domingo, 31 de agosto de 2025

Morri

Volto a este lugar tantos anos depois. Num desses rompantes que eu tinha antigamente. De vir aqui e me despejar espraiada, derramada, nessa página em branco que não é a do papel físico, mas que ainda me dá essa impressão, já que também aceita tudo, inclusive eu.

Estou em Vitória, pela primeira vez num congresso que eu sempre quis vir, mas que nunca vim por nunca ter achado antes que era um caminho meu. As voltas com a saudade dos meus dois grandes amores e meio chorosa por ter vindo por tempo demais, tenho pensado nessas experiencias que a Vida me trouxe quando decidi renascer, depois de tantos infortúnios. Penso nos meus medos, nas minhas inseguranças, nas minhas enormes fraquezas e até mesmo no que eu acredito que possam ser minhas fortalezas, que já me enganaram mais de uma vez. Eu lembrei que eu ainda consigo escrever, falar pra mim, falar de mim, num exercício que, a primeira vista (a bosta do teclado quebrado não me deixar crasear o que eu tenho que crasear - mas eu sei que tem que crasear!) pode parecer apenas um narcisismo barato, mas que traz a reflexão de que há algo aqui dentro que está morto que está pedindo pra renascer, reviver, ir pra fora, desmorrer.

Porque eu morri sim quando parei de escrever. Eu morri sim quando eu parei até de ler o que eu gosto. Eu morri quando meu filho nasceu daquela forma traumática e era apenas a vida dele que restava pra ser salva, vivida, resgatada. E morri quando descobri a grande merda que esparramou nos cantos da minha vida familiar. E morri tantas vezes que é difícil olhar no espelho e ainda ver que há alguém que, efetivamente, não morreu ainda. Não morreu porque ainda deseja, ainda sonha, ainda pulsa, ainda bate, ainda goza, e como goza, do que ainda está por aí. To aqui em Vitória porque preciso. Não foi lapso porra nenhuma: era necessidade de estar aqui, de estar só, de me ver mulher de novo, de me encontrar, de achar que ainda presto pra alguma coisa e de mandar pra puta que pariu toda e qualquer voz que me queira usurpar do direito e do dever categórico de existir pra além do que eu morri.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Gratidão e amor

Há alguns dias que eu queria falar de ti. Das coisas que a gente se diz pra fazer com que o outro tente entender qual a dimensão dos sentimentos. Queria falar do beijo consolador na nuca e do consequente abraço que vem quando minha respiração acelera, quando meu mar revolve. Queria falar das palavras que você me diz pra me acalmar, todas verdadeiras, bonitas, na sua voz grave e calma, me chamando de volta à realidade e ao que é palpável. Queria falar da sua enorme generosidade, que eu nunca vi igual em ninguém mais, que chega em mim e me compreende, em todos os sentidos dessa palavra.

Enquanto eu e meu passado nos deitamos no seu peito pra conseguirmos dormir, você me diz que o nosso amor é âncora, enquanto a mão acaricia minhas costas pra fazer relaxar e, quem sabe, dormir. A beleza dessa cena é que ela é feliz, apesar de eu estar triste. Mesmo na tristeza, esse amor me fala de vida e do quanto ela é pulsante.

Você escreve, apesar de não se achar escritor. Cada palavra falada, entra nos meus ouvidos e fica escrita na minha alma. Eu olho pro rosto lindo que você tem. Admirada, acaricio e te beijo o rosto, os seus olhos, os seus lábios, a têmpora, com tudo o que existe em mim, pra que você possa sentir todo o amor envolto em gratidão que é a sua mão em mim nesses momentos.

Neste mundo de homens que não cuidam, encontrar esse homem grande e forte que olha por mim, é como encontrar um oásis. E a mim, resta o desafio de buscar estar presente, nesta linha do tempo, neste momento do agora, vivendo essa felicidade que eu sempre sonhei e de te deixar sempre claro que afeto é esse que me engradece a vida.

Você é meu amor. Você é minha paz.

Obrigada por tudo.

“Pra renovar meu ser/

Faltava mesmo chegar você...”


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Oração

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Trecho da Oração de São Jorge.

Mesmo quando eu vivia em outro momento da minha vida, em que os medos eram grandes, lembro de ter me arrepiado lendo a oração de São Jorge pela primeira vez. Era absurdamente semelhante a uma oração que a minha vó fazia antes de dormir, que minha memória só consegue remontar alguns trechos. Era algo mais ou menos assim: "Me livre do laço do passarinheiro, da peste perniciosa, do homem sanguinário..." e continuava com um série de outras coisas perigosas. Era uma oração concisa, objetiva e forte, assim como a de São Jorge. A semelhança era absurda.

A oração de São Jorge sempre me faz lembrar outra oração testemunhada em um dia bonito. Alguns amigos recém conhecidos, meu amor e eu estávamos na beira do rio Parnaíba, em uma parte da periferia de Teresina em que ainda era possível o banho sem qualquer transtorno. Era uma tarde agradável e calorosa, com um céu anoitecendo.

Estávamos todos sentados em algumas pedras enormes que haviam na beira do rio, observando o movimento. Um homem que não estava no nosso grupo pescava alguma coisa. Eu ali, vivendo aquele momento novo, com aquelas pessoas novas e bem diferentes do que eu já tinha tido contato. Entre nós, um simpático homem de meia idade. Um cara excepcional. que tinha a poesia na fala, na vida. De repente, ele nadou mais ao fundo do rio, emergiu em um salto e se pôs de pé e declamou uma oração da alma, também extremamente parecida com a de São Jorge. Falou sobre seu orixá, seu guia, bateu com força o peito se entregando e pedindo a proteção divina. Aquele momento foi tão hipnotizante e tão marcante, que foi impossível resistir. Ali, na minha frente, mais um desses momentos inexplicáveis. Mais uma daquelas coisas que não se passa, se testemunha.

A fé e eu temos conversado nos últimos tempos. Nada como era antes, nada com amarras, nada com regras. O amor, por si só, seria uma espécie de fé? Não sei.

Eu, por minha vez, acredito no amor como força. Como qualquer sentimento absurdo, é tangível, é manifestável e os seus efeitos são vistos a olhos nus. Se a fé está no amor, ponto pra ela. Hoje, a oração de São Jorge tantas vezes compartilhada nesses momentos de incerteza e medo, me emocionou mais uma vez, por me lembrar que a vida é resiliente, que mesmo sendo ela própria absurda, está. Ou melhor: é. A vida é. E pra continuar em frente, me aproprio dos versos e faço também deles uma espécie de oração:

La muerte nunca nos venció
Porque todo lo que vive
Es porque alguna vez nasció.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Antes da fé, o amor.

Há muito, muito tempo, eu não paro pra escrever algo que a alma chama. A dor que avança sobre o mundo parece ser infinita... Parece mostrar o avanço de nossa irresponsabilidade coletiva, dentro de uma escolha que fizemos lá atrás. A peste avança e o pior e o melhor das pessoas vêm à tona, absorvendo as nossas energias e nos mostrando que, tal qual a peste, também não há limite para o mau.

Tampouco há para o bem. Enquanto escrevo essas linhas chorosas, o homem que eu mais amei e amarei nesse mundo, trabalha num hospital que ainda não sente as dores. É como uma mulher que dá a luz: todos estão se preparando para o momento da dor e tentando fazer com que ela seja menor.

Vem o homem mau e pisa em cima da barriga da mulher prestes a dar a luz. Quer torturá-la, quer que sangre, quer que sucumba. Mas a mulher é forte e resiste, como sempre foi ensinada a fazer, como sempre precisou fazer pra manter-se viva.

Eu tenho dado minhas voltas com a fé. Aqui, sozinha neste lugar que se faz meu aos poucos, em uma intimidade forçada com o lar. Já conheço cada fresta, já conto cada tijolo das minhas paredes nuas. A fé vem, tentando minhas certezas, como se pudesse ainda mostrar outra parte de si que ainda não havia mostrado antes. Tentando fazer com que eu acredite, nesta situação-limite, sem a companhia da racionalidade que eu fiz minha há muitos anos atrás, quando o mundo também me maltratou.

