os improvisos que Rupe faz no palco... seria uma metáfora para os improvisos tão fundamentais nas nossas vidas?
O seguinte diálogo antecede a briga entre Ben e a mulher que o aborda na festa:
Mulher: Vem tomar uma cerveja com a gente. Entra na festa, e esquece seu mau humor por um tempo. Não te entendo. tenho a impressão que você quer entrar na festa Mas não sabe como... você quer parecer distante, ou algo assim.
Ben: Você realmente acha isso? Eu prefiro ser distante, distante de você, ok?
Mulher: Tem outras formas... quer uma cerveja? Posso te trazer uma?
Ben: Não quero.
Mulher: Você vai ver, é bom para o que você tem. Anime-se. Só engana a você mesmo. Sua escala de valores está muito confusa, precisa de ajuda.
Ben: Não me toque.

Ela tenta invadir a individualidade de Ben, que se mostra agressivo ao tentarem interpretar sua suposta solidão, e sua vontade de permanecer sozinho. Interagindo da maneira dele. Hugh briga com Ben por causa do comportamento do irmão, mas não consegue se comunicar com ele. Acaba perdoando sem entender porque ele agrediu aquela mulher. Passa a mão na cabeça. Tolera. Talvez com a consciência de que cada pessoa tem seu tempo para amadurecer. (e foi o que aconteceu com Ben ao final do filme. Ele amadureceu. Algo mudou dentro dele)
Davy esqueceu de levar a flor pra Lelia, que cobrou e disse: não me parece bonito fazer isso. Lelia se mostra muito fria com os rapazes (principalmente depois do que aconteceu entre ela e Tony). Informalidade na casa de Lelia... David, o convidado teve que se servir. Rolou um certo clima de animosidade... todos são bem sinceros e diretos (e, por isso, talvez pareçam mal educados).
Timecode 1:05:00
Davy: Será que dá pra andar mais rápido, pelo amor de deus? Tem duas horas e meia que estou esperando.
Lelia: Quer sair com um espantalho ou com uma moça bonita?
Davy: Quero uma moça bonita que fique pronta rápido.
Lelia: Quer ir dançar comigo? Então espere, ainda não estou pronta.
O irmão se intromete na conversa, chama a atenção para a rispidez de Lelia, mas David permanece esperando mesmo com tanta frieza por parte dela. Sabe que pode mostrar a ela que ela pode ser mulherzinha. Tanto que, um pouco adiante, ele diz que ela poderia ser tão bonita e agradável o quanto parece. Ele vê que ela se esconde atrás de uma máscara de rispidez, que impõe distanciamento. Ele mostra que ela não precisa ser "masculina" para se relacionar com os homens. Talvez ela seja assim porque cresceu ao lado de dois irmãos, presenciando comportamentos masculinos o tempo todo.
Cena em que Tony chega e vê Lelia saindo com o (negro) Davy. Mostra que o relacionamento dos dois realmente acabou, já que, após a conversa entre Tony (se mostrando arrependido pelas atitudes anteriores) e Ben, este último deixa claro que não dará recado algum à Lelia.

Hugh vive viajando com sua banda para se apresentar em outras cidades. É assim que ele ganha dinheiro para sustentar seus irmãos. Ruppert reclama com o Hugh porque ele é um cantor de temperamento difícil, o que está dificultando sua contratação pelos clubes das cidades próximas. Sonha em ir para Paris, seguindo o rumo de muitos outros músicos de jazz da época (Round Midnight teria se inspirado nisso?)
Hugh, com excesso de realismo, diz: será igual aonde quer que a gente vá. Ele sabe que a vida que a gente leva depende do que existe dentro de nós, e não do que existe fora. O que está fora é apenas um cenário para que os dramas internos se realizem. "Mesmo quando você chega na hora, você não está na hora" (comentário do Rupe sobre Hugh). Ruppert está prestes a romper com o Hugh, devido ao comportamento pouco profissional de seu cliente, mas o convence a permanecerem juntos dizendo Rupe é o melhor representante do mundo... eles se divertem trabalhando juntos, confiam um no outro, têm cumplicidade. Ruppert entende isso e decide seguir viagem com o amigo/cliente.
Corta para a cena dos amigos do Ben, Tom e Dennis, que também se divertem juntos, ainda que seja não fazendo nada (bebendo cerveja). O interesse deles se resume a conhecer mulheres.

Arrumam briga quando dão em cima das mulheres que estavam acompanhadas por outros caras. Apanham. Filme começa com festa e termina com pancadaria, mas os amigos se ajudando.

Tom diz: E o que vamos fazer? Saímos pra nos divertir, certo? Tem que pagar o preço, se te pega, te pega.
Ben: Não sei porque sempre fazemos isso. Ir por aí, tentando pegar garotas. Podiamos ter as nossas, sabe. As normais. Então não vou fazer mais isso. Se quer que eu fale como um velho, e diga que aprendi a lição, eu digo, aprendi.
Quando visitaram o museu, Tom disse que na universidade conheceu professores que queriam ensinar qualquer coisa que eles já tivessem fracassado antes. O diálogo anterior, mostra o Ben "ensinando" o que acabou de aprender.

Os amigos se afastam, e cada um segue o seu caminho. Indivíduo se dispersando no coletivo, e voltando a ser indivíduo. Somos todos sozinhos. Seres (de)limitados buscando a continuidade no outro."
A cena final, do Ben andando pelas ruas de NY ao som de jazz, me remeteu à cena da Jeanne Moreau andando pelas ruas de uma Paris meio acesa, meio nas sombras, em Ascensor para o Cadafalso, ao som do trumpete do Louis Malle.

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Curiosidades cinematográficas:
- Não há muitos close ups nos filmes do Cassavetes.. os planos eram mais gerais, e os cortes mais espaçados. No entanto, sem os tempos mortos que estavam muito em voga na Nouvelle Vague francesa.
- A câmera não participa da cena, ela se torna mero observador da cena... subjetiva, e não impositiva.
- O dedo (de Davy) que toca a campainha é o mesmo que aparece quando Hugh tocou quando chegou em casa. (coincidência?)
(Eu queria saber se só eu tive a impressão de que o Ben era muito louco...)

Enfim... filmaço.
(e foi todo fruto do improviso)

* Leitura Recomendada: O indivíduo na sociedade, Emma Goldman

** Peço desculpas por minha forma não-linear de escrever, mas eu não sou a mais linear das pessoas.