Olho pra ela e, sem rumo, sigo. Sem dar o salto que ela exige, mas já caminhando para o ponto em que o pulo é exigido pra chegar até ela. Medito, canto mantras, vejo cartas de tarô, escuto a triste e esperançosa mensagem do Papa, escuto o que os espíritos têm a dizer. Falta, de fato, orar, hábito deixado de lado, por lembrar demais outros tempos doloridos.

Eu já não acredito que este momento veio para servir a qualquer propósito antes sabido. Mas que irá, irá. E espero que após este momento de desolação coletiva da qual a humanidade já conheceu mais e piores vezes, estejamos prontos para um amor fraternal tão transcendente, só visto pelas palavras de Jesus - a quem, dentro deste coração tolo, nunca questionei a existência, curiosamente.

Eu nunca mais vou desconhecer estes dias cheios de amor e ódio, vindos desse mesmo corpo, mente e coração. Eu nunca mais vou desconhecer estes dias cheios de rancor, ao mesmo tempo que de perdão. Eu nunca mais vou desconhecer esta sensação de desamparo coletiva, como fosse algo inédito da nossa raça.

Que encontremos o equilíbrio dentro deste caos. Que olhemos para o outro e nos poupemos da fome, do desespero, do desemparo. Que sejamos abrigo, mesmo que de longe. Que a fé, até mesmo a fé, nos acompanhe de modo que estejamos todos de olhos bem abertos. Mas antes da fé, o amor, que é a força mais poderosa que existe no mundo.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O amor invencível

Eu acho que só publico aqui quando o sentimento é maior do que qualquer outra coisa. Quando eu sufoco, finalmente. Acredito que esse espaço ainda é livre, é meu, é pouco, é pequeno e sucinto pro que eu quero, sem dar margem pra gentes estranhas. Revelo, sem escancarar demais. E aí, confio.

Acabo de ler uma pequena declaração de um amigo que está passando por uma situação que eu não desejaria nem pros meus maiores inimigos: sua filha está numa situação de saúde delicada. Ele largou tudo na cidade em que mora e foi pra perto da filha, como qualquer ser humano decente no mundo faria.

Há pouco, postou uma foto dela numa dessas poses bonitas e infantis, com um breve texto sobre a sua falta de crença na espiritualidade, da ausência de fé, tão incentivada em momentos como esse. Tão arduamente defendida em situações extremas, onde o desespero é sedutor.

Acho que apagou a mensagem. Escrever é se expôr, bem sei. Antes, escrevi uma mensagem, que sequer sei se chegou a ver. De qualquer forma, aquilo me queimou os olhos.

É óbvio pra todo mundo que se cerca de mim que há um desejo pulsante, latente de ser mãe. De cuidar e amar de alguém. Já questionei minhas certezas, já me perguntei se não seria uma compulsoriedade da qual eu me apropriei há tempos e que quero ver efetivada. Mas, de verdade, existem coisas que me fazem pensar algumas vezes antes de concretizar o projeto.

A primeira é o mundo.

Não que já tivesse sido fácil pra ninguém, em qualquer tempo. Não que eu ache que o mundo antes era a grande quimera em que o tudo era maravilhoso e perfeito e que o mal não estava à solta, só porque a infância era brincada da porta da rua pra fora. Não. Mas o mundo me assusta.

Talvez sejam as maldades mais escancaradas do momento, em que eu estou aqui testemunhando tudo de olhos abertos. Talvez seja o furor do contra-ataque, veloz, furioso, calando vozes e derretendo mentes.

A segunda é a vida.

Muito se fala da ordem natural das coisas. De que os velhos amargam o dissabor do fim da existência primeiro e que os jovens aguardam a finitude pra quando for a sua vez de serem velhos. A questão é que à vida - essa que desrespeita todos os nãos -, não lhe interessa quem é velho ou novo. Coloca novos e velhos no mesmo balaio de sujeições daquilo que um ser humano é capaz de viver, para o bem ou para o mal.

E aí vemos que a justiça está na sorte, no puro acaso. Eu que, tal qual o amigo com a filha enferma, abdiquei das explicações do destino, tenho medo de um filho que eu tenho certeza de que vou amar mais que a mim mesma, seja o sujeito da vez das sujeitudes da vida.

Nada disso vai me impedir, eu sei. Só situações extremas me impediriam de verdade.

Cética, tento até rezar algumas palavras sobre a criança enferma. Nada sai. Mas dentro está o desejo profundo de que se recupere e siga a sua vida de criança em frente, linda, plena e feliz, como é reservado às crianças desse mundo.

E que seus pais acalmem o coração de toda a angústia da luta que só um amor invencível como esse pode lutar.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

A dor e a fé

Há muito tempo eu não escrevo.

Deixei doer tudo o que havia de doer bem calada, como que pra deixar acalmar o lanho de tantos dias maus, de tanta maldade solta, de tanta miséria escorrendo das mãos e das bocas das pessoas, se acalmar no meu coração, que já não aguenta mais de tanto que pesa.

Todos nós já sabíamos que seria ruim, mas eu não imaginava que seria tão horrível. Em meu coração, os vislumbres de esperança querem amainar, por mais que eu me chame de volta à razão e saiba que eu não estou só nesse lamaçal monstruoso.

Logo eu, que já me imaginei mais forte que tudo, que já pensei que já havia sentido toda a minha cota de dor da vida, olho para o lado e vejo o chão se quebrando debaixo dos meus pés. Com um medo que não sei descrever, tenho sonhos horríveis com um futuro tenebroso, em que não só eu, como os meus, mesmo os que hoje apoiam o fascismo, são alvejados e caem mortos aos meus pés, enquanto eu não posso fazer nada, apenas ver.

Escrevo hoje, talvez, pelo único motivo de ainda poder. Não sei até quando poderemos. Mas nós lutaremos. O meu medo, hoje, transformo em força pra tentar. Transformo em coragem para não deixar vacilar. Transformo em esperança por dias melhores. Transformo em fé - até fé - que a nossa vida seguirá, e seguirá bem.

Força!


quarta-feira, 30 de maio de 2018

O calor

Pode ser que seja o dia de hoje, pode ser que seja esse momento assustador, podem ter sido os sonhos distópicos que eu tive quando me recusava a acordar e deixava o tempo passar lentamente pela manhã. Não sei. Só sei que não me deixa a sensação de que a minha vida está se esvaindo, cada dia mais, pelas minhas mãos. Pode ser que seja a tamanha e drástica mudança e todas as preocupações periódicas sobre o que é possível. Pode ser que seja a pressa pra que o tempo me salve mais uma vez, sem que ele se manifeste. Está em silêncio. Pode ser que sejam muitas as causas, eu ainda estou descobrindo. Só sei que já não me frui a alegria de vida que eu sempre ostentei. Nem minha leveza diante das adversidades, nem minhas certezas de que o futuro há de ser melhor. Pelo contrário: eu só me assusto cada dia mais.

É difícil reconhecer que, muito provável, os teus fantasmas agora já sejam outros. A angústia se torna ainda mais crescente quando eu me percebo só, no sentido bastante literal da palavra. E apesar de saber que esta solidão é parcial e aplacada pelo demais amor de um companheiro leal, ela ainda é maior do que uma só pessoa poderia nutrir. Ela se quebra com os muitos bálsamos que entendi ter nessa vida: sejam as pessoas, sejam os lugares, sejam os hábitos. Meu coração sempre precisou de refúgios e era tão mais fácil acessá-los... Agora meus refúgios estão tão longe de mim! E muito me assusta que até os meus mais antigos prazeres já não me atiçam mais a alma, já não lhe coçam por fazê-los, já não me assanham o espírito pra que aconteçam, como sempre foi, apesar do colossal esforço.

Há muito mais de solidão nesse meu admirável mundo novo, que todo mundo acha bem melhor do que eu. Que todo mundo acha bem melhor, inclusive, do que ele realmente é.

Talvez seja parte do doloroso processo de sair, mais uma das muitas vezes que a vida me exigiu, de tudo o que me era confortável. Talvez esteja realmente sendo mais difícil dessa vez. Talvez seja o fator cultural bem mais crucial do que jamais foi, quando eu nunca estava suficientemente longe pra não considerar que aquilo também era meu, que aquilo também era eu, que também fazia parte da minha identidade e forma de ser. Sinto que perdi uma estabilidade calcada em muitos anos de árdua batalha, em que tudo que me era familiar ficou irremediavelmente no passado. Aquele caminho de todos os dias pra pegar o ônibus, aquele apartamento pequeno que mal me continha, aquelas paredes que sabiam mais da minha vida do que eu, como se fossem uma grande pasta de arquivo que sabia pra qual lado da parede eu sempre dormia, quais notas de meus sussurros eram de dor e quais eram de prazer. Tudo mudou e eu já estou quase sem reconhecer meu rosto, mesmo depois de tão menos sol que sempre fez de minha pele mais velha do que ela é.

E pra que nada se esvaia sem uma dose (mesmo artificial) de esperança, pra que as palavras lidas consigam me ajudar mais do que o que me ajuda minhas forças: tudo o que eu desejo da vida é que eu consiga, de novo e pra sempre - tantas vezes forem necessárias - conseguir encontrar o caminho da minha paz. E que ele sempre seja reconhecível como o calor.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O contrassenso

Já não escrevo mais.

A voz interna que fala pra mim o que escrever parece que resolveu descansar um pouco, depois de tantos escritos, de tantas tentativas, de tantas ideias soltas cujas palavras sequer chegaram à capitular. Aquela ânsia tão premente, tão presente, tão sofrida, de me desmanchar em palavras se amainou. O coração, tão feliz, jura agora não ter mais motivos pra falar. E falar o quê? Se já não há nele dores de partidas, nem chegadas ansiadas: há só o oceano tranquilo de um amor sereno.

Ainda assim, ainda não seria o suficiente pra justificar o fato de não escrever mais. Seriam as paredes de madeira da casa pequena que moramos, ou o sol frio que faz nos cantos do sul do mundo? Não sei. Mas, se não sinto que preciso escrever, então algo parou de coçar na superfície da minha alma. Se nem ao menos a voz que fala dentro me dita os textos que se escrevem sozinhos, o que terá adormecido em mim?

Se a minha própria essência não me carrega pelos mares da minha própria imaginação, então, quem sou eu? Eu me pergunto qual foi o momento de ruptura desse hábito que sempre me trouxe paz. Se foi a água salobra do sertão ventilado. Se foi a água gelada da metrópole fria. Se são os sonhos que me completam, me chamando de volta pra um passado que jamais será novamente. O que será?

Termino este texto - ele mesmo um completo contrassenso - em que escrevo o não escrever, na tentativa de acender uma chama que sempre foi assustadoramente acesa, pra que eu ainda possa me resolver em infindáveis textos. E pra que, principalmente, não deixe mais escapar esta enorme quantidade de vida que vem, e sempre há de vir, por aí.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O carma devido

Hoje, numa conversa com amigos muito queridos, acabei me lembrando da história dos meus pais.

Eles eram daqueles apaixonados inveterados. Era só olhar pra eles e ver o quanto que a paixão que sentiam era furiosa. Esta é a impressão que eu tenho, pelo menos, quando o passado resolve abrir suas portas nas histórias contadas por quem testemunhou a vida. Papai era aquele homem que ficava doente quando uma peleja se metia no meio da sua relação com a amada. Não tenho muitas informações de como mamãe era quando eles namoravam, mas eu sei que ela era uma mulher bem mais leve do que por um tempo foi. E que bom que ela recupera essa leveza progressivamente.

Mas o amor não foi o suficiente pras intempéries da vida. Logo, ficou claro que aqueles gênios fortes não sabiam conviver. Os rumos que as coisas foram tomando e a maneira como eles lidaram com elas foi moldando essa união gradativamente. E é com tristeza que eu rememoro de que em nenhum dos meus 27 anos de vida, eu vi meus pais felizes enquanto casal. Os momentos de troca de carinhos eram tão raros e o espanto que eles nos causavam era tão grande, que se cristalizaram na memória como a curva de uma estrada há muito retilínea. Ter visto tanto tempo o casamento de meus pais me ensinou algo: fosse como fosse, eu jamais me permitiria repetir algo assim.

***

Hoje, nesta cama em que escrevo, meu amor me beijou como meu corpo gosta de ser beijado. Como ele sabia, desde o começo, e como as descobertas novas, a cada encontro, a cada acerto, a cada gemido, ensinaram, nas inumeráveis e sucessivas vezes que fizemos amor. Só podia ser já o amor que fazíamos desde aqueles primeiros tempos, em que fingíamos que o que a vida nos mostrava não era nada demais. Medo de novas feridas próprias, medo de ser o motivo da ferida. Mas, muito mais do que um encontro perfeito de corpos, a minha alma foi quem achou um lugar de sossego. Um peito pra se acolher. Um oásis no meio de todas as confusões. Eu só posso pensar, cética que sou, que ele era o carma que ainda me era devido. Que eu caminhei pra encontrá-lo, mesmo sem saber, e que só o pude ver quando nós estávamos prontos.

Mais uma vez ele volta pra tão longe, deixando uma saudade tão bruta, tão apertada, tão dolorida, que eu só posso chorar mais uma vez a dor pra fora e lembrar que sairemos mais fortes disso tudo.

***

Meus pais, eu já sei, me fizeram herdar muito de si, muito mais do que eu imagino. Como eles, eu sei que eu não vim ao mundo pra sentir de pouco. Só serve se for de muito, derramando dos depósitos, inundando uma casa, fazendo chover chuva substancial, brotar nascentes e nascer árvores. Forte, intermitente e infindável. Meu amor faz nascer até um oceano, evoluindo a vida pra fora d'água. É enorme, e só pode ser enorme o que a gente ousa chamar de amor.

Que a vida, com todo o seu maravilhoso senso  de oportunidade, continue nos dando passagem. Essa é a minha oração.

sábado, 29 de julho de 2017

As saudades

Ontem eu acordei tarde, como acontece nos dias em que eu estou em Bacabal, e peguei o celular pra dar uma conferida nas redes sociais. O susto: uma amiga havia sofrido um acidente automobilístico junto com o marido, a filha pequena, mais duas amiguinhas da filha e a mãe destas meninas. Por um momento, pensei que tudo havia terminado bem, já que todos estavam vivos até o momento da publicação. Com o coração na mão, fomos todos acompanhando as notícias do estado de saúde do marido, que veio a falecer antes mesmo de chegar a Teresina. Eu tive o prazer de o conhecer, mesmo que superficialmente. Mas, de qualquer forma, foi alguém que percebi que tinha uma índole boa e que sempre cumprimentava cordialmente quando nos víamos em qualquer lugar.

Sequer pensar na dor da minha amiga ao perder o companheiro desta forma tão brutal, me fez consternar de tristeza. Ninguém deveria, a troco de nada, passar por algo assim. E eu só posso desejar, de todo o meu coração, que ela tenha todo o amparo emocional que necessita, que consiga ter forças pra reconstruir a vida depois dessa tragédia, forças pra criar a filhinha pequena que os dois tiveram. Que a lembrança do seu amor se transforme num conforto, quando isso for possível. O que eu desejo é que ela e a família consigam atravessar esse extenso lago que se chama dor.

É claro, isto me revolveu os sentimentos de uma maneira particular também. As lágrimas derramadas também eram da urgência e da impossibilidade de abraçar o meu próprio amor, que tá tão tão longe. Há pouco mais de um mês, estamos acalmando as saudades nas suas vindas-relâmpago, nos tantos carinhos trocados, no amor que fazemos com a alma e com o corpo. E quase me desespero na ideia de que o acaso pudesse fazer qualquer coisa pra atrapalhar essa felicidade de sentimento que simplesmente desconhece limites. Foi preciso bastante concentração pra desanuviar a mente de pensamentos inoportunos que sempre teimavam em voltar, como costumam fazer bastante comigo. Foi preciso conversar objetivamente comigo, lembrando que, apesar de toda a tristeza que eu estava sentindo, não era comigo que aquilo estava acontecendo. Parece meio insensível, mas eu poderia entrar numa espiral de pensamentos muito ruins que me levariam a uma crise ou a uma angústia difícil de reverter, uma vez começada. Eu me conheço. Eu sei como eu funciono.

***
Hoje foi um dia bom, no final das contas. As saudades me fazem sonhar mais frequente do que nunca com meu amor. Quando, nestes sonhos, não estamos dando fim às urgências, estamos abraçados, conversando, trocando carinhos... Coisas que fazemos aqui fora do mundo onírico. O da madrugada foi do segundo tipo. Eu ficava morta de alegre por poder abraçá-lo novamente. Apertou no peito o fato de que não nos veríamos hoje, ao final do dia, como ocorreu nos dois últimos finais de semana. Uma coisa que eu aprendi é que quando o coração está cheio de sentimentos pesados ou ruins, ele precisa de descanso. Fui me aninhar no sorriso dos meus primos pequenos, nos seus abracinhos. Rir das gracinhas que eles me fazem e me cansar correndo atrás deles, mesmo sem fôlego algum. Fui conversar com minhas amigas mais antigas, que me conhecem desde que eu tinha oito anos, e relembrar que a vida mudou pra nós, mas ainda continuamos nos amando indistintamente. Não tinha internet onde eu ia, o sinal da 3g não pegou... E as saudades só corroendo...

Quando finalmente conseguimos nos falar, meu bem me diz que está quase desesperado do lado de lá. Só, sem conhecer muita gente, em lugar estranho. Caiu internet, sinal de celular, Wi-fi. Ficou incomunicável, o coitado. E eu, que ando num mar de sensibilidade, me pego escondendo das crianças a lágrima caindo quando ele me fala que a saudade também tinha o tinha pegado com força total hoje. 

Mesmo com o meu ceticismo exagerado, entendo que eu e ele não nos encontramos por acaso. Não sei se o carma, mas algo ainda nos devia este amor na vida, pra que a gente pudesse entender que ainda havia esperança depois de tanto coração torcido, depois de tantos quases, depois de tanto tempo. Às vezes eu realmente acho que foi um acerto bem elaborado de nossas avós, que se encontraram no céu das avós, trocaram figurinhas, e não quiseram nos deixar sós nesse mundo sem aquela coisa pura que elas nos ofereciam. De graça. Só porque era bom. Só porque sentíamos que era assim que deveria ser. A sensação que eu tenho é que eu passei a vida inteira procurando por ele e o meu coração só pôde descansar de verdade quando eu o encontrei.

A gente não sabe o que o futuro nos reserva. A gente só deseja que o futuro nos reserve mais abraços, mais beijos, ainda mais amor. Que todas as tempestades sejam contornáveis e que todo este afeto só se multiplique. Que o acaso continue nos protegendo, como me protegeu há mais de um ano, quando um carro, literalmente, atravessou o meu caminho. E que, por fim, este amor continue nos surpreendendo pelo tanto absurdo que ele é.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A extraordinariedade

Não sei por quais razões, eu sempre achei que a minha vida não seria ordinária. Por um tempo, essa impressão se concretizou na crença de que eu faria alguma coisa muito grande na minha vida e que as pessoas me conheceriam por isso. Eu já pensei em ser missionária, cantora, missionária-cantora, escritora, pilota da esquadrilha da fumaça (juro!), atriz e uma série de outras coisas megalomaníacas que o bom senso me diz pra não relatar publicamente. Vai ver é aquele lance da geração Y que foi criada pra se achar mais especial que os outros. Vai saber...

Acabou que eu tô aqui jornalista, desempregada, faturando com uns frilas. Nada de tão grandioso assim que merecesse uma citação como o meu "legado". No entanto, não é pela falta de grandes feitos públicos que eu considero que falhou a falta de ordinariedade na minha vida. Ela toda é uma série de eventos extraordinários. Ruins, bons, péssimos, maravilhosos. Como alguém, estou sujeita à tudo, mas me parece que os eventos simplesmente não conseguem me dar um pouco de paz.

Um dia após meu aniversário deste ano, eu me "casei". Vai com aspas porque ninguém assinou nada. Foi quando a gente finalizou a minha mudança pra casa nova e dormimos pela primeira vez na nossa cama, dentro do nosso quarto, debaixo de um teto compartilhado. Pra mim, foi um processo difícil, ainda que bastante desejado. Eu já estava há quatro anos vivendo absolutamente só. E mesmo com a chegada do meu amor na minha vida, havia o senso de que o antigo local era apenas meu, que eu era responsável por absolutamente tudo dentro dele. Também de repente, foi preciso lidar com coisas das quais eu nunca na vida precisei nessa área, como atender às expectativas de quem o ama demais faz.

Nessas primeiras semanas, eu senti o peso de ser a esposa. A que precisa "dar conta" dos afazeres domésticos, da preocupação com o almoço, da arrumação da casa. Eu e meu companheiro dividimos tudo isso - não em horário comercial, já que ele não está em casa -, já que temos a consciência de que não existe responsável único por nada. Mas não é assim que o mundo pensa. E acaba que, quer queira quer não, é de mim que se cobra que tudo esteja nos conformes. O mundo não é justo com quem cometeu o pecado de nascer mulher. E conversando com amigas que estão na mesma faixa etária que eu e também já estão num relacionamento assim, é comum e assustador o quanto as histórias se repetem. O quanto ainda é preciso de muita conversa interna, muita conversa a dois, muito diálogo com o resto do mundo, pra que se entenda que nós não somos responsáveis por nada sozinhas. Que escolhemos fazer parte de uma relação consensual, onde as regras, quem define são as pessoas que estão nelas. Precisamos avançar muito ainda pra que tenhamos relações verdadeiramente horizontais. Isso perpassa por todas as discussões de gênero - e seus papéis - que estamos cansadas de debater. Isso precisa virar prática.

Mas vamos voltar ao tema principal:

Ainda não fez um mês que eu e meu amor estamos juntos nesta nova vida. Apesar de ter sido difícil pra gente, também vivemos momentos que só a intimidade e o amor são capazes de performar. Nesse tempo em que namoramos, observei cada coisinha que ele foi pra mim. E, se concordei que o melhor pra nós dois seria a vida em comum que até já tínhamos em certo grau, foi porque vi nele um coração enorme, um caráter firme e alguém em quem eu poderia confiar meus sentimentos, que são as coisas que eu tenho de mais precioso a confiar a alguém. E não me arrependi, mesmo com todas as intempéries, um segundo de ter tomado essa decisão, no banco do carona do carro batido, há uns dois meses.

A vida mudou. O lance é que ela ainda vai mudar bem mais.

E é agora que entra a história da Máquina dos Acontecimentos Espetaculares™ que gira a todo vapor na minha vida. Com apenas três semanas de vida nova, o moço recebe uma ligação que mudou todo o panorama das coisas. Foi chamado pra um concurso que fez em 2014, no meio do sertão cearense. E as coincidências que a vida traz é a de que ele começa nesse novo emprego no dia exato que fazemos um mês de casados. Tá. A gente já sabia que mudanças rápidas poderiam acontecer. Ninguém fez foi imaginar que seria essa mudança. E não é nem preciso imaginar o impacto que isso trouxe pra nós, pra família dele, pra minha.

Ele vai. Eu vou ficar. Por enquanto. Vamos ver como vai ser. Não sei.

Nunca passamos tanto tempo afastados desde que nos encontramos na vida. Desde que nos demos as mãos. Vai ser difícil pra ele, pra mim, até pro cachorrinho que a gente chama de filho, mas a gente sabe e sente que é necessário. Ele vai viver uma experiência profissional nova, com um desafio bastante maior dos que já tinha sido submetido. Claro, o lado financeiro pesa bastante. Poderemos estruturar mais a nossa vida e o que ainda vem por aí. Eu ainda tenho meus desafios pra concluir em Teresina e receio que outra mudança, muito mais radical e em tão pouco tempo, poderia afetar muito minha saúde mental. Ainda preciso finalizar uns trabalhos, utilizar meu tempo com o que ainda está de pendente a aprender... E aferrar-me à tarefa de reaprender a viver só, após o exato mês, só que com a saudade entranhando tudo.

Que a gente possa sempre contar com a tremenda sorte que nos deixou cegos um pro outro durante tanto tempo e nos fez abrir os olhos pra que pudéssemos dar as mãos no momento certo. Que a gente possa descarregar todo esse amor que a gente se sente nos momentos que tivermos, do jeito que for possível, com todo aparato que houver. Que a gente consiga suportar a saudade que vai doer nas noites solitárias e transbordar ainda mais de amor, se é que isso é possível.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

A felicidade não se comporta

Um amigo me pediu algo que foi, por alguns minutos, impossível: queria que eu descrevesse o mundo de coisas que eu vi e vivi em um mês numa viagem de loucos, em uma frase. Depois de muito labutar internamente, escrevi pra ele a que mais me pareceu óbvia: "Tudo é dramático".

Depois das discussões pra saber se o que se tinha vivido era mesmo drama ou se era humor, segundo os padrões hollywoodianos, ficou decidido que era uma espécie de novela das 7. Aquelas que sempre têm um título engraçadinho e os problemas são totalmente resolvíveis. Foi assim mesmo. Mas talvez, o que eu quis dizer quando disse o que disse, foi que todo esse mundo foi uma miríade emocional pra mim. Um drama, não tanto por qualquer classificação de gênero, mas pelas respostas que o coração dava a quaisquer das situações vividas.
Numa viagem à Barrinha Encantada, ainda no ano passado, eu e o meu bem resolvemos que as nossas primeiras férias juntos seriam com uma viagem e seria para a Colômbia. Ele ainda não a conhecia e já era tempo do meu retorno. Afinal, a vida pra lá não parou depois que eu voltei. Eu tinha um sobrinho pra conhecer, lugares novos pra ir e memórias a relembrar. A saudade já apertava meu coração há muito tempo. Era um regresso necessário, antes de qualquer coisa. Era um mundo meu que eu precisava abraçar novamente.
O que mais eu pensei durante essa viagem foi sobre memórias. A criação delas. Qual seria o critério que meu cérebro escolheria pra definir o que seria ou não considerado relevante naquele mar de coisas incríveis? Quais seriam os momentos em que eu faria questão de registrar por palavras? O que seria o mais incrível de todas as coisas boas que eu teria por viver?
- Essa viagem já nasceu velha. A gente vai lembrar dessa viagem pra sempre! - sentenciei pra ele, enquanto coletávamos mais um inacreditável pôr do sol no mais afastado Caribe colombiano, na ilha de San Andrés.
- Mas, amor, mas a gente ainda vai viajar muito. - Ele me respondeu.
- Mas nenhuma vai ser a primeira. 

As memórias vêm e vão a todo momento. Não dá pra esquecer do dia em que nadamos nus numa praia deserta do Alagoas, logo depois do amor. Não dá pra esquecer a felicidade com que fui recebida pela minha família colombiana. Não dá pra esquecer as risadas que demos, as pessoas que conhecemos, os amigos instantâneos, a hospitalidade, o assalto, o celular esquecido, a gaveta desparafusada, as longas caminhadas, a falta de ar na altitude, o frio, as moedas contadas, os abraços, as conversas. Não dá pra esquecer daquele tanto de amor transbordante, mais que os arroios que se formam na época das chuvas nas ruas de Barranquilla. Não dá pra esquecer a sensação de que, apesar de tudo, não era como se fosse uma viagem, apesar dos oito voos que nos tornaram peritos em arrumação de bagagens. Eu estava apenas voltando pra casa, pra lugares que eram meus. E os são, de verdade. Eu os tomei pra mim.

Há mais, é claro que há ainda muito mais. Lembranças e pensamentos que nem cabem aqui. Milhares de textos escritos apenas no meu pensamento e que nunca conhecerão a luz do dia. A felicidade não se comporta, afinal de contas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Para a Jamila que já quase não escreve

Jamila que já quase não escreve, você precisa se atualizar de algumas coisinhas que se passaram na sua vida. Segue abaixo:

Foi muito o que de vida que te passou nesses últimos tempos.

Entre polêmicas, choros, melhoras, confusões e iras, também o acúmulo das doses de saudades diárias se manifestou. O amor, como sempre, claro, esteve rente. O amor sempre esteve em socorro. E já não falo tão somente do teu amor-pessoa. Falo dos amores-amigos, dos amores-família, do amor-próprio.

Você chorou novamente e de maneira volumosa a morte da sua avó. Era aniversário de 86 anos dela e, de fato, mal dá pra acreditar que se fizeram dois anos depois daquela festa em que você pegou o último ônibus pra Bacabal, com a última grana que tinha, e correu às dez e meia da noite pra festa com a roupa do corpo (regata, calça jeans e havaianas) pra fazer a velha dar um grito de alegria ao te ver, antes do abraço apertado e cheiroso que ela tinha.

Você foi na Barrinha com o seu amor (aí agora já é a pessoa), com a sua amiga-irmã, com o amor que ela também tem, com os amigos que você fez recentemente. Sua amiga lhe disse que você ainda acredita em algo, mesmo que não acredite que acredite. Quando tu falou das primeiras vezes que foi lá e sentiu o vento te abraçando com a Lulu, a amiga disse que foi mesmo. Ela, de fato, acredita nessas coisas. Você já não sabe. Outro amigo disse que você era cigana ou cabocla, já não lembro o nome. Outro, disse que é filha de santo, mas que não saberia dizer de qual. Todos parecem ver uma espiritualidade em você. Talvez isto ainda não tenha morrido de todo, como você apregoa.

***

Muito mais aconteceu e você pode lembrar. O emprego mudou, algumas relações profissionais, não. Isso te gerou uma angústia sem fim e um processo de adoecimento enorme. O novo te assusta, é claro. E isso te faz se perguntar até onde está disposta a ir. Lembre-se: as decisões continuam sendo suas e de sua inteira responsabilidade. Não deixe que ninguém mais as tome por você.

***

Você emagreceu 4 kg. Isso não é considerado bom pra você. Quando alguém comentou que queria essa "doença" pra emagrecer também, você quis dar um soco na pessoa. Você quis dar um soco em muita gente.

Por falar nisso, a ira te consumiu muitas vezes. Você nunca mais tinha chorado de ódio, como ontem, por exemplo, quando o escroto do vizinho da rua de trás deixou o alarme da cerca ligado das 15h até um horário indefinido, que você não soube, porque foi fazer yoga, depois de já ter chorado de ódio e inclusive ligado pra Delegacia do Silêncio.

Tente, Jamila. Tente não deixar a ira te sucumbir. Tente não dar vez ao orgulho. Tente se acalmar quando as coisas não saírem como planejado, quando alguém te decepcionar ou irritar, quando o mal acontecer, quando alguma frustração quiser se alastrar na sua alma. Não deixe. O mundo já é cruel demais pra que você deixe o ódio tomar o seu corpo, como já tomou, e te fazer ter sonhos difíceis. Aceite a humanidade que não está latente. Ela está presente em todo o seu ser, mas não ache as coisas ruins que estão presentes em você, naturais demais. Não se ache com tanto direito assim. Diminua esse ego. Preste mais atenção pra não ultrapassar fronteiras que não poderão ser costuradas nunca mais, como você já fez.

***

Tente ferir menos seus dedos. Leia e escreva mais. Abrace aquele homem e continue dando a ele todo esse amor que você sente, com todos os beijos que você pode e quer. Dessa vez, você pode e quer.













sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O sol

Nos tempos da meninice, onde as meninas podiam andar de calcinha na rua e os meninos curavam suas feridas da bola jogando terra em cima das unhas esfoladas, alguém me perguntou algo que me ficou: se eu já tinha visto o nascer do sol. Eu tinha uns 8 anos e não, não me lembrava de, em qualquer tempo da minha vida, ter visto o nascer do sol. Como sempre vivi admirada pelo espetáculo que era o se-pôr dele, imaginei que o movimento contrário merecia a homenagem.

Nós morávamos numa casa de uma avenida movimentada em Bacabal. À noite, o ir e vir dos carros e motos nos deixavam entristecidos, já que não poderíamos brincar do que a gente queria na rua, que era o nosso lugar. Era pé-na-linha-guerriô, baleada, tacobol, esconde-esconde, pega-pega e mais outras brincadeiras que sequer existiam fora do nosso círculo de amizade. A gente conseguia brincar na larga calçada da dona Jandira, que tinha ódio daqueles gritos na porta de sua casa, mas dona Jandira era boazinha, até o dia que alguém jogou uma pedra sem querer que amassou o portão de alumínio recém adquirido. Havia outra velha que tinha olho de vidro e cara de má. Ela furava as nossas bolas quando íamos, naquela ruma de meninos brincar no enorme quintal da casa alugada que eu vivia. A gente colocou nela o carinhoso apelido de "mocoronga". E a gente era assim: depois que pegava no dente com uma coisa, era pra sempre. A maior confusão da rua, com direito a costas esquentadas por cipós, foi o dia que a gente respingou lama no olho de véia. Pobrezinha da bichinha. Pobrezinha nada!

Não me lembro como, nem quando, nem onde. Mas alguém chegou pra mim com essa conversa do nascer do sol. Eu era criança, mas sempre curti um papo com uma galera mais velha. Deve ter sido um deles que veio bagunçar minha cabecinha com aquela piração. Eu descobri que o sol nascia lá pras cinco e meia da manhã. Não tinha esse negócio de celular e o nosso despertador pra ir pra escola sempre foi nossa mãe. Então, não tinha jeito! Eu teria que fazer serão a noite toda pra poder ver o nascer do sol. Fiquei tão ansiosa que não conseguia nem cochilar. E se as pálpebras me traíam, acordava num espasmo, como quem cai em sonho.

Quatro e pouco da manhã, eu vi no relógio. Minha casa, como nas muitas seguintes que morei, era como são as casas no interior. A porta que se abre pra rua, já dá na sala. Sem área, sem garagem, sem portão com controle. Todo mundo sentava nas suas portas à noite pra ver a vida passar e as ruas eram lugares seguros pra nós, que éramos jovens. Com toda a inocência que só uma criança de 8 anos pode ter, abri a porta com a chave que estava naturalmente pendurada na fechadura, e fiquei sentada no batente. Era madrugada e fazia um pouco de frio, mas ok. Várias gentes passaram. Passou um bêbado do outro lado da rua e gritou alguma coisa pra mim. Eu não gritei de volta, já que minha operação era clandestina. Passaram muitas pessoas de carro, outras de moto, outras de bicicleta. Alguns buzinavam, espantados com a minha presença ali. Passou outro homem. Esse parou e ficou conversando comigo. Devia estar bêbado, mas não tanto. Falou: "Menina, o quê que tu tá fazendo aí sozinha uma hora dessa?". Eu respondi: "Eu tô esperando o sol". Ele disse que era perigoso pra mim, eu disse que não tava com medo. Eu não tava com um pingo de medo. Nunca que passou pela minha cabeça que eu poderia esperar o sol do mesmo jeito no quintal.

O mundo começou a clarear, por fim. E cada vez mais a luz se punha intensa, a ponto de me incomodar. Eu olhava pro céu e nada. Nada de sol. Nada de espetáculo. Já iam acordar, já iam me flagrar. Era quase hora de ir pra escola e a luz já era intensa, mas nada do raio que o parta desse sol. Não sabia de um pequeno detalhe: 

O sol só nascia do lado de lá da minha casa.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Hoje

Escuto uma playlist de músicas cubanas na casa do namorado. Estou vestindo uma camisa colorida que comprei de amigos, só de calcinha, só eu estou na casa. Todos os outros viajaram. Ele foi ao trabalho, que já está pra terminar. Vai voltar, vai me ver aqui nessa situação, vai me dar um cheiro no pescoço e vai falar alguma gracinha dessas nossas, eu sei. É bonita e boa esta paz que agora sinto.

Acordei hoje às 4 da manhã como nos sonhos intranquilos de Kafka. Mas não estava transformando em nenhum bicho. Novamente, sensações ruins se agarraram em mim e já não queriam desagarrar. A respiração se ofegava. O rapaz me abraçou, apertou e beijou, quando percebeu o meu desassossego. Eu me concentrei, mas o aperto no peito teimava em ir embora. Resolvi fazer como das primeiras vezes: desistir de dormir e ocupar minha cabeça com algo produtivo, pra que não se perdesse nas ondas ruins de seu próprio mar.

Levantei. Vesti esta mesma blusa colorida, que não quero mais sair de dentro, vesti a calcinha, e sentei no sofá da sala. Já estava amanhecendo. Peguei o celular, tuitei alguma coisa, li alguns textos, mas o que eu queria mesmo era escrever. Ainda tentei achar algum papel, alguma caneta, alguma coisa. Era de papel que eu precisava. Era rasgar meus pulsos que eu necessitava. Não achei, afinal. O meu bem sentiu minha falta e levantou pra saber o que estava acontecendo. Viu a mim deitada no sofá e foi lá me dar um abraço. Depois me deu a sugestão bem humorada: "Amor, aguar as plantinhas é bem terapêutico". Eu fui lá. Acho que molhei mais a mim mesma do que as plantas, coitadas.

Li um livrinho didático de espanhol da prateleira antiga e aprendi mais uns verbos irregulares. Voltei pra sala, deitei. Aí, meu coração já não pesava mais. Já consegui dormir o melhor sono do dia que amanhece. A empregada da casa chega e me vê nessa situação: dormindo de calcinha e blusa no sofá, junto com a cachorra que dormia no outro sofá, roncando que era uma beleza.

Voltei pra onde meu amor. Abracei, beijei e apertei. Aí, demos fim às urgências surgidas destes acarinhamentos. Ele saiu pra trabalhar e daqui a pouco volta com o meu cheiro do pescoço encomendado. Hoje eu escapei, no final das contas. Hoje deu certo. Hoje já é bom novamente. Hoje eu vou continuar em paz, pode ter certeza.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A fé


"Meu Deus,

(...) Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector, in 'Um sopro de Vida: Pulsações'.

Um dia, já há muito tempo, eu ainda era a outra Jamila. Naquela época, eu ainda passava por batalhas mais difíceis do que quaisquer que eu posso imaginar de passar por agora ou adiante, mesmo sabendo que o mundo não é fácil e que absolutamente tudo está no campo do realizável, mesmo o que não me pareça plausível.

Nesse dia, eu lembro bem de estar me sentindo melhor e já por um tempo. Eu já havia até dado testemunhos públicos da minha "cura", do meu bem-estar. Eu era uma bomba de esperança e de fé. Sentia-me eufórica. Afinal, havia passado, ao meu ver, pelos momentos mais terríveis da minha vida.

Foi quando tudo veio de novo, como viria de novo por muitas vezes mais, de uma vez, me deixando sem defesa.

Eu estava só em casa. Dada a minha melhora, meus pais e meu irmão já podiam me deixar só em casa mais tranquilamente. Eu estava só, assistindo televisão na sala, bem, muito bem. Quando veio de novo. Nesta época, ninguém tinha celular, sequer havia telefone fixo na minha casa. Perplexa e já em completo desespero, recorri à única coisa que eu poderia recorrer: a Deus, com o D ainda maiúsculo.

Praticamente me arrastando, fui ao quarto dos meus pais e me ajoelhei na beira da cama deles. Chorando como eu nunca me lembro de ter chorado na minha vida, eu pedi a Deus, com todas as minhas forças, com toda a minha fé, com todo o meu espírito, pra que aquela sensação ruim se demovesse, que eu nunca mais sentisse ela, que eu me curasse, porque, por tudo o que há no mundo, aquilo era demais pra eu carregar. Eu era só uma criança. Eu era só uma menina. Chorei minha alma pra fora naquele dia. Pedi, implorei, despedaçada, ferida, desesperada, pra que Deus me curasse. Crendo como nunca mais cri, lembrei que na Bíblia havia escrito que: "Tudo o que pedires em oração, crendo, recebereis". Eu cri. Como eu cri.

Chorei tanto e tão alto que a vizinha acudiu à porta. Perguntou se estava tudo bem, lá da janela. Eu gritei respondendo que sim. Aquele era o momento-chave. Era o meu momento com o Sagrado. Eu não poderia cortar aquela catarse, aquela expiação.

Após aquele tempo que durou um infinito, eu fiquei cansada. Botei tanta coisa pra fora, que realmente me senti mais calma. Não tinha sequer forças pra continuar a ter uma crise. Dormi por mais ou menos duas horas. Eram umas dez da noite e minha família já estava toda em casa. Ainda dormindo, senti os primeiros sintomas: o coração bateu novamente mais forte, os pensamentos desalinharam, a respiração era rápida e dura. Com um grito, meus pais correram em minha direção e o tormento durou novamente a noite inteira, enveredando pelo dia, transformando o meu sentir numa experiência excruciante de dores lancinantes na minha alma, que não me deixavam mais em paz.

A única coisa que eu escutei após esta oração foi o silêncio. E, então, algo se quebrou dentro de mim. Este algo foi a fé que eu nutri - ou melhor, fui levada a nutrir -, durante toda a minha vida, desde a minha mais tenra infância, até àquele momento. Foi neste dia que eu entendi que estava só. Que só havia eu pra sentir o que eu havia de sentir. Só eu poderia levar minha alma ferida no meu corpo fraco. Que ninguém mais, por mais que quisesse, poderia carregar meu fardo por mim.

Ciente de minha nova posição no mundo, comecei a trabalhar pra ter o controle dessa situação. E foi aí que a melhora veio e a vida foi se estabelecendo e voltando aos trilhos. Meus caminhos foram abertos, mas vi, dia após dia, minha fé se deteriorando. Eu, mesmo me sentindo culpada, vi que não havia nada que eu podia fazer. Deus só começou com maiúsculo nesta frase pra não contrariar a Língua Portuguesa, pois já não conseguia, como até hoje não consigo, ver mais sentido em sua existência, como também não na de qualquer outra força metafísica ou cosmológica.

Lutei contra isso. Afinal, o que está arraigado demora a se soltar, mas acho que soltou totalmente, de uns anos pra cá. Passei a enxergar a vida de outra maneira e já não me culpo mais por isso. Lembro de ter dito isto pela primeira vez, com o coração batendo loucamente, a um professor amigo dos tempos da Pedagogia, ainda lá na terrinha. Abri meu coração a ele, que demonstrou ser uma pessoa tolerante, que não iria me julgar, como eu sei que seria pelos outros, por mais meus amigos que fossem. Ele foi gentil e me escutou, mas também gentilmente me interpelou a voltar a ser quem eu era antes. Infelizmente, eu estava em um ponto sem retorno. Impossível ser quem eu era antes depois do que vivi.

Desde então, inúmeras interpelações, de inúmeras formas, me surgem, de tempos em tempos. Depois de uma fase onde eu era extrema crítica e intolerante, passei a respeitar as pessoas, as suas visões. Não importa muito no que eu acredito ou deixo de acreditar. Se alguém me diz que sente, vê, ouve, fala com coisas das quais eu não enxergo, eu não vou pô-la em dúvida. Pra mim, no entanto, nada acontece mais.

Chega a ser engraçado quando escuto de pessoas que, apesar de me conhecerem e saberem de todo o meu histórico, dizem: "Quando o bicho pegar pra ti, tu volta". Será se elas não sabem que o bicho já pegou? De qualquer forma, chega a ser violento o modo como alguns não me aceitam, apesar de eu oferecer nada mais do que meu apoio a quaisquer tipos de pensamentos ou condutas, desde que respeitem princípios éticos dos quais não posso transigir.

Mais uma vez, vivo estes momentos. Pessoas que eu sei que querem verdadeiramente o meu bem, chegam a mim com caminhos que eu, de todo coração, respeito e considero bons, mas que não são os meus. Talvez um dia sejam, quem há de saber? Apesar desta consciência, sei que a Vida é um moinho que roda em diferentes direções. Instável e complexa como a corrente de um rio, segue o seu curso, e eu, água que sou, flutuo por entre as pedras e por baixo das pontes, vou ao mar, viro chuva e volto a cair. Seguro, como sei que posso, nas coisas boas que o tempo me presenteia e significo minha existência de forma racional, mas válida, boa e significativa. Agarro nas mãos do tempo e rezo, pecando contra os novos princípios estabelecidos, para todas as forças presentes, mas bem visíveis. Dentre elas, a maior é o amor.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desejo e medo

"E quantos segredos traz o coração de uma mulher?"

Minha alma é um rebuliço de sonhos e medos. E existem situações em que estes sonhos e e esses medos se tornam mais presentes no coração: quando eu começo a sonhar demais com eles. E quando um desejo é, ao mesmo tempo, um medo? Como é que faz? Quando nada na sua vida está arrumado o suficiente pra realização do sonho? Quando o tempo ainda não disse sim, apesar de sua alma estar pedindo por isso?

Ainda resta esperar, afinal. Ao mesmo tempo, me assusta e me faz vibrar. Mas dessa vez é um desejo diferente: não depende apenas de mim, e nem seria algo que ficaria por pouco tempo. Se for, quando for, não será de qualquer jeito, nem de surpresa, nem será pesado. Eu preciso que tudo seja leve. Eu preciso estar preparada pro futuro.

Que os sonhos me dêem trégua, pelo amor! Já não posso sair por aí carregando esse tanto de alma. Transborda. Nem pode ser revelado o desejo, já que é matéria complicada pra tratar 'publicamente' agora, mas está no espectro das coisas que acontecem na vida de alguém. Calma, que não é nada fora do comum.

Vamos vivendo. O Tempo sempre arruma suas respostas.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Medo também tem medo

Ontem foi mais um daqueles dias. Dia difícil, ruim, mau. Vim caminhando do trabalho pra casa com o coração muito, muito pesado.

Quando eu comecei meus diários, nos idos tempos de 2008, eu usava demais essa expressão. "Levo um coração pesado". O uso era frequente, já que o sentimento também. Eram tempos em que o sossego era só uma lembrança e qualquer manifestação do peso não era nenhum pouco "leve". Rs Contraditório, eu sei. Mas num dia de 2009, quando eu ainda mantinha os meus escritos religiosamente e a expressão continuava frequente, minha mãe me aparece com uma sacola onde eu via um pequeno tijolo. Quando eu vejo, é o livro da trilogia do Senhor dos Anéis em volume único. Com toda a disposição, li até que rapidamente. A saga do Frodo rumo à Mordor pra destruir algo que carregava consigo e que não poderia se livrar facilmente, era de identificação instantânea pra mim. Tolkien frequentemente dizia isso dos personagens: que estavam com o coração pesado.

Lembrei dessa identificação ao caminhar pra casa, coisa que sempre me traz paz. Ao mesmo tempo em que crescia uma frustração por não ter conseguido segurar antes que isto ganhasse força em mim, eu sentia raiva por ter me deixado abalar por motivos torpes. Coisas que não são problemas, muito menos meus, muito menos importantes. Mas veio. Talvez o que eu peguei foi uma carga de negatividade muito forte. Cora Ronai escreveu uma vez que Millôr, na época do Pasquim, recebia montes e montes de cartas, todas elas vivas, alegres, de agradecimento, de louvor. E as lia e agradecia, mesmo que internamente. Um dia, recebeu uma raivosa, com um ódio que não soube de onde vinha. Aquilo o abateu. E mesmo com as argumentações de que todo o resto das manifestações eram boas, Millôr não pôde evitar um dia de cabeça baixa, digerindo aquela carta. Procuro o texto original, que não acho. Mas, se não me falha a memória, disse que o ser humano é assim mesmo. Não é assim que a gente funciona.

É. O impacto negativo das coisas é maior que o positivo mesmo, infelizmente.

O 'estrago', que nunca foi culpa de alguém, ou que já não pertencia a um motivo específico, quase foi grande. Em épocas de suscetibilidades, o mal só quer uma desculpa. Convoco todas as minhas defesas, meus santos, meus patuás, meus budas, meus deuses e meus anjos da guarda pra estas horas, mesmo que não acredite em nenhum. Convoco até mesmo o deus que há em mim, num namastê individual, se é que isso é possível. O amor, claro, mais real do que nunca, vem em socorro, trazendo leveza e abrindo os meus caminhos para a paz. Momentos aliviados de respiros, conversas agradáveis de outros corações bons, os abraços, os risos e os beijos compartilhados e apaixonados. Tudo isso me trouxe 'de volta'. Se o impacto do que é negativo é grande, ele tampouco pode suportar a uma overdose de amor.

Lembrei da criança que disse que o Medo tem medo das coisas que você gosta. E com a lembrança, lembrei de novo do filme em que as crianças pequenas é que sabem os segredos do Universo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A mão do Tempo

A vida é mesmo uma coisa estupenda. Nestes dias difíceis, de tanto trabalho, tanta pressão, tanta coisa por fazer, o amor significa não só a paixão que arde nos peitos. Significa o bálsamo pra dissipar e proteger a alma das coisas ruins que querem derrubar. Vem o amor, aquele amor bonito, leve, limpo, sendo só porque já era hora de ser. As mãos se seguram nos êxtases, naturalmente, mas a alma acalma só em saber que elas também estão ali para as horas das angústias.

As expectativas sobre os próximos dias me deixam sem saber que caminho trilhar. A vida têm sido difícil. São amigos que sucumbem ao que a gente acha que agora é normal. São pessoas próximas que não tiveram condições de continuarem esta caminhada inglória, que não paga ao espírito ou ao bolso, e que trazem louros que nem serão nossos, no final das contas.

Mas a vida é mesmo uma coisa estupenda, supracito.

Depois de uma noite sorrida, contemplada por bons ventos, com pessoas recém-conhecidas que te sorriem e se abrem, a notícia de que meu sobrinho colombiano nasceu me faz os olhos encherem d'água. Logo eu, que digo aos quatro cantos que sou pessoa dura de chorar, me vejo derramando lágrimas em pleno escritório gelado, entre os trabalhos que já têm a urgência de serem feitos.

A conexão com esta família sempre foi algo maravilhoso. Há um pouco mais de dois anos, chegava na Colômbia, depois de um frio intenso em Bogotá, na casa da família Rivaldo. Foi a Carmen que me recebeu. Uma moça negra, um pouco mais baixa que eu, e um pouco mais nova. Falamos em espanhol e eu ainda estava deslumbrada por conseguir me comunicar da maneira que eu queria, já que o meu nível nunca havia sido testado pra valer. Logo na primeira noite, saímos pra jantar um cachorro quente delicioso pertinho da casa. A cidade era bonita e eu pensei: "esse lugar é o Nordeste daqui. Tô em casa". Realmente estava.

A partir daí, a amizade só aumentou. Yesenia, a filha mais velha, era a que ia comigo pras festas dos intercambistas, quando dançávamos até o fechamento da casa. Rubys, uma mãe amorosa e calorosa. Mulher brava, que ainda chorava a morte do amado marido. Luis Manoel, o irmão mais velho que sabia que ser o homem da casa havia lhe trazido responsabilidades das quais não podia escapar, mas as desempenhava com amor. Manoel Rivaldo, o pai que já havia ido, mas que estava presente. Eu sentia, naquela casa, que a memória daquele homem era viva o tempo inteiro. Nas citações, nas canções, nos muitos retratos espalhados, no amor que não morreu com seu corpo. Saí de lá com a sensação de que eu havia sim conhecido o meu pai colombiano.

Yese me liga, há alguns meses, por um aplicativo do celular, pra me dizer que estava grávida. O namorado que havia conhecido justamente quando eu estava chegando lá, era o pai do bebê. A notícia não veio como um baque, como um peso ou qualquer outra coisa do tipo. Yesenia estava feliz por ser mãe. Todos estavam felizes pelo sobrinho que ia nascer. Eu estava exultante aqui no Brasil, sem acreditar que ia ser tia de um bebê, que se saísse à mãe, ia ser a coisa mais linda do mundo.

Ontem, a expectativa que eu nem falei pra ninguém. Há alguns dias, Yese me manda uma mensagem dizendo que Manoel Julian já estava pra vir ao mundo, em terceira pessoa, como se ele mesmo estivesse escrevendo. Ela, que não mostrava barriga até os três meses, ostentava um barrigão enorme, desses bem feitinhos, com toda a beleza e iluminação que aquela grávida poderia mostrar. Estava linda, minha irmã.

Hoje, recebo a foto do pequenino. É lindo, como eu já sabia que seria, apesar de ainda ser um bebêzinho recém-saído do quentinho que estava o ventre de sua mãe. E aí, não pude evitar as tais das lágrimas difíceis, nem o quente em meu próprio coração. Por fim, não pude evitar que uma vibração atingisse meu corpo, numa onda de arrepios, me fazendo perceber que aquilo era, nada mais, nada menos, que uma overdose de amor.

Que seja muito, muito, muito feliz, Manoel, que também carrega o nome dos meus dois avôs. Que traga ainda mais felicidade àquela família que se fez minha e que ainda hoje me trata com um dos seus, mesmo com o passado do tempo. Que o amor sempre venha em doses cavalares pra todos nós, pra que nos lembremos que a vida é, como não canso de dizer, mesmo algo estupendo.

Que a mão do Tempo nos abençoe.


terça-feira, 19 de julho de 2016

A dança da solidão

Esse negócio de amar e ser amada... Senhor! Que coisa!

Um belo dia, um grande amigo sentenciou: - Jamila, tu tem espírito de solteira! - Aí, claro, me encabulei. Como assim eu tenho um espírito de solteira? Nem cabe mais alma aqui, ora. Num já tem demais não? Será que ele achou esse absurdo porque eu estava absolutamente habituada a morar só, mesmo que a alimentação fosse frugal? Ou será se era por não esperar que meus amigos dissessem sim pro convite ao cinema? Ou será se era porque eu poderia muito bem ir a um bar e beber sozinha, sem me sentir desconfortável? Aliás, o desconforto era mais por não poder ficar sem ser incomodada por algum otário que achava que eu jamais poderia estar ali pra curtir minha própria companhia.

Pensando bem... É, de fato, eu tenho o espírito de solteira mesmo. E agora que estou numa relação, me pergunto se eu sei estar numa relação. Eu quero dar as mãos, mas caminho à frente do cidadão, com passo apressado. Eu me esqueço de convidar pra coisas. Tem horas que é como se eu ainda estivesse 'sozinha'. Um sozinha que, na verdade, nunca fui. A família que fiz aqui é grande, e tem muitos braços de amor. Mas é diferente... Por uma só ocasião tive alguém inserido na minha rotina e o hiato foi de longos quatro anos, que eu esqueci como era ter aquilo, mesmo que aquilo nunca tenha sido mesmo. Quando o moço chegou, eu apenas me deixei levar por uma onda boa, leve, bonita, como são as coisas naturais. Era e é incrível. Eu estava bem relaxada em relação à Vida. Não queria me meter em "confusões". Não achei que o coração estivesse pronto pra qualquer envolvimento. Fechei por um momento os olhos pra flutuar, estava na beira da praia. Poderia ficar de pé e voltar à superfície a qualquer momento. Relaxei e descuidei um pouquinho... Quando abri os olhos e dei por mim, já estava em alto mar, de mão dada com o moço que também se descuidou logo no mar.

Sempre soube dizer não graciosamente. Eu sou tão profissional em dizer não, que eu dava uma negativa e o sujeito me agradecia pela honestidade, por não ficar enrolando, por saber o que eu quero. De fato, eu sei o que eu quero e o que eu não quero. Até mais do que não quero do que quero. Quando o rapaz apareceu, eu só embarquei porque era bom, e a verdade era que não era nada mais que isso. Meus instintos protetivos ficaram em riste, buscando evitar algo que, a bem da verdade, estava se vendo que era inevitável. Os santos bateram, como diz o cabôco. Aí não se teve muito o que fazer, a não ser aceitar a sorte - depois de tantos azares - que a vida deu.

Eu fiquei muito tempo só. Eu me acostumei a isso. E é verdade: minha felicidade já era completa naquela solidão. E eu agradeço à solidão, à habilidade primeira de estar só e de me amar, pelo que está acontecendo agora. Por saber que me basto. Então só fica se soma, nunca se diminui. Eu sei dizer não. Se eu digo sim, é porque pode, é porque eu quero, é porque eu amo.

Vou aprendendo como é, vivendo. A dormir de conchinha, quando só dormia de bruços. A ter um cheiro impregnado no nariz o tempo todo e a não resistir em ficar cheirando o seu rosto quando, na verdade, eu já teria que ter me levantado pra me arrumar pro trabalho. Como é demorar uns cinco segundos pra cair a ficha que é a mim a quem está se referindo quando fala da namorada, um nome que eu nunca fui. Como é poder contar com alguém, dizer das feridas, dizer dos sonhos e medos, antes ou depois do amor. Vou sabendo o que é uma relação bonita, intensa mas leve, como eu sempre soube que seria, ao amor que tivesse coragem de me abraçar, mesmo com o enorme peso da alma que carrego, inclusive do tal 'espírito de solteira', que já se prova em cheque.

Bom mesmo é ser liberdade acompanhada.